ATO II: CAPÍTULO DOZE
HARRY/PASSADO
Nada era a mesma coisa depois de Paris. Até mesmo quando eu não estava pensando sobre o que aconteceu, aquilo estava lá, em meus ossos. Eu era uma pessoa diferente, um animal diferente. Aquilo alterou meu DNA.
Eu não beijei Louis novamente. Ele queria, mas eu sempre dava alguma desculpa com algum motivo para que aquilo não acontecesse. No inicio, fingi que estava doente, então quando eu estava claramente deprimido, eu o disse que estava com saudades de casa, então eu simplesmente o evitei. Eu saía do dormitório cedo enquanto ele ainda estava dormindo e voltava tarde da noite, quando ele já tinha caído no sono.
Ele ficava cada vez mais com Liam e Zayn. Eu não me sentia confortável perto de rapazes, até mesmo os da minha idade, então passei muito tempo com Gigi e Eleanor. Elas intuitivamente sabiam que algo aconteceu comigo, mas não me forçaram a contá-las. Elas me ouviam enquanto as contava como me sentia, mas na maioria das vezes, elas me deixavam ficar sentado no quarto delas, sem falar uma palavra. Gigi era muito dedicada e ficava comigo depois das aulas para ser minha parceira caso eu precisasse e Eleanor tinha um carro e me levou à uma consulta no médico, em uma clínica pública, sem fazer nenhuma pergunta.
Os exames resultaram negativos, ainda bem, mas eu me odiava por ter que tê-los feito. Eu fiz sexo desprotegido com um homem adulto. Eu era tão sujo e nojento. Quem iria querer ficar com um cara como eu? Certamente não alguém como Louis.
Os ensaios para o espetáculo de inverno eram a pior parte de meu dia. Eu tinha que ficar perto de Louis, quem eu me importava mais do que tudo, e de Beauchamp, a quem eu odiava mais do que tudo.
Mesmo que eu tenha o ignorado por semanas, Louis sempre estava lá para mim, independentemente de qualquer coisa. Ele absolutamente se negava a desistir de mim. Ele me guardava um lugar na barra todos os dias. Todos. Me trazia água e uma toalha.
Minha lesão surgiu novamente e ele correu por todo o campus até o escritório da enfermeira para pegar uma compressa gelada e faixas e correu todo o caminho de volta.
"Eu consigo fazer isso." Eu disse, mas ele me negou.
"Eu quero fazer."
Ele enrolou meu joelho, delicadamente segurando minha panturrilha. Eu tinha um caso muito severo de joelho por causa dos saltos. Tive que faltar uma semana de aula e ensaios para me recuperar. Eu ainda não estava cem porcento.
"O que você tá fazendo consigo mesmo?" Ele reclamou. "Você não pode fazer o que faz por tantas horas seguidas e querer que seu corpo se cure. Você precisa ir devagar."
Ele colocou a compressa sobre meu joelho e eu grunhi aliviado enquanto a dor dava lugar à dormência.
"Eu aguento."
"Eu não sei o que você tá tentando provar. Exercitar seu corpo além do limite não vai te fazer um bailarino melhor. Só vai te machucar no longo prazo. E mesmo assim, há coisas mais importante do que dançar." Disse baixinho.
"Tipo o que?" levantei e estiquei a perna, gemendo um pouco.
As bochechas dele ficaram rosas. "Pensa um pouco."
Beauchamp surgiu no estúdio com uma pose que impunha autoridade e esforço nenhum nisso, seu casaco pendurado em seus ombros como uma velha estrela de filmes Hollywoodianos. Louis se iluminou. Essa era a pior parte de todas. Louis ainda olhava para Beauchamp como um modelo. Ele o idolatrava. Isso me dava náuseas.
Eu não sabia como conseguiria passar pelo ensaio com um joelho sem forças, mas eu estava determinado a tentar. Eu sabia que Beauchamp estava esperando que eu fizesse alguma merda, e então ele poderia vir e me "corrigir", mas eu dancei como se meu joelho estivesse ótimo. Eu preferia sentir minha rótula se quebrar em um milhão de pedaços a sentir suas mãos em mim.
