ATO III: CAPÍTULO VINTE E SEIS
Duas semanas. Todos os dias durante duas semanas eu esperei por ele naqueles degraus e Harry nunca apareceu. Sem explicação. Sem desculpas. Nada.
Todo dia eu o mandava as mensagens:
Estou esperando por você.
Estou aqui.
Eu não vou embora.
Eu não iria cometer o mesmo erro que cometi quando estávamos na escola. Não ia deixa-lo me afastar. Eu não iria desistir dele.
Arrastei-me para o estúdio em uma ria e cinza manha de terça-feira, o café em minhas mãos queimando a ponta de meus dedos. Eu estava exausto depois de uma longa noite esperando por Harry, que mais uma vez não tinha aparecido.
Eu estava trabalhando sozinho com Alex naquela manhã. Era a única coisa que me fazia sair da cama. Todos os meus amigos me ignoravam. Até mesmo Niall, que tinha concordado em programar as anotações de Harry, era muito cauteloso e eu não precisava ouvir outro "eu avisei" sobre meus problemas com Harry.
Alex me fez começar com exercícios na barra: semi-plié, plié, tendu lento, tendu rápido, dégagé lento, dégagé rápido, antes de seguir para um grand rond de jambé em l'air. Sobre minha perna direita, lentamente eu esticava a esquerda e a circulava ao meu redor. Alex pegou meu tornozelo e ergueu minha perna ainda mais alto.
"Seus músculos estão tensos. Está machucado?"
Só meu coração.
"Não." Respondi. "Só um pouco duro."
Ele massageou meu quadríceps com suas mãos fortes ante me girar minha perna para trás e massagear minhas isquiotibiais, a sensação de suas mãos no tecido muscular.
"Melhor?"
"Muito."
Ele soltou e me assistiu de braços cruzados. Arrumou seus óculos sem aro sobre seu nariz e me mandou seguir para meu solo do primeiro ato, o que Harry tinha coreografado. Eu tinha feito aquilo tantas vezes que agora estava perfeito, mas a sensação de der comprido era difícil de engolir.
"lindo, Louis!" Ele comemorou.
Eram as ideias de Harry que eram lindas, sua mente. A mente que eu amava e que não me amava de volta.
Quando terminei, Alex me estendeu uma toalha e uma garrafa com agua. Sua mão passando na minha. Ela conseguia sentir através de meu desempenho tenso que eu tinha muita coisa na cabeça.
"Como estão as coisas entre você e Harry?"
"Nada bem."
"Sinto muito por isso."
Em adição a me treinar no estúdio, Alex estava me dando apoio em minha vida pessoal. De inicio eu tinha vergonha d me abrir para ele, mas ele insistia em ajudar e queria que fossassem felizes. Então, pouco a pouco, eu o contei tudo sobre meu relacionamento: as brigas, a intervenção, o sexo e o silencio.
"Eu não sei o que estou fazendo de errado!"
Alex colocou um braço ao meu redor. "Ele que é o errado se não consegue enxergar o quão especial você é."
Nosso ensaio tinha tecnicamente acabado, mas Alex tinha dispensado o solista que estava agendado para ensaiar depois de mim. Com um estalar de seus dedos o resto do mundo desaparecia. Todos os nossos ensaios eram assim. A gente trabalhava um pouco e então conversávamos por horas. Alex era um ótimo ouvinte, Eu podia conta-lo praticamente tudo.
"Você acha que ele arranjou alguém mais bonito?"
"Mais bonito que você? Impossível."
"Eu provavelmente o assustei. Eu disse que o amava depois de duas noites juntos! Ele não respondeu..."
Alex me encarou. "Harry sempre foi frio."
"Eu só queria que ele falasse comigo." Bufei, passando a toalha em meu pescoço.
"Eu até te ajudaria com isso, Louis, mas ele também não fala comigo."
Alex sentou no chão com as costas apoiadas no espelho, um joelho casualmente encostado em seu peito. Eu me alongava ao seu lado.
"Harry deveria ser mais gentil com você. Você é uma lenda!"
Ele riu. "Muito difícil eu ainda ser uma lenda. Eu não danço há eras. Estou surpreso que você sequer se lembre de minhas apresentações."
O olhei de lado. "Eu me lembro de todas elas. Até mesmo das que não assisti ao vivo e assisti milhares de vezes na internet. Eu ainda as assisto de vez em quando. Ondine no Paris Opera Ballet em 2004. Meu deus. Seu Palemon mudou a minha vida."
"Você se lembra disso?"
Eu conseguia lembrar vividamente de cada detalhe, suas linhas perfeitas partindo o ar como uma faca.
"Sim, é claro! Foi a primeira vez que você dançou com Julie Kent. Foi histórico!"
Ele se aproximou e sussurrou. "Ela era um pesadelo. Mas não foi eu quem contei."
"Pior que Gigi?"
"Talvez não tanto assim."
Eu estava morrendo de rir.
"Eu faria qualquer coisa para te assistir dançar novamente... Você pode dançar para mim agora?"
Ele arqueou uma sobrancelha. "Louis, nessa minha idade duvido que eu consiga fazer uma pirueta."
