Ana Carla Ribeiro.



Aprendeu com a mãe - que era professora - a escrever o nome e outras palavras, e ler várias, antes mesmo de ir para escolinha.

O pai era funcionário de uma agência bancaria, as vezes mudavam de cidade pois ele treinava equipes de agencias novas. Porém o que mais gostava (não que ele odiasse o emprego oficial) era de trabalhar com marcenaria, por isso sempre reservava um espaço na casa onde estavam, para seus trabalhos manuais.

Ana sempre foi curiosa, corajosa, alegre. Mas tudo isso por saber que seus pais eram sua base. Admirava muito o fato dos pais serem parceiros e sempre cuidando um do outro.

Não gostava quando alguém apertava sua bochecha e dizia, "Mas que gordinha linda! " - Ela dava um sorrisinho e respondia Obrigada, sou uma mocinha linda.

Laura, sempre fazia o possível para a menina comer coisas saudáveis. Vez ou outra fazia à vontade e iam tomar sorvete, comer bombom, para que quando tivesse chance sem eles, a filha não comesse em demasia por não ter vez ou outra. Também a levava em consultas médicas para verificar a saúde dela e os mais agradáveis diziam que ficasse atenta a mudança bruscas, para que quando adulta não se tornasse obesa pois, poderia acarretar outras questões.

A mãe, tinha o corpo magro até engravidar. Apesar de não ter ficado com sobrepeso, mas dava para notar a mudança no corpo depois da gestação. Carlos, nunca foi gordinho, brincavam que ele "não engordava de ruim".

Os três faziam caminhadas, em dias alternados. Uma sexta sim, outra não, iam a sorveteria — Só uma bolinha de sorvetinho, a gente merece. - A menina e o pai diziam. Laura ria e respondia "Só uma para cada. Merecemos. "

***

No ensino fundamental, já estavam morando em outra cidade.

Na festa de 15 anos, dançou com um filho de um colega de seu pai. O rapaz era dois anos mais velho, muito bonito. Ele cochichou durante a outra música que dançaram, o quanto ela estava bonita, e perguntou se ela já tinha beijado alguém.

Ela deu um risinho tímido, negando com a cabeça. Depois sorriu de volta ao ver o sorriso dele, e que sorriso maravilhoso ele tinha. Sempre foi amigável com ela, quando as famílias se encontravam para algum churrasco.

Enquanto Carlos se movia até eles, para dançar com a filha, Jonatan encostou no ouvido dela e disse: — Depois da dança com ele, te vejo na varanda lá de cima, a do lado esquerdo. Vou beijar essa boca linda. – A casa era da familia dele, então ele sabia que aquela área estaria vazia.

Ana não disse nada, ficou nervosa, alinhou um sorriso - queria - manteve-se parada enquanto o rapaz se afastava com um meio sorriso charmoso.

Quando a dança com o pai terminou, foi até a varanda, ansiosa pelo que iria acontecer. Ele se aproximou dizendo que aquela seria a noite dele aproveitar para tentar beijar a moça que achava tão linda. — Tem de ser hoje, agora. E sei que você também gosta de mim.

— Você é gatinho.

— Você que é linda, princesa. Se eu pudesse, namoraria você. – Disse e a beijou.

Ana ia perguntar o motivo dele dizer aquilo, mas preferiu aproveitar o beijo.

Quando ela voltou para o espaço da festa, a mãe dela se aproximou e disse que a mãe de Jonatan estava procurando por ela. Foram até a mulher, que não estava na festa desde o início, e explicou o motivo: Fui buscar essa mocinha no aeroporto, ela quem trouxe o seu presente, veio de São Paulo. Esta é Luana, namorada do Jonatan.

Luana estendeu a mão. — Prazer. Minha sogra disse que pediu pra ele dançar com você, que eu não me preocupasse, pois você era uma boa moça. Lindo vestido, está bonita. - Pelo jeito tinha a idade próxima a de Ana, ou a mesma.

"Namorada? O quê? " – Ana recebeu a sacolinha com o presente, agradeceu e disse para ficarem à vontade. Depois pediu licença, e se dirigiu ao jardim, para respirar um pouco. "Obrigada mesmo pela informação. Que descarado. Homem não presta, só os dos livros. Ninguem merece. Eu poderia contar a ela, mas ela poderia se voltar contra mim, e hoje não é dia de confusão".