Eu dei um salto e a dor subiu por minha perna como um raio. Quando ele não estava olhando, me curvei na cintura e prendi a respiração. Louis me olhou preocupado.
Estranhamente, Beauchamp passou a maior parte do ensaio me ignorando, até mesmo quando eu cometia um erro. Perto do fim do ensaio, eu não conseguia colocar qualquer peso sobre o joelho. Eu errava de novo e de novo, mas ele passava reto por mim. Eu estava confuso, porém aliviado.
Ao fim do ensaio, ele tinha um anúncio a fazer. Vestiu seu casaco cinza claro e cruzou os braços. As expressões em seu rosto ficaram mais duras. "É com o peito dolorido que eu anuncio a vocês que... Estou indo embora."
Todos da sala choramingaram. "Não!"
Ele sorriu modesto, balançando seu cabelo prateado. "É verdade, verdade, triste. Eu sinto muito. Consegui um lugar no Kiev Ballet e meu voo sai no sábado. Eu realmente queria estar aqui para o espetáculo de inverno. Vocês são todos imensamente talentosos. Foi um grande prazer ter conhecido cada um de vocês." Eu pensei ter visto seus olhos caírem sobre mim. "Seus instrutores os assistiram na noite de abertura. Eles sabem a coreografia e continuarão de onde parei."
Era isso. Esse foi o anúncio. Dei um suspiro de alívio. Ele ia embora. Eu não me senti exatamente feliz, mas pelo primeira vez em muito tempo eu senti esperança. Eu não teria que vê-lo nos corredores, no auditório, no estúdio. Eu finalmente seria livre.
Louis estava devastado. Ele se pendurou na barra dramaticamente, sua cabeça abaixada, seus adoráveis ombros caídos.
Eu o surpreendi ao cutucar suas costas e perguntar "Que tal pizza hoje?"
Ele virou para mim, erguendo as sobrancelhas. "Quer dizer que você não vai comer alface e treinar até as três da manhã?"
"Acho que mereço um descanso."
"Oh, Harry." Tomou minha mão e enlaçou seus dedos nos meus. "Você merece."
Enquanto íamos em direção à porta, Louis correu até Beauchamp com os outros alunos para se despedirem. Um por um jogavam seus braços ao redor de seu pescoço e o beijavam na bochecha.
"Não acredito que o senhor vai deixar a gente!" Louis se lamuriou, olhando o mais velho com adoração. "Eu aprendi tanto trabalhando com o senhor. Nunca me esquecerei disso."
Fui o único que não se despediu. Peguei minha mochila e saí.
Normalmente eu odiava quando Louis ficava adulando Beauchamp, mas agora ele iria embora. Eu não me importava. Nada poderia me abalar hoje.
Gigi e Eleanor me convidaram para o quarto delas para assistirmos Pretty Little Liars naquela noite, mas eu parei em frente ao quarto delas e as avisei que teria planos com Louis. Elas ficaram absortas.
"Você parece bem, Harry." Eleanor comentou, se apoiando no umbral da porta.
"Eu tô!"
Mandei uma mensagem para Zayn dizendo que eu e Louis precisaríamos do quarto naquela noite. Ele me respondeu com um emoji dando uma piscadinha.
Cheguei ao quarto antes dele. Recolhi as roupas que estavam espalhadas pelo chão, passei o espanador e organizei as prateleiras. Procurei por filmes no notebook dele e encontrei três ou quatro que nós dois gostaríamos de assistir.
Eu não conseguia lembrar da última vez que tive algo com que me preocupar. Talvez eu não estivesse tão fodido assim para estar com Louis, talvez eu pudesse passar por cima de tudo aquilo que me aconteceu e ser bom o suficiente para estar com ele.
Como sempre, Louis chegou animado no quarto, como um coelhinho, selvagem e tão fofo quanto antes.
"Eu limpei tudo." Disse animado. "Olha, dobrei as roupas lavadas e organizei nossos livros e vídeo games."
