TREZE

Dois dias depois...

A carruagem entrava pelos portões e a diante se viu o casarão da Sra. Wood outra vez. Passar dois dias fora não trouxe muito alento ao coração de Emily, apesar de considerar a viagem boa e estimulante. Era apreciável ver outras pessoas. No entanto, em meio aos serviços e conversas, alguém sempre visitava seus pensamentos. Ian estaria melhor?

Ela não pôde vê-lo antes, pois a ordem da governanta Montclair foi imperativa, não dando muito tempo para se organizar. Precisariam partir imediatamente ou perderiam a feira de alimentos marinhos, que aconteciam uma vez ao ano antes do natal.

No entanto, a saúde daquele selvagem ainda era preocupante, pois a qualquer momento tinha uma recaída. Esperava que se curasse por completo e estaria em paz ao saber que uma pessoa não morrereu por sua causa.

"Mas quem mandou ele vir atrás de mim?" Sua mente indagou.

Ela suspirou!

— Está preocupada, Emily? — Corina, ao seu lado, indagou.

— Somente cansada. Sinto que trabalhei por um ano inteiro nesses breves dias! — Deu uma desculpa aceitável.

— Concordo. Pena que Meredith não pôde vir conosco — Corina falou, murchando os ombros exaustos. — Agora que a ajudante da cozinheira ficou doente, ela teve que assumir esse serviço por uns dias.

— Mas acho que ela está aproveitando, afinal, gosta de cozinhar, não? — Emily estreitou o cenho.

— Sim, mas sinto falta do nosso trio nos quartos — Corina sorriu, deixando as sarnas ao redor do nariz mais evidente.

— Fazíamos bem o serviço — Emily disse superficial, pois sabia que nada fazia tão bem quanto as meninas, pois nunca limpou nada na vida.

Ela olhou para a paisagem e percebeu como aquele serviço de criada não foi tão aterrorizante quanto achava no início. Na verdade, acabou sentindo um prazer desconhecido ao saber que produziu durante o dia e não somente passou as horas sendo servida.

Havia uma satisfação no servir e trabalhar que não conseguia compreender muito bem, porém, preenchia o espírito. E compartilhar parte de seus dias com as criadas a fazia ver o quanto as penalidades da vida golpeada com força a todos. A realidade não era tão fantasiosa quanto achava, começava a enxergar isso.

— Chegamos! — Peter desceu da cocheira, onde ele e George reversavam na troca da condução dos cavalos.

Ele abriu a portinhola da carruagem, que diferente com as dos patrões, estava quase caindo aos pedaços e os sacolejos na estrada se tornavam pior.

Meredith recebeu as amigas na porta de trás e George ao passar por ela fez um aceno que quase a deixou eufórica, mas se conteu.

— Meninas! — Ela três se abraçaram com alegria.

— E então, como foi a viagem? Eu gostaria de ter ido— declarou com um bico.

— Trabalho e mais trabalho, porém, ao menos vendo uma nova paisagem. Tinha praia lá! — Corina falou aumentando ainda mais a decepção de Meredith por não aproveitar aquele momento, principalmente, com George. Vai que a praia o inspirasse a olhar para ela.

— Conseguiram aproveitar do mar? — A criada de cabelo crespo perguntou.

— Peter e George não resistiram aos nossos importunos e nos levaram, podemos ao menos molhar e afofar os pés na areia macia — Corina disse com emoção.

— Ah, que inveja! — Meredith suspirou.

Emily riu e assentiu com tudo que Corina falava, a praia a fez lembrar de casa, do pai e toda sua história. Tinha horas que desejava retornar.

Enquanto os rapazes começavam a descarregar o transporte, as meninas entraram. Emily desejava um banho, mas não conseguiria no momento. Isso era uma das coisas que a faziam ter falta de sua casa, se limpar sempre que quisesse.

A governanta Montclair permitiu que os recém-chegados de viagem pudessem se organizar brevemente antes do almoço, após isso eles deveriam retornar a sua lida diária de atividades.

— É até um pouco de cortesia ela conceder isso — Corina disse, andando com Emily até o quarto. Meredith ficou com a cozinheira.

— Só de poder lavar os braços e o rosto já é uma dádiva. — Emily entrou no quarto e seguiu pra se preparar.

Ela usou a barra de sabão nova e lavou os braços, rosto e pescoço. Trocou o vestido amassado e com as pontas cheias de lama a fim de ao menos também se livrar do cheiro do peixe que reinava na feira e impregnou na roupa.

— Sinto-me melhor — declarou a Corina, que fazia o mesmo processo que o seu.

Emily prendeu o cabelo e colocou a touca, o vestido cinza não ajudava na sua aparência, mas não era de todo ruim.

Elas duas desceram para o almoço e após aproveitarem o belo ensopado de carne, seguiu para os seus serviços, contudo, antes de ir para os quartos, foi chamada para ir ao jardim pegar uma flores separadas pelo jardineiro para a sra. Wood.

