UM
Perdoe-me, mas não posso mais.
Se eu ficar serei para sempre infeliz.
Mas nunca o esquecerei!
Emily escreveu aquele bilhete e o deixou em cima das papeladas da mesa de escritório do pai, segurou a pequena mala na mão e, em passos lentos, se deslocou pelo assoalho da casa a fim de não acordar ninguém.
Desceu as escadas com tamanha precisão e antes de conseguir atravessar pelo corredor para alcançar a porta ouviu passos dos empregados. Oh, céus! Não poderia permitir que alguém a visse e destruísse seus planos. Ela espremeu o corpo para caber no espaço da parede entre o corredor e a escada.
Esperou até as vozes se distanciarem e ao notar que o silencio habitava no recinto acelerou o andar e saiu pela porta. Agora em passos rápidos caminhava pela pequena trilha de pedra de sua casa até o portão de ferro, estava perto...
— Srta. Brown!
O coração entrou num estado tão ritmado que a jovem detinha quase uma crença sobre ele paralisar naquele instante, contudo, respirou fundo e se virou ensaiando o seu costumeiro sorriso na face.
— Else, o que deseja? — indagou com a mandíbula rígida.
— Pergunto-me, se a senhorita anseia por algo. — A criada averiguou a pequena maleta na mão da jovem. — Aonde vai?
Emily respirou fundo e abriu a boca para contar sua história. Aquela que havia planejando caso necessitasse, o que se evidenciou como verdade neste instante.
— Você sabe como na última semana os eventos sobre a guerra aumentaram. — Colocou a mão no peito e fechou os olhos para mostrar sua contrição com aquela situação. — Umas jovens até se voluntariam para servirem nas bases. Lembra-se que a Angelina partiu semana passada, não? Eu e Ian fomos até nos despedir dela junto com aquela senhora, amiga dela.
— Oh, sim! Uma tristeza, minha senhora! — Elas detinha um tom de compaixão na voz.
— Eu ouvi sobre como algumas mulheres da igreja estão reunindo roupas, comidas e cobertores para enviar aos moribundos — Emily enquanto dizia reparava no olhar da criada e compreendia o quanto ela estava caindo em sua falácia.
— Não estava sabendo.
— Ora, Else, em que mundo vive? — A jovem fez uma feição de surpreendida. — Pois bem, reuni umas peças e estou indo entregar. Logo mais volto.
— Por que vai sozinha, minha senhora? Posso ir junto! — A criada se prontificou.
— Não! — A voz saiu mais afetada do que pretendia.— Else — respirou fundo —, sabe que esta semana é a do meu casamento.
A empregada assentiu com pesar, pois sabia o quanto aquele arranjo era uma aversão a vontade da Srta. Brown.
— Todo tempo que possuo para ficar sozinha quero aproveitar. — Emily estufou o peito e disse mais: — É uma ordem e não ouse desobedecê-la!
— E o que direi a seu pai?
Emily baixou a cabeça, sendo golpeada com o sentimento de culpa por estar fazendo aquilo, mas o pai não era passivo a reconsiderar aquele destino a ela. Então com a pouca coragem que restou, declarou num soturno:
— Que está tudo bem comigo. — Deu um sorriso seco ao finalizar. — Agora devo me apressar. As senhoras trabalham cedo.
— Boa caminhada, senhorita Emily.
Else a reverenciou e partiu. Emily a viu se afastar e sentiu uma fisgada no peito. Fitou a grande casa e uma emoção a quis dominar, porém, naquele instante não permitiu ser fisgada pelo melancolismo, algo tão costumeiro de seu espírito.
Saiu portão a fora e caminhou as pressas para onde sairia o comboio. Suas reflexões durante o caminho foram diversas e o peso daquela decisão pesava em seus ombros. Ainda recordava da última conversa que obteve com Angelina na beira da praia, ela havia lhe aconselhado sobre respeitar seu marido, até considerou optar por uma pausa nas intrigas, mas depois de ontem não poderia mais.
Ainda recordava com amargor as palavras pronunciadas por seu noivo enquanto falava com um lacaio.