"Ótimo." Disse, apressadamente tirando a mochila e o suéter. "Você não vai acreditar nisso, Harry..." Ele correu para o armário e começou a revirá-lo, jogando coisas sobre o ombro.
"O que?" Perguntei, correndo atrás dele.
"Beauchamp me chamou para ir com ele para Kiev!" Louis comemorou.
Cada gota de felicidade evaporou de meu corpo naquele instante.
"O assistente dele não começa até daqui duas semanas e ele disse que precisa de alguém para ajudar ele a se organizar. Dá pra imaginar? Eu, um assistente de coreógrafo para Alexander Beauchamp! Essa é a melhor coisa que já aconteceu comigo! É o melhor dia da minha vida!"
Minha garganta secou.
Eu conseguia enxergar as mentiras se enrolando na língua de Beauchamp enquanto ele jogava essa oportunidade em frente a Louis. Ele não seria assistente de coreografia dele em Kiev, do mesmo jeito que eu nunca saí para conhecer Paris.
"O que vou respondeu pra ele?"
"Eu disse que sim, obviamente!" Ele puxou uma mala grande do armário e começou a colocar suas coisas nela. "O trabalho vai contar como crédito extra na coreografia e repertório. A escola até me reservou um quarto, mas Beauchamp disse que eu poderia ficar no novo apartamento dele. Isso não é louco?"
"Louco." Repeti sobre minha respiração.
"A gente ainda pode comer pizza hoje, mas eu quero ir dormir cedo. Tenho muita coisa para fazer amanhã antes da viagem."
Louis deve ter ligada para cada uma das pessoas que conhecia para lhes contar as boas notícias. Qualquer um que o conhecesse sabia que ele era fã de Beauchamp desde que tinha cinco anos. Ele conversou com sua mãe pelo telefone por uma hora inteira: "Ele disse que eu sou o aluno mais inteligente com quem já trabalhou! Ele disse que sou especial!"
Beauchamp também me disse que eu era especial.
Assistimos o filme no beliche de cima, o notebook de Louis sobre nossos joelhos. Eu estava como um zumbi pela noite toda. Eu mexi nas bordas da minha pizza, mas não conseguia comer. Tive dificuldade em acompanhar o filme. Toda vez que Louis me perguntava o que eu tinha achado da cena eu apenas assentia, completamente absento. Ele estava animado demais com a viagem para notar o quão afastado fiquei.
Enquanto ele ficava cansado, se apoiava sobre mim e eu observava sua expressão contidamente: seus longos cílios escovando as maçãs de seu rosto, a curva em seus lábios rosados claros, a curvinha de seu nariz, seu peito subindo e descendo, seu coração calmo batendo.
***
Eu sempre acordava mais cedo que Louis e naquele dia não seria diferente. A única diferença foi a de que não segui para o estúdio, mas sim diretamente para o escritório de Beauchamp.
Ele e Madame Lesauvage dividiam um escritório. Havia duas mesas de lados opostos da sala abafada e bege com plantas mortas na claraboia. A porta estava aberta, então eu só entrei, me agarrando com as faixas de minha mochila.
Beauchamp estava sozinho empacotando suas coisas em uma caixa de papelão. Estava formalmente vestido, com uma camisa formal branca e gravata na mesma cor, mesmo que não fosse trabalhar naquele dia. A luz do sol refletia no Rolex de ouro em seu punho. Seus olhos escuros lentamente encontraram os meus. Ele abaixou seu longo nariz de descendência romana para mim e arrumou seus óculos.
Ele estava surpreso em me ver. "Olá, Harry. Eu não estava esperando você. Veio para se despedir?"
Respirei fundo e me abracei ao que estava prestes a dizer. "Me leve para Kiev no lugar de Louis."
