Capítulo 4⚜Explicações⚜

⚜️ Samantha Montenegro ⚜️

__ Caramba, Sam! Imagino o susto que levou quando viu o senhor Fonseca entado em uma das mesas do restaurante em que você trabalha!__  Henry está debruçado em minha mesa de escritório.

__ Fale baixo! Ele está para chegar a qualquer momento. Minha esperança é que esteja tão atarefado que esqueça do ocorrido. __ Rogo aos céus.

No momento em que acabo de falar, meu chefe entra pela porta de vidro feito um furacão.

__ Samantha! Venha em minha sala imediatamente!__ Ordena sem antes desejar bom dia.

Segue direto para sua sala.

Ele nunca me chama pelo primeiro nome na empresa. Pelo visto, a conversa será difícil.

__ Deseje-me sorte, amigo.__ Levanto-me olhando para Henry.

__ Boa sorte, Sam. Você vai precisar...

Arrumo a camisa branca de manga longa, que está por baixo de um suéter de estampa xadrez vermelho. Levanto um pouco a calça jeans larga e entro devagar na sala. Ele está em pé, parado em frente à janela de vidro. Assim que entro, se vira e me observa de cima a baixo. Um vinco surge na testa.

__ Sente-se Samantha.__ Ocupa o lugar na cadeira em minha frente.__ Explique-se. __ Apoia um cotovelo na mesa e a mão na boca me observando de forma intensa.

Está poupando palavras. É um péssimo sinal.

__ O que o senhor quer saber?__ Tento ganhar tempo.

__ Tudo.__ Não facilita.

__ Tenho um segundo emprego, senhor. __ Tento disfarçar meu desconforto por ter sua total atenção.

__ Não se faça de desentendida, Samantha!__ Ainda não me acostumei com ele me chamando assim.__ É muito inteligente e sabe exatamente do que estou falando!__ Cerra os olhos.__ O que houve? O salário que recebe em nossa empresa não é o suficiente? Pagamos tão mal assim, que uma funcionária nossa, uma secretária executiva de um dos diretores, quer dizer em breve não será mais, precise se arriscar à noite, trabalhando como garçonete?

Foi isso mesmo que ouvi?! Ele disse que não serei mais sua secretária?!

__ Pretende me dispensar?__ Meus olhos azuis ficam brilhantes. Não consigo conter as lágrimas.

Não posso ficar desempregada agora.

Ele resmunga algo e se levanta. Minha visão fica embaçada pelas lágrimas até que o vejo em pé ao meu lado com um copo d'água.

__ Obrigada.__ Bebo um gole e seco o rosto.__ Desculpe.

__ Não faça isso, senhor Bartolomeu!

Dou um pulo da cadeira de susto com Henry invadindo a sala repentinamente.

__ Não demita a Sam! Ela não merece!

Meu chefe olha para Henry como se visse um extraterrestre.

__ Não cometa essa injustiça! Ela precisa desse emprego para pagar as dívidas.

__ Que dívidas?__ O senhor Fonseca olha de Henry para mim.

__ Henry, não precisa se preocupar.__ Arregalo os olhos. Mas meu chefe é muito sagaz, logo percebe que estou escondendo mais informações.

__ Vá para seu andar, rapaz. Tenho certeza que tem muito trabalho para fazer.__ Henry começa a sair, mas continua me olhando preocupado.__ E não se atreva a invadir minha sala novamente. Se não vai para o olho da rua. Não importa o quanto talentoso seja.__ Meu chefe expulsa Henry e tranca a porta. Isso me assusta. Senta na ponta da mesa e me observa.

__ Você é viciada em jogos, Samantha?

__ Não!__ Me assusto com a suposição.

__ Usa drogas?!__ Arregala os olhos, assustado com a segunda conclusão.

__ Não! Deus! Não é nada disso, senhor!__ Indignada.

__ Então, como contraiu tantas dívidas que precise de dois empregos para pagá-las?__ Inconformado.

Desvio o olhar.

__ Fiz muitos gastos com tratamentos e medicamentos para minha mãe.__ Abaixo a cabeça.__ Ela teve câncer.__ Um nó se forma em minha garganta ao reviver o ocorrido.

Não quero chorar novamente. Sei que não tolera esse tipo de coisa. Está em silêncio há algum tempo.

__ Porque não me contou isso antes?

__ Não quis incomodá-lo.__ Levanto os ombros.__ O senhor é muito ocupado.

__ Droga, Samantha!__ Espragueja enquanto caminha pela sala.__ Por isso aparecia todos os dias com olheiras.__ Para e me observa.__ Há quanto tempo ela vem fazendo esses tratamentos?

