Tsunade Shiina - 14/01/2019

  Despertei em meu quarto, com aquela luz solar irritante que vinha da janela. Me virei e puxei a coberta que estava até meus ombros comigo, tapando meu rosto e me escondendo debaixo dela, em uma tentativa um tanto fútil de me proteger da luz e continuar dormindo. Mas eles não iriam me deixar dormir. Aqueles "Tic, tac, tic, tac", produzidos pelo meu relógio despertador que ficava na minha cabeceira. Ainda um pouco sonolenta e irritada por não mais conseguir dormir, peguei o relógio com ambas as manuais e então consultei as horas. Era o mesmo horário no qual eu sempre acordava. Às sete da manhã, quando a luz do sol se tornava forte o suficiente para atravessar minhas cortinas e me acordar em minha cama. Adoraria que mamãe ou uma das minhas irmãs trocasse de quarto comigo. Yoko — minha irmã mais nova — dormia em um quarto onde a luz do sol apenas alcançava quando estava se pondo, quando ela estava chegando de sua escola e jantando. Ela sim tem sorte, pois pode dormir até as onze todos os dias. Mas hoje era sábado. E do mesmo jeito, ali estava eu, de pé, para fazer absolutamente nada. Fiquei parada em cima da cama, com as cobertas jogadas sobre o meu colo, olhando para a parede, ainda aproveitando o fato de que eu teria um longo dia sem nada para fazer. Quando o sono finalmente foi embora e o tédio bateu a porta, levantei a destra e coloquei em frente a minha boca, soltando uma pequena baforada — para, sabe como é, ver como estava a situação. Quase caí para trás com aquele maldito fedor, que insistia em voltar todas as manhãs. Parecia que era a boca de um cachorro, meu Deus! Afastei as cobertas e joguei minhas pernas para o chão, ficando de pé. Fui andando através de meu quarto feito uma zumbi, querendo ir até o banheiro, que ficava um pouco mais adiante no corredor. Abri minha porta para ver que não havia ninguém acordado ainda. O piso de porcelana branca não produzia quase nenhum som quando se anda sobre ele, mas deixava uma sensação estranha e irritante nas solas dos pés, pois o suor se adere quando se pisa nele. Abri a porta do banheiro sem nem bater, pois sabia que todos da minha família ainda estavam dormindo. Claro, com exceção de Rina — minha mãe, que tinha seus trinta e dois e era solteira, sendo a chefe da família —, que deveria estar acordada desde as cinco, como era de costume. Como ela tinha que cuidar da família, levantava sempre bem cedo, não importando o dia. Mas ela não estaria no banheiro a essa hora, disso eu tinha certeza. Ela deveria estar lá embaixo, na cozinha. Após fazer minhas higienes básicas e tomar um banho, fui até meu quarto novamente. Cara, como eu precisava daquele banho. Havia um certo vento frio que entrava durante a noite, mas tinha um certo momento, no qual parecia que estar debaixo das cobertas era estar dentro de um forno. Uma vez no meu quarto, peguei o meu tipo de roupa favorita para aquele tipo de dia: uma bermuda curta — não daquelas que ficaram populares recentemente, que parecem mais uma calcinha de jeans, mas aquelas que eram conhecidas como curtas antes, elas cobriam até a metade de minhas coxas, e não eram tão apertadas assim, deixando meus movimentos livres — e uma camiseta bem simples, de cor branca e com algumas decorações em rosa, também do jeito que eu gostava, favorecendo a liberdade dos meus movimentos. Depois peguei uma sandália qualquer, que ainda tinha meu tamanho por algum milagre, e coloquei sob meus pés. Não sei porque, mas amava o barulho que faziam quando a parte de trás batia contra o chão. Então, fui descendo as escadas — feitas de degraus de madeira — bem rápido, o que produziu um grande e satisfatório barulho. "Se eu estou acordada, vou fazer questão de que todos possam saber e acordar também", pensei, pulando do antepenúltimo para o último degrau, fazendo mais barulho ainda. Sorri para mim mesma e então fui para a cozinha, vendo mamãe, que estava preparando algumas panquecas. Ela era uma mulher alta e de postura altiva, que tinha traços faciais bem joviais, somados ao seu cabelo negro e curto que ia até a altura de seus ombros. Tudo nela indicava que as pressões que sofreu ao se tornar alpha da alcateia aos dezesseis não a afetaram em nada. Muito menos ser mãe solteira de três filhas, já que ela sempre dizia que amava cuidar da gente como sendo mãe e pai.

—Bom dia, mamãe — Disse, feliz e sorrindo.

—Bom dia, querida — Ela respondeu, com um sorriso diferente —Fez questão de acordar todas as suas irmãs enquanto descia, né?— Disse, enquanto jogava uma panqueca para o ar com a frigideira.

