Não há por que chorar por isso.


"E agora meu pescoço está exposto, 

implorando por um punho à sua volta

Já estou me engasgando em meu orgulho,  

então não há por que chorar por isso ..." 

Castle - Halsey

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  — Isso não é justo...— Resmungo para os paredes vazias. 

Fazem dois dias desde que recebi alta, dois dias que eu estou sem comer absolutamente nada e que me recuso a receber visitas. Olho para o teto, a casa parece um campo mortífero silencioso em que apenas eu existo e vejo seus perigos. O ar parece denso, as coisas parecem monstros prontos para me atacar.  O sofá da sala de repente parece tão pequeno para mim que seria possível que eu fosse cair em algum momento levando comigo apenas minha manta.

A campainha toca uma, duas, três, quatro vezes de maneira insistente. Me levanto no automático como um zumbi ainda carregando minha manta. Sigo para o portão e o abro ouvindo o barulho familiar do ranger causado pelo mesmo, suspiro e encaro os olhos serenos de Carolina.

    — Posso ajudá-la? — Uno as sobrancelhas em curiosidade.

— Quero conversar com você. — Diz séria.

— Não há o que conversar, somos apenas duas estranhas. — Digo fria.

— Somos duas estranhas? Renata por favor... — Ela leva as mãos ao rosto.

— Eu por um péssimo acaso te conheci e por mera burrice fiquei encantada com você... — Rio com desdém. —  Mas, sinceramente, eu me enganei com você. — Nego com a cabeça.

— Eu vim para conversar por ter imaginado que você teria maturidade mas quer saber? — Ergue os braços —  Você não passa de uma garotinha burra e medíocre! — Quase grita.

— Você me acha tão ruim mas veio me incomodar e se eu dizer que sim você vem de novo. — Digo fria.

— Olha o que você está fazendo comigo... — Sussurra.

— Quem está fazendo é você! — Grito.

— O que você quer de mim? — Pergunta em súplica.

— O que eu quero ou o que você quer? — Aponto o dedo para ela — Até agora você que tem me causado coisas ruim e eu só fui atropelada por SUA culpa! — Grito chorando.

Carolina abre os lábios na tentativa de dizer algo mas eu fecho o portão e sigo para casa sem tentar ouvir. Entro na sala deixando a porta aberta e subo correndo para o meu quarto, deito na cama olhando para as paredes. Me sinto submersa em todo o meu orgulho e ele ainda vai me matar. Pego meu celular e observo as horas, são quatro e vinte e oito da tarde. O meu quarto está me sufocando, as paredes parecem apertar meus pulmões, me sinto um monte de pele e ossos frágeis. Eu me sinto como um vidro quebrado, e cada ponta formada minha serve para machucar. Eu a machuquei com meus cacos, é isso que vidros quebrados fazem. 


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Já são quase duas horas da madrugada, as paredes gélidas do meu quarto parecem sussurrar coisas insanas para mim, encolho meus pés no cobertor. Fecho meus olhos mas o sono não vem, na realidade eu duvido muito que ele virá. Mordo os lábios, meu travesseiro está encharcado de lágrimas e eu não sei se posso as disfarçar quando o dia amanhecer e eu tiver que ir para a escola. Eu sei de alguma forma que tudo irá ficar pior quando eu precisar passar por aquele mesmo cruzamento e observar o local onde a conheci. Ouço um barulho vindo do meu celular mas o ignoro, em seguida o mesmo começa a tocar, o atendo.

— Quem é?— Pergunto seca.

Um silêncio de quase um minuto paira deixando todo o ambiente tenso, penso em falar algo mas ouço o bipe indicando que a chamada caiu. Imagino que possa ter sido Carolina, novas lágrimas tomam conta do meu rosto, paro em frente ao espelho observando meus olhos vermelhos e inchados e sussurro pra mim mesma que já acabou e não adianta mais chorar por isso. 

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