__ Há três anos.

__ E como está agora?

__ Morta.__ Abaixo a cabeça e choro baixinho sem poder controlar mais.__ Faz uma semana que se foi.__ Respiro fundo.

__ Sinto muito.__ Sua voz está embargada.__ E seu pai e os outros parentes?

__ Não tenho, senhor Fonseca.__ Torço as mãos.__ Sempre fomos somente ela e eu.

Ele solta o ar com força.

Era isso que também queria evitar, que sentisse pena de mim.

__Ouça, quero que abandone imediatamente esse emprego noturno, ouviu?!__ Bartolomeu se abaixa em um joelho só próximo a minha cadeira. Viro-me e encaro seu rosto. Acho que nunca estivemos tão próximos assim.

__ Senhor Fonseca, não posso fazer isso. Estou afogada em dívidas e a cada dia chegam novas cobranças. Preciso do salário do restaurante.__ Fungo.

__ Não entendeu Samantha.__ Olha em meus olhos, causando-me um arrepio.__ Isso é uma ordem. Daqui há um mês serei promovido a presidente da empresa. Quero que venha comigo para o andar da presidência.

O observo descrente enquanto continua.

__Seu salário aumentará, mas as responsabilidades também. Não vou querer uma funcionária com cara de zumbi em meu escritório. Terá que estar à disposição em tempo integral, inclusive para viagens. E também mudar esse jeito de se vestir. __ Sonda meu rosto e depois desce o olhar por meu corpo, dando ênfase ao que diz.

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⚜️ Bartolomeu ⚜️

Depois de conhecer um pouco da história triste de minha secretária, o restante da semana correu sem maiores surpresas. Fui a mais alguns encontros às cegas com mulheres que nem chegaram perto do tipo de esposa que eu suportaria conviver por um ano. Além da siliconada louca por cirurgias lásticas e da modelo que só comia alface, teve ainda a ninfomaníaca e a atleta de esportes radicais que me convidou para escalar o Monte Everest.

No sábado, após mais um encontro fracassado, vejo Samantha passeando de mãos dadas com um garotinho por uma rua do subúrbio. Sem pensar no que estou fazendo, estaciono o carro em uma vaga, desço e vou atrás da garota, que entra em uma sorveteria.

__ Samantha!__ Ela se vira surpresa. Está com os cabelos loiros volumosos soltos, desarrumados como sempre e sem nenhuma maquiagem. Veste uma de suas calças jeans largas, rasgada nos joelhos, camisa de uma banda musical antiga e tênis surrados, mas por incrível que pareça, está adorável.

__ Senhor Fonseca! O que faz aqui?

__ Vim trazer uma amiga que mora aqui perto. Resolvi parar para comprar uma garrafa d'água. __ Minto descaradamente.

__ Ah, aqui na sorveteria deve ter. Venha.__ Me indica. Como sempre prestativa.

Puxo a porta e seguro para que entre com o garotinho.

Enquanto pego uma garrafa em um refrigerador e pago no caixa, a observo escolhendo sorvete para o menino. Os dois se sentam em banquinhos coloridos e estofados em uma mesa ao fundo da sorveteria. Ela acena para mim. Vou ao seu encontro e sento.

__ O Senhor quer sorvete?__ Ela pergunta com educação e inocência, mas a visão de minha secretária saboreando um sorvete em minha frente me faz ter pensamentos nada inocentes.

Bartolomeu Fonseca, controle-se! Essa é a senhorita Montenegro! Sua secretária esquisitona. Além do mais, é quase uma menina.

Esses encontros frustrantes não estão me fazendo bem. Preciso encontrar uma noiva logo.

__ Não, obrigado.__ Olho para a criança e mudo de assunto.__ Quem é o menino?

__ Esse é o Yuri. O filho de minha vizinha. Viemos tomar um sorvete, enquanto a mamãe organiza a casa, não é Yuri?__ Samantha fala de uma forma tão adorável com o garotinho.

__ Prazer em conhecer!__ Yuri estende a mãozinha para mim.

Seguro com cuidado. Não tenho jeito com crianças.

__ O prazer é todo meu Yuri.__ Respondo formal e dou um sorriso para amenizar.

__ O sorvete está gostoso Yuri?__ Ela pergunta, limpando a boca do menino toda suja de sorvete derretido.

__ Sim. Eu adoro chocolate.__ O menino gagueja um pouco.

Está muito feliz e à vontade com Samantha. Parece ser especial, fato que me surpreende ainda mais pela segurança com que ela cuida dele.

__ Ah, por falar nisso, hoje é aniversário desse garotão aqui, senhor Fonseca.__  Samantha pisca para mim.

Sinto um comichão estranho.

Hei! O que está acontecendo comigo?! Ando trabalhando demais!

