1. AKEMI VARTAN
Fogo.
Minha casa está em chamas.
Percebo isso antes mesmo de abrir os olhos, sinto o cheiro de fumaça e está quente.
Me levanto da cama depressa, deve ser umas três da manhã.
Olho em volta, não há fogo no meu quarto, mas há fumaça. Pelo vão debaixo da porta consigo ver um clarão, corro e abro a porta.
—Que porra é essa?-pergunto alto.
O corredor está sendo tomado pelo fogo, os quadros estão em chamas a parede oposta está preta de fuligem.
Instintivamente corro em direção ao último quarto do corredor. A porta está aberta.
— Pai???- grito e começo a tossir.
No quarto de papai o fogo está em um estágio mais avançado do que o meu.
Porém não vejo ninguém.
Depois de ter certeza que o cômodo está vazio volto para o corredor e desço a escada tossindo.
— Pai? Cadê você?
Antes de alcançar o último degrau meu coração acelera.
Meu pai está caído no meio da sala.
Ele é baixo, moreno, todo tatuado, por ter cinquenta anos o seu cabelo e barba são grisalhos, os olhos da cor dos meus, castanhos.
Quando me aproximo vejo que seu pijama está encharcado de sangue.
Estremeço.
— Pai, pai...
Não consigo dizer mais nada. Lágrimas borram minha visão.
Deito a cabeça dele em meu colo.
Ele grunhe.
—Akemi...
Meu pai foi baleado.
Minha casa está em chamas.
— Pai quem fez isso?-digo entre soluços.
— Fulgaz...e o pessoal... e o pessoal dele.
Ele tem uma crise de tosse.
Alguma coisa explode no andar de cima, pedaços de madeira caem atrás de mim. O fogo está avançando.
—Calma. Fica comigo. Eu vou tirar a gente daqui.
Faço um esforço pra levantá-lo ele geme em protesto.
— Não, filha! Vá...
Sua voz é um sussurro agora, ele demora para abrir os olhos quando pisca.
— Não. O senhor vai comigo.- recomeço chorar.
Olho para os lados procurando uma saída, mas o fogo já se espalhou por todo canto. Há uma saída pela janela mas é alta e vou ter que pular, não conseguirei levar meu pai.
O sentimento de derrota se apossa de mim.
— Akemi... vá. Eu não vou viver. Essa é minha casa. Por favor... vá
Eu balanço a cabeça em protesto. Vou levar o meu pai. Ele vai viver, eu sei que vai.
Porém no instante em que tento suspendê-lo seus olhos ficam vidrados e seu corpo amolece.
Meu pai morreu.
Mataram meu pai.
Incendiaram a minha casa.
Eu grito. Grito tanto que minha mandíbula dói.
Abraço o corpo do meu pai sem vida soluçando.
Ele era a minha família. E eu era a dele.
Sempre foi só nós dois. Minha mãe morreu no parto.
Meu pai era um rico tatuador, mestre em artes marciais e meu herói. Homem mais feliz que já conheci na vida. Por ser um famoso tatuador ele tinha vários amigos, dentre eles aqueles que a sociedade tinha um certo medo.
Mas apesar de tudo ele era justo, feliz e me amava.
Ah pai....
Outra explosão acontece e eu sou trazida de volta.
A fumaça me sufoca. Sei que se continuar ali vou morrer também.
Corro em direção da janela.
No andar de baixo fica o studio do meu pai, não é muito alto, a distância da janela pro chão é quase cinco metros.
Abro a janela e sinto o alívio imediato quando uma brisa passa por meu rosto. Mas a sensação não dura muito. Há um metro da janela tem uma árvore, meu objetivo é pular na árvore evitando virar panqueca. Subo na janela e me inclino pra frente, não me dou tempo pra pensar e pulo.
Minhas mãos agarram galhos, mas deslizo pro chão. A queda não dói.
Olho pra minha casa e o studio em chamas. Assim que eu começo a correr em direção da rua dou de cara com vários homens armados.
