NOVE
Dois dias se passaram e durante esse tempo, Emily evitou ver Ian. Ela considerou que não poderia ficar diante dele sem que brigassem. Suas ideias, temperamentos e opiniões era tão contrárias que nada poderia contê-los ao estarem na presença um do outro.
Ela passou a mão por seus cabelos, respirou fundo e se deitou no colchão nas poucas horas de descanso e fechou os olhos. Com o decorrer do tempo naquela casa e os trabalhos contínuos confirmou o quando dormir cedo era uma dádiva. Lembrou-se de Else, sua criada pessoal, e a considerou ainda mais por sempre fazer sua função e nunca reclamar.
Retornou a lembrança a seu pai, como todos os dias, mas naquela noite experimentou uma saudade mais intensa. Ele era sua única família. E quando partisse como ficaria? De fato, poderia viver uma vida longe dele? Teria a chance de construir uma família? Sempre foi o que sonhou, porém, todos os planos estavam sendo frustrados. Por que Deus não a ajudava? Ele não queria a felicidade de seus filhos?
No entanto, tudo que obtinha era uma aliança com um homem que a desprezava e cujo coração era de outra. Aquela constatação a fez lagrimar. Não por Ian, mas, por nunca ser a que é o alvo do amor. Sempre fantasiou com os ideias românticos inspirados em seus livros, mas a realidade era brutal. Divagava sobre todos esses pensamentos quando Corina entrou no quarto agitada.
— Emily, Emily — a menina chamou.
— O que há? — Emily indagou ainda de olhos fechados.
— Não soube da notícia? — Corina correu até a frente da cama da colega de quarto.
Emily abriu os olhos e se sentou.
— Do que está falando?
— O sr. Turner teve uma piora. Parece que a saúde dele teve uma recaída. O cocheiro correu para buscar um médico.
O coração de Emily palpitou forte. Oh, céus! Poderia odiar Ian Turner, mas, decerto, não desejaria sua piora ou morte. Afinal, ele padecia daquela situação por causa dela. Levantou-se rápido e organizou suas vestimentas.
— Aonde vai? — Corina indagou piscando sem entender.
— Ajudá-lo! — respondeu já na porta.
— A sra. Wood não deixará ninguém entrar naquele quarto. Ela está muito preocupada. — Corina explicou.
— Madeline nada sabe. — E partiu deixando Corina de boca aberta por Emily pronunciar o primeiro nome da patroa.
A jovem apressou os passos e saberia que nada a impediria de ver Ian e sua condição. Estava naquela casa e ao menos faria alguma coisa para seu bem, apesar das dificuldades de ambos. Ele ainda era seu noivo, não era? Não se sentiria bem em fugir outra vez vendo que o deixou naquele estado de calamidade.
Ela chegou frente a porta do quarto e bateu. Ninguém respondeu. Bateu novamente. Nenhuma resposta e então resolveu girar a maçaneta, verificando que estava livre e entrou no ambiente.
— Quem ousa importunar? — Era a voz de Madeline e havia outras duas criadas com ela.
— Sou eu. — Emily chegou mais perto. — Vim ajudar. — Ela olhou para a cama e observou como Ian estava vermelho e se retorcia de dor. Ela se apiedou.
— O que faz aqui, srta. Brown? — Madeline declarou com a voz aflita.
— Possuo certos conhecimentos que podem ajudar — Emily insistiu. Ela ficaria de um modo ou outro.
— Acredito que devemos cuidar somente com orientações médicas e, portanto, não precisa se incomodar. Pode ir..
— Ela vai ficar — a voz grave e abatida de Ian ressou no quarto.
A sobrancelha de Madeline se ergueu. Emily, por dentro, sorriu, pelo menos, Ian a ajudou naquele momento.
— Tudo bem. O mais importante é o seu bem — Madeline respondeu a ele.
Emily se aproximou dele e tocou na testa verificando como a febre estava altíssima. Era alguma inflamação. Ela se lembrou da sua antiga criada ter a ensinado sobre o banho com água fria para baixar a temperatura do corpo.
— É bom levá-lo ao banho e encher com a água mais fria que tiver.
