SETE

A lua brilhava no firmamento quando Emily montou a bandeja com um prato de sopa, pão e água pra levar ao enfermo da casa. Ela não podia negar estar empolgada com toda essa situação. Era uma forma de esquecer os próprios dilemas e frustrações de sua vida amorosa.

Meredith e Corina se aproximaram dela, que organizava as coisas na cozinha, e ao verem tão absorta naquela função resolveram perguntar:

— Para quem levará esse alimento? — Meredith arqueou a sombrancelha.

— A sra. Wood me designou para servir o sr. Evan esta noite — respondeu baixo.

As duas colegas arregalaram os olhos, não acreditando que aquilo houvesse ocorrido.

— Como isso aconteceu? — Corina não segurou a curiosidade.

Emily explicou, mas ocultando a conversa sobre a vida amorosa de Madeline. Afinal, ela compreendia que a criadagem não guardaria segredos importantes.

— Eu devo me apressar, mas ao voltar contarei tudo. — Prometeu para as duas cujos olhos brilharam de curiosidade.

Emily tomou a bandeja em mãos e seguiu rumo ao quarto de Evan. No decorrer do caminho, obtinha misturas de sentimentos como ansiedade, euforia, medo e outros que não podia distinguir. Contudo, não se deixaria vencer por nenhum deles. Afinal, após a conversa com Madeline, se propôs realmente provar seu valor àquela mulher, poderando que depois de ajudá-la na reconquista do homem, ela própria poderia receber auxílio para sua fuga.

Já estava no corredor do quarto de Evan e caminhava moderado quando uma silhueta apareceu a sua frente.

— Está tudo preparado? — Era Madeline desejando saber sobre os preparativos.

— Sim, senhora. — Ela assentiu. — A comida está quente e o livro no bolso do avental. O que a impediria de ler alguns poucos versos, não?

Madeline soltou o ar por checar todas as coisas. Ansiava que aquele plano começasse a dar certo.

— Então vá! E não se esqueça de contar tudo — a patroa assegurou.

— Certamente, senhora!

Madeline saiu de sua frente e ela retornou a caminhada até o quarto. Chegou frente a porta e bateu, porém, não esperou resposta e entrou. O ambiente estava pouco iluminado, mas era possível visualizar as coisas sem precisar andar e tropeçar.

— Sr. Evan, trouxe seu jantar! — Colocou a bandeja numa mesinha próxima. Antes deveria ajudá-lo a se erguer na cama.

Ela anunciou e foi se aproximando. Ouviu o som de um tosse seca ecoar pelo quarto e ao chegar mais perto seus olhos só faltaram sair para fora de órbita.

NÃO! NÃO! NÃO!

IAN TURNER!

QUE LOUCURA ERA ESSA?

Esse foi o grito de sua mente ao vê-lo bem na sua frente. Seu coração ameaçou parar e o corpo enrigeceu de tal modo que ela não conseguia se mover. Sentia como se o ar nos seus pulmões estivessem numa maratona tamanha velocidade em que inspirava e expirava. Como, em nome de Deus, o homem de quem fugiu foi parar debaixo do mesmo teto em que trabalhava? NÃO PODIA SER REAL!

— Emily? — A voz dele rasgou os seus ouvidos.

Aquele timbre grave e profundo que não poderia ser confundido nunca preencheu todo o quarto.

— EMILY! — declarou mais alto e forte.

Num primeiro momento, Ian ao ouvir a voz que entrou no quarto achou ser parecida com de sua noiva, mas julgou ser algum delírio. Contudo, ao notar aproximação da jovem e aquele tom de pele moreno, com os olhos castanhos audaciosos não o deixaram com dúvida. Um misto de espanto e alívio tomaram conta do seu coração. E sem dúvida um sentimento mais pulsante predominou: a raiva.

— Pelos céus! O que você faz nesta casa?

Aquele modo de indagar, direto e seco, a fizeram expulsar qualquer desculpa na mente para dizer que não era seu noivo. Emily engoliu em seco, suas pernas fraquejaram, as mãos suaram e quis virar para sair do aposento.

— Não ouse dar um passo a mais, Emily Brown! — Ele foi enfático. — Tenha por certo que me ergo desta cama de algum modo e a arrasto comigo.

Emily apertou os lábios, semicerrou os olhos e virou-se para ele, que detinha um olhar frio e firme sobre ela. Mas ela vestiu sua armadura e lançou os dizeres:

— Considere que minha fuga foi justamente para não está com você!

Ian não se abalou com as palavras ferinas da jovem insolente.

— Será que seu egoísmo é tão amplo que não pode considerar nenhum outro a não ser a si própria? — Ian fez um movimento para se levantar, contudo, não foi possível pelas dores latentes em seu corpo. Porém, não deixaria aquele padecer impedi-lo.