O do meio, alto forte, cabeça raspada é o líder deles.
— Fulgaz.- simbilo.
Um pequeno sorriso aparace no canto da boca de Fulgaz.
— Pensei que tivesse virado churrasco Akemi.
Seus capangas riem.
Meu segue ferve de raiva, avanço em sua direção.
— Você matou meu pai seu filho da puta!
Paro imediatamente, todos os capangas dele apontam as armas pra mim.
Meu olhar é de ódio.
Sou uma garota com raiva, mas não sou uma garota burra.
— Seu pai não quis prestar lealdade mim. Então, depois de ter dado várias chances a ele, minha paciência acabou e então tive que matá-lo.
Engulo a raiva de dentro de mim. Minha vontade é de socá-lo até a morte.
Fulgaz é o novo dono da cidade, ele opera em tudo, tráfico, prostituição, contrabando. Só que pra chegar onde chegou ele teve que matar o antigo dono, que era o melhor amigo do meu pai.
É lógico que meu pai jamais se juntaria a Fulgaz depois da morte do amigo.
— Isso não vai ficar assim.- ameaço.
Fulgaz estala a língua.
— Akemi, deixe disso. Nós podemos ser amigos.- ele exibe um sorriso- eu posso ajudá-la.
É a minha vez de ri. Minha risada sai seca.
— Ajudar? Você não ajuda ninguém Fulgaz.
Ele cruza os braços.
— A proposta que tenho pra você é boa. Você perdeu tudo, não tem nada, então passa a trabalhar pra mim eu te ajudo. Pago muito bem.
Ele gesticula com a mãos para os capangas que concordam silênciosos.
— Nem morta.- cuspo as palavras.
Ele se aproxima. Seu cheiro é doce. Enjoativo.
O filho da puta usa perfume feminino.
— Então vou ter que matá-la.
Tento esconder o medo.
Um cara bigodudo aponta uma arma pra mim e espera a ordem de Fulgaz.
— Então?- ele quase sussurra.
Mesmo diante da morte fico calada. Não vou ceder de jeito nenhum. Eu e o bigodudo encaramos Fulgaz a espera da ordem da minha execução.
Ele dá um passo pra trás.
— Vou mostrar como sou generoso. Você tem cinco horas pra decidir entre se juntar a mim ou ir embora da minha cidade, depois disso se você ainda estiver aqui e recusar minha ajuda eu vou matar você. Mas antes- ele me olha de cima abaixo- vou brincar com você até cansar.
Ele ri e seus capangas também.
Ouvimos sirenes, é o corpo de bombeiros se aproximando.
Fulgaz e seus capangas desaparecem nas sombras.
Sem perder tempo me viro pro lado oposto, pulo a cerca viva que separa minha casa do vizinho e corro.
Meu pai está morto.
De repente meu corpo trava.
Meu pai.
Meu pai.
Lágrimas descem.
Não posso ficar aqui. Tenho que correr.
Mas meus pés não obedecem.
Mais lágrimas escorrem pelo meu rosto.
Mataram meu pai.
Não tenho mais nada.
Começo a tremer descontroladamente.
Ando sem saber pra onde ir.
Os sons das sirenes ficam mais altos.
Cambaleando percebo que estou na calçada.
Um cachorro late.
Alguém grita. Não sei se é pra mim.
Outra onda de tristeza me invade e eu recomeço o choro.
Alguém toca meu ombro.
— Moça você está bem?
Eu me viro e vejo uma mulher. Não sei quem é, ou meu cérebro se recusa a reconhecê-la.
— Akemi? Foi na sua casa? O fogo?
Não respondo. Tento limpar meu rosto.
— Você tem que ir ao médico. - ela me examina melhor- Meu Deus, você está sagrando!
Olho pra baixo, minhas roupas estão manchadas de sangue, assim como minhas mãos.
Preciso sair daqui.
— Não, não é meu...
Tento dizer.
- Vamos vou pedir ajuda.
