CAPÍTULO 4

— O que diabos está acontecendo? - berrei,  era uma pergunta retorica, só precisava colocar meu desespero em palavras. Não esperava por uma resposta, e realmente não recebi uma.

Evitava sair sempre que possível, e quando finalmente saia, coisas extremamente impensáveis aconteciam.

Por reflexo cobri o rosto com as mãos e me encolhi contra o banco, enquanto os vidros do carro explodiam em vários pedaços brilhantes, o carro deslizava na pista de um lado para o outro enquanto Gustavo continuava a avançar como o louco que era. 

Ele foi em direção ao atirador que se jogou sobre a calçada pouco antes de quase ser atropelado. O eco de um tiro muito perto fez meu coração gelar, eu estava em um ponto que a adrenalina bloqueou quaisquer outros sentimentos. Gustavo gemeu ao meu lado, foi um gemido baixo e contido mas eu consegui ouvi-lo.

O carro deu um solavanco pra direita entrando em uma estradinha pequena, que estava ligada a rodovia movimentada, ele entrou na pista costurando entre os carros com as rodas derrapando no processo, em minha cabeça passava um filme muito vivido desse carro capotando.

Um leve latejar na minha têmpora começou, podia ser uma enxaqueca se aproximando ou apenas o estresse por toda aquela situação, eu nem sabia mais.

— Você está sangrando - apontei o obvio enquanto buscava algo para pressionar contra o braço dele onde o sangue escorria, e a camisa estava furada agora por onde a bala passou de raspão. — Acho que vou vomitar...

— Apenas não suje meus pés - foi tudo o que ele disse concentrado na estrada a frente.

Fiquei calada, afinal o que mais poderia ser dito, me ocupei em tomar respirações longas e profundas enquanto pressionava a ferida em seu braço.

— Droga! - Gustavo falou de repente. O seu tom era de chateação, não parecia com medo ou sequer com dor. O carro parou bruscamente e eu fui jogada para frente, o cinto de segurança me puxou para trás ao mesmo tempo e eu não tinha dúvidas de que teria alguns hematomas mais tarde.

Perdi o fôlego ao sentir meu corpo bater contra a porta, meu braço foi basicamente esmagado e minha cabeça se chocou contra o vidro ao mesmo tempo, pisquei sentindo uma dor fina na testa, toquei no local com a ponta dos dedos sentindo o liquido pegajoso grudado neles.

— Droga mesmo! O que diabos está acontecendo? - perguntei a um pé da histeria. — Estão tentando te matar! E vão me levar junto! - acusei.

Ele engatou a ré no carro, e começamos a andar para trás, um carro vermelho passou ao nosso lado, ele era um dos corredores.

— Filho da p... - ele começou.

— Ei, cala a boca! - Mandei arregalando os olhos, meu coração fazendo uma visita à minha garganta novamente, e todo meu jantar querendo sair de dentro de mim enquanto via quatro motos numa formação perfeita abrindo caminho na rodovia. — Temos companhia de novo.

— Segura firme, ainda pretendo ganhar essa corrida. - Ele murmurou, e teve a capacidade de sorrir pra mim, como se nada demais estivesse acontecendo, enquanto voltava sua atenção para a pista.

E ele realmente ganhou a corrida, não de uma forma muito justa, mas ganhou.

Nunca fiquei tão grata por existir viaturas policiais circulando a cidade, como hoje, graças a elas ficamos a uma boa distância dos pilotos. Manu estava bêbada, completamente bêbada e se jogou no banco de trás assim que Gustavo se ofereceu para nós levar pra casa.

Eu estava tentando me convencer de que nada mais louco que isso poderia acontecer.

Mas foi cedo demais.

— O que foi? - ele perguntou sem me olhar, provavelmente cansado de me ter encarando.

— O que foi tudo aquilo? Por quê querem matar você? - perguntei em um único folego, mas não acho que receberia uma resposta verdadeira.