Emily retrucaria, mas foi interrompida pela continuidade do sermão do noivo, que parecia mais furioso e nem o próprio estado de calamidade fora capaz de pará-lo.

— Por causa de suas ações impensadas é que estamos hoje nesta situação. Por refletir somente em sua situação é que padecem todos à sua volta. — Ian fechou os olhos pela dor. — Seus pecados, srta. Brown, afeta a todos nós. — Ele voltou a se deitar com a respiração ofegante. O simples ato de falar e se movimentar era o suficiente para o cansar ao extremo.

Emily apertou os dentes dentro da boca. Ian, como sempre, o responsável para lhe dizer as palavras mais ásperas. Aquele insuportável! Ela fechou os olhos e por um momento as cartas voltaram a sua mente, lembrando-a da sua missão daquela noite. Oh, céus! Ele era o Evan, o dono daquelas cartas! O amor de Madeline! Que situação mais miserável!

Ela respirou fundo e, com incredulidade, fitou o noivo deitado na cama e paralisada refletiu. Era por isso que ele a tratava com tamanho escárnio. Tudo estava claro. Ele amava outra mulher e por não poder tê-la se tornou amargurado.

Emily sentiu o quarto rodar com todas aquelas ponderações. Seu noivo, o homem de palavras mais duras, amava outra. Seu infortúnio não poderia ser maior. E o que faria? Já que jurou juntá-lo novamente a Madeline. Pai santo! Como sairia daquela situação? Emily quis dar um urro aos céus por sempre parecer está fazendo a coisa certa e cair em um novo buraco. Por que todas as pedras da má sorte caiam sobre ela?

Ela desejou sumir do universo, mas as tosses se Ian aumentaram e  não a permitiram se concentrar somente em sua aflição. Ela, apesar de todas suas inconsequências, não o abandonaria naquela condição. Seguiu para perto dele, que se revirava na cama tossindo, e, com muito esforço, o fez ficar numa posição quase sentado. E, para surpresa de Ian, as mãos dela começaram a massagear seu peito, ainda que a roupa a impedisse de tocar diretamente a pele dele.

— O que está fazendo? — ele murmurou.

Ela ficou um tempo calada, mas depois respondeu:

— Quando papai adoecia eu o cuidava. A tosse sempre o atacava e esse movimento ajuda — explicou um pouco envergonhada, afinal, nunca ficou tão perto de um homem daquela forma. Ela não o fitou nos olhos.

Ian recebeu o alívio daquela ação. Estava cansado, mas, ao menos, conseguiria descansar de verdade, pois sabia que a noiva estava segura. Aquela aproximação os fizeram permanecer em silêncio. Ian olhou de forma demorada para Emilly, observando seus trajes de criada enquanto seus olhos faíscavam contemplando todos os traços da menina que há dias não via. Nunca haviam ficado tão achegados, a não ser pelo beijo do passado. E Ian não desejava retornar àquele incidente em sua memória.

— Obrigado. — Foi o que ele disse depois de um tempo.

Ela assentiu, parou a massagem e se afastou. Porém, não sairia do quarto sem alimentá-lo. Emily tomou a bandeja em mãos e se achegou outra vez a ele.

— Precisa comer.

Ele permitiu a ajuda dela e enquanto comia, a jovem observou os hematomas no rosto do noivo e ousou perguntar:

— Como se machucou? — Ela não tinha certeza se gostaria de saber a resposta.

— Seu pai quando soube de sua fuga veio até mim. Não entrarei em detalhes sobre a nossa discussão. Contudo, fui atrás de você. Descobri que pegou o comboio para a Capital...

— Estava a minha procura — Emily declarou num sussurro.

— Como pôde achar que fugiria e ficaria assim? Não pensou em como tudo isso nos afetaria? — a fala dele estava se alterando outra vez.

Ela suspirou.

— Refleti em como seria sua alegria ao saber que sua noiva sumiu — a resposta dela estava carregada de irritação e mágoa, pois lembrou-se da conversa em que ele o chamava de "espinho na carne".

— Emily, o que pensa? Como poderia ficar feliz com algo assim? Pelos céus, mulher!

Ela largou a colher no prato. Por ora, não poderia lidar com aquelas circunstâncias inesperadas. O sentimento de ofensa, aflição e pesar a dominaram outra vez. As emoções tomaram as rédeas de suas ações e a fez sair de perto dele as pressas.

— Emily, onde vai?

Ian quis se erguer, mas o corpo não obtinha força. Estava cansado daquela impotência, que o enraivecia. E possuía outra certeza, aquela mulher o enlouqueceria.

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E eles se encontraram! O que será que vai acontecer agora? Se eu fosse você não perderia os próximos capítulos!

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