  —O que posso dizer em minha defesa — Comecei, em um tom brincalhão —Direitos iguais.

Ela deu uma pequena risada e voltou sua atenção para as panquecas. Eu me sentei a mesa e fiquei ali, esperando que minhas irmãs descessem para o café e que mamãe terminasse as panquecas. Aquele cheiro era de enlouquecer. Ela sempre fora muito boa em preparar as melhores comidas que se pode imaginar. Uns vinte minutos depois, mais ou menos, ouvi minha irmã mais velha descer as escadas, reclamando com o próprio vento. Mayumi era uma mulher de vinte e dois, que continuava na família e na alcateia devido a posição que recebeu desde seu nascimento. Tinha longos cabelos de cor preta— como havia herdado de mamãe — com as pontas tingidas de loiro claro, conseguindo um belo contraste, que caía bem em sua pessoa. Sempre tinha um semblante um tanto quanto fechado, e, geralmente, era mais isolada. Era bem alta, ainda como mamãe, e todos diziam que seus lábios eram iguaizinhos aos dela. Como eu disse antes, ela tinha uma posição importante na alcateia. Mayumi foi escolhida para ser beta e a próxima líder da alcateia. Ou seja, suceder mamãe. Esse é um cargo extremamente importante, ser a filha da líder da alcateia, e sempre garantiu que todos a tratassem com respeito. Acho que ela não gosta muito de ser tratada de forma diferente, e esse jeito isolado e exigente pode ser devido a isso. Ela entrou na cozinha, me fuzilando com um olhar mortífero —  que me fez sentir como se ela fosse saltar na minha garganta a qualquer momento. Engoli em seco, sorrindo de forma nervosa —, e se sentou em uma cadeira a minha frente, movendo sua cabeça para olhar para mamãe, por cima de seu ombro. 

—Bom dia, mãe — Mayumi disse, soltando um bocejo longo e se voltando para a frente, começando a passar seu dedo na superfície de madeira da mesa.

—Bom dia, querida — Ela respondeu, ainda focada em preparar as panquecas. —Ah, como querem suas panquecas?

 —Eu quero salgadas, com bacon — Disse Mayumi, ainda com seu tom sério e fechado que sempre usava.

—Eu quero doces, com bastante calda de mirtilo — Eu disse, levantando a destra e balançando ela no ar, animada.

 —Eu vou querer com mirtilo também! — Gritou a voz da minha irmã mais nova, vinda da escada, após um sonoro bocejo que ela soltou.

Yoko tinha seus dez anos, cabelos curtos e de coloração preta que se encaracolavam nas pontas, próximas aos seus ombros. Era mandona e pidona, e gostava bastante de fazer pirraça. Acho que mamãe mimava ela demais. Mas, como era ela a última filha da família, que ainda não tinha nenhum cargo definido na alcateia e ainda nem se transformava por completo, provavelmente, mamãe queria que ela aproveitasse bastante essa fase. Mamãe a deu um "bom dia", usando de uma voz calma e serena, e a chamou para se sentar à mesa conosco. Mais alguns minutos se passaram até que as panquecas estivessem prontas, e mamãe se sentou à mesa conosco. Eu amava as panquecas da mamãe. Devorei cada pedacinho com um sorriso no rosto. Mayumi comeu suas panquecas e bacon calada, sem reclamar de nada. Enquanto isso, Yoko reclamou — como era de praxe — que não havia mirtilo suficiente. Mamãe riu das reclamações e colocou mais mirtilo, o que fez com que Yoko reclamasse novamente, afirmando que ela havia posto demais. Eu me incomodei com isso e me encolhi um pouco, não querendo meter minha colher onde eu não era chamada. Não vi reação nenhuma em Mayumi, que apenas deu um rápido olhar para a irmã mais nova, mantendo seu garfo no ar com um belo pedaço de bacon envolto pela panqueca, antes de levá-lo até sua boca e come-lo, ignorando o restante da situação. Após todas nós termos terminado, mamãe mandou que eu e Mayumi nos revezássemos na limpeza e secagem das louças. Isso deixava Yoko livre para poder brincar o restante da manhã inteira. "Que beleza", pensei, vendo o olhar de Mayumi. "Ela vai me comer viva". Sem muito demorar para realizar as ordens da mamãe, fui para a pia e comecei a lavar as louças, passando elas para Mayumi, que iria secá-las brevemente e então arrumá-las nos respectivos lugares. Justamente enquanto terminávamos, ouvi mamãe conversando ao telefone. Pela voz que ouvia vindo do outro lado da linha, era alguém da alcateia com algum assunto importante. Pareceu que Mayumi também ouviu, pois ela foi até mamãe assim que esta concluiu sua chamada e desligou o aparelho. Eu fiquei olhando de soslaio, colocando apenas minha cabeça para longe da parede onde eu estava apoiada.