Infelizmente moravam na mesma rua, mas conseguiria trata-lo somente como conhecido de cumprimento. E ele ficou sem jeito, ao ver que tinha sido descoberto por Ana, afinal, ele não sabia que a mãe levaria a menina a festa.

***


No começo do último ano no colégio, conheceu Marisa. Passaram a se falar com mais frequência, até que Ana a chamou para ir a sua casa, numa sexta depois da aula.

Laura comentou com o marido que "quando olhou para menina, não sabia dizer o que sentia de estranho".

Carlos respondeu que era ciúmes, pois há anos não levava uma amiguinha para casa.

— Amiguinha? - Laura olhou para ele como diz "Essa menina não tem 6 anos não. " - Pensou e riu, depois disse o que pensou.

— Modo de dizer... – Ele deu de ombros. — Ciumentinha linda. – Deu um beijinho no rosto dela.

— Hum... - Tentou ficar séria, mas não conseguiu, olhando para ele. Só você pra fazer graça quando eu tô falando sério. - Deu um risinho. — Sei lá... não senti um negócio bom não.

— Que negócio?

— Nada. – O chamou com a mão — Vem, vamos ver se ficou boa.

— Isso! - Carlos disse esfregando as palmas das mãos uma na outra, todo feliz. — Amo essa geleia que você faz. - Ele tentou fazer uma vez, mas não acertou. Na ocasião, Laura riu, e disse que faria sempre que ele tivesse vontade.

— Mais tarde quero o pagamento. – Ela disse e riu quando ele a agarrou por trás, aproveitando para beijar-lhe o pescoço.

*

Enquanto isso, as duas no quarto conversavam sobre a festinha junina que teria na escola, sobre quem seria o casal escolhido "tipo rei e rainha do milho". Depois sobre os meninos que achavam bonitinhos. Marisa disse que era apaixonada pelo Maciel, mas ele parecia não nota-la.

— É o primo da Julia? A insuportável que veio com a galera do outro colégio que teve o incêndio? - Ana perguntou.

— É. Por quê?

— Aquele? Sério? "Menino esnobe da porra".

Marisa deu de ombros. — Eu sei que acham ele um pouco metidinho, mas acho ele tão gatinho, amiga.

"Um pouco metido? Não... muito. " — Desculpa, não to aqui mandando em você.

— Tudo bem. Você é legal.

— Você quer suco? Alguma coisa? Nem perguntei.

— Quero suco.

— Acho que minha mãe fez geleia de morango, painho que gosta. Aliás, amamos. Mas sei que ela faz mais por causa dele. Vamos na cozinha ver o que tem. – Ana gostava da companhia dela, se divertiam, mas nunca a deixou sozinha em seu quarto.

***

Dias depois, a festinha de São João que a diretora permitia que as turmas do 3° ano fizesse no auditório, estava acontecendo.

Alguns garotos passaram por elas e disseram que estavam bonitas. Outros disseram a elas que teria uma "festa secreta" depois, na casa de Julia.

A Julia, vinha logo atrás deles, e tratou de falar — Desculpa. - Cheia de deboche. A festa não é pra todo mundo, eles se enganaram. - Deu risada e as amigas acompanharam o deboche enquanto entravam no auditório.

E nessa festa, eram escolhidos "o rei e a rainha do milho", nome por causa do tema junino. Na verdade, era disfarce para escolher "o casal" mais bonito das turmas.

Ana comentou com Marisa, que achava aquilo meio injusto, pois cada pessoa tinha sua beleza.

A professora Claudia abriu o envelope no palco, e chamou Maciel. Isso já era aguardado, pois o metidinho era lindo. Houve algumas comemorações.

Ana Carla mal pôde acreditar quando o segundo nome, não era o de "Júlia" como esperado pela maioria, e sim o dela.

— Foi você? Nem me falou que estava concorrendo. - Marisa falou com os olhos mais abertos, surpresa.

Ana percebeu a expressão dela, e logo se explicou enquanto ouvia outras meninas dando parabéns. Eu não sabia, não estava concorrendo, não entendi nada. – A professora a chamou novamente e alguns alunos vieram até ela, dizendo que tinha de subir lá. Algumas meninas falaram que era bom para representar as gordinhas do colégio. Ela tentou novamente se explicar Mas eu não estava, não estou. – Sem se dar conta de que já estava diante dos três degraus de acesso ao palco.

