16 Anos
— Durante o ensino fundamental, você tinha a Sabrina como amiga mais próxima, talvez pelo gosto musical e a leitura que aproximou mais vocês. No ensino médio, de quem se tornou mais intima?
— Melissa. Ela parecia entender melhor toda minha restrição. Os pais dela eram donos de uma lanchonete que ficava próxima a casa do vô Carlos, e entendia também a questão de ter a casa dividida já que ela morava no fundo da lanchonete.
— Hoje em dia, vocês ainda se falam?
— Não. Não sei exatamente o que houve entre nós, nos dois primeiros anos do ensino médio, fazíamos todos os trabalhos juntas, tarefas, quando éramos liberadas mais cedo das provas eu ia para a casa dela. Porém depois de algum tempo, a relação dela com a Julia ficou mais sólida, não achei ruim obviamente, só que Julia não entendia tão bem minha situação quanto Melissa, até chegar ao ponto de que o assunto entre as duas, era eu.
— Sabe qual o assunto?
— Que eu não saia, que era escandalosa, sem estilo, mentirosa. O que não era mentira, não podia sair, quando podia extravasava, a situação financeira não permitia comprar roupas todo mês e para ela eu mentia que não queria sair porque minha mãe não deixava. E com tudo isso, eu me sentindo ameaçada até pela Julia, virei uma pessoa manipuladora. Eu tinha tanto receio de perde o pouco que eu tinha, que mentir e manipular se tornou algo do meu dia a dia.
— E isso não é nada saudável. Vocês não permaneceram unidas até o fim da escola?
— Não, não sei exatamente o que aconteceu entre elas mas se afastaram, consequentemente nós três já que a amizade não era tão pura.
— Você sentia falta da companhia delas? Tentou se aproximar?
— Sim e sim. O empecilho se chama orgulho, ninguém queria ir na outra e no fim, saímos da escola com magoas.
— Um detalhe que percebi em você, foram as mudanças de roupas. De um dia para outro começou a usar roupas largas.
— Ah sim, marcam menos o corpo.
— Por que essa mudança?
— Na época não tinha entendido direito o que aconteceu, a ficha só caiu depois. Um dia quando fui atravessar uma rua, na ocasião em que estava indo para casa do vô Carlos, uma moto parou para que eu pudesse atravessar e eu escutei "e esses peitões ai". Não dei moral porque minha cabeça estava no mundo da lua. Sinceramente comecei a pensar que estava perdendo a audição, passei a ignorar tanta coisa, fingir que estava escutando que esse se tornou meu normal. Enfim, quando cheguei na casa do vô que me dei conta do que o rapaz disse e olhei para minhas roupas, estava de regata e bermuda até na altura dos joelhos.
— E por que suas roupas deveriam ser a causa de um assédio?
— Nem sabia o que significava assédio. Tenho os seios grandes sim, é genética, mas nunca tinha escutado algo parecido e não gostei. Na primeira vez que falei por alto com a mãe Fernanda que queria fazer redução de seio, ela simplesmente disse "tire essa ideia da sua cabeça", depois dessa nem tive coragem de contar o que aconteceu.
— Por que?
— Tudo o que eu falava e era contra o que ela pensava, ficava o resto do dia repetindo e repetindo o mesmo argumento e remoendo, como se só tivesse aquilo para falar e fazer, minha cabeça doía do tanto que ela falava.
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