Tsunade Shiina - 04/02/2019
Caminhava pelos corredores da escola, seguindo aquela menina, que havia me abordado na entrada há alguns minutos. Ela se apresentou como Miki Ichida, uma kouhai¹* e primeiranista que estava precisando de ajuda de uma das senpais²* para conhecer a escola. Eu sorri e aceitei. Ichida parecia ser uma pessoa boa, mas agia de forma sarcástica e mantinha um sorriso apático em seu rosto. Eu não entendi o porque, mas resolvi não perguntar. Ela andava na minha frente, levando ambas as mãos cruzadas em suas costas, na altura de sua cintura. Mostrei-a as salas dos clubes, as salas de aula, os laboratórios, as quadras e auditórios. A escola era pública, mas era de uma qualidade considerável. Naquele momento, estávamos indo para a secretaria, onde eu a deixaria para poder ir até minhas próprias aulas. No entanto, enquanto eu estava ali, caminhando atrás dela, havia algo estranho. Algo que eu não sabia descrever exatamente. Mas era o mesmo incômodo e sensação de desconforto que eu tive um pouco antes que ela aparecesse. Talvez ela não fosse uma humana qualquer, como se apresenta. Meus sentidos não eram bons o suficiente para que eu simplesmente olhasse para alguém e soubesse dizer a diferença, e, por isso, acabei ficando presa em meus pensamentos, tentando decifrar aquela sensação. No momento, era a única coisa que eu podia fazer. Saí do transe com Ichida, parada em minha frente, balançando a destra para chamar minha atenção.
—Senpai? — Ela me chama, assim que chegamos em frente a porta de vidro da secretaria.
—Ah, sim — Voltei a mim e respondi, sorrindo —Acho que não dormi direito hoje. Mas aqui é a secretaria. Você pode pedir seus horários e a numeração das suas salas.
—Entendi — Ela disse, aumentando aquele apático sorriso que mantinha em seu rosto —Muito obrigada, senpai — Dito isso, tombou a face para o lado, tornando sua expressão um tanto sarcástica.
—Eu vou indo³* para a minha sala — Disse, querendo me afastar um pouco dela. Havia algo que me deixava um tanto insegura —Se precisar de mais ajuda, pode falar comigo. Até a próxima, Ichida-san⁴*.
Após uma caminhada um tanto quanto apressada, cheguei em minha sala. Usei da destra para arrastar a porta dos alunos para o lado, produzindo um leve e abafado ruído de algo sendo arrastado, o que sinalizava que havia alguém entrando na sala. Assim que entrei, olhei ao redor, vendo todas as pessoas já posicionadas em seus lugares, olhando para mim. Paralisei ali, com um sorriso envergonhado. Olhei, então, para a frente da sala. A professora — Yoshitaka Asami, uma mulher jovem, por volta de seus vinte e seis, com cabelos médios e lisos, dotados de uma bela coloração escura que iam até abaixo de seus ombros. Ela era professora de biologia, que havia entrado ano passado, sendo a novata da escola até então. Senhorita Asami me dirigiu um olhar calmo e sorriu, usando de sua canhota para apontar um lugar vazio. Assenti com a cabeça e a abaixei um pouco depois, indo até minha carteira — posicionada no centro da sala — após fechar a porta atrás de mim. A aula continuou de forma calma. Aquele era o primeiro dia, e as matérias não eram nada complicadas. Completamos dois capítulos do livro didático e ela passou duas páginas de exercícios para nós. Eu fiquei quieta em meu lugar, não querendo sofrer mais vergonha no primeiro dia de aula. Quando o sinal soou pelos corredores — quase me fazendo pular pelo susto — esperei alguns instantes e percebi que ninguém havia se levantado ainda. Movi meu olhar até a professora, vendo que ela guardava o livro didático e se preparava para dizer alguma coisa.
Uns dez minutos depois, estava no pátio da escola, com meu lanche caseiro em mãos. Me dirigi até uma das mesas que existiam na lateral, um lugar onde havia bastante sombra e um ar mais calmo do que o espaço ao redor, e me sentei. Depois que terminei de comer, me levantei, já que faltavam apenas quinze minutos para o fim do tempo livre e eu ainda tinha coisas a fazer. Segundo o que Senhorita Asami disse, a escola estaria realizando concursos para eleger os líderes dos clubes e votações para os representantes de classe. Eu não tinha chances como representante. Mal dava conta de tudo o que tinha para fazer apenas sendo uma aluna comum. Mas eu queria tentar ser líder do clube de kendo, do qual eu já fazia parte. A líder do ano passado era uma terceiranista, e se formou este ano, deixando a vaga livre. Eu sempre tive interesse em ser a líder deste clube, já que poderia marcar as sessões de treino e adicionar algumas ideias que eu tive durante o tempo que pude observar a liderança anterior. Fui andando até o prédio dos clubes, uma construção que ficava ao lado do prédio principal, onde aconteciam as aulas. O clube de kendo acontecia no terceiro andar, na última sala a direita. Tive que correr um pouco para poder chegar lá antes que o sinal tocasse, mas consegui esse feito. Cheguei em frente a sala, arfando. Ao entrar, pude perceber que havia uma fila de cinco pessoas. Três garotos e duas garotas. Uma das garotas era a primeiranista que eu havia encontrado mais cedo, Miki Ichida. E o outro era Ishikawa Kazuharu. Ele era o co-líder do clube de kendo ano passado, e ninguém, fora a líder — que era sua irmã mais velha, Ishikawa Yuki, uma mulher magra, com cabelos pretos e retos que descem até suas costas, olhos castanhos e uma personalidade muito agradável. Ela sempre tratou os membros com carinho e os ajudava a melhorar em tudo o que podia — havia conseguido derrotá-lo em um confronto direto de kendo. Sabendo que seria um concurso de habilidades de luta, eu e os demais candidatos teríamos um desafio e tanto. Acho que a presença dele ali era o motivo para que houvessem tão poucas pessoas se candidatando. Mas eu não iria dar para trás ali. Entrei na fila e, alguns minutos depois, meu nome estava na lista de candidatos ao título de líder do clube de kendo. Enquanto eu saía da sala para poder ir até meu próximo tempo de aula, pude ver Kazuharu e Ichida conversando, próximos a saída. Tentei me esconder, mas Ichida me viu, pelo canto de seu olho. Sem poder simplesmente sair dali, sorri e comecei a andar na direção dos dois.