— E quem disse, que querem matar a mim? - ele perguntou. Ergui as sobrancelhas num arco perfeito enquanto o olhava, até ouvi-lo suspirar pesadamente. — Essa pode ser uma longa história.

— Eu acho, que tenho tempo.

Ele sorriu ironicamente.

》《

Quando um professor confunde sua nota com a de outra pessoa, ou quando confundem seu endereço entregando a sua correspondência na rua de trás... isso não é muito desesperador, você consegue resolver em poucos minutos, com uma boa conversa e um pequeno uso da paciência.

Mas o que acontece quando te colocam na mira de um bandido? Isso já é motivo pra ficar noites sem dormi, se sentindo sem saída. É aceitável se sentir desesperada, quando a polícia te confunde com uma criminosa.

Não podem te julgar por surtar, se uma máfia decide que você é o alvo de uma caçada. O que fazer quando se está metida em algo totalmente fora do seu controle?

Eu presava demais a vida, a comida, os livros, as muitas séries que nunca terminei para querer morrer, mas não acho que eu estava numa situação muito boa, para decidir se continuaria viva.

— Você está me ouvindo? - Gustavo perguntou segurando os meus ombros.

— Não, parei de ouvir depois que você disse "deixar a sua família" - pisquei lentamente, processando o balde de informações que ele havia jogado sobre mim.

Na minha cabeça a sequencia numérica se repetia sem parar: -3364254750120297, -5404200856141651 .

— Você está muito calma... - ele apontou.

— Como podem ter me confundido com outra pessoa?

Não confundiram.

— É fácil usar uma pessoa totalmente despreparada como bode expiatório.

— Eu nem sei o que estão procurando!

Eu sabia sim.

— Ninguém vai acreditar em você.

— Por quê?

Por que ele me colocou nessa merda?

— Além do motivo de você está comigo? Eles se perguntariam porque eu perderia meu tempo com uma ninguém... 

É bom que ele acredite que a responsabilidade é dele.

Balancei a cabeça sem saber o que dizer. Isso não era real, coisas assim não aconteciam, não numa cidade esquecida do Brasil, onde a maior criminalidade que acontece são furtos de celulares velhos na maior parte do tempo.

— Olha, eu não te conheço. E sinceramente não me importo com o que vai acontecer. - ele parou passando a mão entre os fios de cabelo. — Se quer ficar aqui, então adeus é boa sorte.

— Eu só... gostaria de entender o que está acontecendo.

Eu só preciso pensar.

— O que você precisa saber é que informações valiosas foram roubadas... e acham que você teve acesso a essas informações.

— E o que eu iria fazer com algo assim?

Nada.

— Se você tivesse acesso a isso, poderia fazer qualquer coisa. Além de tudo, você não é confiável.

Esse era apenas um fato, ele não me conhecia assim como eu não conhecia ele.

— Você também não é confiável para mim. - Dei as costas para ele, caminhando até o limite do velho posto de gasolina fechado.

— Tem algo em você... algo que não sei explicar, mas acho que você ainda vai ser muito útil, - ele deu de ombros e se afastou sem me olhar mais, entrou no carro e o ligou esperando que eu entrasse também.

Um mafioso... Eu estou falando com um mafioso. Isso era tão idiota, muito idiota. Perigoso, por que eu confiaria nele?

Como eu acabei desse jeito?

— Me leve pra casa. - eu pedi, dando um leve tapa no capô do carro enquanto entrava.

— Você não pode ir para casa, - ele me olhou por um longo momento. — Você consegue entender o tamanho da situação em que está metida?

Consigo... melhor do que você possa imaginar.

— Eu considerei simplesmente fingir que nada disso aconteceu.

— Não será possível.

— E por que não? - me virei lentamente para encara-lo.

— Porque... assim que eu for embora, eles virão atrás de você. E de quem estiver por perto.

Meu pai, sempre foi um pai de merda, mas mesmo assim nunca pensei que ele faria algo tão absurdamente errado que me deixasse na linha de fogo.


》《

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