A professora mostrou o papel a frente do envelope em sua mão, confirmando os nomes chamados. — Parece que a maioria quis você. Eu concordo.

Claro que houve frases como: "Não entendi nada" e também "Era para ser a Julia". E outras como: " Aehhhh Vai lá Ana" - estas seguidas de assobios. Nem imaginava que tanta gente sabia seu nome. Quero saber quem começou essa história, pois eu não fui.

— Será que foi uma professora que achou que seria mais do que justo. A mesma disse, dando um risinho e Ana entendeu. — Sorria por todas que estão se enxergando em você agora.

— Olhando por esse lado...

Foi colocado a faixa nela. Maciel lhe deu um beijo na bochecha, o que gerou comentários de namoro vindo de alguns da sala dele - alguns sarcásticos, outros não - e cara de tristeza de varias meninas.

Mas, a maior decepção foi da Julia, que tinha certeza da vitória. Pois já tinha vencido em outras festas juninas. Uma gordinha vencendo-a.

***


Quando as aulas voltaram em julho, tinha um aluno novo na sua turma, chamava-se Rafael. Ele seria "irmão" de Maciel, pois sua mãe se casaria com o pai dele.

Maciel tentava mais ainda se aproximar de Ana, sentava-se perto dela algumas vezes, ou acenava quando passava nos corredores. Ela questionou, e ele disse que queria saber sobre a amiga dela. Marisa via a coisa de outro jeito, como se ele estivesse gostando de sua amiga e ela mentindo para ficar perto dele. Mas Ana sempre a dizia que não era aquilo, e como ele pediu para não contar que queria fazer uma surpresa para ela, não falou mais nada.

E ele, esperto, as vezes acenava pra Marisa também.

Para se desviar de Maciel, Ana falava cada vez mais com Rafael e descobriu o quanto ele era bacana, e que gostavam de várias coisas. Por morar na rua próxima a dela, passou a acompanha-la na ida e volta do colégio.

Ela se sentia bem conversando com ele, os dois gostavam de várias coisas, inclusive ouvir Calcinha Preta e Limão com mel. Mas sentiam que não era mais que amizade.

— Ana, tem certeza de que Maciel está atrás de Marisa?Rafael perguntou quando estavam perto da casa dela.

— Dizendo ele que está.

— Então porque ele não fala logo com ela?

— Ela anda até um pouco estranha comigo, mas logo vai entender. Ele disse que vai fazer uma surpresa pra ela, na festa de Halloween.

— Se você precisar, estou com você, ta.

— Oxe menino, que conversa é essa?

— Sei lá... So saiba que sou seu amigo. De verdade. E, não vou muito com a cara do meu "novo" irmão, nem da prima dele, mas sorrio pra não chatear minha mãe. – "Acho estranho... O Maciel sempre teve uma quedinha pela Julia, mesmo sendo prima. Aí tem. "

*


Ana, Rafael, Maciel, e mais 3 alunas, ficaram responsáveis por organizar a sala para a festa, enquanto os outros faziam as decorações numa sala vazia no fim do corredor.

Em dado momento, chegou "recado" por um amigo de Julia, que Rafael fosse até a sala dos professores.

Maciel, aproveitou o sinal que viu ao longe, pegou na sua mochila no canto uma pulseira, e estirou o braço em direção a Ana. — Você tem razão, melhor a gente contar para ela logo. – Se aproximou para lhe dar um selinho.

Enquanto deu um passo para trás, Ana escutou Julia, ao lado de Marisa, dizer — Falei a você. Te trouxe aqui pois ele disse que daria o presente a ela, ela disse que gostava dele.

Não adiantou ela explicar. Marisa já estava chorando, e deu-lhe um empurrãozinho, para que se afastasse, dizendo que nunca mais seriam amigas.

Ela xingou ele por um palavrão que quase nunca na vida falava. Tentou dar alguns tapas em Maciel, mas alguns alunos que acabaram segurando-a enquanto ela gritava que era mentira, e ele e Julia riam. Alguns chamavam ela de "falsa".

Ana saiu da sala, chorando e encontrou Rafael na entrada da área do 3° ano. Um dos colegas dele avisou quando ele estava voltando. Já sabendo que era armação, pois nenhum professor o estava procurando. Ela contou o que houve.

Ele conversou com a professora de artes - a que adorava Ana – e ela liberou os dois, eles não participaram do Halloween, no dia seguinte, e a levaria para a lanchonete.