__ Parabéns, amigão!__ Aperto a mão do garoto novamente.

__ Você vai em minha festa?__ O menino nos surpreende.

__ O senhor Fonseca é um homem muito ocupado, Yuri.__ Samantha se precipita respondendo por mim.

Realmente, tenho coisas mais importantes para fazer do que ir a uma festa infantil de um desconhecido no subúrbio, mas a rapidez dela em me descartar de alguma forma me irrita.

Será que está tentando esconder alguma coisa? Por que não quer que eu conheça o lugar onde mora?

__ Acho que posso ir um pouco em sua festa, sim, Yuri.__ Encaro Samantha, que demonstra surpresa. O menino comemora inocente.

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Sinto-me deslocado no canto do pequeno apartamento de subúrbio entupido de crianças, bolas, doces e com uma música infantil repetitiva, que acredito que levará tempo para sair de minha memória.

O que estou fazendo aqui? Se Jarden me visse agora, me chamaria de louco.

Olho para minha secretária brincando de roda com um grupo de crianças e sorrio distraído.

__ Ela é adorável, não é?__ Olho para o homem que para ao meu lado. Acho que já fui apresentado a ele. É o pai de Yuri. Aceno apenas com a cabeça, sem graça por ter sido pego observando Samantha.__ Essa menina vale ouro. Assim que completou a maior idade, precisou trabalhar para arcar com as despesas de casa e cuidar da mãe doente. Abriu mão do sonho de ir para a faculdade e segurou toda essa onda sozinha e ainda conseguiu se manter essa pessoa gentil e educada.

__ Verdade.__ Respondo a observando. Agora ela ajuda a mãe de Yuri a servir refrigerantes.

__ O pior é que ela não tem mais nenhum parente. Ficou sozinha muito cedo. Por isso, Daphine e eu a temos como alguém da família.__ O esposo de Daphine dá uma batidinha em minhas costas.__ Estamos sempre por perto. Cuidamos dela, sabe?!

O pai de Yuri deu seu recado de forma sutil, mas entendi perfeitamente o que quis dizer. Pensa que tenho algum interesse em Samantha. Coitado, está completamente equivocado. Estou aqui apenas por interesse profissional, afinal Samantha será a secretária do novo presidente da Boston Office Corporation, tenho obrigação de averiguar seu histórico familiar depois de toda aquela história de dívidas...

__ Aceita um cupcake, senhor Fonseca?__ Samantha surge com uma bandeja em minha frente.

__ Bartolomeu. Por favor, me chame de Bartolomeu.__ De repente me sinto incomodado com toda aquela formalidade. Mas acho que a assustei porque ficou me observando com seus grandes olhos azuis.

__ Posso até tentar, mas acho que será difícil. Estou tão acostumada a chamá-lo pelo sobrenome, Bartolomeu.__ Pronuncia meu primeiro nome e isso provoca uma sensação estranha em mim.

__ Samantha. Pode pegar as caixas de lembranças que deixei em seu apartamento?__ Daphine se aproxima.

__ Claro, Daphine.

__ Precisa de ajuda para carregar?__ Pergunto sem pensar.

__ Sim. Obrigada, senhor...__ Ela sorri discretamente.__ Bartolomeu.

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O apartamento de Samantha é pequeno, porém organizado, limpo e iluminado. A sala é conjugada com uma cozinha e todo o espaço é bem aproveitado. Alguns itens são antigos, mas dão um certo charme ao ambiente. Enquanto ela procura o que veio buscar, observo os detalhes. Próximo a janela, um gato cochila preguiçosamente. Na parede oposta há uma estante cheia de livros.

__ Gosta de ler?__ Pergunto mais alto para que me ouça do outro cômodo.

__ Sim, bastante!__ Aparece com as caixas nos braços. __ Esses livros eram de minha mãe.

__ Deixe que eu pego.__ Tiro as caixas de seus braços.

__ Ela que me despertou o gosto pela literatura.__ Observa a estante com carinho.__ Sonho fazer biblioteconomia um dia.

__ E você fará.__ Comento.

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__ Obrigada senhor, quer dizer, Bartolomeu.__ Sorri tímida da porta do apartamento de seus vizinhos.__ Tem certeza que não quer esperar o bolo?

__ Tenho certeza. Preciso ir. Tenho alguns compromissos ainda hoje. Mas obrigado. Agradeça a Daphine e Miguel por mim.

Despeço-me de minha secretária meio sem jeito. Minha atitude impulsiva de ir ao seu encontro na sorveteria gerou uma sucessão de situações constrangedoras. Acabei me infiltrado demais em sua vida. Era exatamente o que queria ver, para ter certeza de sua história, mas isso também foi invasivo demais.

Mais tarde, tomando um drinque em meu apartamento de luxo em uma área nobre de Boston, não consigo tirar da cabeça aquela música infantil ridícula, a vista do apartamento minúsculo com a estante de livros e lindos olhos azuis tristes...

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