Parte B


—O que raios é isso?

Encaro minhas mãos que agora estão cobertas com luvas. Na verdade, todo o meu braço está coberto. Levo minhas mãos em direção à minha cabeça e confirmo que estou com um capacete. Me viro para a vidraria de uma loja de roupas para ver meu reflexo. Além dos meus braços, todo o meu corpo está coberto por uma roupa/armadura prateada, sem mencionar o capacete. Pisco algumas vezes, impressionada e ainda sem acreditar na imagem a minha frente.

Por que estou com a fantasia da minha personagem do jogo?

Viro-me de forma brusca e dou dois passos para trás para ver o homem e a moça no beco, o homem começa a puxá-la pelos braços para adentrarem no beco. Mordo fortemente meu lábio inferior, apreensiva. Aliás, o quê eu posso fazer? Sou só uma garota de 16 anos. Meu corpo é bem mais pequeno e magro do que o dele. Talvez essa pequena armadura me daria um pouco mais de vantagem, mas seria o suficiente para salvar a garota e salvar a mim mesma? Eu posso acabar sendo pega também. Mas que tipo de pessoa eu seria se eu não fizer nada para impedir?

Fecho meus olhos apertando fortemente minhas pálpebras, tentando tirar essa idéia absurda dos meus pensamentos. Me deparo com a cena deles se afastando cada vez mais assim que abro meus olhos e, instintivamente, jogo minha mochila no chão e começo a correr em direção a eles. Surpreendo-me com a leveza da armadura, pois a mesma aparentava ser pesada, e é tão silenciosa quanto a do universo do jogo. Apresso meus passos e assim que me aproximo bato no antebraço do homem que, ao receber o impacto, solta o punho da garota; o empurro antes mesmo de dar-lhe a chance de olhar para trás. O desconhecido dá vários passos para trás até suas costas se chocarem na parede do lado direito.

—Força aumentada. Então essa armadura tem as mesmas funções da do jogo. — digo baixinho, encarando as luvas em minhas mãos por um breve momento.

Volto meu olhar para o homem que vem correndo em minha direção, seu semblante demonstra raiva apesar da surpresa em seus olhos castanhos escuros. Sua mão com o punho fechado vem em direção à minha barriga, impulsiono meu corpo para o lado esquerdo, agarro seu antebraço e com a minha mão livre dou um soco em seu nariz, logo em seguida o empurro novamente. Ele dá 3 passos em minha direção mas para, pensa por alguns segundos e olha para mim. Sinto um arrepio passar pelo meu corpo enquanto meus olhos se arregalam de medo vendo-o limpar o sangue do nariz com a manga do casaco, olhando para mim com uma expressão indecifrável. Um pequeno sorriso se forma em seus lábios e o mesmo começa a caminhar rapidamente em direção ao beco à nossa esquerda, adentrando cada vez mais a escuridão devido a falta de luz até sua presença se misturar com as sombras.

Suspiro pesadamente, aliviada por não ter acontecido o pior. Faço uma lista de agradecimentos mentalmente até ser interrompida por uma voz feminina. Olho para a garota negra, a mesma realmente tem uma beleza exuberante bem nítida.

—Obrigada, muito obrigada mesmo. — diz com um sorriso aliviado — Quem é você? Posso saber o nome da pessoa que me salvou?

Agradeço aos céus mentalmente pela viseira do capacete ser azul escuro, impossibilitando a visualização exterma de alguma parte do meu rosto. Ouço a voz da garota perguntando meu nome novamente.

—Saia daqui e vá a delegacia o mais rápido possível.

Minha voz sai um pouco mais grave graças ao sistema de voz do uniforme. Dou alguns passos para o lado e começo a correr em direção ao beco do lado direito, misturando-me com a escuridão do mesmo. Olho para trás assim que fico longe o bastante e vejo que a garota já não está mais lá.

—Ok, Shaw — falo com o tom de voz baixinho.

Não sei se isso vai funcionar, mas não custa nada ten...

"Olá. Como posso ajudar?" - deixo escapar um baixo suspiro de alívio ao ouvir a voz dela.

—Há alguma pessoa em um raio de... — olho ao redor — 60 metros quadrados?