A jovem buscou as flores e caminhava pela longa varanda da parte de frente da casa, quando ouviu alguém subindo as imensas escadas de entrada. Sua boca foi ao chão ao reconhecer Ian com uma muleta e um olhar inexpressivo para ela.

— Ian! Você... Você... — Estava em choque ao vê-lo em pé e andando.

— Srta. Emily Brown! — A voz dele tinha um tom pesado.— Como foi sua viagem? — Ele colocou a muleta na frente do corpo e repousou as mãos cruzadas sobre ela.

— Você saiu daquele quarto! Que maravilha! — Ela deu um sorriso, esquecendo totalmente a pergunta dele. — Deve sentir um prazer exorbitante ao poder andar novamente.

Ele franziu cenho e sua expressão séria permanecia.

— Você não se sente bem? — Ela deixou o sorriso de lado ao perceber, enfim, a postura sisuda do noivo.

— Sinto-me em completo aborrecimento, se deseja saber — ele proferiu com tamanha frieza, que espantou a menina.

— Certamente, o aborrecimento parece ser algo comum a você. — Emily constatou o óbvio, levando-o a uma mais profunda irritação.

— Lembro-me que antes de conhecê-la não me era tão recorrente esses sentimentos — ele expressou e deu um passo a frente. — Mas pelo visto, seu propósito tem sido esse.

Emily o encarou com certa incredulidade.

— Receio não compreender bem sua suposição, caro senhor — ela disse entre os dentes.

— Deixarei mais claro — ele se aproximou mais. — Como ousa viajar sem dar devidas explicações?

A jovem fervilhou por dentro ao vê-lo de maneira tão imperativa.

— É inteligente o suficiente para saber que nesta casa sou criada e portanto recebo ordens. Não foi de minha vontade partir da noite para o dia. — Ela o olhou com desafio. — E, por certo, não o devo satisfação.

Ian não desviou o olhar frio dela nenhum minuto sequer, fazendo-a engolir em seco. Por que ele tinha ser assim? Seu pai não era um homem com tamanha seriedade e desejava que Ian tivesse um pouco mais de suavidade.

— Deve sim. — O maxilar dele se petrificou e uma veia no pescoço ficou mais evidente. — Emily Brown, me escute bem. — Chegou mais perto, ainda que tomasse cuidado para não ultrapassar os limites estabelecidos pela moral. — Posso aturar algumas de suas atitudes infantis, mas a falta de respeito nunca. 

Ela franziu o cenho para ele.

— Conversar com outros homens  tão abertamente não é algo do qual permitirei. Esteja ciente disso! — ele emitiu com severidade.

— Não estou entendendo...

— Não faça papel de menina ingênua, pois não é! — ele vociferou. — Estou fartos de suas infantilidades, de suas ações inconsequentes, seu atos impróprios, sendo por causa dele que estamos aqui!

Emily recebeu o golpe das palavras, o que a fez travar na sua posição, ouvindo realmente o que o noivo pensava dela.

— Não prossiga, Ian...

— Ora, se não foi por causa de uma das suas armações que vinhemos a ser noivos? — O olhar dele era  rude. — Agora age procurando fugir, como se tivesse sido lançada nesse arranjo de modo injusto. Cresça e assuma as responsabilidades por seus atos, menina!

O coração dela se compugiu de tal forma, que ainda que dissesse algo poderia não segurar as emoções.

— Entenda que foi eu que fui jogado nessa cilada. Eu tive minha liberdade perdida por causa de você. — Ian respirou fundo. — Eu sei que não há amor entre nós.

Emily o olhou com mais profundidade naquele momento.

— Eu não sou o que você desejava como marido, e nem você é o que eu queria. A realidade que precisa aceitar, Emily Brown, é que você não me ama e tampouco a amo. — Ele foi tão convicto que a destroçou por dentro. — Mas aceite que ao menos possamos ter uma boa convivência porque o futuro será nós dois e não há como fugir. Abandone suas idealizações românticas e amadureça!

Ela permaneceu um tempo olhando para as flores que segurava e fortaleceu os pensamentos antes de olhá-lo.

— Está certo. Não o amo. — A crueza das palavras dela o fizeram congelar. — Seria impossível amar um selvagem como você. — Ela respirou fundo. — Não se preocupe, Sr. Turner, serei madura. Portanto, dê-me licença para cumprir meus ofícios de criada, afinal, são minhas responsabilidades.

Ambos seguraram os olhares um no outro por um breve espaço de tempo. A tensão que os cobria era quase palpável. O olhar de desafio dos dois os levavam a uma linha tênua de convivência e nenhum tinha inclinação de ceder.

— Então, estamos acertados — Ian declarou com firmeza, encerrando a conversa.

Emily partiu dali.

Ele acompanhou os passos duros e rápidos dela. Ela tinha determinação, pensou ele. Mas não pôde ver as lágrimas que invadiam a face de sua noiva.

🍁

Ian, querido, precisamos tratar esse coração! E chegaremos lá!

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