“Ter de suportar isso é um dos piores castigos!”
“Quem poderia ser feliz vivendo nesta condição?”
“Certamente não poderia conviver com esse espinho na carne!”
Ela compreendia o quanto aquele casamento era indesejado por Ian, mas chamá-la de espinho carne era uma ofensa a qual não poderia perdoar. Como viveria com aquele home rude, autoritário e que nutria um sentimento de pior aversão por ela? Não poderia, de fato. Estava colocando um fim em tudo aquilo.
Suas reflexões foram tão intensas, seus sentimentos repudiavam com tamanha força aquele homem que foram como combustíveis para seus pés a fim de se afastar o máximo possível de Ian Turner!
O véu na cabeça e roupas mais simples cooperaram para que ela andasse pelo vilarejo sem ser notada, contudo, por ser tão cedo auxiliava em não haver tanto agito de pessoas. Ao chegar na parte das saídas do comboio avistou como as carruagens estavam prontas para partir. Ela pagou sua passagem e tomou um assento junto com outras senhoras.
Emily tinha consciência do quanto os gritos sobre as guerras ecoavam pelos quatros ventos do país e era um momento de temor da parte de todos, contudo, seus sentimentos contrários a Ian eram por demasiados repudiosos que ansiava morrer por uma bala perdida do que conviver com um homem que a odiaria por toda a vida.
Tempos mais tarde, os cavalos começaram o trote e as rodas da carruagem giraram a afastando a cada instante de Scarbourogh Fair, a pequena cidade do interior, na qual sempre viveu. Ela sentiria falta.
No decorrer da viagem, Emily observava a paisagem ao redor relembrando vagamente das vezes que viajara com o pai para a Capital. Ela começou a sentir a mão esfriar e o estômago nausear ao perceber a realidade de sua ação. Perguntas como, onde passaria a noite? O que comeria? Como sobreviveria? Visitaram seus pensamentos trazendo um grande incomodo. Por certo, não havia considerado essas questões. O desejo de se livrar a cegou para todas essas realidades. O que faria?
— Está bem, minha jovem? — Uma das senhoras de chapéu largo perguntou.
— O quê? — Emily pareceu não compreender o simples questionamento.
— Sente-se confortável? As suas mãos trêmulas denunciam que algo não está bem. — A velha mulher apontou para as mãos nervosas de Emily, que logo as recolheu para mais perto de si.
— Estou devidamente bem! — E olhou para o lado não desejando nenhuma conversa mais.
— Caso necessite de algo podemos ajudar — a senhora insistiu na benevolência e apontou para a outra mulher ao lado.
— Agradecida, mas não precisa. — Emily não desejava que a causa de estar ali você descoberta, pois seria repreendida e enviada de volta.
A conversa cessou e o silencio pairou sobre todas. Após uma jornada de um caminho pedregoso, já era fim de tarde quando o comboio, enfim, chegou na Capital. Emily saiu por último do veículo. Uma mistura de sensações entre a liberdade e o terror a impediam de colocar os pés para a fora, contudo, o grito do condutor a estimulou a coragem de deixar a carruagem. Não poderia voltar atrás.
Com a sua pequena mala em mãos, começou a seguir um certo fluxo de pessoas entrando assim numa agitada onde parecia haver grande sinal de compras e vendas. Era uma feira ao ar livre. Emily caminhava e apreciava aquelas frutas e as desejava, apesar de obter uma quantia limitada de dinheiro resolveu comprar algumas e saciar seu estômago faminto.
Sem muita educação, o vendedor colocou numa pequena cesta o alimento e estendeu a ela, que foi andando em frente, naquela rua cheia de pessoas perambulantes. Pelo caminho, ela foi empurrada por algum homem que carregava caixotes, depois um cachorro passou por debaixo de suas pernas, crianças mal arrumadas a cercaram e o pavor a fez ficar vermelha. O lamento não demoraria a dominá-la se seus pés não pudessem descansar e, como um oásis no deserto, avistou um breve assento.
— Compre aqui suas verduras! Temos cenouras, cebolas e batatas!
