VINTE E SETE

Era último dia do ano!

Emily colocava as taças de vidros nas bandejas a fim de levar para sala de jantar, onde teria um banquete para os convidados da sra. Wood. Seu simples desejo naquela noite de ano novo era poder estar com seu marido. Ela e Ian enfrentavam obstáculos para se verem e o seu coração estava a ponto de entrar em colapso. Ela mirou aquele céu escuro, através da janela da cozinha, e orou em pensamento:

"Deus, ajude-nos por favor. Queremos viver nossa vida livremente e sem mais segredos. — Ela respirou fundo. — Hoje eu percebo o quanto vir para este lugar foi necessário para o meu crescimento. Para largar parte das minhas fantasias, para conhecer o Senhor de verdade, apesar de que ainda me sinto perdida em tantas coisas. Porém, sinto-me segura em estar nas suas mãos. Não quero mais fazer uma loucura, por isso peço que o Senhor nos traga uma solução. Amém"

— Emily, está ouvindo? — Era Corina estalando o dedo na sua frente.

— Oi! Sim, estou! — Ela piscou algumas vezes.

— Veja quem já pode andar outra vez? — Ela apontou para o lado esquerdo, e Peter apareceu dando passos curtos, mas firmes.

— Oh, que maravilha! — Ela levantou-se com alegria e seguiu para perto do amigo, abraçando-o.

— Se não tivesse me abandonado poderia ter acompanhado o progresso. — Ele crispou o olhar.

— Ele compreende que você precisava retornar ao serviço ou seria estrangulada pela sra. Montclair — Corina fez uma careta para o jovem.

Emily assentiu, porém seu afastamento se deu por Ian. Não queria mais chateá-lo. Era certo que não deixou de ver o amigo, mas estabeleceu um limite. Assim como Ian com Madeline.

— Temos que ir! Ele ficará aqui na cozinha ajudando a cozinheira. — Corina se levantou e pegou uma bandeja com aperitivos, e Emily com as taças.

— Por favor, não demorem tanto. Ainda sou um enfermo! — O olhar dele repousou sobre Emily e o sorriso se alargou mais.

As duas acharam graça daquele olhar suplicante. Assentiram para o amigo e foram executar suas funções.

— Peter gosta mesmo de você, Emily — Corina disse um pouco mais distante da cozinha. — Você precisa encerrar este assunto. Não pode defraudá-lo.

— Você tem razão. — Emily sabia que não podia mais demorar com a verdade. Só gostaria de achar uma forma sensata.

Elas passaram pelo corredor e viraram na entrada da sala de jantar, Corina passou e, antes que Emily pudesse entrar, Ian apareceu perto dela. Ele sorriu, mostrou um bilhete que carregava nas mãos e colocou no bolso do avental dela. E saiu.

— Aconteceu alguma coisa? — Corina voltou para a soleira da porta.

— Não, estou entrando.

As duas arrumaram a mesa oval e elegante da sala. Perto de entrarem na cozinha novamente, Emily pediu um tempo para ir ao quarto. Ela seguiu sozinha e assim que entrou, leu o bilhete que dizia: "Encontre-me no final do jardim depois do jantar."

O coração da jovem saltitou diante da expectativa de estar junto com o marido. Ela contava os minutos para estar ao lado dele. Respirou fundo. Acalmou os ânimos e decidiu retornar antes que alguém viesse atrás.

Ao chegar na cozinha, encontrou todos os empregados formando fileiras para poder ouvir as orientações da governanta. Eles começaram seu serviço de levarem os alimentos para a sala de jantar. Emily notou como os convidados elegantes desfrutavam da comida com vontade, porém seus olhos só repousavam no esposo que a contemplava a todo instante. Ela não via a hora do jantar se encerrar.

— Senhorita, poderia servir um pouco mais de vinho?

Um jovem convidado de Madeline pediu a Emily, que depressa foi servi-lo, porém ele virou a própria no mesmo tempo, chocando com garrafa e fazendo o líquido cair em sua roupa. Os olhos de Emily só faltaram pular para fora da órbita.

— Oh, céus! Perdoe-me! — ela exclamou e todos na mesa fitaram a situação.

Ian reparou a cena, respirou fundo e apertou o braço da cadeira com força.

— Não precisa desculpar-se. — Ele se levantou da cadeira. — Senhores, a culpa foi minha que virou a taça com rapidez. A jovem não tem nada a ver com isso. — Ele ousou tocar no ombro de Emily.

— Não é preciso se desculpar — disse ela, e se afastou, fazendo o braço dele soltar de seu ombro. — Perdoe-me o inconveniente.