  —Filha, venha — Mamãe começou enquanto pegava as chaves do carro da família —É um assunto importante da alcateia.

—Sim, vou me arrumar —  Mayumi respondeu, com um olhar mais sério que o habitual, o que indicava que ela estava preparada. Ela saiu da presença de mamãe e correu para seu quarto, no segundo andar, subindo as escadas com pressa.

—Mamãe, posso ir também? — Perguntei, saindo de trás da parede e olhando para ela, com a cabeça um pouco abaixada. Quando se tratava de assuntos da alcateia, ela era Alpha, e eu não tinha posição.

  —Não, filha — Ela respondeu com um tom sério e um pouco autoritário, já deixando de ser minha mamãe e se tornando a Alpha, forte e responsável que tinha que ser —Isso é algo muito sério. Eu creio que você já esteja na idade, mas, qual o valor mais importante para um lobo, como nós?

—Proteger os mais novos — Respondi, sem nenhuma sombra de dúvida em meu tom, levantando minha postura e meu olhar de uma forma instintiva. Havia algo em mim que simplesmente me dizia para fazer aquilo.

—Muito bem — Ela disse, sorrindo maternalmente, orgulhosa —Cuide de Yoko. Mais tarde, quando ela for dormir, nós três vamos sair para caçar. É lua minguante. Você precisa treinar um pouco.  

Depois dessa breve conversa, Mayumi desceu as escadas, vestindo uma calça jeans escura e uma blusa de manga larga, também de cores escuras, que combinavam levemente com as calças. Tinha sapatos de couro e cano largo, com bordas vermelho sangue. Havia colocado os óculos de grau que tinha de usar devido a um pequeno problema em seus olhos, que tinham bordas vermelhas vivas, também combinando com os tênis. Apesar disso, ela não demonstrava nenhuma dificuldade em sua capacidade de visão quando estava transformada. Os médicos da alcateia não sabiam dizer o porquê. Ela e minha mãe entraram no carro e deixaram a casa, em uma velocidade moderada. Eu fui até a sala, onde Yoko estava sentada, brincando com seus bonecos. O dia passou rápido. Yoko se comportou bem e não fez muitos pedidos. Entretanto, sua personalidade e seu jeito de ser muito exigente e pidona com as pessoas era algo que, comumente, me tirava do sério. Mas, hoje, quando eu estava cuidando dela, isso não me irritou. Eu apenas deixei bem claro o que ela poderia fazer e o que não, e ela seguiu isso à risca. Isso, juntamente com o fato de que ela respeitava o que eu falava me deixaram estranhando aquela situação. Quando mamãe chegou, às seis horas da tarde, eu já havia posto Yoko para dormir, visto que ela parecia estar ficando cansada com o passar do tempo. Mayumi entrou em casa primeiro, me olhando com um olhar sério, porém um tanto quanto frio.

  —Nossa mãe mandou você se arrumar  — Ela disse, com seu tom sério e autoritário, o mesmo que sempre usava quando falava com os outros betas e ômegas da alcateia —Ela vai te esperar no carro.

—Não fale assim comigo — Eu cuspi, quase que instintivamente. Aquela mesma voz que estava fazendo com que Yoko me obedecesse e a mesma coisa que me disse o que fazer perante a pergunta de mamãe, foi ela que me fez responder desta forma para minha irmã mais velha, sucessora de mamãe. Meu olhar era confiante e sério, e minha postura também era bem ereta e altiva. Eu me sentia como se fosse a dona do mundo.

—Certo — Mayumi pareceu recuar um pouco, algo que eu nunca havia a feito fazer —Mas vá se arrumar logo. Não temos tempo para uma briga aqui e agora— Ela sempre era responsável e queria dar o melhor de si para a alcateia.

Eu respondi com um "Sim", acompanhado de um corrida na direção das escadas. Subi os degraus com bastante pressa, abrindo a porta do meu quarto e a do guarda-roupas ainda querendo evitar demora. Peguei uma calça jeans desbotada e com cortes na altura das coxas e das canelas, uma blusa de coloração branca com mangas cortadas e um tênis all star branco. Demorei dez minutos para me vestir, algo que achava não ser possível, e desci as escadas novamente. Mayumi esperava por mim na porta da garagem. Eu me apressei até lá e ela abriu a porta, entrando no cômodo e indo até o carro. Ela gostava de se sentar no banco do meio da traseira, e para lá foi. Assim que mamãe me viu, bateu algumas vezes no banco do carona, ainda sorrindo daquela forma maternal. Eu sorri em resposta e fui até lá, abri a porta e me sentei, ao lado de mamãe — ao lado da Alpha da alcateia. 

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