Emily avistou aquele vendedor ruivo, de barriga avantajada e bigode farto e o deduziu ser uma boa pessoa a partir da aparência gentil.
— Caro Senhor, me permita descansar nesse seu caixote? É por poucos minutos. Meus pés não me deixarão dar mais um passo.
O homem a olhou de cima abaixo e deu um sorriso.
— É claro, minha jovem. — Deu sorriso mostrando seus dentes amarelos e cheios de tártaros. Ele arrumou o espaço e liberou para ela sentar. — O que faz por aqui? — o homem perguntou.
Emily não soube responder devidamente.
— Estou a passeio!
— A passeio? — O homem arqueou uma sobrancelha. E nada mais indagou.
Emily agradeceu e, por um breve momento, sentiu a satisfação em poder comer uma maça e descansar os pés. Ela ficou tão extasiada com aquele pequeno momento de descanso e prazer que não se deu conta ao que passava em derredor, pois a barulheira fazia somente tudo se tornar um aglomerado de ruídos indecifráveis.
— Ora, se não é a Sra. Montclair! — a voz rouca do homem ruivo declarou. — Tenho algo especial para a senhora.
— Espero ser algo bom realmente. Da última vez, suas batatas estavam horríveis.
— Águas passadas! — Ele chegou mais perto da mulher. — Soube que a senhora precisa de meninas novas para a casa.
— Parece que as notícias correm rápido! — disse a mulher de coque alto e preso tão forte que parecia servi para puxar a pelanca do rosto e permanecer com uma aparência não tão envelhecida.
— Os falatórios fazem parte do negócio — O homem riu. — Uma jovem chegou para mim e aparenta ser cheia de saúde. Veja só!
Ele apontou para Emily que se sentava de costas e olhava para o horizonte a frente, imaginando como estaria sua família sabendo de se seu desaparecimento.
— Oh! De fato, parece ser boa. — A tal senhora declarou a visualizando. Ela caminhou para a frente de Emily e a despertou de seus devaneios. — Coloque-se de pé, mocinha.
Emily piscou algumas vezes antes de compreender que a ordenança daquela desconhecida era destinada a ela.
— Vamos, menina, fique de pé! — O ruivo a segurou pelo braço e a levantou.
A Sra. Montclair avaliou a estatura, o peso e os dentes achando agradável a condição da jovem menina.
— Servirá!
— Servirá? Para quê? O que está acontecendo? — Emily não conseguia compreender aquela atitude. Apenas via o sorriso exultante do homem e a mulher tirando de uma bolsa um saquinho de moedas e lançando para o ruivo.
Tendo suas perguntas totalmente ignoradas por todos ali ao redor, ouviu:
— Foi um prazer fazer acordo novamente com a senhora — disse o barrigudo.
Emily completamente assombrada, declarou:
— Não sei que negócio é esse, mas eu não faço parte! Partirei imediatamente! — Ela colocou os sapatos novamente e segurou sua mala e virou-se para sair, contudo, se deparou com um homem alto a sua frente.
— É claro que partirá, mocinha. — A senhora ficou a frente dela. — Comigo! George, assegure que essa não vai querer escapar. E vamos depressa que tenho hora para chegar.
O homem alto e forte a segurou pela braço enquanto Emily se debatia.
— Largue-me! Largue-me! Eu preciso ir. — Sua voz já estava tomada pela emoção. — Não faço parte de negócio nenhum. Ou será que não escuta?
A mulher crispou os olhos para o abuso estabelecido pela moça.
— Veja bem, menina. Não é a primeira vez que jovens como você fazem essas encenações mesmo sabendo que necessitam do emprego.
— Emprego? Que emprego? Pelos Céus! Seja clara! — Emily vociferou e atraiu muitos olhares, porém, o povo parecia ser acostumados a aquelas exibições de rebeldia. — Eu tenho que partir!
Montclair entrou na carruagem, e antes de fechar a portinhola, a olhou e declarou:
— Minha querida, todos nós precisamos partir. Você agora tem muito trabalho para fazer e eu para administrar!
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Senhoritas, começamos esse passeio. Vamos decolar! Não deixe de dar sua 🌟 É muito importante!
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