DEZOITO

Três dias depois.

O frio havia avançado no país, a estação de inverno começou há um tempo, mas o ar gélido piorava quando mais a data do natal se aproximava. Os empregados estavam acelerados para deixarem toda a casa perfeita tanto para o baile que ocorreria quanto para poderem ter uma rotina mais leve quando o frio se tornasse mais forte. Emily notou como os ânimos da governanta Montclair piorou diante de todo aquele trabalho. Nada poderia estar fora de ordem.

Em silêncio, ela vestia seu uniforme e pensava outra vez que nunca imaginou estar do lado de quem servia. Ela respirou fundo. Olhou para o vidro da janela, notando como o sol já se apresentava para dissipar a escuridão da noite. Emily desejava que alguma luz brilhasse nas trevas da sua alma que se encontrava perdida sobre a vida e seu propósito de existência.

Ao ouvir a história de vida de Ian e ao vê-lo com Madeline, acentuou mais no seu coração o estado da insignificância. Ela procurou durante todos aqueles dias fugir dele. Desde a conversa à beira do lago, pouco se viram. Ela não conseguia compreender as emoções desenfreadas quando o enxergava. Porém, mais do que tudo, ansiava compreender as angústias do próprio coração.

Ela olhou para sua cama e olhou para a bíblia que pedira emprestado, estava conseguindo ler com mais frequência, porém poucas coisas lhe eram compreensíveis. Tomou o livro preto na mão e folheou brevemente as páginas e parou em um versículo que dizia:

"Busquei no meu coração como estimular com vinho a minha carne (regendo porém o meu coração com sabedoria), e entregar-me à loucura, até ver o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu durante o número dos dias de sua vida."*

Ao lado, estava anotado algo: "Há tempos, os homens buscam seu propósito na terra, e Salomão resolveu compreender o que o homem poderia produzir para trazer sentido à vida durante os dias de suas peregrinações"

Emily sentiu o peso da reflexão e desejava permanecer ali para investigar melhor tudo isso. Porém, sua hora de preparação estava findando e a única coisa que fez foi fechar os olhos e murmurar um simples pedido:

— Senhor, não deixei-me viver de modo inútil nesta terra! — Com o coração pesado, deixou a bíblia na cama e saiu para cumprir suas obrigações.

Já na cozinha, Emily se posicionou ao lado de Corina e Meredith e ao levantar a cabeça encontrou o olhar terno de Peter, que estava vestido com o sua típica roupa surrada, mas os cabelos alinhados. Não podia negar que o rapaz possuía uma beleza singela. Apesar de não ser tão alto, ele tinha os olhos alegres e as covinhas que iluminava ainda mais as feições dele. Ele sorriu com leveza para a jovem de coração dolorido e a fez retribuir a gentileza. Ele era um bom amigo.

— Todos os dias até o baile de natal vocês trabalharam dobrado. Quero tudo impecável! Não aceitarei nada mais do que a perfeição! — Sra. Montclair declarou. — Agora vou informar seu locais de trabalho hoje.

A governanta foi declarando de um por um até que declarou o local de Emily, Corina e Briana, a nova colega de limpeza das duas, pois Meredith havia sido promovida a auxiliar da cozinheira de uma vez.

— As três limparão o quarto andar!

De repente, todos os olhares se voltaram as meninas como se tivesse uma expressão de dó. Emily não entendeu os motivos para aquilo. Ela olhou para Corina que tinha os olhos arregalados e se indagava o porquê daquilo.

Ao finalizar as ordens, a sra. Montclair se retirou, todos comeram seu desjejum e partiram para suas funções.

— Não acredito que iremos para o quarto andar — Corina, enquanto subia as escadas, declarou com um tom de chateação para Emily e a outra criada que agora era companheira delas.

— O que tem o quarto andar? — Emily indagou curiosa. — Vi a expressão de todos quando foi mencionado.

— É o pior lugar da casa — Briana se intrometeu na conversa.

— Só limpamos ele nesse período de final de ano. Enquanto nos outros meses do ano só vai se acumulando os objetos que querem despachar e lançam no quarto andar. — Corina carregava um tom de birra.

— Ah! Achava que era algo pior — Emily riu.

— Pior? Era mais fácil um fantasma morando lá em cima do que aquela sujeira — Briana disse outra vez.

— Enfim, só podemos trabalhar o mais rápido possível para ir embora o mais depressa — Emily falou tentando dar esperança.

— Isso se nada se quebrar. Já que é um espaço que não recebe tanta manutenção — Corina expressou.

Emily nada mais disse, mas quando chegou no primeiro quarto do respectivo andar os olhos só faltaram saltar da órbita. Que bagunça descomunal! Eram móveis antigos e sujos espalhados pelo lugar, o espaço para se locomover ali dentro estava limitado. Oh, céus! Naquele instante, arrependeu-se de ter fugido de casa.

— Eu disse que era terrível! — Corina falou ao seu lado. — E esse é só o primeiro quarto dos outros cincos!

— Mais cinco? — Emily perguntou quase como um grito.

— Desejo boa sorte para nós! — Briana declarou ficando ao lado das meninas.

