Parte B

[...]
 
  
Abro lentamente os olhos, mas fecho rapidamente devido à luminosidade.

—Doutor...ela está acordando.

—Graças a Deus.

Mesmo com os olhos fechados e me sentindo meio zonza e sonolenta, identifico a voz de minha mãe pronunciando a última frase. Pisco os olhos três vezes antes de abri-los por completo. A minha cabeça dói com zumbidos que parecem ruídos de falhas técnicas e meu estômago parece um buraco negro de tão vazio que está.

Olho lentamente ao redor da sala do hospital, vendo a enfermeira e os meus pais com expressões de alívio enquanto a do doutor é de surpresa. Por que estou aqui?

—Isso é incrível. — diz ele — A passagem de corrente elétrica pela cabeça acarreta parada cardiorrespiratória, mas...os exames não deram nenhum sinal de que isso tenha acontecido. Sem mencionar que a carga elétrica percorreu todo o seu corpo e não houve traumatismos ou sequer queimaduras, apenas um longo desmaio.

—A quantas horas estou aqui?

—Horas? Você está aqui a quase 3 dias e meio.

Abaixo minha cabeça que ainda dói e direcionando meu olhar confuso para baixo.

Eu fiquei desmaiada por quase 86 horas?

—Está sentindo algo? — ouço o médico.

—Sim — confirmo levantando a cabeça — Fome.

Ouço as pessoas rirem baixo e me pergunto qual foi a graça. Passei 3 dias e meio desmaiada, não acho engraçado o fato de eu estar com fome. Reviro os olhos e começo a me levantar da cama.

—Você ainda não pode...

—Desculpa doutor, mas estou deitada a 3 dias e meio, preciso levantar.

—Tudo bem — um suspiro acompanha sua frase.

—Venha filha, você precisa de um banho.

Confirmo com um leve aceno de cabeça para minha mãe e me levanto por completo...
 
[...]
 
—E agora, como está se sentindo?

Desvio o olhar da minha refeição para os olhos de meu pai.

—Muito melhor. — respondo levando a última colher à boca.

—Três vezes...e com o prato cheio. Realmente você estava com muita fome.

—Você não imagina o quanto, mãe.

Com um sorriso de satisfação olho para ela e em seguida para meu pai. Neste momento me dou conta de que a dor de cabeça passou e logo o acontecimento daquela noite vem à minha cabeça.

Minha tela...

—Minha tela...quero dizer televisão...

—Está queimada — meu pai me interrompe — Como você levou um choque pela televisão? — pergunta confuso.

Faço uma expressão como a de quem não sabe e olho para Max entrando na sala de jantar.

—Graças a Deus você está bem.

Inevitavelmente um sorriso se forma em meu rosto ao ouvi-lo e me levanto para abraçá-lo. O mesmo me envolve em seus braços com força.

—Fiquei tão preocupado — confessa enquanto nos afastamos — Todos nós ficamos.

—Mas o pior já passou. Mãe, pai, com licença. Vem Max. — pego em sua mão e começo a puxá-lo.

—Olá senhor e senhora Duarte. — diz ele enquanto o arrasto para o segundo andar, atravessamos o corredor e entramos em meu quarto.

—Calma Sol, você acabou de acordar de um longo desmaio. Não deveria estar descansando?

—Eu dormi durante 86 horas — lanço um olhar incrédulo em sua direção — Estou bem descansada.

Arqueio levemente uma de minhas sobrancelhas, encarando-o. Sua expressão de que "Faz sentido" é engraçada, o que me faz rir por um breve momento.

Os olhos de Max deixam os meus e olham para trás de mim. Sigo seu olhar e vejo que a televisão ainda continua aqui. Com alguns passos lentos me aproximo, observando o estrago que a corrente elétrica fez nela. Uma pequena parte do vidro dos cantos superiores direito e esquerdo estão rachados, assim como uma parte do canto inferior direito e uma parte do centro.

—Como isso aconteceu?

Inclino minha cabeça um pouco para o lado sem desviar meu olhar da tv. Fecho meus olhos devagar e vislumbres invadem minha mente.

—Eu estava prestes a dar o golpe final no soldado medieval que estava no córrego protegendo a porta da terceira fase quando senti eletricidade fluir dentro de mim. De repente meu campo de visão saiu do virtual para o real, foi então que eu percebi que a corrente elétrica passava pela tela, pelo capacete e pelo o meu corpo. — abro os olhos e me viro para Max atrás de mim — Max... — olho diretamente em seus olhos — Apesar de ter durado apenas instantes, eu sei o que vi. A intensidade da corrente elétrica estava forte. Olha os danos à televisão e comigo...o doutor disse que os exames não deram nada. Não estou reclamando, mas é estranho. Ou talvez um milagre. Mas o capacete estava em minha cabeça.

Pisco os olhos algumas vezes repetindo mentalmente a última frase e olho ao redor do quarto.

—A propósito...onde está o capacete?

—Não tinha capacete quando os seus pais lhe viram.

—Como assim? — com um olhar confuso olho para ele.

—Eu perguntei aos seus pais o que aconteceu. Eles disseram que houve um curto circuito um pouco depois de eu ter saído, imediatamente subiram ao seu quarto e viram você deitada no chão em frente à tv, que estava com algumas partes rachadas. Tentaram acordá-la, mas não tiveram sucesso e levaram-na para o hospital. Pelo visto parece que eles nem sabem a existência desse capacete, mas o jogo está começando a fazer polêmica entre os pré-adolescentes e jovens.

