Capítulo 4
Os grunhidos dos cães não o deixavam dormir, e ele disse vários impropérios enquanto seu corpo se revolvia na cama. Impossibilitado de pegar no sono, se levantou, andou até a janela e ficou estarrecido com o que viu lá fora.
O cão doberman.
Olhando diretamente para o jovem, rosnando e emitindo chispas vermelhas, o animal não se movimentava e parecia chamá-lo.
Era um animal todo preto, vistoso, maior que qualquer cão que já vira, lembrando um lobo.
Deu meia volta para voltar a cama, mas, num lapso de coragem, se aprochegou à janela novamente.
O animal não estava mais lá.
Havia sumido, como que tragado pela terra.
Mas algo ainda mais aberrante aconteceu a seguir.
Um morcego apareceu diante dele, se chocando cinco vezes contra a janela, querendo entrar. A raiva se acumulava em seu peito, e ele teve o impulso de puxar a trava para que o mamífero entrasse e ele pudesse dar cabo do mamífero voador.
Como se o fitasse, o animal emitia guinchos, como se quisesse dizer algo, e Miguel viu um líquido vermelho, parecido com sangue, escorrendo do canto da boca do bicho.
Uma nuvem encobriu a lua e deixou tudo mergulhado na escuridão. Miguel não viu mais nada. Quando o astro reapareceu e a visibilidade voltou, o morcego havia sumido tal como o cão feroz.
O assunto da manhã nas padarias e bolichos eram o desaparecimento de dois homens, ocorrido não muito longe do bairro. Alguns moradores deram queixa de cães que foram estraçalhados, o que causou certa apreensão na vizinhança e reforçou a hipótese de que uma onça rondava por aqueles lados.
Miguel pegou sua comanda após tomar o último gole de café e pagou a conta, saindo à rua. O clima pesado que pairava sobre Santa Mônica do Sul, traduzido nos rostos das pessoas em forma de olhares assustados, o oprimia.
Ele também estava assustado, mas não com os estranhos eventos dos cães dilacerados e dos homens desaparecidos. O que lhe causava arrepios era aquele cão negro. Encontrá-lo logo era imprescindível. Como andar à noite com um animal feroz o espreitando?
Enquanto trocava as marchas na moto, avistou o telhado do casarão colonial, sobre as copas das árvores. Uma névoa espessa encobria a construção, dificultando um pouco a diferenciação das cores desbotadas da fachada. Diminuiu a velocidade, parou diante do portão de grades com pontas de lanças nas barras; tirou o capacete, desceu e olhei para a porta.
Tudo silencioso. Impossível saber se Cibele estava dormindo ou se tinha saído. Correu a vista para dentro, constatando que o gramado (com folhas e galhos espalhados pelo chão) demandava cuidados. Ela teria muito trabalho para deixar tudo em ordem.
— Não está muito bonito de se ver, não é?
Miguel se virou para trás, sobressaltado.
Cibele tinha ambas as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, que por ser muito justa, faziam-na parecer mais alta do que já era. O All Star vermelho lhe dava ar de rebeldia e a camiseta branca com listras pretas caia super bem em seu corpo.
— Está um pouco bagunçado, mas nada que uma limpeza não resolva.
— Não tive tempo de fazer muita coisa na casa. Recém cheguei à cidade, e além disso, sou preguiçosa. Bem que tu podia me ajudar.
Miguel deu um sorriso forçado e assentiu. Trabalhar num sábado não era um programa que ele tinha em mente, mas a moça o olhou com tanta ternura e urgência que se viu impossibilitado de recusar.
Juntos, amontoaram e jogaram as folhas e galhos, deixando o jardim bem mais apresentável. Miguel resolveu o problema da grama alta resolvi com o aparador costal do pai, que foi buscar em casa minutos atrás. Por último, passou o rastelo.
— Quanto te devo? — Cibele perguntou, sorrindo agradecida.
— Não fiz esse trabalho pensando em pagamento — Miguel replicou.
— Não é justo que tu trabalhe e não receba. Por favor, diga como posso te pagar.
Passando a toalha no suor da testa e fitando os lindos olhos azuis da loura pálida, ocorreu a Miguel pedir algo que bem razoável.
— Tu aceita um convite pra passear de moto comigo?
Cibele riu, passando os dedos no cabelo.
— É o teu preço?
— Sim.
— Então, aceito.
O adolescente dentro do rapaz deu pulos de alegria em comemoração à vitória. Pensou que ela não aceitaria, mas para seu gaudio, teria uma tarde agradável em companhia da moça mais desejada da faculdade.
Praticamente vetou o uso do banheiro de casa para os demais moradores. Fez a barba, tomou um banho demorado e passou um perfume amadeirado, que comprara há poucos dias de uma revendedora do bairro.
Pôs o capacete e pendurei um outro no cotovelo; logo parou em frente ao portão da moça, que o esperava do lado de fora. Ela usava uma roupa casual, para dia quente. Uma camiseta azul, jeans desbotado e um par de tênis brancos.
