VINTE E OITO

Emily quis desmaiar ao ouvir o som da voz de Madeline do outro lado da porta. Como fariam para se livrar aquilo? Ela levantou-se da cama apressada e olhando para os lados, vendo onde podia se esconder.

— O que está fazendo? — Ian disse arrumando a roupa no corpo, que nem havia tirado para dormir, a fim de ficar no mínimo apresentável.

— Tentando esconder-me. Você precisa me ajudar! — ela implorou, sussurrando.

— Não, meu bem. Você não irá se esconder e nem eu. — Ele se aproximou dela. — Não tem orado para que Deus nos ajude? Ele enviou o socorro.

— Como isso poderia ser um socorro?

— A Providência nem sempre se manifesta da maneira que desejamos, porém da forma mais verdadeira e oportuna. — Ele depositou um beijo na testa dela. — Ajeite seu cabelo somente. — Ele preparou a voz para dizer mais alto: — Espere um momento, Madeline, e logo abrirei.

— Ian, não vamos fazer isso! — Emily ainda quis desencorajá-lo.

— Não, minha querida. Não viveremos mais assim!

Emily queria saber de onde vinha tamanho determinismo na vida de seu esposo. Ele enfrentava as situações sem parecer temê-las muitas vezes. Precisava ser mais corajosa também. Ela arrumou os cabelos e ajustou o vestido amassado no corpo. O coração batia com violência, mas precisava enfrentar aquela situação.

Ela fincou os pés ao lado da cama, que somente quando Ian já girava a chave na porta, reparou que não havia arrumado. Os lençóis encontravam-se uma bagunça. O esposo foi abrindo a porta e a figura de Madeline foi aparecendo com sua postura e elegância. Do lado de fora, o olhar da patroa se estreitou ao deparar-se com Emily dentro do quarto de Ian.

— Emily? — Madeline indagou incrédula, dando uns passos em direção ao quarto. — O que faz aqui?

— Ela dormiu comigo — Ian respondeu, seguindo para o lado da esposa e a puxando para perto de si.

Ao contemplar a interação dos dois, Madeline sentiu o coração encher-se de confusão, e logo em seguida uma mistura de raiva e angústia.

— Como? Vocês têm um caso? — Ela entrou de vez no quarto com o rosto assombrado.

— Não temos um caso, somos casados! — Ian assegurou sem rodeios.

Emily assistiu a expressão da patroa ficar lívida, tamanho o impacto da natureza a informação. Madeline sentiu as pernas estremecerem, levando-a procurar uma cadeira próxima. As mãos tremiam, os lábios ficaram pálidos e a respiração pareceu morrer no peito.

— Como podem ser casados? O quê? Eu não entendo! — Ela passou as mãos entre os cabelos, quase desfazendo seu penteado.

Ian afastou de Emily e aproximou-se de Madeline. Ele colocou uma cadeira para a esposa e outra para ele e o três ficaram frente e frente. O jovem médico explicou toda a história desde o noivado no vilarejo até aquele momento. Madeline ouvia os acontecimentos e o estômago se revirava, achava que iria vomitar a qualquer momento.

— Está dizendo-me que estava a procura dela quando foi assaltado na estrada? E, no fim, ela foi comprada pela minha governanta e chegou aqui? O encontro aconteceu por acaso? — O olhar de Madeline ficou endurecido. — Como podem achar que sou tão estúpida?

— Não foi por acaso, mas uma Providência — Ian não se deixou abater pela ira evidente de Madeline. — Não enganamos ninguém.

— A culpa foi minha. — A voz de Emily ecoou. — Se não tivesse fugido, Ian não teria vindo atrás de mim e sofrido aquele acidente. Nem nada disso aconteceria.

— Você! — Madeline apontou o dedo para Emily. —  Você me enganou falando quem ajudaria a conquistá-lo e, no final, o roubou para si. É uma impostora! — A pele branca de Madeline tinha tomado um rubor que se espalhou por todo rosto.

