CAPÍTULO 12
América não parecia ela mesma.
Desde que teve seu pequeno encontro com Max Maverick e Rebecca Kale - nome esse que descobri logo depois -, ela andava extremamente concentrada em algo. Apesar de não ter alterado em nada a rotina que tínhamos desde que cheguei, ainda assim eu não tinha deixado de notar a mudança.
Eu tinha acabado de atravessar o pequeno corredor entre as portas do elevador até a sala de estar, América estava em seu mais novo santuário: sentada no longo sofá branco, com seu notebook aberto em seu colo.
— Você vai para Tóquio, - ela falou de repente. Simples assim, girei sobre meus soltos numa volta de 180° perfeita, tudo pareceu voltar para mim como um belo soco no estômago.
— Tóquio? - o eco da minha voz parecia estranho comparado ao silencioso apartamento.
— Acho desnecessário está repetindo o que foi dito.
Ignorei seu sarcasmo, tentando compreender todas as informações colocadas em jogo ali. Porque tão de repente?
Tudo bem, não era como se eu já tivesse ficado ciente de alguma coisa com antecedência, mas dessa vez eu podia sentir em algum ponto dentro de mim, que o que quer que tivesse deixado América tão fora de eixo tinha sido dito durante aquela visita, e isso me deixava extremamente incômoda.
— Por quê? - era meu único questionamento, apesar de saber que não receberia uma resposta real.
— Por que é necessário.
— América... - tomei um longo fôlego, e essa pequena pausa me ajudou a refletir. O que eu iria dizer? O que havia para saber? Nenhum dos problemas dela eram da minha conta, e mesmo que fossem ela nunca confiaria em mim para ajudar.
Suspirei profundamente.
— Vou fazer as malas.
Documentos novos. Lições novas. Informações novas. Parecia um loop infinito e contínuo, chegar e ir embora, de novo e de novo.
— Eu preciso sair, volto em algumas horas, não se preocupe com Jekins falarei com ele depois. - ela comunicou enquanto eu seguia corredor a dentro.
Mudanças são inevitáveis, Melissa disse uma vez. Sofrer por elas é perca de tempo.
Ela tinha saído antes que eu pudesse falar qualquer coisa, não havia muito para levar então foi um trabalho rápido organizar minhas coisas em uma única mala.
Joguei-me sobre a cama, olhando o teto branco e coloquei os fones de ouvidos, as notas musicais abafando o mundo ao meu redor.
Eu não era de ouvir muita música, mas as vezes gostava de parar apenas para ouvir e acompanhar o ritmo. Impaciente com a solidão a minha volta resolvi começar minha sequência de exercícios, normalmente eu estaria indo dormir já que tinha voltado do cassino a pouquíssimo tempo porém o sono não estava nem próximo nesse momento.
Já na sala de treinamento comecei uma sequência de alongamentos, era uma forma de esquecer tudo... esquecer minha família deixada para trás, esquecer todas as coisas estúpida, os antigos mestres exigentes e cruéis demais. Todos os dias treinava, deixando a raiva, arrependimento e frustrações serem consumidos com os treinos, até que meus músculos tremessem, meu corpo doesse implorando por descanso... e ainda sim eu treinava mais, até estar cansada o suficiente para não conseguir pensar.
Eu podia não ter talento para tudo, mas minha determinação não me deixava falhar. E falhar nunca foi uma opção.
Quando minha respiração voltou ao seu ritmo normal apenas um leve zumbido tomava o espaço, era aquele tipo de som que qualquer pessoa que vive ao redor de máquinas conhece, olhei em direção a prateleira que escondia a entrada da sala, e resolvi me aventurar por ali.
Que mal haveria nisso afinal? América não estava no apartamento, e eu estaria indo embora em pouco tempo.
Para minha surpresa, a fechadura eletrônica não estava bloqueada, puxei a lateral pesada para abrir a porta camuflada, a sala estava como sempre muito vazia, as telas brilhando cheias de informações e imagens, o ar condicionado era bem mais pesado aqui do que em qualquer outro lugar do apartamento, na temperatura perfeita para que os computadores não esquentassem em excesso.