Ela saiu da sala de jantar e sentiu o corpo todo tremer. Estava cansada e nervosa. Corina a cobriu durante o restante da noite, e Emily conseguiu ficar na cozinha. Já era perto das 22h quando o jantar foi finalizado. Emily precisava partir. Ela pediu que Corina a acompanhasse até o quarto e comunicou o pedido de Ian.

— Não é certo que ambos fiquem juntos por muito tempo sozinhos. Vocês são somente noivos. — Corina alegou com preocupação.

— Corina, confie em mim. Eu não faria nada que me prejudicasse. Ajude-me esta noite e logo você saberá de tudo.

A amiga crispou os olhos e concordou com certa relutância. Emily a abraçou. Ela lavou o rosto e os braços, vestiu-se e colocou sua capa de frio.

— Com o fim do jantar, as coisas ficam mais calmas. Não demore tanto! — Corina alertou.

— Assim que souber o que ele deseja, retornarei. Obrigada outra vez. Saiba que pretendo recompensar a todos vocês que me ajudaram — Emily segurou a mão da amiga em gratidão.

Pela porta dos fundos, saiu rumo ao jardim. O frio era intenso e esperava que Ian estivesse esperando. Ele estava e carregava uma lamparina nas mãos.

— Ainda bem que está aqui — ela declarou em meio a um sorriso. — Mas para onde vamos? O frio é terrível.

— Logo estaremos aquecidos, meu bem. Venha!

Ian a guiou por um caminho entre as macieiras, lutando contra o frio da noite. Após uma longa caminhada, Emily indagou:

— Para onde estamos indo? — Estava nervosa por tanto andar e nada ver.

— Estamos perto — ele disse e depois de uns passos a mais, revelou-se diante de Emily uma pequena chácara de madeira.

Ela fincou os pés no chão e sentiu o coração estremecer.

— O que isso significa? — perguntou temerosa com a resposta.

— Perguntei do pastor se ele conhecia um local modesto para um jovem casal. Essa chácara é parte da propriedade da igreja para os necessitados, porém esses tempos tem estado vazia. — Ele segurou sua mão. — Eu organizei tudo para nós.

— Ah, eu... Bom, eu... — Emily não conseguia encontrar as palavras.

Ian voltou-se a ela e segurou seu rosto. As mãos frias dele a fizeram estremecer.

— Sei que tivemos um casamento acelerado e às pressas, mas acredito que precisamos de um momento a sós. Não acha? — Sua indagação era verdadeira.

— É claro que sim! — Ela deu um sorriso leve e segurou a mão do esposo, relaxando. Estava num misto de expectativa de temor e alegria.

Eles entraram na chácara e a lareira estava acesa, trazendo conforto para os dois após o açoite daquele frio. Emily analisou o local e percebeu uma mesa, um aparador, cortinas e uma cama de casal. Ela analisou para aquele móvel e sentou-se na cadeira, incrédula. Dentro do peito era um misto de sentimentos e emoções.

Certamente não era ignorante acerca dos deveres que exigiam o casamento. Ela ouviu algumas vezes as criadas, mais velhas de sua casa, falarem sobre isso e as mulheres da igreja. Porém, tudo era tão incompreensível. Não tinha pavor do desconhecido, na verdade uma expectativa com temor

A cabana estava com um ambiente perfumado de lavanda, a mesa tinha algumas frutas e uma sobremesa de frutas vermelhas aparentemente muito saborosa. Também tinha vinho e velas por todo o móvel de madeira. Ela se emocionou ao ver o cuidado e carinho de Ian ao preparar tudo para ela se sentir acolhida. O gesto simples só a aqueceu por inteira, por ver nos detalhes como seu marido pensava nela.

— Você preparou tudo isso? — Sua suavidade na voz demonstrava o carinho pelo marido.

— Queria que você tivesse uma noite especial. — Ian se aproximou e sentou na outra cadeira ao lado dela.

— Só para mim algo especial?

Ele deu uma risada e balançou a cabeça.

— A verdade, Emily, é que eu não me importo com essas coisas. Só de estar perto de você é o suficiente, porém compreendo como seu espírito é inclinado a esses detalhes — ele expressou-se de modo que comoveu a esposa. — Acredito que o amor é se esforçar pelo outro, ainda que algumas coisas não sejam importantes para o nosso gosto.

— Isso demonstra do seu caráter. Eu amei de verdade. — Ela estendeu a mãos, e ambos entrelaçaram os dedos.

— Deveríamos comer! — ele disse empolgado.

— Certamente deve estar cheio pelo abundante jantar do qual participou.

— Comi pouco e recusei a sobremesa, afinal queria compartilhar isso com você.

