Hayato Hiroko - 12/01/2019

Caminhava madrugada adentro, um tanto encurvada devido ao peso do saco preto — que continha partes de um cadáver — que eu trazia em minhas costas. Estava passando por um dos três caminhos que usava para ir e voltar de meu território de caça. Esse, em particular, era um dos meus favoritos, pois as câmeras — que a prefeitura insistia em recolocar ali — eram, também, constantemente quebradas por grupos de criminosos ou traficantes que queriam rotas seguras para suas movimentações ilegais. Não que eu me importasse ou soubesse muito além disso. Sabia apenas o que precisava para poder me beneficiar daquela situação. Por exemplo, aprendi os dias da semana nos quais eles utilizavam aquele lugar, assim podendo evitar um encontro que poderia ser bem desagradável. Mesmo assim, com aquele bônus das câmeras, sempre haviam os ônus. O lugar era pior do que um esgoto. Parecia ter sido feito sem nenhum planejamento. Não havia muita iluminação e nenhum bueiro sequer para onde a água da chuva poderia escorrer. Para finalizar, o asfalto parecia ter sido mal colocado, e se formavam várias crateras no chão daquele lugar. Como resultado, podia ver várias piscinas de água cheia de tudo quanto é tipo de sujeira imaginável. Também havia um cheiro podre que me enchia as narinas. Parecia que os criminosos e traficantes, seja lá quais fossem, usavam aquilo ali para outra coisas coisas além de um caminho desconhecido. Lembro-me de uma noite em particular, às sete horas, quando estava indo para meu território de caça. Pude ver uma mulher adulta, com idade por volta dos vinte e sete, seguindo aquele caminho. Julgando pelas roupas que vestia e pelo jeito que andava, eu acredito que tenha sido uma prostituta. Mas eu não sou de julgar as pessoas. Consegui atrair ela até meu território, e, vou lhe dizer, o gosto não foi tão ruim. Só tive de reclamar que, por ela ser magra, sua carne não durou o que deveria durar, então estava tendo que caçar mais cedo agora. Sem mais querer olhar para aquele chão imundo, dei uma pequena pausa e ergui meu olhar, enquadrando a abóbada celeste. Os raios de luz emitidos pelo astro rei já estavam acariciando as nuvens brancas, que pareciam macias como travesseiros. Até que seria uma bela visão, se eu não considerasse a situação onde eu estava. Foi aí que me lembrei. Hoje era um dos dias nos quais os criminosos iriam fazer uso daquele caminho. Não havia tempo para ficar ali e apreciar a bela paisagem e não igualmente belos arredores. Soltei um suspiro e aumentei a força nas manuais que seguravam o saco onde estava meu jantar pelos próximos dias, já começando a me encurvar para poder começar a andar. Nos próximos cinco minutos, usando apenas de passos apressados, pude ver a cerca do jardim de trás de minha casa. Não era nada demais, apenas aquelas tradicionais cercas de madeira pintadas de branco, posicionadas lado a lado e com a mesma altura. Eu teria que fazer um pequeno esforço. Posicionei meu corpo e arremessei o saco de carne para o outro lado. Agora era brincadeira de criança, já que, como eu havia dito, conseguia pular mais alto que a maioria dos muros humanos com cinco anos de idade. Literalmente, brincadeirinha de criança. Tive sorte, já que, uma vez do outro lado da cerca, o saco não tinha espalhado todo o meu jantar pela grama. Peguei ele, com mais cuidado desta vez, e parti em direção até a porta de trás de minha casa. A esta altura, já estava bem claro, e uma das coisas que eu não queria era ser vista por um dos vizinhos. Não seria legal ter que me arriscar e mentir para a polícia sobre ter sido vista coberta de sangue, ou sobre não saber nada com relação ao desaparecimento de um dos meus vizinhos. Entrei em casa, ainda coberta com o sangue — que, por mais sorte ainda, já estava seco — e carregando o saco em minhas costas. Andei pelos corredores com aquele maldito piso, fazendo bastante barulho enquanto eu andava, apenas para chamar ainda mais a atenção dos meus irmãos. Chegando na sala, lá estava ele, um dos meus irmãos mais novos, Nao. Com seus quinze anos, ele já tinha me passado em questão de altura, mas ainda me respeitava como sendo sua irmã mais velha. Diferente do caçula, ele sempre fora muito educado. Tinha cabelos lisos de coloração escura, os quais ele mantinha penteados para trás com a ajuda de um gel bem forte. Seus olhos eram como o de nosso pai, dotados de uma coloração forte de verde, que se tornava bem clara quando exposta a luz. Ele tinha herdado muita coisa de nosso pai. Inclusive sua personalidade calma e controlada. Eu havia puxado a personalidade de nossa mãe, que era incisiva e desconfiada. Pelo pouco que sabia sobre aqueles que eram como nós, as "fêmeas" tinham bem mais instinto do que os "machos", por isso, acabavam servindo como líderes quando formávamos grupos maiores. Ele estava sentado em uma mesa circular no cômodo que servia como sala de estar e de jantar. Era pequeno, tinha um hack, uma televisão pequena, um sofá e uma mesa circular onde fazíamos algumas refeições conjuntas, às vezes. Ele estava sentado nessa tal mesa, lendo um jornal. Nao levantou levemente sua face e me fitou, entrando pela porta de trás, com aquele olhar calmo e controlado que sempre mantinha em seu rosto.