Ela pega meu braço, porém eu me desvencilho.
— Eu estou bem! O sangue não é meu. Eu quero um celular.
Uma ideia surge em minha mente.
A mulher me encara espantada.
— Como?
— Preciso fazer uma ligação. Você pode me ajudar?
Ela balança a cabeça.
— É claro!
A mulher meche no bolso do casaco e tira um celular prateado de lá.
Eu pego ainda me tremendo e dígito os números, agradecendo ao meu cérebro por lembra no meio desse caos.
Chama.
Chama.
—Alô?
—Tadeo? Tadeo, sou eu Akemi.
—Akemi!? Que saudades de você? Mudou de número?
—Tadeo, preciso da sua ajuda.
—O que foi? Aconteceu alguma coisa?
—Não dá pra explicar agora. Tem como você me buscar na estação central?
Silêncio.
— Claro. Lógico! Estou por perto então não vou demorar. No máximo trinta minutos.
Conheço Tadeo a muito tempo, ele foi aluno do meu pai e nós nos tornamos amigos. Apesar da distância, ele mora em outra cidade, sempre mantivemos contato.
— Não posso acreditar.- Ele diz pela milésima vez, batendo na mesa.
Durante as duas horas de viagem eu só chorei silenciosamente no banco do carona. Tadeo só me perguntou o que aconteceu perto da casa dele.
— Vou matar ele, Akemi. Eu juro. Vou juntar um pessoal e matar todos eles.
Tadeo é matador de aluguel.
Eu me levanto da cadeira.
—Não jure. Quem vai matar aquele desgraçado sou eu.
Tadeo fica em silêncio.
— Tem razão a vingança é sua. Mas se você precisar de ajuda eu te ajudo.
Fico olhando pra fora da janela.
Tadeo mora em um apartamento de luxo no centro de Los Angeles.
— Pode ficar aqui o tempo que precisar.
Me viro e encaro meu amigo.
Ele não mudou muito desde a última vez que nos vimos.
É alto, cabelos pretos, rosto fino, sombrancelhas grossas e bem feitas, olhos bem redondos e castanhos, magro.
Se você o visse o acharia lindo, até ele te matar.
— Obrigada Tadeo. Mas se você me conhece sabe que não vou aceitar.
Ele lança um sorriso triste.
— Eu sei. Mas o que você vai fazer? Você não tem dinheiro.
— Eu sei. Mas posso arranjar. Trabalhando.
Ele franze a testa.
— Como? Servindo mesas em uma cafeteria?
Um sorrisinho zombeteiro aparece em seu rosto.
— Se for preciso. Sabe de algum lugar que precise de gente? - pergunto esperançosa.
— Não. Não em um lugar desses.
—Qual então?
Ele me encara.
—Você pode trabalhar comigo.
Faço uma careta.
— Com você? Tipo matadora de aluguel?
Não consigo acreditar no bagulho.
— É. Ah, qual é Akemi!? Seu pai falava que você atira bem pra caramba.
É verdade. Meu pai me ensinou a atirar na adolescência, depois de um tempo fiquei melhor que ele.
— E luta. Seu pai era mestre, caramba! Você vai se dar bem.
Eu não quero viver as custas de Tadeo. Vou me sentir uma bosta se aceitar viver as custas dele. Porém preciso de um um emprego. Agora matar?
Diante do meu silêncio Tadeo continua.
— É isso ou virar stripper no Paraise.
Penso nas alternativas.
— Estão precisando de gente lá?- pergunto indecisa.
Tadeo segura o riso.
— Estão. Mas é sério?
Não sei na verdade. Não sou nem um pouco sensual. Mas já fiz aula de dança, meu pai me obrigou a fazer dizendo que era uma vontade da minha mãe. Agora isso vai me servir pra alguma coisa.
Pagar mico eu não vou.
Além do mais vai ser por pouco tempo até eu me estabilizar financeiramente.
— Dançar num cano deve ser mais fácil do que matar alguém.- digo.
Tadeo ri.
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