Aquele pequeno gesto serviu para quebrantar mais o coração da jovem esposa que admirou ainda mais o marido por essa atitude. Ela começou a servi-los e disse:

— Prometo não derrubar vinho em você!

— Ora, nem me lembre daquele intransigente! Pelos céus! É melhor tocar em outro assunto. — Ian ficou sério.

Emily riu da breve carranca do marido. Ele precisava controlar mais seu ciúme e temperamento, porém demonstrava a tentativa de achar um equilíbrio. Eles jantaram entre olhares intensos, dotados de significados, e conversas simples da nova vida que se estenderia no novo ano que se iniciaria.

— Sente-se bem? — Ian chegou mais perto ao vê-la pensativa após um tempo de silêncio.

— Tudo que vivemos é tão novo. De certa forma, uma aventura! — ela falou, sorrindo e passando a mão sobre o rosto.

— Tivemos que desistir de tantos planos para entender que a vontade do Senhor é boa. Não foi isso que vivenciamos? — Ian segurou suas mãos e ficou mais a frente dela.

— O nosso orgulho nos impediu por tanto tempo de vermos a bondade de Deus. Você e eu fomos usados para revelar as falhas dos nossos corações que de outro modo não poderíamos enxergar — ela declarou.

— Talvez até tivesse outra forma, mas o Soberano decretou que fosse por meio de um casamento que trataria muito de nossos pecados. — Ele sorriu para a esposa que o olhava com ternura. — É ano novo agora e, portanto, quero que comecemos de maneira certa, marcando sempre o que será em nossas vidas!

Emily fez uma careta de desentendimento.

— Vamos orar! — Ele abaixou sua cabeça, e Emily fez o mesmo. — Senhor, só Tu és grande em louvor. Traça nossos destinos com sua poderosa vontade, mostrando ao homem que não tem para onde correr, pois em todo lugar Tu estará e fará cumprir seu decreto. Na eternidade, determinou que Emily seria minha esposa e eu seu esposo, ainda que por tanto tempo lutamos contigo, cumpriste em nós Teu querer.

As emoções de Emily se alvoroçaram com a verdade daquelas palavras.

— Quem é o homem para contender contigo? E mostrou outra vez como sua vontade é a melhor, pois não gostaríamos de estar em nenhum outro lugar a não ser aqui. Louvamos o teu nome porque nos guiou apesar da rebeldia em nossos corações, nos encontrou e nos transformou. Entregamos a Ti este casamento e a nossa descendência para que a partir de nossa família seu nome seja conhecido na terra. — Naquele momento, a oração de Ian libertou a esposa de uma longa batalha no coração. — Fomos tão falhos em nossas atitudes, ajuda-nos a honrar Teu nome. Amém!

Emily permaneceu de olhos fechados, discernindo o quanto orou a Deus para ter um desígnio na terra. Ali compreendeu que ao cumprir sua missão de mulher em ser uma esposa, mãe e auxiliadora estaria preparando almas para a eternidade. Esse propósito era glorioso!

— Emily?

A voz de Ian a despertou e ela sorriu para o marido com uma disposição de espírito renovado. Ele a levantou daquela cadeira, e ambos se abraçaram. Permaneceram um tempo naquele estado, sentido a presença um do outro, desejando nada além de permanecerem para sempre assim.

Emily sentiu o roçar da leve barba do marido no seu rosto, e um arrepiou lhe percorreu. Ele olhou com firmeza para a esposa e disse:

— Meu amor, Emily, é de um homem para uma mulher. Eu a anseio por completo!

— Eu também, Ian. — Ela colocou os braços em volta ao pescoço do esposo. — Amo-o tanto que não posso mais ficar distante.

Ian a beijou com paixão e o amor romântico envolveu o casal em seus laços, levando-os a consumar o casamento.

🍁

O brilho dos fogos de artifício fez o casal sair da chácara para apreciar aquele espetáculo colorido no céu. Era ano novo!

— Ian, atravessamos o ano! — Ela apontou para o céu.

— Feliz ano novo para nós! — Ele beijou a testa de sua esposa.

Os dois trouxeram as cadeiras da chácara e se sentaram na pequena varanda a fim de contemplar o brilho colorido no céu negro. Com o tempo, Emily olhou devagar para o marido, que detinha seus olhos no firmamento. Não podia deixar de imaginar das horas atrás quando ele a fez realmente uma só carne com ele. Aquele momento ficaria registrado para sempre. Nunca imaginou como o amor de um homem e uma mulher pudesse ser tão profundo. Agora entendia os motivos de Deus para reservar algo daquela dimensão somente dentro de uma aliança segura. Ela repousou a cabeça nos ombros dele, porém um pensamento logo a fez despertar!

