🐯 Tefari 🐯

A água sempre descobre um meio.
Provérbio africano


Sentada no banco da Praça Curae, observo as pessoas passando. A praça é o único monumento em homenagem ao deus, com exceção do Templo de Todos os Deuses em frente a praça. Com o passar dos anos Zofa deixou de ser devota as divindades terrenas, prestando cultos somente aos elementais.
Zofa, apesar da exploração, tem sua beleza, enquanto Trivena se adorna com vários tons de vermelho, Zofa se enfeita do colorido, as casas não possuem cor alguma, mas as barracas transmitem alegria com seus tons de verde, amarelo, marrom, azul, vermelho e laranja. Os turbantes coloridos nas cabeças dos moradores complementam a exuberância do local. Sinto certo orgulho do meu povo, que apesar de ser explorado injustamente, demonstra força valorizando sua cultura.

Inconscientemente pego Graciosa e admiro sua beleza, ela é curvilínea, curta e mui afiada, possui uma única pedra azulada e cintilante no cabo. Soube de sua existência ainda pequena, na minha décima primavera, meu pai disse a espada estava lá na noite em que fui deixada em sua soleira. Era a única herança da minha família de sangue.
Meus pais já previam que eu seria uma guerreira.
Uma sensação nostálgica aperta meu peito.

Bomani aparece, afastando tal sensação, com algo enrolado num tecido azul a minha frente, despertando-me.
—O que é isso?- pego o leve embrulho.

— Você tem andado tão emburrada desde o ataque do dragão que decidi te fazer um agradado.

Tiro o tecido e vejo que se trata de um doce de coco com amendoim. Eu amo esse doce.

Um sorriso de agradecimento surge em minha face.
Bomani e eu temos uma concepção de amizade: sabemos que cada um percorre seu próprio caminho e luta sua próprias batalhas, no entanto até o exército mais eficiente precisa de cuidados depois de uma guerra. Então estamos sempre um do lado do outro, ajudando a cuidar das feridas e levando luz onde não há. Essa é nossa aliança, esse é o nosso compromisso. Dizer alah significa que você vai permanecer fiel a sua promessa não importa o que aconteça.

Experimento o doce. O sabor e a gratidão se misturam em mim, causando um momento de felicidade.
—Está muito saboroso, obrigada.

—Vê seu rosto se iluminar outra vez não tem preço.- ele me olha nos olhos.

Na maioria das vezes Bomani é um chato, vive implicando comigo e eu não deixo barato, se ele tivesse que escolher entre cortar um braço a me elogiar, ele daria o braço direito, já que maneja a espada com o esquerdo com maestria.

Entretanto existem raros momentos. E eles acontecem quando eu estou triste e nem um pouco confiante do meu potencial. Hoje é um desses momentos.

— Sinto muito pelo meu humor azedo. Não gostei da forma como a rainha me tratou.

— Ela é a rainha. Claro que a trataria assim, na verdade trataria qualquer um que julga inferior dessa forma.

Eu o encaro.
— Mas aí que está a questão. Não sou inferior a ninguém.

Bomani demonstra aborrecimento.
—Esse é o seu problema. Você nunca  quer estar abaixo de ninguém. Mas a vida não é assim! Existem hierarquias, posições, governos...

—Eu sei Bomani! No entanto, ser humilhada dessa forma? 'Não olhe nos meus olhos', que baboseira! Governos podem ter o controle sobre nações, mas não terá poder sobre mim.

Percebo que algumas pessoas nos olham curiosa, devo ter me exaltado.
Respiro fundo para manter o controle da situação .

Mas acontece que a situação está fora do meu controle. A caravana da Princesa Lisie está a caminho de Trivena, o Festival dos Dragões começam daqui a dois dias e logo depois o casamento será realizado.
Sinto como se estivessem fechando a única saída e eu sou incapaz de impedir qualquer coisa.

—Ainda dá tempo de desistir.- Bomani sugere o impensável.- Existe outras realidades além da coroa, Tefari. Você pode ser uma grande guerreira, pode ajudar nosso povo de outro jeito.