Juntei minhas mãos. "Por favor, por favor, por favor."
Sua expressão se suavizou e ele ficou de pé. "Não acredito que estou fazendo isso." Ele arregaçou suas mangas e tirou seus sapatos de couro. "Não sei se consigo me mover com estas roupas."
"Eu tenho uma bermuda extra!"
"Não exagera Tomlinson."
Ele começou a dançar uma pequena parte de Ondine. Seus movimentos eram limitados por suas calças e camisa de botões, mas eu ainda conseguia enxergar o que eu amava em sua dança por todos esses anos. O modo como ele montava cada pose como se estivesse em um duelo. Sua dança era violenta, vívida e emocionante.
Coloquei-me de pé e aplaudi quando terminou. Ele fez uma reverencia, sem fôlego.
"Acho que vou ter um ataque cardíaco."
"Você foi fantástico, Senhor. Digo, Alex."
"Acho que vou deixar a dança pra você daqui pra frente."
O estendi minha garrafa ele beijou o topo de minha cabeça.
Alex e eu saímos do estúdio de braços dados, continuando nossa conversa. Viramos na esquina do corredor e batemos de frente com Gigi e seu rabo de cavalo extremamente apertado. Ela estreitou os olhos e irritada passou reto por nós. Alex e eu nos entreolhamos e explodimos em risadas.
Separamo-nos no corredor. Alex acenou e me deixou para ir à sua seção privada com Harry. Segui ao estúdio A para ensaiar o segundo ato com Joni e o resto do elenco. Aquela não era a mesma atmosfera divertida e descontraída de meu ensaio com Alex. O humor naquela sala era quieto. Bailarinos conversavam aos sussurros e quando eu me aproximava todos evitavam contato visual.
Aconteceu alguma coisa.
Imediatamente minha mente correu para Harry. Seu joelho. Ele estava ferido?
Perguntei a Zayn. Ele tinha uma multidão ao seu redor e parecia estar sobrecarregado de perguntas.
"O que aconteceu?"
Ele me olhou torto, seus olhos escuros nadando em magoa. "O que você acha?"
O grupo de bailarinos se separou. Eu implorei que me contassem o que tinha acontecido, mas todos foram para seus lugares no exercício de barra e se recusaram a me responder.
Eu não iria ficar lá e tentar arrancar respostas deles. Se havia algo de errado com Harry, eu precisava saber.
Sai do estúdio e corri par ao escritório de Liam. Ele sabia tudo sobre todos os bailarinos da companhia e se havia algo de errado com Harry ele não esconderia de mim. A gente poderia não estar se dando bem, mas Liam tratava todos da companhia como família. Se um de nós estava com problemas isso descartava qualquer briga.
Seu escritório estava completamente diferente. Parecia maior. As montanhas de papelada em sua mesa tinham sumido assim como as placas e troféus em suas prateleiras. As paredes estavam nuas. Sombras escuras marcavam os lugares onde havia pôsteres e papéis pendurados, a tinta ao redor delas manchada pelo sol.
Havia uma grande caixa marrom no cato cheia até a boca de livros e porta-retratos, as folhas verdes de sua planta aparecendo no topo. Sua bengala e casaco jogados na cadeira.
Liam entrou na sala sem me cumprimentar.
Agora eu sabia o que tinha acontecido, eu só não fazia ideia do que falar. Engoli. "Você tá indo embora?"
"Eu fui demitido."
Isso não poderia estar acontecendo. Não com Liam. Meu peito se apertava em culpa. Dizer que sentia muito não era suficiente. Pedir desculpa seria quase um insulto ao golpe que ele tinha recebido.
"Liam, o que eu posso fazer?"
"Nada. Eu não quero nada vindo de você." Ele passava de um lado ao outro com pequenos objetos de recordação: canhotos de ingressos, uma pilha de velhas programações, um panfleto de ballet autografado. Ele as enfiou, com todo o amor que Liam presta a todas as coisas preciosas, na caixa. Então colocou a tampa.
"Eu estou aqui para o que precisar."
"Não quero sua amizade."
Ele deu outra olhada na sala, tocou sua velha mesa e a parede, dando um adeus silencioso. Então jogou seu modesto casaco marrom sobre os braços, pegou sua bengala e a caixa.
"Aqui, deixa eu te ajudar com isso até o carro, pelo menos."
Liam me ignorou. Passou pela porta, onde Zayn o esperava para ajuda-lo. Zayn pegou a caixa, dando a Liam pelo menos um pouco de dignidade enquanto ele ia embora da coisa mais próxima a um lar que já teve.
Eu assistia enquanto ele mancava pelo corredor com sua cabeça baixa. Agora Liam tinha perdido tudo: a chance de dançar para a Royal Ballet Company e agora a honra de trabalhar para a companhia. A pior parte érea que eu sequer poderia estar lá para lhe dar suporte. Minha presença piorava tudo. Ele me via como o motivo de seu desastre e ele estava certo.
Eu não entendia o que tinha dado errado em meu plano. Eu tinha certeza de que se Harry falasse com Kenneth ele poderia salvar o emprego de Liam. Eu tinha de encontrar Harry e descobrir exatamente o que foi dito.