— O quê? — Madeline questionou com desconfiança daquela ideia. — Isso é loucura.
— Ela está certa — Ian, fraco, falou.
Madeline não disse mais nada e ordenou que Emily fosse chamar os lacaios para trazer água fria e encher a banheira de ferro. Emily obedeceria a ordem o quanto antes para ajudar, porém, escutou:
— Mande outra. Ela ficará aqui — Ian declarou.
Naquele momento, Madeline estranhou aquela insistência de Ian com sua criada. Fitou Emily, que estava parada no seu lugar e cuja expressão era vaga.
— Vão vocês duas e avisem para virem depressa — Madeline ordenou as outras criadas que estavam no quarto.
Ficaram somente ela e Emily que por um tempo ficou parada, mas logo declarou.
— É bom uma compressa. — Ela tocou a cabeça de Ian. — Sente dor na cabeça, não?
Ele assentiu devagar.
Emily buscou um pouco de água da jarra e molhou um pano, sem demora colocou sobre a cabeça dele, vendo como Ian demonstrou certo alívio.
Mandeline somente assistiu aquilo e ponderou sobre o que acontecia ali. Porém, suas breves reflexões a levaram a concluir que Ian havia gostado de Emily e como ainda estava chateado com ela era natural ser mais rígido com sua presença. Naturalmente seria bom uma boa relação entre ele e a criada, afinal, ela a ajudaria numa possível reconciliação.
— Sente-se melhor, Ian? — Madeline perguntou vendo como suas aflições haveriam melhorado. Ele lhe deu uma breve resposta e ela disse: — Muito bem, Emily, sua idea realmente foi boa.
— É comum tratar febre assim. Não sabia, senhora? — ela perguntou a mulher que ficou sem resposta.
Madeline sempre teve a mãe que cuidava da família, quando se casou os médicos eram presentes para cuidar do marido adoentado. Não se aplicou a esses conhecimentos médicos, ainda que caseiros.
— Por que essas criadas demoram? — Madeline desviou o assunto.
Ela se levantou e saiu do quarto brevemente atrás da sra. Montclair.
— Obrigado, Emily — Ian disse quando ficaram a sós.
— Não precisa agradecer, afinal, você está nessa condição por minha culpa. — Ela mergulhou o tecido quente na água fria. — Não sou tão sem alma assim como pensa.
— Nunca pensei que fosse sem alma, mas uma mimada sem noção da realidade. — Ele sentiu a compressa fria novamente.
Emily se retorceu por aquele comentário, porém, evitaria responder em consideração a enfermidade. Ele estava num estado de delírio, considerou somente para suavizar os próprios ânimos.
Ela permaneceu ali até o momento em que Ian pareceu pegar no sono, ela tirou a compressa de sua cabeça e a febre parecia ter retrocedido um pouco. Ela mergulhou outra vez o tecido, retorceu pondo na fronte dele e descansou uma das mãos ao lado, sentindo que havia encostado na mão de Ian e, para sua surpresa, ele a segurou. Continuava de olhos fechados, mas a mão prendia dela, não com força, mas como um pedido de acolhimento.
Emily prendeu os lábios ao estar naquela situação tão estranha. Ela tentou se afastar, mas não conseguiu e acabou cedendo e apertando também as mãos quentes dele.
— Você não vai me deixar aqui. — Aquela voz sonolenta ecoou dentro do quarto. — Não vai me deixar sozinho.
— Ian, está acordado? — Emily o balançou.
— Não vai me deixar sozinho outra vez. — Continuou dizendo como num estado de lucidez e delírio, porém estando quase adormecido.
— Outra vez? — Ela arqueou a sobrancelha e logo um entendimento brilhou.
É claro, ele estava falando de Madeline. A doença o levava ao passado em que foi abandonado por aquele mulher. Emily respirou fundo. Constatou como ele realmente ainda a amava.
— Não, não vou deixar — Emily disse com certo desânimo na voz, contudo não iria o contrariar naquele momento.
— Que bom, Emily! — O sono o venceu.
🍁
Emily e Ian não me iludam, por favor.
Se vocês comentarem e votarem bastante, me esforço para trazer outro capítulo na sexta-feira!
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