Todas começaram a limpeza empurrando móveis para lá e para cá, espanando, ilustrando, varrendo e colocando os panos brancos em cima para conservar o objeto. Uma metade do quarto ficou limpa. 

— Os tecidos acabaram — Corina declarou.

— E a água está suja e o óleo de ilustrar também acabou, mas temos tempo ainda. Vamos buscar mais e acredito que conseguiremos limpar ao menos todo este quarto hoje — Briana sugeriu.

— Faremos isso! — Corina gostou da ideia.

— Vou com vocês buscar o que falta — Emily disse para as duas, e Corina negou com a cabeça.

— É bom você ficar, assim pode ir espanando o outro lado e já ir adiantando o serviço — Corina declarou a Emily que aceitou a sugestão.

As outras duas criadas recolheram alguns materiais e partiram. Emily afastou alguns móveis e encontrou algo que fez seu coração dá um salto no peito: um piano pequeno. Ela se aproximou do instrumento e as mãos coçaram para tocá-lo. Ela tocou as teclas que estavam um pouco endurecidas, mas a afinação encontrava-se aceitável.

Olhou ao redor para checar tudo e tomou um banquinho para se sentar. Posicionou os dedos no formato do acorde de G (Sol) com a mão esquerda e com a direita preparou para dedilhar. Assim que tocou as teclas a melodia ecoou preenchendo todo aquele espaço e lhe aqueceu o coração.

A música era uma parte importante da vida de Emily. Ela fechou os olhos e deixou os dedos correrem pelas teclas cujas notas já eram uma expressão do próprio drama vivenciado pela jovem. Sua mente cooperou com o momento ao relembrá-la da infância, das brincadeiras com o pai, das danças com as outras crianças do seu vilarejo, das palavras aprendidas com sua antiga tutora, dos desafios do primo Josh. Ela tinha tudo e não tinha nada.

As lágrimas a visitaram novamente, expelindo para fora a dor que se acumulava no peito e a música manifestava sua tempestade na alma a partir da intensidade posta em cada nota que fazia a frequência musical aumentasse comparada a agonia que lhe consumia.

— Emily. — A voz grave rompeu aquele momento.

Ela abriu os olhos e encontrou Ian a olhando perto da porta. Ela engoliu em seco e o coração ameaçou parar ao vê-lo entrar mais no quarto. Ele estava ultrapassando todos os limites.

— O que faz aqui? Como sabia que eu estava aqui? — indagou rápido.

Ele agora estava em pé à frente dela, ao lado do piano, e a contemplou por uns segundos a mais antes de falar alguma coisa. Emily notava como a expressão de Ian não estava mais tão vívida como outrora. Um peso parecia cobri-lo. Estaria ele sofrendo tanto quanto ela? Ela se indagou.

— Lembro-me de quando era recém-chegado à sua casa e teve uma festa no vilarejo — ele começou a contar. — Lá encontrei meu amigo Scott, lembra-se dele?

Emily respirou fundo, abaixou a cabeça e assentiu em silêncio.

— Depois daquele festejo você entrou num profundo tormento por dias. Eu admito que me irritava por vê-la sofrer de maneira tão exasperada e sem sentido — Ian estendeu a mão pela cauda do piano. — Então, uma vez eu entrei na sala e você tocava essa música, de modo drámatico e extremamente doloroso.

Ela ergueu a cabeça e o fitou com o coração partido. Ela se lembrava muito bem daquele dia. Achava que ia morrer por ter ouvido palavras duras por parte do tenente Scott.

— Você brigou comigo — ela declarou com uma voz que tentava permanecer firme.

— Briguei. — Ele deu um sorriso leve. — Não achava que você tinha motivos para lamentar tanto. Afinal, sempre teve tudo que quis.

Ela não queria, mas não conseguiu segurar as lágrimas que se deslizavam pelas suas bochechas rosadas 

— Mas apesar de todo nossa briga, eu nunca esqueci essa música. Você tocava-a com o coração, como fazia agora a pouco. — Ele suspirou e olhou firme. — Porque você, Emily, não consegue sentir superficialmente, mas antes com todo seu ser.

— Então, foi por isso que me encontrou? — perguntou com a voz embargada.

— Você sumiu durante esses dias. Por que fez isso? — não respondeu a pergunta, mas a voz dele estava pesada e denunciava uma angústia profunda.

— Eu não... — Ela quis dizer, mas sentiu um nó prender sua garganta.

Ela visualizou Ian que permanecia parado ao lado do piano cujo olhar parecia imergir em sua alma, mas do que qualquer outra pessoa. Emily se sentia em meio a fúria de um vendável que emarenhava seus sentimentos.

— Não podemos ficar sozinhos — ela conseguiu dizer com a voz triste e melancólica. — Você não deveria estar aqui.

Um silêncio repousou sobre os dois, deixando somente que o som do vento gélido que soprava sobre as mais altas montanhas, ao mais profundo dos vales fosse como a melodia que refletia o momento que estavam passando. E, no meio do frio severo das emoções, as palavras aquecidas pelo mais intenso sentimento, ainda que não identificado, romperam.

— Acho que eu não consigo mais ficar longe de você!

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*Eclesiastes 2:3

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