QUINZE
Ian entrou na sala com passos duros. Ele estava enrijecido em toda sua postura e Emily notou, porém resolveu não se apiedar. Estava aborrecida com aquele insolente que nada fazia além de chateá-la.
O ar pesado perdurou pela sala quando Ian se colocou diante dos dois do outro lado da mesa. Peter analisou a situação, mas ponderou ser somente o contato de dois desconhecidos.
— Sr. Turner, deseja algo? — Peter resolveu falar alguma coisa.
O jovem médico crispou o olhar para ele.
— Acredito que o sr. Turner só deseja andar para testar as pernas que agora estão firmes. Depois de tanto tempo de cama, exercício é bom nem que seja com dois criados sem graça — Emily declarou com uma risada, e Peter arregalou os olhos com a ousadia da moça.
O criado só engoliu em seco, e Ian deu um sorriso entre os dentes. Ele e Emily se olharam só faltando sair faísca de ambos.
— O que fazem ambos aqui dentro? — Ian perguntou com a voz grave.
A jovem criada visualizou o colega e serviço com um sorriso, para a completa irritação de Ian, e falou em seguida:
— Ele veio acender a lareira para aquecer esta pobre criada aqui. — Nessa hora o olho de Peter já estava para cair da órbita. — Sr. Turner tem que concordar comigo que existem poucos homens tão bondosos e paciente. Meu caro colega de trabalho é um desses. Um completo cavalheiro.
Ao ouvir as palavras de sua noiva e o riso sarcástico dela, Ian cerrou o punho. Ele segurou os impulsos e respirou fundo para manter a compostura.
— Não concorda, sr. Turner, que homens gentis assim, como Peter, podem fazer qualquer dama feliz por sua bela educação e trato? — Ela sorriu outra vezes para o criado.
Peter não entendeu os motivos dos elogios, porém não pode deixar de se alegrar. Aquilo seria um sinal aberto do interesse de Emily por ele? O que era estranho feito diante de um desconhecido, como o sr. Turner.
— Você que é muito bondosa, Emily — Peter disse com um sorriso que mostrou sua covinhas.
— Meu Deus, Peter! Você tem covinhas e eu nem tinha reparado nisso — Emily deixou a arrumação dos pratos e se virou para o amigo. — Elas lhe deixam muito bonito!
Aquele elogio constrangeu os dois homens, porém em Ian o sentimento veio acompanhado de uma terrível irritação bem maior do que qualquer outra. Como ela poderia manifestar tamanho desrespeito bem diante dos seus olhos?
Ao olhar para o noivo, Emily viu que Ian estava vermelho e constatou ser de raiva. Ela se contentou em ter o atingido de tal maneira. Se desejava ter motivos para condená-la faria isso por razões exatas.
— Tenho por certo que assim como o sr. Morris oferecerá bom trato a qualquer dama, ele também requerará lealdade e respeito. Concorda comigo? — Ian retrucou e fitou sério para o jovem criado.
Peter pigarrou e assentiu meio nervoso.
— É... É claro, sr. Turner. — Peter olhou para o médico, que começou a andar ao redor da mesa. — Nenhum homem pode aceitar o desrespeito contra sua honra. E se a mulher escolhida não puder entregar isso, certamente, terá faltas nas outras coisas.
Ian deu um sorriso e olhou para Emily, que engoliu em seco.
— Você está com plena razão, sr. Morris — Ian chegou ao lado dele, cuja diferença de altura era nítida.
— De fato, de fato! — Emily pronunciou despertando a atenção dos dois. — No entanto, o sr. Morris, tem completa compressão que respeito se é conquistado e não somente pedido. — Ela fez uma cara de pensativa, colocou os pratos sobre a mesa e continuou: — Certamente, ele sabe que se tratar sua dama com cortesia, amor e bondade, ele terá dela sua devoção. A mulher devolve o que lhe dão, seja bom ou mau.
Ela ergueu a cabeça com um sorriso largo no rosto, e Ian apertou os lábios se sentindo contrariado e semicerrou o olhar para ela. Aquele silêncio na sala não imunizava os dois dos dardos inflamados que lançavam um para o outro só com as expressões.
— Oh, sim! Está certa, Emily! — Peter falou nem se dando conta da guerra travada diante dele. — As escrituras ensina que o homem deve honrar a mulher e a mulher respeitar o homem. E sabe por isso é um mandamento?
Nenhum dos dois respondeu, mas seus olhares se inclinaram para o criado ali no meio.
— É porque Deus sabe como somos orgulhosos. — A palavra dele tomou de surpresa Emily e Ian. — O homem não entregaria sua vida por livre espontânea vontade, pois deseja que ninguém atrapalhe seus planos.