Harry estava no estúdio B enquanto Alex sentava em uma cadeira dobrável dedos entrelaçados, o esperando começar. Harry tinha rodas escuras debaixo de seus olhos e seus cabelos cacheados soltos de qualquer forma sobre seus ombros. Ele estava arrumando o suporte de seu joelho. Seu joelho o estava incomodando, eu conseguia ver através da dor em seus olhos. Ele só olhava assim para uma pessoa: ele mesmo.
Ele estava mais pálido, mais magro do que há duas semanas. Sua técnica era perfeita, mas eu conseguia ver que essas características físicas vinham da parte mais sombria de si. Ele estava em agonia ao dançar para seu velho mentor. Desde que Alex chegou que Harry estava em queda livre. Ele era o maior bailarino vivo. Sua visão sobre a produção estava sendo implementada. Não havia mais batalhas para serem lutadas, então para que ele continuava lutando?
Ele odiava ser interrompido, mas isso era importante demais. Desculpei-me com Alex e levei Harry ao corredor.
"O que você falou com Kenneth sobre Liam?"
"O que?" Ele respondeu perdido, encostando-se à parede fria para se apoiar. "O que você ta falando?"
"Você falou com Kenneth sobre o Liam, não é?" Perguntei, lentamente.
Ele não respondeu, mas seu silencio era gritante.
"Você prometeu! Você prometeu que ia falar com Kenneth se eu te ajudasse com Niall e a orquestra e a sua visão!"
Harry estava apático, seus olhos verdes vazios olhando através de mi. "Eu-eu esqueci."
"Você esqueceu! Mas que porra, Harry, essa é a carreira de Liam, a vida dele! Como você pôde esquecer uma coisa dessas?"
Harry passou suas mãos por seu rosto branco como se fosse a mascara de um homem que estava tentando arrancar.
"Eu não sei! Eu não durmo há dias! Eu não estou pensando direito!"
"Você consegue pensar na sua carreira sem problema nenhum!"
Eu tive um flashback de nossa briga na RBS. Harry não tinha mudado. Liam, Zayn, Gigi estavam todos certos. Harry era tão egoísta agora quanto naquela época. Eu era um idiota por pensar que ele fosse capaz de se importar com mais alguém.
"Desculpa-me, Louis." Ele disse.
"Isso não é o suficiente!"
Corri de lá e o deixei parado, perdido entre mim e o estúdio. Se ele se importasse, ele me seguiria. Ele não apenas diria que sente muito, ele me mostraria o quanto sente. Ele lutaria por mim. Mas os únicos passos que eu ouvia eram os meus.
Apesar de tudo, as palavras que disse a mim mesmo naquela manhã continuavam martelando como uma bateria: não desista dele, não deixe que ele te afaste. Mas como eu conseguiria ficar ao lado e alguém que era tão bruto, egoísta e cruel?
Um cigarro, pensei. Só um. Sentei nos degraus da Opera House e dei seis tragos, não esperando exatamente, mas apenas continuando com o ritual de espera. Era o que eu fazia. Eu esperava que Harry se importasse comigo, assim como eu esperava que ele me decepcionasse. Um relacionamento com Harry era uma vida inteira de espera. Um ciclo de altos e baixos devastadores.
Eu estava prestes a desistir quando senti alguém se abaixar ao meu lado. Meu corpo inteiro se afogou em esperança. Senti o calor de dois braços fortes ao redor de meus ombros. Joguei minha cabeça para trás.
Era Alex.
"Eu soube de Liam." Falou.
"É culpa minha."
Seus braços me rodearam. "Non, mon chéri! Você não deve se culpar!"
"Eu não deveria ter tomado partido de Harry. Eu deveria ter me mantido leal a Liam." Joguei meu cigarro e o amassei sobre meu calcanhar.
Nesse momento, o carro de Alex estacionou na calçada. Ele ficou de pé e me olhou, a luz do farol iluminando seus cabelos prateados como uma aura.
"Você gostaria de ir jantar comigo?" Ele perguntou, apontando para o carro.
Eu estava embasbacado com o convite. Eu ir jantar com Alexander Beauchamp?
"Sério?"
"Você teve um dia tão difícil. Não deveria ficar só. Deixe-me te mimar."
Olhei para minhas calças de exercício e passei uma mão em meus cabelos bagunçados. "Senhor, eu adoraria, mas não estou com roupas apropriadas."
"Podemos passar na sua casa no caminho." Seus dedos passando pelo tecido fino de minha camiseta, traçando minha clavícula. "Quero vê-lo em seu melhor terno."
Alex me estendeu sua mão e eu a aceitei graciosamente. Foi então que me dei conta de que ao contrario de Harry, Alex era um amigo de verdade, alguém que estaria lá por mim quando eu mais precisasse.
Ele me guiou ao descer das escadas até o carro preto e segurou a porta para mim.
Enquanto eu me arrumava no banco de trás, Harry apareceu no topo da escadaria. Seu rosto caiu quando viu que eu estava indo com Alex.
Ele estava atrasado. Eu estava cansado de esperar por ele.
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