Quando ela chegou em casa e contou para mãe, Laura a abraçou e disse que aquilo não era justo. — Minha bebezinha... isso vai passar. – "Bem que senti algo estranho".

*

Um dos colegas de Rafael contou a ela que ele teve uma briga com Maciel. Quando ela chegou perto do amigo no colégio, ele so perguntou se ela estava bem, e ela o abraçou depois de ver um ponto marcado no rosto. Porém, Maciel ficou pior.

Marisa convencida por Julia, contou algumas coisas sobre Ana. Inclusive a mentira de que foi rejeitada pelo vizinho que ela gostava, por ser gorda.

Quando soube, Ana jurou a si, nunca mais ter amiga.

***

Pouco antes do Natal, Rafael foi até a sua casa, lhe entregar o presente que havia comprado para ela. Ele acabou contando, que Marisa foi convidada para um churrasco na casa de Julia, chegou sem ser vista, e pegou a conversa com umas primas, enfim descobriu a verdade. — Aí Julia aproveitou e jogou tudo no ventilador, ela entendeu que foi usada para te atingir. – Explicou.

— Uma pena pra ela, eu era uma boa amiga, nunca faria o que ela pensou.

— Sobre os boatos, também tenho notícia. Seu amigo Jonatan, dias depois, desceu as palavras na Marisa e depois na Julia, terminou dizendo que você quem dispensou ele no ano passado, mas que ele te queria.

— Mentira... Ele fez isso?

Rafael balançou a cabeça confirmando. — Na hora de Julia eu tava lá, por coincidência e ouvi os dois no portão, ele tava puto, te defendeu. A de Marisa, ele que disse que tinha acabado de fazer, mas eu soube depois que foi verdade. – Ele pôs as mãos no bolso. —Tenho pra mim que Maciel ajudou, por ela ter prometido que ficava com ele.

— Sério? "São primos... Mas quer saber? Não é problema meu. " — Obrigada Rafael, mas se me decepcionar também, eu arranco o que não usa fora. – "Você brigou com ele, deixou o rosto dele roxo naquele dia, para me defender. Mas ainda tenho medo de amizade. "

Ele respondeu rindo — Deixe minhas coisas fora disso, ainda pretendo inaugurar no proximo ano, se Roberta enfim me der uma chance. Ela me deixou na mão duas vezes, mas eu gosto dela. – Eles riram.

Laura fez questão que Rafael comesse bolo e tomasse limonada geladinha antes de ir. Quando o garoto foi embora, a mãe disse a filha — Ta aí, esse menino é seu amigo. Eu sinto isso... E eu sei que ele brigou com o mau caráter, para te defender. Será que ele gosta de você de outro jeito?

— Não, mainha. - Ela deu um risinho, enquanto lia as primeiras páginas do primeiro livro do Harry Potter, que acabara de ganhar dele. Com uma dedicatória, que no novo bairro aonde iriam morar, ela levasse a magia que tinha nela e no livro. E sabia que ela nunca esqueceria dele, pois sempre se lembraria ao falar da história incrível que ela começaria a ler. — Ele gosta de uma moça chamada Roberta. Na verdade, ela é 4 anos mais velha que nós.

***


Por fim, tempos depois mudaram para outra cidade, mais próxima de Salvador. Essa seria a última mudança, como Carlos prometera. Tentaria se aposentar quando possível, mas mudança, não mais.

O pai levou-a até a livraria sebo, que ele descobriu antes mesmo de mudarem oficialmente.

Era perto de sua casa, então ela em dias alternados aparecia lá. Enquanto não conseguia emprego, teria livros para estudar mais, e romances para sonhar escondido. Fez "amizade" com o dono e a funcionaria, e certo dia quando chegou, Raiane lhe disse Pronto, queria muito apresentar vocês duas.

Ana foi levada enquanto pensava -"Quero não, você falou, mas não quero amiga nenhuma não. Não quero. "

Se cumprimentaram, e Raiane voltou para o caixa, pois so ela estava naquele dia.

Ana ficou quietinha, mas não estava de "cara fechada" era só prevenção. Porém, Samantha foi falando de um jeito, que ela logo estava respondendo sobre personagens de filmes e romances que coincidentemente conheciam. E dias depois, ganhou romance de banca dela.

"Ela parece calma, uma pessoa boa... No fundo, além do sorriso que dá, dá para ver uma certa solidão no olhar. Mas nem vem..."


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