— Pelos céus! — Sua exclamação foi alarmante a ponto de fazer seu marido a olhá-la.

— O que aconteceu? — Ele piscou algumas vezes sem entender.

— E se eu tiver engravidado? — Ela deu um pulo da cadeira. — O que será de nós? Santo rei!

Ian soltou uma risada gostosa.

— Você será mãe e eu serei pai — expressou com uma naturalidade que espantou a jovem moça.

— É tão fácil para você? — Ela crispou os olhos.

— É o ciclo natural da vida, meu bem. — Ele a puxou para mais perto. — Mas não se preocupe, pois é improvável que aconteça de maneira tão rápida. — Ele a beijou nos lábios em meio a um sorriso.

— Esquece que na nossa vida tudo aconteceu rápido. Não duvidaria disso. — Ela cruzou os braços assim que se afastou dele.

— Veja bem, se é seu desejo ser mãe logo, é só avisar. Eu providencio muitos filhos para você! — Ele deu uma das suas risadas cheias de sarcasmo.

— Ian, você é um sem-vergonha! — Ela deu um empurrãozinho no ombro dele.

Ele a segurou pela mão e a fez cai em seu colo.

— É minha esposa, não tenho porque ter vergonha. Você também não deveria ter. Saiba que é livre ao meu lado! — Ele tomou os lábios dela para os dele.

Emily sentiu os efeitos do beijo e, com todas as forças que reuniu, precisou se afastar.

— Ian, precisamos voltar. A hora está avançada! — A voz dela era falha. 

— Podemos dormir aqui. — Ian não tinha mais vontade de dominar suas desejos.

— Não, não podemos! — Ela tentou sair de dentro dos braços dele, mas foi impedida. — Tenho orado a Deus pedindo uma solução.

— A solução é levá-la daqui!

— Por Deus, não! Vamos achar nesta semana uma solução. Pensaremos juntos. — Ela, enfim, conseguiu se erguer, apesar de sentir as pernas vacilantes. — Vamos nos preparar para voltar — disse com o mínimo de força. Ela estava prestes a se render ao marido de novo.

Contra sua vontade, Ian acatou as palavras da esposa. Eles se preparam para regressar ao casarão. Fecharam a cabana e atravessaram aquele caminho às pressas, afinal o vento ficava mais forte. Estavam perto de chegar ao jardim quando um relâmpago rasgou no firmamento, levando a jovem estremecer.

— Emily, não tenha medo! Vamos continuar.

Ian abraçou mais forte a esposa e a guiou com mais velocidade para o jardim. Ao colocarem os pés, naquele lugar um trovão demonstrou sua fúria no céu e o coração da jovem pareceu que ia desfalecer. Ela estava começando a paralisar.

— Meu amor, só mais uns passos! — Ian disse mais perto do ouvido dela e foi falando palavras de incentivo para que a esposa prosseguisse.

Eles conseguiram chegar ao casarão, pelas portas do fundo, outro trovão ressoou, levando Emily a arrepiar por completo. Ian viu como a esposa tinha se enrijecido, como da última vez. Ele, sem medo de ser pego, colocou-a sobre seus braços e a guiou para seu quarto, deitando-a em sua cama.

— Ian, não devia estar aqui. Preciso ir para o meu quarto. — Ela tentou dissuadi-lo, porém o vento poderoso na janela a assustava ainda mais.

— Você é minha esposa e não vou levá-la para lugar nenhum. Ficará aqui comigo. — Ele se aconchegou na cama e envolveu com seus braços.

Emily agarrou-se ao corpo sólido e forte do esposo, a respiração compassada e os batimentos regulares de Ian traziam estabilidade para a jovem assustada.  Estar ali era um alívio. Ambos abraçados adormeceram.

Toc! Toc!

Os olhos de Ian começaram a se abrir e aos poucos a se acostumar com a luz do sol que entrava pelo vidro da janela. Emily remexeu-se ao seu lado. Ele sorriu pôr vê-la ali.

Tum! Tum! Tum!

Ele respirou fundo, e a esposa espreguiçou-se na cama. Ao abrir os olhos, ela formou um riso nos lábios ao vê-lo. A visão de acordar ao lado de Ian havia se tornado real.

— Meu amor! — Ian aproximou-se de Emily com alegria e a quis beijá-la, mas...

TUMMM! TUMMM! TUMMM! TUMMM!

Os disparos ficaram mais altos, chamando por completo a atenção dos dois. Ian disse alto: 

— Oh, céus! Quem é?

— Sou eu, Madeline, perdoe-me por despertá-lo. Mas preciso falar com você.

Ian e Emily se olharam, certamente, o fim havia chegado.

🍁

O fim sempre chega!

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