Ian respirou fundo e apertou a bengala que segurava.
— A mulher não deseja ser comandada porque acha que é dona de si, mas não é. — Emily voltou a olhar os pratos, porém não conseguiu retornar às suas funções. — Homem e mulher querendo ganhar um do outro, mal sabem que estão se rebelando contra o Criador quando não aceitam o que lhes foi entregue nas mãos.
Peter falou mais do que pensou e observou como os dois estavam fixos nele. A quietação incomoda fez o jovem relembrar de seus afazeres.
— Eu preciso ir agora, pois se a sra. Montclair souber que passei todo esse tempo só para acender uma lareira serei advertido. — Ele assentiu para ambos e saiu do aposento.
O casal permaneceu sozinho. Emily respirou fundo e continuou seu serviço com muitas indagações na mente. Nunca imaginou que Peter pudesse dizer coisas como aquelas.
Ian ficou no mesmo lugar e ao ver a aproximação de Emily, pois terminava de colocar os pratos do lado em que ele estava, se achegou mais. Emily sentiu um arrepio na pele por tê-lo tão perto. Por que estava sentindo essas coisas? Ela se indagava. É só um selvagem! Tentou converter a si mesma.
— Emily — Ian falou perto e outro arrepio a dominou. Ela respirou fundo. — O que pensa que está fazendo com esse criado?
Ela sorriu e se virou para ele, fitando-o bem e, pela primeira vez, reparou os olhos castanhos do rapaz, que era um pouco mais claro do que pensava, aquele cabelo dele também tinha um brilho e a mandíbula mais marcada o fazia ficar... Bonito? Era isso mesmo que ela estava constando? Não, não podia ser!
Ela abriu a boca para dizer algo, mas o olhar compenetrado dele a fez resignar um tanto. Mas não, não ia se prostrar para aquele selvagem, de aparência tão charmosa.
"Emily, acorde de sua loucura!" Condenou-se. Ela balançou a cabeça para sair daquele tupor e declarou:
— O que estou fazendo? Bom, estou simplesmente armazenando. — Deu de ombros e voltou para os pratos, mas a mão firme de Ian a tocou, levando-a a sentir um formigamento na pele e se voltar a ele.
— Armazenando o quê? — Ele crispou os olhos.
— Vamos ver... — Ela fez cara de pensativa. — Gentileza, elogios, bom trato e educação. — Sorriu e o fitou. — Porque quando me casar com você e ter que lidar com seu péssimo humor todos os dias e tender a achar que os homens no geral são assim, lembrarei de Peter e saberei que não. Existem sim homens educados e amorosos, você só não faz parte deles.
Ian apertou os olhos para ela.
— Está me dizendo que quando nos casarmos pensará em outro homem? — O tom dele foi ácido. — Declarou isso, de fato?
— Estou dizendo que lembrarei de palavras que me fazem bem, Ian Turner! — Ela o desafiou outra vez. — Pois, certamente, de você nunca ouvirei nenhuma coisa boa.
— Está declarando que não sou capaz de elogiar alguém? — Ele se aproximou mais, o que fez Emily cambalear para trás, mas ela sentiu a mão firme dele a segurar.
Emily inalou aquele cheiro masculino dele e quase ficou inebriada. O que estava acontecendo com ela naquele lugar? Com muito esforço de raciocínio, declarou:
— Talvez você tenha palavras bonitas para alguém, mas para mim somente grosserias e raiva. E não me darei a esperança de que possa mudar! — O tom dela se tornou angustiado e isso atingiu Ian.
— Palavras bonitas para quem, Emily? — Ele quis saber com o cenho franzido.
Ela suspirou magoada.
— Não importa agora! — Emily se afastou dele e umas lágrimas queriam cair.
As cartas e todas declarações amorosas dele para a Madeline a golpearam com força. Era quase impossível segurar o rompimento das emoções.
— Emily...
— Vá embora, sr. Turner! Se alguém nos pegar aqui estamos perdidos — ela declarou mais preocupada em se livrar dele. Sua presença a estava confundindo.
— Saiba que... — Ele a visualizou com firmeza e declarou quase como um murmúrio. — Não retenho elogios para aqueles que amo. — Todo o coração de Emily se agitou e quase suas pernas a fraquejaram.
Ela deu as costas pra ele, mas o vento levou o cheiro de lavanda dos seus cabelos que o atraiam mais do que gostaria. Ele permitiu-se apreciar mais uma vez o frescor daquele perfume. Contudo, deu-se conta da posição em que estava e se afastou. Ele estava ficando louco e aquela menina era a culpada!
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Esses dois daqui a pouco vão ter que aprender é a ficar longe um do outro!
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