DEZ
Ian obteve uma leve melhora no amanhecer do outro dia. Ele ainda sentia sua cabeça doer, mas, em decorrência do sofrimento da noite passada, era apenas uma pequena aflição. Ele abriu os olhos e enxergou todo o quarto. Estava com as cortinas abertas e o vento fresco visitou o seu cômodo e lhe roçou a pele.
Aquilo o fez lembrar de um toque suave em sua mão na noite passada e de quem era a responsável por acalmá-lo: Emily. Nunca imaginaria que ela obtinha ao menos um senso de misericórdia ou utilidade em casos graves de saúde. Ponderou que talvez a tivesse julgado por demasiado, sem dar chance ao menos dela mostrar quem era, de fato.
Ele fechou os olhos e relembrou de novo o motivo de estar ali, era por causa de Emily, suas ações passadas e isso o aborrecia profundamente. Não suportava ter seus rumos determinados por outro, mas parece que Emily havia entrado em sua vida só para afrontá-lo.
Ele ainda refletia sobre aquilo quando a porta do seu aposento se abriu e, então, enxergou Madeline. Sim, aquela que um dia pela qual se apaixonou. Mas o que restava de sentimento agora? Nada mais. Ele sabia que não era rancor, mas algo que o tempo foi capaz de levar para longe.
— Sente-se melhor, Ian? — perguntou a mulher de cabelos presos e bochechas rosadas.
— O pior já se dissipou — ele respondeu sem muita vontade de conversar.
Sim, ele era grato a Madeline por dispor cuidados para sua saúde, porém, sabia que não deveria manifestar tanta gratidão para não ser mal interpretado, o que era uma pena.
— Sabe, Ian, estive refletindo. — Ela tomou o assento que ficava perto da cama. — Sei que nos machucamos muito no passado, mas não gostaríamos que fizéssemos isso nesta nova oportunidade que a vida nos deu de se reencontrar.
— Madeline...
— Não diga nada, por favor. Eu reuni muita coragem para estar aqui diante de você esta manhã e falar. — Ela soltou um suspiro. — Sei o quanto se magoou comigo porque me casei. Não sou ingênua de não pensar nas acusações que você fez a mim. Tínhamos uma promessa, ainda que infantil, de nos casarmos.
Ian começou a se remexer na cama, não desejava que aquilo continuasse. Ele precisava contar que não era mais um solteiro em potencial. Porém, aquilo traria uma imenso escândalo para Madeline e toda sua casa. Um casal de noivos, naquelas circunstâncias, debaixo do seu teto? Que terrível seria. Ele só respirou fundo.
— Eu sei que pode não acreditar, mas meus sentimentos eram reais na época. — Madeline se emocionou. — E quando o encontrei quase sem vida na beira da estrada, todo meu coração se quebrou outra vez tal qual quando parti com meu marido.
Não, a conversa não deveria tomar aquele rumo. Ian sabia que precisava tomar uma atitude mais radical com Madeline.
— Ian, você precisa saber que eu...
— Eu não a amo mais, Madeline — disse as palavras que quebraram o coração da mulher. — Não devemos colocar justificativas em situações que Deus já determinou há tempos. Seremos sábios de apenas aceitarmos sua boa vontade.
Ali ele sentiu o peso de suas próprias palavras. Estava aceitando com disposição de espírito a boa vontade de Deus, que era se casar com Emily? Evidente que não. Qual tolo era dar conselhos que nem seu próprio coração se dispunha a cumprir.
— Você não... — Madeline não conseguiu esconder as lágrimas que caíram. — Esqueceu tudo que vivemos? Ian suas cartas de amor!
— Eu era um jovem tolo. — Ele olhou para a porta do quarto, desejando no íntimo que outra pessoa entrasse.
— Então, tudo aquilo não passou de ilusão? — Ela se levantou e o olhou com dureza e angústia.
— É claro que não. — Ele soltou o ar. — O que precisa compreender é que aquilo foi verdadeiro naquele tempo. Muitas águas se passaram e hoje não fazem mais sentido. Não para mim.
Madeline achava que o coração ia se comprimir a ponto de explodir. Quão terrível era as palavras dele. Como poderia suportar tamanha falta de sutileza no trato?
— Diz isso de maneira tão fria — ela falou com sincera tristeza. — Suas palavras não eram tão diretas e ferinas, Ian.
Ele lamentou causar um dano no coração de Madeline, porém era necessário.
— Para ver como as coisas mudaram. Nem mesmo o Ian, de palavras suaves, existe mais. — Ele deu de ombros.