Minha expressão de total confusão dá a ele incentivo para continuar.

—De alguma forma o curto circuito publicou o jogo anonimamente.

Sua expressão é de preocupação, não sei se pelo ocorrido ou de como será minha reação.

Desvio meu olhar dele e olho novamente para a tv. Se antes eu estava confusa, imagine agora.
Novamente ouço zumbidos que parecem ruídos de falhas técnicas, mas dessa vez está mais fraco. Ouço Max falar meu nome enquanto coloca sua mão em meu ombro, me perguntando se está tudo bem.

—Sim, é só...uma leve dor de cabeça. — respondo me forçando a dar um sorriso.

—Você precisa...

—Max — a voz de meu pai o interrompe e faz com que olhemos para ele encostado na porta — Estou de saída para o trabalho. Não quer vir comigo? Você tem aula em uma hora.

—Eu também...

—Não — nega meu pai antes mesmo que eu posso terminar de falar — Você vai ficar aqui repousando, sua mãe Anne ficará aqui caso você precise de algo.

Suspiro concordando com a cabeça, vejo meu pai sair e Max se virar para mim. Apesar de ser péssima com leitura labial, identifico facilmente seus lábios se moverem em um 'Até', seguido de um rápido beijo em minha testa e logo o observo sair e fechar a porta.

Olho para a tv e em seguida caminho até a minha cama, pego meu celular debaixo do travesseiro e me deito. Ao desbloquear a tela percebo que hoje é terça-feira.
 
Terça-feira...

—Hoje é o aniversário do Max.

Me levanto rapidamente e saio do quarto.

—Mãe — grito descendo as escadas. Ela aparece no corredor com um olhar de repreensão. — Hoje é o aniversário do Max.

—Sim, eu sei. Mas ele desmarcou a festa. Estava mais preocupado com você.

Agora vou me sentir culpada.

—Vou ligar para a senhora Maura. Vamos fazer a festa, pelo menos entre nós mesmos.

—Sol...você deveria ficar de repouso.

—Eu já repousei até demais, mãe. Agora vamos comprar as coisas.

Vejo minha mãe suspirar, se rendendo, e pegar as chaves do carro em sua bolsa. Disco o número de Maura enquanto sigo minha mãe.
  
[...]

—PARABÉNS PRA VOCÊ, NESSA DATA QUERIDA...

Um coro — talvez um pouquinho sem harmonia — se forma assim que Max aparece na porta de entrada da sala de estar. Seus lábios, que estavam em uma linha reta, se curvam para formar um belo sorriso enquanto se aproxima da mesa. Mesmo cantando e batendo palmas, sigo seu olhar em direção ao bolo com decoração da primeira equipe dos Vingadores. Max com certeza deve estar se sentindo uma criança, mas tenho certeza que está contente por alguém ter lembrado de algo que ele gosta.

E quem foi esse alguém?

—Estou me sentindo uma criança de 8 anos. — diz ele com um tom brincalhão assim que terminamos de cantar — Isso só pode ter sido idéia de uma pessoa. — o mesmo desvia sua atenção do bolo para direcionar seu olhar para mim.

Olho para a direita e para a esquerda, logo em seguida me volto para ele, fingindo um olhar desentendido em sua direção.

—Não estou entendendo.

Risadas se espalham pelo local de forma a encher a sala com uma alegria contagiante. Max balança a cabeça negativamente, fingindo desaprovação. Pego o presente sob a mesa à minha frente e estendo para ele.

—Por quê você cancelou a festa?

—Não faria sentido eu comemorar um ano de vida a mais, sendo que minha melhor amiga estava no hospital desacordada por mais de 45 horas. — responde enquanto recebe o presente.

Um sorriso instantaneamente ilumina meu rosto e me aproximo para abraçá-lo ao mesmo tempo em que pronúncio a palavra 'Parabéns'. Me afasto assim que o abraço é desfeito enquanto o senhor e a senhora Andrade se aproximam para abraçar o filho, seguidos de alguns tios, primos, avós e meus pais.

Assim que os abraços acabam e os presentes são dados, Max se coloca em frente ao bolo e começa a partir o mesmo em fatias.

—Vamos pular a parte de primeiro, segundo e terceiro pedaço. Todos já sabem que o primeiro é para os meus pais, e os outros dois eu prefiro omitir.

Dito isso todos concordam e, passado alguns minutinhos, somos servidos...
 
 
  
Prestes a levar o segundo pedaço de bolo à boca, ouço zumbidos que parecem ruídos de falhas técnicas e olho ao redor da sala. As pessoas estão todas sentadas mais conversando do quê comendo e parecem não estar ouvindo o barulho. Observo rapidamente a tv e alguns outros aparelhos eletrônicos, mas todos parecem estar em perfeito estado.

Uma dor aguda invade o centro de minha testa, fazendo-me suspirar sem paciência. Me levanto e caminho silenciosamente até o banheiro, apenas encosto a porta e me viro para olhar meu reflexo no espelho, observando rapidamente os meus longos cabelos castanhos que se encontram em um coque frouxo moderno antes de fechar os olhos e levar minha mão direita ao centro de minha testa para começar a massagear levemente. Ainda massageando abro os meus olhos e, involuntariamente, os mesmos se arregalam com o reflexo emitido pelo espelho.
 


____________________________

Perdoem-me a demora, eu ando bem procrastinadora esses dias

Espero que estejam gostando💙

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top