— Não permito que chame minha esposa de impostora — Ian disse mais alto. — Estou convencido de que a verdade é o melhor caminho por isso estamos aqui.

— Mas que verdade? Que enganaram-me esse tempo todo? — Ela se ergueu da cadeira enraivecida.

Ian vendo a determinação da mulher, levantou-se também e falou:

— Madeline, você não é uma mulher tola. Compreendeu muito toda a nossa história, porém insiste em se fazer de desentendida para ter em quem lançar sua mágoa. — Ian apresentava uma seriedade tão brutal, que dessa vez Emily agradeceu por não ser o alvo de tamanha ferocidade.

Madeline olhou para Ian e as lágrimas desceram.

— Quando seu pai a casou com o sr. Wood, eu nada pude fazer. Fiquei ferido por um tempo, mas compreendi o quanto Deus é sábio e se Ele não permitiu que ficassemos juntos é porque tinha outros planos. — Ian apontou o dedo em direção a ela. — Eu não fui atrás de você. Não a ameacei e não declarei promessas de um futuro. Não fiz nada. Apenas aceitei o término de tudo aquilo. Tínhamos somente 16 anos.

A dor no peito de Madeline cresceu mais e a verdade exposta pelos lábios de Ian a rasgavam por dentro.

— Consegui me formar e estabeleci uma vida. Porém, você se aprisionou naquele amor do passado e ainda esperava que ele fosse presente, mas não é. Meu coração não pertence mais a você há muito tempo. — Ele segurou a mão de Emily, que estava gelada pelo nervosismo. — Minhas afeições mais profundas estão com minha esposa. Seja sincera com você mesma e aceite o término para todo sempre.

O coração da sra. Wood foi gravemente ferido.

— Seja sensata e não estabeleça uma inimizade com minha esposa, pois certamente estará criando uma comigo. Faça como eu fiz com você e permita-me partir em paz.

Madeline não deu resposta e saiu do quarto aos prantos. Emily também derramava lágrimas, pois compreendia o quanto a senhora estava desolada. A frustração da perda de um sonho era conhecida por ela. No entanto, sabia como era importante para o crescimento.

— Ela está estraçalhada nas suas emoções — a esposa declarou com dor no coração. — Não posso ficar aqui. Irei para o meu quarto na ala dos empregados.

Ela se afastou de Ian e partiu. O marido não tentou pará-la, pois compreendeu a necessidade da jovem. Emily procurou desviar de todos os lugares o qual pudesse encontrar a senhora Montclair. Assim que chegou no corredor encontrou Peter, saindo do quero dele.

— Emily, você apareceu. Desde ontem sumiu. Perdeu a queima de fogos da virada do ano. Ocorreu algo?

A pergunta sincera fez que sentisse Emily o estômago revirar e só gostaria de desaparecer, porém, para seu pior desatino as duas amigas apareceram na porta. Não tinha para onde fugir.

— Corina e Meredith também ficaram preocupadas — Peter declarou, apontando para as duas atrás dele.

As duas a olhavam com desconfiança. Emily sentia que aquele corredor estava com suas paredes se fechando contra ela e a pressionando para contar toda a verdade. Essa hora também chegou para os seus amigos. E, apesar de sentir pouca força, resolveu tirar aquele fardo de seus ombros.

— Eu assistir a queima de fogos com o meu esposo — disse de uma maneira direta, mas não conseguiu olhar diretamente para os três.

Peter não expressou uma emoção aparente, pelo contrário, sua feição ficou paralisada.

— Esposo? — As duas criadas indagaram em uníssono.

— Casamos no natal!

— Quem é seu marido? — Peter finalmente declarou algo.

As pernas de Emily fraquejaram. Ela não queria magoar o amigo que tanto apreciava. As duas jovens criadas se aproximaram mais de Peter e, com um olhar de motivação, Corina encorajou Emily a declarar toda a verdade. Ela contou tudo para Peter que ao final não conseguiu formar uma frase.