—Oh, bom dia, Hiroko — Ele disse, com tom educado —Como foi a caça?

—Deu frutos — Eu respondi, tentando evitar dar detalhes.

—Certo, não vou mais perguntar - Indagou, escondendo a curiosidade e voltando a ler o jornal. Era isso que fazia com que nos déssemos tão bem, pois ele sabia sobre minha personalidade e respeitava isso. Diferentemente do caçula.

—Hisahito já está acordado? — Perguntei, lá da cozinha, espalhando as carne sobre a bancada.

—Se está, ainda não desceu — Ele respondeu —Você chegando agora me lembra que eu tenho que sair para caçar com ele.

—Com a idade dele, eu e você já caçávamos sozinhos.

—Sim, mas eu ainda não sei se ele aprendeu tudo.

—Ele nunca vai aprender enquanto não sentir que tem necessidade — Eu retruquei, enquanto tentava encaixar um dos pedaços de carne no freezer que tínhamos na cozinha —O que ele não sente tendo o irmão dele para ajudar.

—Nem todos são como você, Hiro — Ele me chamou por aquele apelido que meus pais usavam —Você começou a caçar antes de mim ou do Hisahito. Me ensinou e me ajudou a conseguir um território.

—Você ainda se lembra disso? — Fiquei um pouco surpresa por ele se lembrar daquele fato. Para mim, foi algo tão natural. Eu precisava ajudá-los a sobreviver para que eu mesma não morresse. Estava prestes a dizer isso, quando me ocorreu o quão cruel poderia parecer. Nem eu gostava de ser má com meu irmão.

—É, eu me lembro — Ele deu uma risada —Parando para pensar, agora eu entendo o porquê de você ser mal-humorada. Deve ter sido difícil caçar para três e ainda ensinar um.

—Droga — Sussurrei, começando a me irritar com aquela bendita carne.

Ele se levantou da copa e foi até a cozinha, parando no batente da porta e começando a me encarar, com os braços cruzados. Aquilo era o que ele fazia quando sabia que falar alguma coisa podia me irritar. Ele me esperava dar permissão para que ele falasse, assim eu não poderia reclamar. Eu estava agachada, ainda tentando encontrar um jeito de guardar a carne. Quando vi que não teria jeito, soltei um suspiro e me joguei ao chão, sentando e cruzando as pernas.

—Pode deixar isso comigo — Ele disse, se aproximando e colocando a destra sobre meu ombro canhoto —Suba e tome um banho. Deve ajudar a relaxar.

—Certo — Respondi, ainda incomodada por deixar alguém mais mexer na minha comida. Eu era extremamente territorial com relação a isso.