— Certamente é um martírio. Que mulher poderia suportar esses seus desatinos?
Ele se virou para o lado e lembrou-se de uma que gostava de desafiá-lo sempre.
— Não alimente pensamentos, Madeline. Aceite o que sou agora. É o melhor.
A mulher estufou o peito, sentindo-se sufocada. Ela caminhou até a sacada para tomar um ar fresco. As emoções alvoroçadas a dominava. De repente, uma criada entrou no aposento para trazer o desjejum de Ian. Madeline voltou ao quarto e estava pronta para sair quando ouviu.
— Onde está a senhorita Brown? — A voz dele indagou.
Madeline crispou os olhos com o questionamento. Ela se virou para ele.
— Não desejo outra para me servir, se me conceder essa prioridade — ele disse com a maior seriedade.
— Posso indagar, qual motivo para a exclusividade com a criada Brown? — Madeline não compreendia.
— Ela me ajudou com seus cuidados. Desejo alguém que tenha ao menos um pouco de conhecimento de saúde. — Ian não podia comunicar todos os motivos, mas aqueles faziam parte da verdade.
— Compreendo. — Madeline se convenceu do argumento dele. Ela se virou para a outra criada. — Vá, diga a senhorita Brown que venha.
A ordem não demorou para ser obedecida. Madeline o olhou mais uma vez e percebeu o quanto estava distante. O que se passava na cabeça dele?
— O deixaria a sós por um tempo — ela informou, e ele assentiu somente.
Madeline deu as costas, mas ansiava por ouvir um pedido para ficar, contudo recebeu apenas o frio silêncio. Chegou a porta e encontrou Emily já pronta para entrar. Ela olhou para a criada e quis chorar outra vez, desejava dizer que estava tudo perdido, mas não teve a chance.
Emily notou a amargura na face de Madeline e se compadeceu. Algo havia acontecido. O que seria? A mulher passou ao seu lado e partiu desolada. Ao entrar no quarto, encontrou Ian sentado na cama.
— Deseja que eu o sirva, caro senhor Turner? — Ela se aproximou da cama, e o tom da voz era de gracejo.
— Sim, é uma boa forma de mantê-la debaixo da minha vista — ele respondeu num misto de seriedade e diversão.
— Oh! Desconfia tanto de mim que precisa me amarrar ao seu lado? Tenha dó! — Emily se sentou ao lado da cama e seu olhar o desafiava.
— Minha cara, dó quem tem é o piano. Eu tenho temor a vida, algo que não é de seu conhecimento — Ian, por mais que desejasse, não conseguia segurar os ânimos ao lado de Emily.
— De fato, você é um é um selvagem! — Emily revirou os olhos.
Ela estava cansada pela noite que havia passado ao lado dele. E não ansiava prolongar uma discussão. Mudou a postura e declarou:
— Sente-se bem? — a pergunta tinha um tom sincero.
— Certamente! — Ele tomou um pouco do leite. — A cabeça dói um pouco, mas não tão intenso.
Num impulso, Emily se aproximou dele para verificar a temperatura. Ela pôs as mãos na testa dele e sentiu aquele respirar pesado de Ian. Ao ir se afastando, notou com o olhar dele era firme sobre ela, o que a fez corar um pouco.
— Está com marca de leite. — Ela quis desviar o assunto.
Pegou um dos guardanapos para limpar, porém deu-se conta tarde demais que aquela não foi a melhor ideia. Estava mais perto. Limpou os lábios dele e naquele instante, lembrou-se de algo que havia jurado aniquilar de sua mente: o beijo.
Ian não pôde deixar de sentir o cheiro de lavanda exalar de Emily, era algo muito bom. Ao tê-la mais perto reparou nos fios de cabelos que caiam sobre seu rosto corado e rosado. Os olhos arredondados e castanhos tinham seu charme. Nunca havia reparado. Naqueles trajes mais humildes a verdadeira naturalidade se revelava. E admitiu pra si que sua noiva era realmente bela
Então, de repente, a porta se abriu e Emily voltou para seu lugar e Ian quis ver quem entrava. Era Madeline outra vez.
— Quis vir informar pessoalmente que o médico chegou. Afinal, não conseguimos trazê-lo ontem a noite. É uma dádiva a presença dele.
Ian e Emily se olharam e qualquer um atento podia ver a confusão imperando no olhar dos dois. Porém, Madeline nada enxergou.
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Veio tarde, mas chegou na sexta! Um abraço e espero que apreciem!
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