Pensei sobre aquilo a noite toda. Não havia outra solução. Se eu contasse à administração o que aconteceu em Paris não haveria garantia de que eles fariam alguma coisa, e se eu contasse a Louis não haveria garantia de que ele não iria com Beauchamp mesmo assim. Louis o idolatrava e estava cego para suas falhas. Eu via, todos os dias durante os ensaios, quando Beauchamp era muito severo com algum aluno que errava ou esquecia a coreografia. Louis o defenderia sempre. Se eu o contasse qual tipo de homem Beauchamp era, Louis poderia não acreditar em mim. Eu não poderia me arriscar. Não tinha chance de que eu deixaria Beauchamp fazer com Louis o que fez comigo.
"Você me ouviu. Me leve no lugar de Louis." Disse com firmeza.
Ele graciosamente girou o pescoço, seus dedos passando pelos papeis e livros. Fechou a porta do escritório. Meu estômago revirou.
"Eu quero Tomlinson." Disse.
Sobre o meu cadáver.
"Ele é um bom garoto." Brincou. "Louco para agradar e muito... Obediente."
Entrei em pânico. "Eu sou obediente! Eu faço o que você quiser, senhor. Me leve no lugar dele, por favor!"
Ele riu sozinho, fechando o espaço entre nós e enrolou um de meus cachos em seu dedo. "Você foi tão frio comigo, Harry. Você nem se despediu de mim ontem no estúdio. Isso me machucou. Eu tava começando a pensar que você não gostou do tempo que passamos juntos."
Ele não iria facilitar aquilo para mim.
"Eu gostei." Disse entre um suspiro. Ergui meus dedos para que encontrassem seus lábios e o beijei com a boca fechada.
Me puxou pela cintura e me empurrou na parede. Seu peito, quase duas vezes o tamanho do meu, apertou o ar para fora de meus pulmões. Forçou minha boca a se abrir com sua língua. Sua mão acariciava minha bochecha e minhas narinas preenchidas com a essência de sua colônia.
"Seu provocador." Sussurrou em meu ouvido. "Eu sabia que você gostava. Só estava se fazendo de difícil, não é?"
"Sim."
"Você me quer?"
Engoli seco. "Sim."
Ele se afastou e disse: "Prove."
Sem tirar seus olhos de mim, ele desafivelou sei cinto e abriu o zíper das calças. Todo o meu ser se afogou em terror.
Olhei para a porta e pedi "Qual é, aqui não."
"Achei que você me quisesse? Você quer ir para Kiev?"
Transferi o peso para a outra perna. "Yeah."
"Então seja um bom garoto." Ergueu meu queixo. "Certo?"
"Certo."
Soltei minha mochila e fiquei de joelhos. Eu sentia o chão fio através de meus jeans. Meu joelho dolorido incomodou. Você consegue, disse a mim mesmo. Só vai. Faz logo e acaba logo com isso.
O tomei em minha boca.
Era muito pior do que eu me lembrava: o cheiro, o gosto. Ele estocava em mim e atingia o fundo de minha garganta. Eu não estava pronto. Meus olhos se encheram de água. Me engasguei.
Ele acariciou minha cabeça. "Bom. Bom." Sua respiração ficou falha. "Isso é tão bom. Deus, eu senti falta da sua boca, Harry."
Eu odiava ouvi-lo falar meu nome. Eu não queria que me chamassem de jeito nenhum quando eu estava fazendo aquilo. Eu queria estar morto.
"Um garoto tão bom." Gemeu. "Você é meu garoto especial, Harry."
Ele segurou meu cabelo e estocava mais rápido e forte. Ele estava tão intenso. Por que ele tinha que fazer aquilo doer? Eu estava fazendo como ele dizia. Eu estava sendo bom.
Ele terminou, eu tossi e sequei meus olhos com as costas da mão.
"A gente vai se divertir tanto em Kiev." Disse, subindo as calças e afivelando o cinto. "Duas semanas inteiras..." Sorriu. "Você tá ansioso?"
Assenti e forcei um sorriso, lentamente revivendo o inferno que ele me fez viver em Paris, imaginando se eu teria forças para passar por tudo aquilo novamente. Eu tinha, foi do que me dei conta, pois agora eu não estava fazendo isso por ser fraco. Estava fazendo aquilo por Louis. Eu tinha que ser forte para protegê-lo.
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