—Te vejo depois então, Ishikawa-senpai — Pude ouvir ela terminando sua conversa enquanto me aproximava, usando daquele seu tom apático.
—Até — Kazuharu respondeu, com um tom sem emoção, como o que sempre usou. Após falar, ele se virou e começou a se afastar. Fiquei feliz de não ter que falar com ele, já que sempre houve algo que fez com que me distanciasse daquela pessoa.
—Olá, Tsunade-senpai — Ichida disse, se virando para mim.
—Olá, Ichida-san — Respondi, forçando um sorriso e tentando esconder um pouco do incômodo que sentia naquele momento —Eu tenho que ir...
—Vi que também se escreveu para o concurso, Tsunade-senpai — Ichida me interrompeu, com aquele tom apático e olhar sarcástico que sempre usava —Não sabia que gostava de kendo.
—É, eu sou membro desde o ano passado — Comecei, me animando um pouco pela pergunta dela —Sempre quis poder ser líder ou co-líder, mas nunca consegui derrotar nenhum dos dois — Disse, pondo minha destra sobre a lateral de minha face.
—Se der o seu melhor, tenho certeza que conseguirá desta vez — Ela disse, sorrindo de uma forma diferente daquela de antes —Ishikawa-senpai me contou que ele era co-líder ano passado, e que queria tentar ser líder esse ano. Mas eu também quero, então tentei sondar ele um pouco.
—Igual está tentando fazer comigo? — Foi uma pergunta muito óbvia, que saiu de minha mente quase no mesmo instante em que chegou lá.
—É, ele também descobriu em menos de um instante — Ela tombou a cabeça para o lado, dando um sorriso mais sarcástico —Parece que não irei conseguir muitos resultados com você, também.
—Bem, em nome do espírito competitivo do kendo — Comecei, fazendo um tom e uma expressão um tanto quanto cômicos —Irei compartilhar algumas informações. Não sei se serão úteis, no entanto.
—Sem problemas. Eu não descobri nada sobre o Ishikawa-senpai.
—Ano passado, quando ele entrou na escola, ele participou do torneio feito todos os anos para ver se irão eleger um novo líder. A irmã dele, Ishikawa Yuki-senpai, então do terceiro ano, era líder. Aquele torneio foi a única vez que vimos ele perder um confronto. Desde então, ela participou de dezessete desafios pela liderança, permanecendo invicta. Ele enfrentou outros doze candidatos que queriam seu título, mas você já sabe o resultado — Disse. Essa era a história do clube de kendo do ensino médio que eu conhecia —Agora, você sabe o que estará enfrentando.
—Nossa — Ela começou, sem que eu pudesse identificar o que queria dizer com aquilo —Ele será um adversário formidável. Mas isso só faz com que eu tenha ainda mais vontade de enfrentar e derrotar ele — Pela primeira vez, pude ver algo que se assemelhava a uma faísca de animação e felicidade verdadeiras, no fundo dos olhos de Ichida.
—Você é bem determi — Enquanto eu falava, o sinal tocou. Com pressa, comecei a me dirigir até minha sala. Aquele seria o dia dos atrasos, pensei, enquanto me despedia de Ichida.
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*1, 2, 4 — Como a história se passa no Japão, pensei em usar algumas dos nomes que eles usam por lá. "Senpai", que é usado para se referir a estudantes mais velhos. "Kouhai", que é usado para se referir a estudantes mais novos e o honorífico "San", que serve para demonstrar respeito.
*3 — Sim, está errado segundo as regras gramaticais. Mas sabemos que, quando conversamos casualmente, acabamos quebrando algumas dessas regras. Desde que as pessoas com quem conversamos entendam, está tudo bem. Pensei em usar alguns erros comuns na fala coloquial para tornar a escrita mais realista.
* — Me digam o que vocês acham dessas ideias! Se elas devem continuar ou se preferem que eu pare. Depende de vocês!
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