— Peter, a Emily já era noiva quando chegou aqui. — Corina quis deixar a situação mais leve.

— Eu fugi por insensatez. Não conhecia nada sobre a vida ou Cristo, mas vir parar aqui e conhecer vocês, foi a obra mais transformadora da minha vida. — Lágrimas começaram a descer do rosto de Emily. — Por favor, não me odeie, Peter. Não suportaria seu descaso.

— Você deixou eu acreditar que poderíamos...

— Não deixei. Apenas não sabia como falar algo para que não viesse feri-lo. — Ela entrelaçou os dedos.

— A verdade é sempre a melhor opção na vida de todos, mas, principalmente, para o cristão. — Peter tinha um tom mais grave.

— Hoje eu sei mais isso do que nunca. — Ela assentiu e mais lágrimas rolaram.

Peter assentiu e se retirou do corredor. Emily começou a chorar mais profundamente, Corina e Meredith se aproximaram, levando-a a se consolar no ombro das duas.

— Não sei como poderia pensar que isso podia ser remediado sem angústias ou ferimentos nas relações. Essa é a consequência da minha mentira e fuga. Meu pecado afetando todos aos meus redor outra vez.

As amigas nada declararam, apenas a levaram para dentro do quarto e a deitaram na cama. Emily só gostaria de partir dali e voltar para sua casa.

🍁

Horas mais tarde, Ian foi chamado a presença de Madeline. Ele entrou na sala particular dela e avistou a face inchada e vermelha da mulher que um dia havia se apaixonado.

— Quando éramos jovens, eu pensei que seu amor por mim seria para sempre. Sabe como eu suportei o meu casamento? Sabendo que era amada por você independente de onde estivesse. — Ela o olhou com tristeza para o homem parado a sua frente. — Seu amor era meu porto seguro. Uma força que me ajudava a caminhar.

Ian não declarou nada.

— Encontrá-lo naquela estrada era como se fosse a recompensa do universo por tudo que eu havia suportado. Eu estava recebendo de volta o amor da minha vida. — Ela se levantou e pegou numa das prateleiras um pequeno baú velho de madeira e o abriu. — Essas são suas cartas. Elas me davam ânimo para viver um novo dia.

Madeline suspirou profundamente.

— Mas hoje eu descobri que essas palavras há tempos não valiam mais nada. — Ela segurou no peito o papel amarelado e chorou com amargura. — Então, no fim, eu não tenho nada. Perdi tudo.

Ian compreendeu que a tristeza de Madeline era mais profunda do que imaginava e aquilo não tinha só a ver com ele.

— Madeline — ele a chamou e a mulher o olhou —, você está buscando a razão da sua vida em cisterna vazia. Nem eu ou outro homem pode suprir essa carência e necessidade de amor do seu coração.

Ela franziu o cenho para que o ele dizia. Não o compreendia.

— As vezes o mal torna-se em benção. Isso é bom!

— Não se importa se eu queimar tudo isso? — Ela desviou o assunto para outra coisa, pois não entendia a mensagem que Ian estava falando.

— De fato, eu prefiro que queime. Ao menos não mais se apegará em palavras que agora não passam de rabiscos destituídos de sentimentos. Porque as emoções expostas aí não existem há muito tempo.

Ela esperava que Ian mudasse de idéia ao ver sua veracidade em queimar as cartas, mas ele não agiu para impedi-la, antes a incentivou. Seu coração estava apegado ao pó. Madeline lançou todas as cartas no fogo, e Ian em pé somente assistia o papel tornando-se cinzas. O passado finalmente se encerrava. A jovem sentou-se sobre a mesa e afundou o rosto entre as mãos.

— Madeline.

Ela levantou a cabeça para Ian.

— Você é como uma amiga para mim. A respeito por toda sua ajuda e zelo. Quero seu bem.

Ela somente balançou a cabeça e desviou o olhar dele, mirando a paisagem da floresta nevada além da janela.