A lente do capecete começa a 'dar zoom' nas imagens à minha frente, ampliando minha visão. Me viro lentamente, dando um giro de 360° graus e ouço a voz de Shaw dizendo que não. Começo a pensar em maneiras de como tirar essa coisa para voltar ao normal e lanço a primeira tentativa:

—Hum...tirar armadura? — nada — Desativar sistema jogo — sem respostas — Desativar sistema gamer — pisco e vejo minha mãos descobertas. Olho para o meu corpo, vendo minha farda da escola. — Que rápido.

Caminho em passos rápidos porém cautelosos até a saída do corredor para voltar à rua central, verifico se a garota do incidente está por perto e ao não avistá-la volto para o local onde deixei minha mochila, pego a mesma e volto a caminhar normalmente. Passando pela loja de imóvel onde eu iria entrar vejo que está fechada e decido seguir em frente, entro em outra loja um pouco mais à frente, faço a compra de uma tv parecida com a que eu tinha e pego um táxi para voltar para casa.

[...]

Após o jantar sento-me no sofá da sala para assistir televisão já que a minha só será entregue amanhã, mas apesar de tentar concentrar-me na série, minha mente resolve vagar e relembrar o ocorrido de quase duas horas atrás. Apesar do perigo, confesso que eu gostei. Gostei de ter lutado de verdade pela primeira vez, gostei da sensação de adrenalina correndo por todo o meu corpo e gostei principalmente da sensação de ter salvado alguém. Um sorriso involuntário se forma enquanto me lembro do olhar de alívio da garota.

Poxa, eu ajudei a evitar que ela passasse por um trauma.

Minha vontade é de sair do sofá para dar pequenos pulinhos, mas me contenho com apenas um largo sorriso e pego o controle para mudar de canal. Passo vários canais, procurando algo que me interesse. Prestes a passar um dos canais de jornal, ouço a frase "tentativa de estrupo" e detenho meu dedo, fixando minha atenção na tela para ouvir atentamente.

"A jovem de 17 anos que prefere não se identificar disse à polícia que foi salva graças a uma garota mascarada e até mostrou uma foto que tirou das costas da garota misteriosa que, após comparações, foi confirmada ser idêntica à fantasia da personagem gamer do novo jogo de fonte desconhecida."

Meus olhos se arregalam à medida que ouço as palavras do apresentador. Uma foto das minhas costas com a armadura aparece na tela ao lado da foto das costas da fantasia da minha personagem. Pela minha rápida análise da foto, a mesma foi tirada quando eu estava caminhando para o beco mal iluminado.

Ferrou. Ferrou. Ferrou.

"Será que está nascendo uma heroína?" - a voz do apresentador retoma, deixando minha mente um caos - "E o número de jogadores desse novo jogo só aumenta. As lan houses nunca estiverem tão lotadas em 5 anos quanto agora. Apesar de todo o custo com os equipamentos de ponta que ainda estão escassos no mercado brasileiro, os resultados estão fazendo o investimento valer a pena."

Não, não, não. NÃO.

Meu desespero interno é interrompido pelo barulho de chamada no meu celular. É Max. Pego o aparelho imediatamente e atendo.

—Você viu? — perguntamos em uníssono. É uma raridade nos cumprimentarmos por ligação ou mensagem, como ele sempre diz: É uma perda de tempo.

—É você não é?

Um curto silêncio se segue após sua pergunta. Mordo meu lábio inferior, não há como dizer não.

—Mas...como? — persiste, sua voz deixa claro a surpresa e confusão.

—Eu também não sei. Acredite, minha surpresa foi...enorme. Ainda não entendo como isso aconteceu.

—Você fez uma fantasia igual à gamer?

—Não, claro que não seu maluco. — olho para os lados para ver se meus pais não estão por perto e volto minha atenção para a voz de Max da outra linha.

—Então como? De onde isso saiu? Deus...eu não estou entendendo nada.

—E você acha que eu estou? Olha, eu explico direitinho amanhã na saída da escola. Pede para a sua mãe para você vir aqui em casa.

—Tá bom...tá bom. Mas vou querer até os mínimos detalhes.

—Eu sei — dou um fraco sorriso — Tchau.

Me levanto logo após ouvir Max se despedir, desligo a tv e caminho em direção ao meu quarto, tranco a porta e me jogo na cama.

O que eu vou fazer para consertar essa merda toda?

 
______________________________________
 
 
Desculpa a demora, prometo que das próximas vezes será mais rápido. Se gostou não se esqueça de curtir e comentar o que está achando.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top