Cibele lhe pedira para ser levada para um tour ecológico. Olhando para o céu naquele instante, Miguel achou que não era uma ideia muito auspiciosa. Nuvens negras se levantavam do horizonte e ameaçavam mandar chuva sem aviso prévio. A parte prudente de seu cérebro lhe pedia para declinar do passeio pelo campo e trocá-lo por um tour urbano. Mas ele não soube como dizer não.
Augusto e Marcos andavam casualmente pelo outro lado da calçada, conversando sobre futilidades, e os olhos deles quase saltaram das órbitas ao verem a loura pôr o capacete e subir na garupa. Miguel se sentiu o bom.
O centro urbano de Santa Mônica do Sul era pequeno. Em contrapartida, a área rural era vasta. Cruzaram campos, bosques, passaram ao lado de rios de corredeiras e pararam para tirar fotos de recordação em frente à uma cachoeira.
Como Miguel sentiu sede, se ajoelhou para tomar um gole de água e molhar o cabelo. Cibele parou ao seu lado. Subitamente, um relâmpago cortou o céu, aclareando-o por um ínfimo instante.
— Acho melhor voltarmos — o moço sugeriu.
— Não vai chover tão logo — ela replicou. — Nem ventando está, pode ser que disfarce.
Ele mordeu o lábio inferior, voltando a atenção para a água do rio, que era límpida como um espelho. Seu rosto se refletia nítido na superfície incolor do leito. Porém, senti uma certa inquietação por não ver o reflexo de Cibele na água, embora ela estivesse ao seu lado.
Esfregou os olhos, a fim de comprovar se sua imaginação estava estava lhe pregando uma peça, como quando imaginou ter visto sangue em seu caderno.
Desta vez a imagem da loura se refletia no espelho d'água.
O estudante piscou várias vezes. Direcionando seu olhar para o lado, avistou Cibele parada próxima à moto, lançando-lhe um sorriso genuinamente faceiro. Começou a sentir um arrepio correr de uma extremidade a outra da minha espinha e os pelos dos meus braços se eriçaram. Ora, há menos de um segundo ela estava ao seu lado. Como a garota percorrera uma distância de trinta metros num espaço de tempo tão ínfimo?
Quem sabe fosse só a ameaça eminente da chuva, mas um mau presságio o invadiu e pôs fim ao seu entusiasmo para continuar o passeio.
— Vou te levar pra ver os cânions — afivilou o capacete ao se aproximar da moça. — É um lugar incrível, dá pra ver lá embaixo um filete de água correndo e também ouvir o barulho da queda d'água se batendo contra as pedras. Mas o passeio termina lá. Temos que voltar.
— Eu te fiz alguma coisa? — o sorriso dela se desfez. — Tu ficou sério do nada.
— Só não quero que a gente se molhe. Outro dia podemos fazer uma expedição completa, se o tempo se estiver bom.
Mas a jovem não se agradou da desculpa e cruzou os braços. Pôs o capacete contrafeita, subiu na garupa da moto, e ele deu a partida.
Então…, algo anormal começou a acontecer. Miguel sentiu como se sua mente se entregasse gradativamente ao efeito de uma droga e seus reflexos sumissem. O corpo se arrepiou, a vista escureceu e a moto entrou em modo automático, se equilibrando sozinha na trilha.
— Miguel, o que está acontecendo? — Cibele perguntou ao constatar que o condutor não estava bem.
Miguel não sabia para onde estava indo, simplesmente se deixou ser passageiro da moto junto à jovem a quem levava.
A voz da Cibele, que perguntou a Miguel pela segunda vez o que estava acontecendo, ficava cada vez mais distante à medida que os dois se embrenhavam com a moto por uma trilha desconhecida, de chão irregular.
Subitamente os olhos de Miguel se abriram e se fecharam de novo quando o galho de uma árvore surgiu diante dele e o jogou no chão, juntamente com a moça.
Como por milagre, eles não sofreram nenhum ferimento. Só permaneceram alguns minutos no chão, tempo suficiente para se recuperarem do susto. Cibele tinha rasgado a calça no joelho, mas estava íntegra.
O mesmo não podia ser dito da moto. Ao se chocar contra uma araucária, o aro dianteiro havia entortado, o que impossibilitava voltarem nela. Para cúmulo de falta de sorte, começava a cair os primeiros pingos d'água.
— Me lembre de nunca mais aceitar um convite teu pra sair — Cibele bateu as mãos nas laterais das coxas.
— Foi tu quem sugeriu essa aventura ecológica. Ao invés de reclamar, vamos procurar uma casa.
Uma risada de deboche saiu por entre os lábios da moça, que se pôs no encalço dele.
Parecia que não iriam achar um abrigo. Mas após andarem trinta minutos, uma casa, escondida em meio à árvores e ao lado de um estábulo, surgiu.
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