Me sentei na cadeira de couro negro, deslizando ao logo da mesa de vidro, todas as imagens das câmeras eram exibidas em tempo real. Mordendo o interior de minha bochecha considerei o que poderia fazer ali.
Foi rápido encontrar o acesso às imagens que eu buscava, e esta dentro do apartamento me dava a vantagem extra de acesso aos áudios acompanhando as imagens, muito mais fácil que tentar ler os lábios a todo momento.
— Tem certeza de que a informação é precisa? - Max Maverick parecia extremamente reticente enquanto encarava a pequena loira a sua frente.
— Eu não estaria passando para vocês se não fosse. - a hostilidade na voz de América era óbvia.
— Você passou bem mais tempo para encontrar essa, - esse foi um comentário feito por Rebecca. América mantinha a coluna muito reta enquanto encarava os dois.
— O que posso dizer? - ela deu de ombros. — Alguns são mais escorregadios que outros.
— Vamos mandar uma equipe de imediato.
— E sobre o Gustavo? - a pergunta me deixou confusa. Esse seria o mesmo Gustavo que eu conhecia?
— Eu já falei para você, tínhamos o rastro em Tóquio, mas alguém chegou antes de nós. - Rebecca falou claramente impaciente. — Não espere uma resposta diferente, porque não vai receber. Não estamos com ele. Pelo que encontramos, e pelo tempo corrido, ele não é considerado mais um perigo em potencial.
Rebecca e Max se ergueram, América continuou no mesmo lugar, eu não podia ver o rosto dela, mas sabia que qualquer que fosse sua expressão não era algo bom de ser visto.
Antes que o casal alcançasse o elevador, América voltou a falar muito mais calma e relaxada que antes, Rebecca interrompeu o passo no mesmo instante.
— Achei sua filha uma criança maravilhosa. - o elogio não parecia nada demais, mas a reação que Rebecca teve indicava o oposto.
— Não acho que minha filha seja da sua conta.
— Não dá minha certamente. Isso deve ser responsabilidade exclusiva da mãe e do pai dela, certo?
Rebecca lançou um único olhar para trás, a sobrancelha bem feita erguida.
— Eu adoraria conhece-la a qualquer dia. - América parecia agora muito bem humorada.
— Isso não estará acontecendo. - foi o único comentário feito antes que ela seguisse Max e as portas do elevador se fechassem.
Que interesse América poderia ter na garota? Lembrei da bebê, seus olhos cinzas e as poucas sardas sobre as bochechas, o sorriso doce infantil, mas ainda assim não consegui relacionar nenhum interesse.
América seria cruel ao ponto de ameaçar um bebê? Eu não saberia dizer.
Amarrei o cabelo em um coque apertado deixando a sala, deixei todos os computadores do mesmo jeitinho que eu tinha achado, fui até meu quarto e peguei minha mochila.
Eu precisava de um tempinho ao ar livre, em meu caminho para o elevador peguei as chaves do carro, havia muitos lugares bonitos em Londres para visitar, muitas coisas incríveis para serem lentamente apreciadas e era isso mesmo que eu pretendia fazer. Caminhei até o carro e joguei minhas coisas lá dentro, sentada atrás do volante tentei pensar no que poderia aproveitar.
Era diferente, a falsa sensação de liberdade que se tem apenas por não estar restrita a um único lugar. Paris e Londres foram dois cenários completamente opostos durante a minha estadia, mas cada um tão aterrador quanto o outro a sua própria maneira.
Não conseguia pensar em nada satisfatório para visitar em meus últimos momentos como inglesa, mas mesmo assim dirigi em meio ao tráfego, pretendia apenas dirigir sem rumo até encontrar um lugar bom para passar o tempo.
Eu sempre quis saber qual era a sensação de se está no centro do mundo. E estranhamente, isso era exatamente o que eu precisava... a ilusão do poder, ter por cinco minutos o controle das minhas próprias escolhas.
Batendo os dedos contra o volante e encarando a traseira dos carros a frente, escolhi onde gostaria de ir.
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