— Em dois dias, vocês podem partir. Prepararei uma carruagem — a fala direta dela demonstrava como não queria mais alongar a conversa entre ambos. Ian respeitou isso.

Ele deu uns passos para sair, porém avistou algo na prateleira, ao pegar se direcionou para a frente de Madeline de novo.

— Aqui dentro tem muitas cartas para todos os corações. E diferente de mim, os sentimentos expostos aqui nunca são invalidados, pois são eternos. Leia as palavras dEle e encontre descanso para sua alma. 

Ian colocou sobre a mesa o livro preto e saiu. Madeline olhou para a mesa e leu as palavras prateadas "Bíblia Sagrada."

Ao sair da sala, Ian avistou Peter vindo em sua direção. O criado parou diante do médico e perguntou:

— Você é o marido de Emily Brown? — Agiu como se tivessem se conhecendo pela primeira vez e, de certo modo estavam, a contar com a nova percepção dos fatos.

— A seu dispor, sr. Peter Muller. Tem algo para me dizer?

— Só um aviso: não a faça sofrer ou teremos sérios problemas. — Peter tinha uma expressão tão séria que Ian realmente considerou a ameaça.

— Com que confiança faz tal ameaça?

— Porque ela é a filha do meu Deus. E os irmãos cuidam um do outro.  — Peter deu uns passos para trás e, antes de partir de vez, se virou e declarou: — Ela também é uma amiga.

— Peter — Ian estendeu a mão para o jovem homem —, obrigado por cuidar dela quando eu não podia.  Sua vida também fez-me relembrar de muitos fundamentos que eu havia esquecido por causa do meu pecado.

— É como eu disse, irmãos cuidam um do outro.

— Não se preocupe com ela. Porque eu a amo mais hoje do que um dia você pudesse amá-la por toda uma vida.

— Eu sei. — Peter o olhou bem. — Seus olhos expressam essa verdade.

Peter apertou a mão e Ian, firmando naquele cumprimento o estabelecimento de um respeito mútuo entre os dois e então partiu. Enquanto caminhava, Peter reconheceu finalmente a resposta de Deus para suas orações. Aquela mulher não era para ele. Precisava aceitar e seguir em frente.

Dois depois, numa madrugada, uma carruagem se posicionava atrás do casarão Wood. Emily e Ian tinham uma bagagem na mão. Antes de entrarem, Emily abraçou Meredith que estava emocionada e Corina que se derramava em lágrimas.

— Não chorem, pois eu escreverei para vocês.

— Não sabemos ler, Emily — Corina declarou.

— Daremos um jeito! Mas nunca vamos nos esquecer.

As três se abraçaram e após muitas lágrimas, afastaram-se. Peter apareceu e dedicou palavras de encorajamento e, por fim, Madeline surgiu na porta. Ela aproximou-se de Emily.

— Você recebeu o amor de um bom homem. Não desperdice isso.

— Não irei, senhora. Espero que fique bem. E como ficará nossa partida diante dos empregados? — Emily ainda temia o escândalo.

— Conversarei com a senhora Montclair e, certamente, ela não permitirá que esse assunto se propague pela boca dos criados. — Madeline disse, e o casal assentiu.

— Nós três também protegeremos a honra de vocês! — Corina declarou apontando para ela, Meredith e Peter.

— Vocês são uma grande benção do senhor! — Emily disse.

Somente Corina, Meredith, Peter e Madeline sabiam da partida do casal. Após todas as despedidas, eles entraram na carruagem.

— Enfim, voltaremos para casa! Tudo isso acabou realmente — Emily disse se acomodando no banco.

— Não acabou, agora que estamos começando! — Ian disse em meio a um sorriso. Emily se acolheu em seus braços.

O látego do cocheiro açoitou o ar e a carruagem começou a se movimentar. Em breve estariam em casa outra vez.

🍁

O deserto acaba quando a lição finalmente é aprendida!

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