Hayato Hiroko - 12/01/2019

Puxei o ar para dentro de minhas narinas, produzindo um som abafado. Podia senti-lo ao meu redor, se espalhando pela casa toda. O odor da carne que eu havia trazido mais cedo. A minha comida. Aquele leve incômodo na região cartilaginosa das minhas orelhas se fez presente, tal como a sensação de perfuração que vinha das pontas de meus dedos nos momentos que antecediam a transformação. Eu havia me irritado, e muito. Os próximos instantes se passaram em câmera lenta. Pude ouvir cada passo que dei no carpete vermelho que envolvia os degraus da escada, até o momento que toquei o piso de tábua corrida do primeiro andar. Os sons produzidos pelos meus movimentos pareciam se propagar de forma lenta. De fato, meus próprios movimentos pareciam mais lentos. Eu estava ansiosa. Não podia esperar para chegar até onde estava aquele cheiro. Tive de me controlar bastante para não arremessar aquele cesto de roupas sujas em algum canto aleatório e partir na direção da cozinha. Acho que entendi o motivo de tudo parecer em câmera lenta. Me agachei e depositei o cesto no chão, ao pé da escada. Enquanto me levantava, puxei o ar para dentro de minhas narinas por mais uma vez, fazendo algum esforço para que minha respiração conseguisse me acalmar. Mas não havia mais volta. Meu coração estava batendo em ritmo acelerado, meus pulmões funcionando a toda. Minhas garras estavam para fora e minhas orelhas estavam mais semelhantes às de felinos. Os pelos — outrora presentes apenas na parte superior de minha cabeça — começaram a se formar ao redor de minha face, enquanto meus cabelos começaram a se tornar menos lisos, como que pertencentes a algum animal selvagem. O pelo tinha uma coloração amarelada, com padrões de manchas sobre ele. Eu não estava pensando bem naquele momento, mas já me ocorrera que até minha transformação era semelhante a uma onça pintada. Apesar de que eu mesma não pudesse vê-los, sabia como estavam. Meus olhos. Minhas pupilas teriam assumido uma forma elíptica, enquanto as íris se tornariam vermelhas. Vibrantes, vivas, fortes. Assim como o sangue. Que estava prestes a ser derramado nos próximos instantes. Eu já não tinha visão para nada ao meu redor, apenas "via" a trilha deixada pelo cheiro do meu irmão caçula, que descia as escadas e ia até a cozinha. Me aproximei do batente da porta, colocando uma manual sobre a mesma. Apertei com toda a minha força, fazendo com que as garras atravessassem a madeira que constituía aquela parte da arquitetura. Abaixei a manual, deixando um arranhão bem profundo. Estava inconscientemente reafirmando meus direitos sobre o que era meu. Presumo que ele tenha pressentido o fato de que eu me aproximava. Mas, do jeito que eu estava, devo ter liberado mais do que uma centena de avisos para aqueles que estavam próximos. Meu irmão caçula estava lá, encolhido, no canto. Seus olhos ressaltavam uma revolta profunda, acompanhada por um contraditório medo. Ele sabia que estava fazendo alguma coisa errada, que havia sido descoberto e que eu não iria me segurar ou ser compreensiva. Ele também estava transformado. Seu rosto exibia pelagem acinzentada, com um padrão manchado que se assemelhava ao do leopardo nebuloso. Se encurvou ainda mais assim que seus olhos — também com as mesmas características que os meus — encontraram a minha presença, ainda no batente da porta. Ele exibiu suas presas e sibilou, enquanto todos os pelos de seu corpo se eriçaram, naquela clássica tentativa de se fazer parecer maior do que se é. Mas isso não funcionaria comigo. Eu era mais velha e mais forte. Ele sabia. O que eu estava vendo ali era uma reação completamente instintiva. Talvez ele tenha se desesperado e permitido que os instintos o dominassem. Isso o tornava perigoso, já que Hisahito faria qualquer coisa para poder sair dali. Ele era um felino encurralado. Me curvei até que as manuais tocassem o chão, ficando apoiada sobre os quatro membros. Meus pelos também estavam bem eriçados, novamente, se devendo ao instinto que corria por nossas veias. Rosnei bem alto, mostrando minhas presas para ele. Aquilo estava bem sério. Ele se encolheu ainda mais no canto, se sentindo cada vez mais encurralado. Se eu não avançasse agora, ele teria vantagem. E foi o que fiz. Com um impulso das pernas, me lancei em direção a ele, movimentando minha destra contra a face de Hisahito. Ele não consegue reagir a tempo, recebendo o golpe, que faz com que sua cabeça vá para o lado. Hisahito usa essa oportunidade para tentar fugir, e sai do canto onde estava encurralado, conquistando mais espaço. Por sorte, os pelos na face dele impediram que o corte causasse danos sérios. Aquilo se tornou aquela cena clichê, onde dois felinos rodeiam um ao outro, tentando encontrar fraquezas para explorar. Ele não podia dar as costas e fugir — uma vez que isso iria ativar o instinto predatório do outro felino, que atacaria —, mas também não podia me atacar. O mesmo valia para mim. Estávamos em um impasse. Até que eu pude ver. Hisahito estava mancando com a destra. Deveria ter se ferido quando se movimentou para fugir de mim. Era uma chance, que meu eu dominado pelos instintos não iria perder. Saltei em direção a ele, atacando a destra dele com a minha própria. Aproveitando que ele não teve reação, empurrei-o, fazendo com que caísse de costas no chão, de barriga para cima. Me joguei sobre ele, prendendo-o entre minhas garras e a ameaça de um ataque com minhas presas. O fulminei com um olhar letal, logo antes de rugir — com todas as minhas forças — até que ele deixasse a transformação como consequência do medo. Os pelos em sua face se retraíram, suas orelhas voltaram ao que eram, as garras voltaram a ser unhas e seus olhos retornaram a sua cor original. Comumente, Hisahito era um garoto normal em seus quatorze anos de idade. Olhos de uma coloração azul oceano — os quais herdara de nossa mãe — se destacavam em seu rosto, estando repletos de lágrimas de medo naquele momento. Seus cabelos tinham uma coloração castanha escura e um corte curto. Nesse momento, ambos pudemos ouvir os passos apressados de Nao, descendo as escadas e correndo pela sala.

—O que está acontecendo aqui? — Ele perguntou, aparecendo na entrada da cozinha. Seu tom de voz estava preocupado e bem mais alto do que o normal. Suas pupilas estavam elípticas, o que indicava que ele havia se surpreendido.

—Alguém aqui tentou roubar minha comida — Respondi, me levantando, já de volta a minha aparência normal. Usei a manual para ajeitar meus cabelos, que pendiam sobre o rosto. Passei por Nao com pressa, indicando que eu não estava com paciência para uma conversa. Me dirigi até as escadas, ouvindo que Nao começara a dar uma bronca em Hisahito.

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