Me dirigi até as escadas com passos receosos, tentando não olhar por cima do ombro para checar o que Nao estava fazendo a cada três segundos que deixava ele com minha comida. Mas ele era meu irmão mais novo e uma das únicas pessoas no mundo nas quais eu confiava plenamente. Ou talvez a única, não sei dizer. Ao cruzar a divisa dos cômodos, já não mais podendo vê-lo, soltei um suspiro de alívio ao saber que aquilo já não estava mais em minhas mãos. Fui subindo os degraus de madeira lentamente, logo antes de virar a direita no corredor e tomar a direção do banheiro. Bati duas vezes na porta para evitar que eu acabasse vendo uma cena desagradável e, uma vez tendo a confirmação de que não havia ninguém ali, entrei. Tranquei a porta atrás de mim e respirei fundo, me acalmando mais um pouco. Aquele momento, quando eu tomava banho, era um dos momentos nos quais eu ficava mais relaxada. Podia apenas me jogar na banheira e, por um finito período de tempo, esquecer que haviam problemas do lado de fora. Tirei aquelas vestes encharcadas de sangue e joguei elas no cesto de roupa suja. Me certifiquei de que haviam toalhas para que eu pudesse me secar e um roupão para que eu pudesse ir até meu quarto me trocar. Essas eram as últimas preocupações que tive antes de entrar na banheira e ligar a água quente. Sinceramente, não sei quanto tempo eu passei ali dentro, quase que vegetando. O som da água caindo era muito relaxante. Somado a temperatura e a sensação de se estar embaixo d'água, não podia haver um paraíso melhor. É, de fato, me lembrei de uma das cenas de quando eu e o restante dos meus irmãos éramos mais novos.

Estávamos todos sentados em uma rodinha no carpete da sala de nossos pais. Havia uma lareira que nos esquentava. Acho que fazíamos aquilo toda noite. Conversávamos sobre várias coisas, fazíamos várias brincadeiras e repassávamos aquilo que nossos pais tinham nos ensinado no dia. Éramos seis. Sim, seis irmãos. Acho que meus pais deram um intervalo de um ano entre cada gravidez, pois essa era a diferença entre nossas idades. Eu era a única menina daquela "ninhada" — como eu já ouvira meus pais se referindo a nós. Talvez isso evidencie que nossos pais já tivessem ou planejassem ter outras ninhadas —, e era a irmã do meio. Haviam três irmãos que eram mais velhos que eu. Seus nomes são um pouco confusos de se lembrar, uma vez que nos separamos deles quando eu completei oito anos. Mas isso não importa. É bem improvável que eu vá revê-los novamente. Naquela noite em particular, estávamos brincando de algo que nossa mãe nos ensinou. Colocávamos várias imagens imprimidas de felinos selvagens e sorteávamos sem que os demais vissem. A brincadeira consistia em que eles tentassem adivinhar aquilo que tínhamos com as características que citávamos. Depois de brincar algumas vezes, paramos de sortear os felinos e passamos a escolher aqueles que achávamos mais semelhantes a nós mesmos. Afinal, somos uma espécie de híbrido de humano com felino ou humano metamorfo que se transforma em felinos. Eu gostava de escolher a onça parda, pois ela é solitária, territorial e gosta de caçar com emboscadas, assim como eu.

Não sei quanto tempo se passa, mas chega uma hora em que eu simplesmente me canso de ficar na água, relaxando, sem fazer nada. Após terminar de me secar e me cobrir com o roupão, abri uma pequena fresta com a porta para poder olhar e ter certeza de que não havia nenhum dos meus irmãos ali. Como eu já disse, sou uma pessoa solitária e não gostaria nada de sair de roupão na frente de ninguém. Uma vez tendo constatado que não havia ninguém, fui até meu quarto para me trocar. Tranquei a porta atrás de mim e tirei a toalha de meu cabelo e o roupão de meu corpo. Escolhi alguma roupa que me agradasse para passar o restante do dia e me vesti. Uma calça jeans pouco justa e uma blusa um pouco maior do que o meu tamanho. Eu tinha aquele estilo mais largado. Acho que também se tornou hábito me vestir assim para impedir que meus movimentos fossem restringidos. Tendo terminado de me vestir, comecei a olhar ao redor em meu quarto. Peguei várias das roupas sujas que havia jogado pelos cantos e carreguei até o banheiro, com alguma dificuldade devido a quantidade. Chegando lá, coloquei-as no cesto de roupas sujas e o peguei com ambas as manuais. Como não tinha mais muito a fazer naquele dia, iria colocar aquelas coisas fedorentas para lavar. Ainda não citei isso, mas nosso olfato era ótimo, e qualquer fedor era dez vezes mais irritante do que para uma pessoa comum. Comecei a descer as escadas lentamente, com aquele cesto. Apesar de não ser nada tão pesado, já impedia minha movimentação e bloqueava minha visão. Duas coisas que me faziam ficar irritada ao mesmo tempo. Ótimo. Então, senti o cheiro de carne. A minha carne, que eu havia pego hoje mais cedo. "Ah, isso não vai terminar bem".

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