Balanço a cabeça afastando tal ideia absurda.
— Pode até existir outras realidades, mas nenhuma delas me serve. Serei rainha.

Bomani me olha ressentido.
— Como fará? O Príncipe Daren a odeia pelo simples fato de ser terrena. Não pode obrigá-lo a casar-se com você. A não ser que num passe de mágica ele passe a amá-la, o que é impossível.

Confesso que estava ignorando as três primeiras frases do meu amigo, mas quando ele falou sobre mágica, isso chamou atenção.

—Repete! Repete o que disse.- peço sob seu olhar confuso.

— Não pode obrigar o príncipe a casar-se com você.

—Não, não essa parte.–o interrompo.— Você disse algo sobre magia.

—Do que está falando?

De repente todas as peças começam a se encaixar, resultando na tão esperada solução para o meu grande problema.

—Estou falando de uma poção do amor.

Bomani me encara mas em seguida solta uma gargalhada.
— Colocaram alguma coisa no seu doce. Você está brincando. Está de brincadeira, não é?

Ele ver que estou falando sério pela minha expressão.

—Céus! Essa mulher é louca.

Bomani fica de frente pra mim e segura os meus ombros .

— Me escuta Tefari. Não existe isso de poção do amor. Daren não vai simplesmente tomar algo e te amar loucamente.

—Quem disse que não existe? Você nunca ouviu as antigas histórias?

— Isso mesmo, antigas. Um bando de fábulas contadas por velhos que nem lembram seus próprios nomes!

— Não é! E eu conheço alguém que pode nos ajudar.


Quando chegamos a botica meu pai está catalogando frascos de medicamentos.
— Olá pai! Onde está mamãe?

Pergunto lhe dando um abraço.
— Foi até a feira comprar ervas. Espero que encontre, ouvi Joan reclamar que algumas ervas estão acabando. Mal posso esperar a chegada da Princesa Lisie, alguns comerciantes trarão novos materiais de lá na caravana. E Salin possui as melhores plantas.

Se depender de mim ela não durará muito tempo por aqui.
— Pai, o que você sabe sobre poção do amor?

Minha pergunta é tão direta que meu pai demora uns instantes para se recuperar.
— Poção? Do amor?

—Eu falei que era loucura...– Bomani argumenta.

—  Sim pai, uma poção mágica que se bebida, faz a pessoa amar a outra incondicionalmente.– explico impaciente.

— Eu sei o que é uma poção do amor, ora! Mas porque o interesse?

No caminho eu já tinha pensado numa explicação.
— Bomani, ele está apaixonado por uma bela jovem, mas não é correspondido, por que, bem, ela é bela.– digo tentando manter o fingimento.

Bomani fica surpreso.
— Eu? Ei, eu não preciso de poção do amor pra conquistar uma mulher.

— Precisa sim. Coitado está tão envergonhado que não admite. Você pode ajudá-lo pai? Faz dois dias que meu pobre amigo não come.

Bomani me fuzila com o olhar. Meu pai nos olha desconfiado.
— Não sei muita coisa sobre esse assunto. Poções de amor não são bem quistas por nós. Ninguém quer tomar uma bebida que vai fazer você ficar preso a outra pessoa pra sempre.

— Então elas existem?– meu interesse é palpável.

— Sim, existem. Não é fácil de fazê-la, seus ingredientes são dificilimos de encontrar, além disso você tem que manipular magia.

Um fino sorriso surge em meus lábios.
— Mas elas existem...

— Você não ouviu seu pai, Tefari? É quase impossível obter essa coisa.

— Bomani, meu filho, seu caso não está perdido. Já experimentou dar flores a dama? Um perfume não seria nada mau.– meu pai sugere e Bomani o encara ofendido.

— Ei! O que há de errado com o meu perfume?

Sorrio.
— Tem razão, pai. Nós iremos atrás das flores. Obrigada pai!

Arrasto Bomani para fora da botica, deixando meu pai com seus frascos a catalogar.

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