05. Parcerias Duradouras

A minha história ao lado de Solene Vasquez não era recente, muito menos efêmera. Na verdade, nosso entrosamento já durava longos e quentes verões. Mas não quente do tipo faisquinha, e sim do tipo avassalador.

Nos conhecemos por acaso em uma das praias de Mavetorã. Ela estava linda como sempre. Deslumbrante em seu biquíni amarelo chamativo. Assim que meus olhos a encontraram, eu soube que queria ela como parceira no amor, na guerra e até mesmo no crime caso fosse necessário.

Ela percebeu meus olhares em sua direção e me chamou para acompanhá-la em uma rodada de raspadinha de morango. Essa foi a primeira memória que criei ao lado dela, e era doce e ensolarada, assim como ela.

Porém, nosso namoro foi breve. Nem cheguei a assumi-la em rede social nem nada do tipo, pois nossos sonhos, apesar de muito parecidos, sempre se chocavam. Ela queria ser famosa a todo custo, mesmo já sendo uma estilista renomada, ela ainda se sentia incompleta. Queria mais fama, mais fãs, mais flashes, mais dinheiro.

Eu, por outro lado, também queria fama, mas de um jeito mais consistente. Era bom cantor, então queria ser conhecido como tal. Como o baita vocalista que eu era.

Conforme nos aproximamos e nossa relação se intensificou, eu lhe contei os segredos mais íntimos de minha família e a presentei com o anel de safira da sorte que minha avó me deu. Nunca funcionou comigo, pelo menos não que eu saiba, então julguei que ele teria mais utilidade na mão de alguém como a Solene.

Ela me revelou que já tentava entrar no reality show PARALELO há mais de cinco anos, mas nunca avançava nas seletivas. Porém, assim que fez o teste com o anel da sorte, ela foi aprovada e incluída no elenco principal. O resto era história, ela viveu os quarenta dias de programa e saiu de lá com um cheque imenso de três milhões de reais no bolso.

Mas, para ela, o dinheiro era o de menos. Ela queria a fama, a influência, o renome, e embora ela não tivesse alcançado tudo que almejava ainda, era só questão de tempo até ela usar o destaque que ganhou na mídia com o PARALELO para conseguir tudo que sempre sonhou.

Eu acompanhei o reality show secretamente. Não deixei que meus amigos soubessem para que eles não desconfiassem do meu romance com a Sol. Não que eu não confiasse neles, mas sempre acreditei que tudo que era planejado em silêncio prosperava com mais facilidade.

Além do mais, minha relação com Solene era baseada inteiramente em confiança. Contávamos tudo um ao outro, inclusive sobre a magia da minha avó, da minha mãe e da minha capacidade de interagir com o sobrenatural mesmo não tendo poderes.

Quando ela saiu do programa, eu fui a primeira pessoa para quem ela ligou, dizendo que já sabia o que fazer agora que estava milionária: iria dar uma festa numa ilha particular e ia chamar todos os contatos que ela conhecesse que pudessem ajudar a Flamingos Vigaristas a engatar no mundo da música.

Ela ligou para o nosso agenciador de shows — Jorge — e negociou tudo com ele em um telefonema. Pagou toda a nossa viagem e agora estávamos perto de conquistar nosso sonho de sermos notados pelos grandes empresários. Tinha tudo para dar certo.

Mas eu tinha uma arma secreta. A entidade mágica dos bem sucedidos: Fúria Sanguessuga. Eu só precisava ler mais sobre ela antes de tentar invocá-la para ajudar minha banda a se tornar uma das mais famosas do país, quem sabe até do mundo.

Esse ponto da história, porém, eu decidi guardar só para mim. De preferência em meu túmulo, ao lado do meu corpo frio, sem vida e carcomido pelos vermes que um dia se apossarão do meu caixão.

— Tenho que voltar para os meus convidados, docinho — disse Solene, manhosa, enquanto dedilhava o meu rosto com o seu dedo. — Mas vou fixar meus olhos em você durante todos esses dias.

Esbocei um sorriso sedutor e a beijei rapidamente antes de me desvencilhar dela.

— Eu preciso ir ao hotel. Tomar um banho relaxante, fazer meu ritual pré-show, você sabe, essas coisas.

— Pode ir, as bandas só vão começar as apresentações à noite. Você e o pessoal têm tempo de sobra para se organizar.

— Valeu, gatinha.

Nos separamos na saída do camarim, tentando não ser vistos pelos convidados enxeridos que ficavam perambulando por lá. Por sorte, ninguém nos viu. Eu acho.

No caminho até a saída, rumo a van da banda, encontrei com os Flamingos e informei tudo em relação ao horário e as dinâmicas das apresentações. Também pedi a chave do carro para voltar ao hotel. Para o meu azar, Amélia quis ir junto comigo. Tentei fazê-la mudar de opinião, pois precisava de privacidade para invocar uma entidade, mas ela foi irredutível.

No fim, tive de ceder e levá-la comigo. Enquanto eu dirigia pelas ruas calmas da ilha, pensei em maneiras de trancar Amélia no banheiro ou quem sabe trancá-la para fora do quarto. Alguma solução eu precisava encontrar para conseguir invocar a entidade do sucesso antes da nossa primeira apresentação. Eu queria sua bênção desde o começo das performances para não desperdiçar nenhuma das minhas chances de brilhar.

— Levi, eu estivesse pensando, quem sabe você não deveria buscar ajuda? — disse Amélia enquanto eu dirigia, chamando minha atenção de um jeito assustador.

— Ajuda? Ajuda para quê?

— Para esse seu vício em drogas. Não gosto nada disso.

Bufei, revirando os olhos tão alto que quase não vi a lombada à nossa frente.

— Eu já te disse que não sou viciado. Uso ocasionalmente.

— Não acredito em você.

— Problema seu.

— Qual é, me diz quando foi a última vez que você usou cocaína?

— Há umas semanas, antes do nosso último show. Eu geralmente uso antes dos shows para me sentir leve.

— Então suponho que você vai usar o pozinho branco todos os dias a partir de hoje, já que vamos ter uma semana de shows intensos nessa ilha, certo?

— Já tenho uma carreira de pó prontinha em algum lugar da minha mala, só preciso encontrá-la.

— Levi, você...

— Amélia, por favor, para de ser intrometida! — falei grosseiramente, só me tocando depois do tom que usei. — A vida é minha, eu faço o que eu quiser com ela. Olha, eu agradeço de verdade a preocupação, mas ficar me azucrinando não vai mudar meu comportamento, só vai comprometer nossa relação, então para, por favor.

Reparei de relance que os olhos dela estavam marejados.

— Você que sabe, eu só estava tentando ajudar.

— Eu sei, e agradeço por isso. Mas atualmente eu dispenso sua ajuda. Estou bem como estou. Focado em minha carreira.

— É, só se for a carreira de pó.

Ignorei a alfinetada para o bem da nossa amizade.

Eu queria concentrar todas as minhas energias em interagir com o sobrenatural, não discutir por bobagem.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top