01. Levi Fleur Cadente
Acordei assustado com o berro ensurdecedor do despertador programado por mim na noite anterior. Senti uma raiva imensa de mim mesmo por ter ido dormir tão tarde sabendo que teria de levantar cedo.
Corri para organizar tudo antes que a van da banda chegasse buzinando na porta de casa. Praguejei, xinguei e chutei tudo que insistiu em permanecer no meu caminho enquanto, às pressas, eu arrumava minhas malas.
Felizmente, o tempo agiu a meu favor. Quando ouvi a buzina da van dos Flamingos Vigaristas soar em frente à minha casa, eu não tinha mais nenhum afazer pendente. Corri com minha bagagem para dentro do veículo e me despedi da minha residência com um tchauzinho levemente melancólico.
Flamingos Vigaristas era a banda criada por mim e por meus amigos. Cada um de nós tinha um apelido dentro da banda. Eu, o vocalista, era conhecido como "o soturno". O guitarrista, Tom, era chamado de "o furacão", a guitarrista, Amélia, era "a tormenta" e Jorge, o baterista, como "o vendaval". Não éramos nem de longe os mais famosos do mundo, mas tínhamos uns milhares de seguidores nas redes sociais e, de vez em quando, até éramos convidados para fazer uns shows.
Como nesse caso em que estávamos a caminho do aeroporto de Mavetorã, rumo a uma ilha paradisíaca, onde Solene Vasquez, ganhadora do reality show PARALELO, estava organizando uma grande festa para comemorar sabe-se lá o que, e nós éramos uma das atrações.
— Você lembrou de pegar seus documentos? Lembra que você não pode embarcar sem seu documento de identificação.
Essa era Amélia. Acho que, entre todos nós, ela era a mais responsável. Sem ela, a banda não existiria, quiçá nem vivos estaríamos mais.
— Sim, mamãe — brinquei, tirando o documento verde do bolso da minha mochila e mostrando-o à garota ao meu lado.
Ela leu meu nome e assentiu silenciosamente.
— Eu nem acredito que estamos indo para uma ilha paradisíaca tocar num show e depois ficar à toa por vários dias — comentou Tom ao volante, empolgado.
— Às vezes a sorte sorri para nós — comentei com um sorriso, me espreguiçando para trás.
— "Às vezes"? — Ironizou Jorge. — Temos sido tão requisitados ultimamente que já podemos dizer que a sorte é nossa melhor amiga.
— E por falar nisso, como você conseguiu esse show para nós? — quis saber Amélia. — Essa tal de Solene não estava, tipo, no maior reality show do país?
— É, ela é aquela garota que ganhou o PARALELO roubando o namorado da amiga — explicou o baterista.
— E desde quando normalizaram a talaricagem? — perguntei, verdadeiramente intrigado com as informações a respeito da nossa contratante.
Todos riram.
— Bom, a vida pessoal dos nossos clientes não importa — disse Amélia. — O que importa é que ela vai pagar bem e que nós teremos visibilidade e a oportunidade de expandir nossa lista de contatos.
— Bem que dizem que networking é a nova sensação do momento, né — disse Jorge.
— Já pararam para pensar que esse é o nosso maior show? Vamos estar em evidência para milhares de pessoas, quem sabe esse é o nosso trampolim para a fama... Temos que fazer história nesse show — comentei, imaginando um cenário em que vários agentes nos ligavam e lotavam nossas agendas.
Amélia me encarou por alguns segundos com uma feição confusa antes de dizer:
— Quando você fala desse jeito esperançoso, seus olhos brilham diferente...
— Diferente bom ou diferente ruim?
— Um diferente ambicioso.
— Então é bom — rebati. — Não há nada de errado em querer sempre mais e mais do que a vida oferece.
Acho que as pessoas ao meu redor sempre souberam da minha vontade de ser grandioso. Ter meu nome conhecido, admirado, respeitado, sutilmente temido e loucamente invejado.
Esse, inclusive, foi um dos motivos de eu ter topado fazer parte da banda quando a ideia surgiu lá no início: ter a chance de ser parte de algo grande ao lado dos meus amigos. Temos feito muito progresso nos últimos tempos, mas dessa vez é diferente. Essa apresentação pode mudar nossas vidas de vez.
— O que seus pais disseram sobre a viagem? — perguntou Jorge.
— Não vejo meus pais há meses — respondi meio áspero. — Por que acha que eu contaria a eles sobre essa viagem?
— Por que essa viagem é a oportunidade de mudar a sua vida?
Bufei, incomodado.
— Não acho que eles estejam interessados nas minhas conquistas, contanto que eu esteja bem, vivo e não cometa nenhum crime, eles não precisam saber da minha vida.
— Você fala dos seus pais com tanto desapego... — percebeu Tom depois de vários minutos calado. — Sempre imaginei que, por ser filho único, vocês fossem muito apegados.
— Para sermos apegados, eles primeiro teriam que estar presentes. Uma habilidade que eles não dominam muito, quer dizer, não mais... Para ser sincero, eu nem sei em que parte do mundo minha mãe está agora.
— Mas e a sua avó? Ela sempre foi muito querida com a gente — lembrou Amélia. — Ela também é ausente?
— Ela vive viajando com a minha mãe, mas, ironicamente, tenho visto mais ela nos últimos tempos do que a minha própria mãe.
— Ainda acho incrível sua avó se chamar Mavetorã. É como se ela fosse a dona da cidade, sabe.
Soltei uma risada.
— Eu amava me gabar disso com meus colegas da escola — revelei. — Amava fingir que minha avó era uma bruxa superpoderosa que realizava qualquer desejo meu.
— Desde pequeno você sempre gostou de ser o centro das atenções, né, Levi?! — comentou Jorge, levando um sonho de padaria inteiro à boca.
— Eu não nasci para passar batido. Nasci para brilhar, deixar minha marca. E é isso que eu vou fazer.
Todos me encaravam meio confusos, meio admirados. Acho que o modo como eu externava meus desejos deixava eles meio assustados... Tentei, então, quebrar a tensão com uma pergunta que estava martelando na minha cabeça desde que Jorge anunciou que faríamos essa viagem.
— Será que vai ter cocaína nessa festa?
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top