Capítulo 10⚜Decisões⚜
Acordo cedo na manhã de segunda-feira, mas cumpro minhas atividades matinais com lentidão. Propositalmente retardo o encontro com Bartolomeu.
Na conversa que tive com Daphine no domingo, ficou claro que já tomei uma decisão, mas ainda não sei como me comportar com ele.
Depois do episódio da mancha de chocolate em minha bochecha, ficou evidente o quanto sou ingênua e inexperiente. Enquanto entrei no apartamento com o coração disparado, ele deve ter me achado patética.
Gasto um tempo maior me arrumando. Uso a maquiagem que Daphine me deu. Pego a condução mais tarde e não dá tempo de comprar o café de Bartolomeu. Chego no escritório atrasada e ele já está trancado em sua sala para meu alívio.
__ Samantha? Até que enfim!__ Mal acabo de sentar, dou um pulo da cadeira ao ouvir sua voz. Está parado na porta.__ Me observa e depois entra na sala deixando a porta aberta.__ Venha aqui.
__ Bom dia, senhor...__ Ele me olha juntando as sobrancelhas. __ ...Bartolomeu. Precisa de alguma coisa?
__ Sabe o que aconteceu com meus arquivos da última negociação com aquela rede de laboratórios?
__ Não estão aí?__ Dou uma olhada na tela do computador. __ Não mexi em seus arquivos. Por acaso o senhor não os apagou sem querer?
__ Não, Samantha. Para quê eu apagaria arquivos importantíssimos?!
__ Poderia ter apagado sem querer.
Bartolomeu fecha os olhos e os pressiona com os dedos.
Ele está de péssimo humor.
__ Chame o maluco, quer dizer, o rapaz da informática, por favor. O tal do Henry...__E depois me olha.__ Onde está o meu café?
__ Não deu tempo de comprar. Mas posso pegar na cantina...
__ Esqueça. Não é a mesma coisa.__ Aponta para a porta.
Saio imediatamente para ligar para Henry.
Espero que meu amigo consiga resolver esse problema com os arquivos, se não o homem é capaz de enlouquecer!
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__ Bom dia, Sam!__ Henry enfia primeiro a cabeça na porta.__ O homem mandou me chamar?!
__ Oi. Bom dia.__ Conversamos baixo. Abro a porta para ele.__ Sim. Aconteceu alguma coisa com arquivos importantes que ele não consegue acessar.
__ Ele deve estar uma fera.
Henry olha para a porta da sala de Bartolomeu como se tivesse um leão do outro lado.
__ Te aconselho a fazer seu trabalho o mais rápido possível e cair fora daqui.
__ Venha comigo Sam, por favor!
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Enquanto Henry tenta descobrir o que aconteceu com os arquivos, sou obrigada a ficar na mesma sala para fazer-lhe companhia. Ele acredita que posso protegê-lo da fúria de Bartolomeu Fonseca.
Enquanto isso, meu chefe anda de um lado para o outro, feito um leão faminto. Enquanto trabalha, Henry mastiga chiclete e gira na cadeira.
Sentada em um dos sofás, tamborilo os dedos no rosto. Isso distrai Bartolomeu de alguma forma. Encosta em um canto da sala com as mãos nos bolsos e começa a fazer uma avaliação minuciosa que me deixa bastante constrangida.
O que ele tanto observa?! O que está pensando?
Em um momento de pura audácia, o encaro como quem pergunta: "qual o problema?" Logo me arrependo, pois ele sustenta meu olhar, levanta uma das sobrancelhas e sorri malicioso. De um jeito que me faz sentir despida. Desvio rapidamente o olhar.
__ Consegui! Prontinho senhor!__ Henry comemora com um salto. Em seguida, desaba da cadeira giratória e vai parar embaixo da mesa de Bartolomeu.
__ Henry! Meu Deus! Tudo bem?__ Corro em seu auxílio.
__ Estou bem! Não se preocupem! Estou bem.__ Se levanta rapidamente.
__ Conseguiu mesmo?!__ Bartolomeu o olha desconfiado.
__ Sim, senhor! Veja! Estão todos aqui. Consegui recuperá-los.
Bartolomeu olha para a tela e sorri satisfeito.
__ Bom trabalho, rapaz!__ Dá um tapa nas costas de Henry, que começa a tossir.
__ Por nada, senhor. Só fiz meu trabalho.
Bartolomeu já não presta atenção em nada ao seu redor. Mergulha de volta ao universo dos negócios. Saímos em silêncio.
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Por volta do horário do almoço, organizo a mesa, pego a bolsa e me preparo para sair. Henry aparece na porta de vidro.
__ Pronta? Estou morrendo de fome. O que acha de comermos no restaurante oriental?__ Henry une as mãos em súplica.__ Por favor! É por minha conta.
__Você está sempre morrendo de fome, Henry!__ Me divirto empurrando-o para fora.
__ Samantha! Almoce comigo. Temos um assunto a tratar.__ Bartolomeu nos surpreende.
__ Trabalho na hora do almoço?!__ Henry demonstra impaciência.
Bartolomeu cerra os olhos.
__ Sinto muito se estraguei seus planos, mas preciso de minha secretária.
__ Henry, lanchamos à tarde juntos.__ Arregalo os olhos para que meu amigo pare de questionar.
__ Vamos? Fiz reservas em um restaurante.__ Bartolomeu coloca o paletó.
Nesse momento, Jarden entra na antisala do escritório.
__ Ouvi falar em reservas? Cheguei na hora certa! Vamos?__ Jarden olha para nós três com seu sorriso largo.__ Samantha também irá conosco?
__ Não, Samantha não irá conosco. Ela irá comigo. Você fica. __ Bartolomeu segura meu cotovelo e me guia para fora do escritório.
__ Mas você não tinha combinado comigo, Bartolomeu?! Esqueceu?!__ Jarden tira as mãos dos bolsos e abre os braços.
__ Mudança de planos, amigo. Pode fazer companhia ao rapaz da informática se quiser.__ Bartolomeu responde já no meio do corredor que dá acesso aos elevadores.
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Bartolomeu nos leva a um restaurante exótico para mim e bem familiar para ele, pois o cardápio servido é tipicamente brasileiro.
__ Que prazer recebê-lo novamente, Bartolomeu!__ Um senhor moreno, alto, calvo e ligeiramente barrigudo, nos recepciona logo na entrada do estabelecimento.
__ Fernando! Como está?__ Se cumprimentam com familiaridade.
__ Dessa vez veio acompanhado de uma "belezoca", heim!
O inglês de Fernando não é tão fluente quanto o de Bartolomeu. E apesar de estar acostumada a algumas expressões em português, graças ao trabalho com Bartolomeu, não consigo entender o que Fernando fala.
__ Sim, sim.__ Bartolomeu sorri e dá tapinhas em suas costas. __Trouxe Samantha para conhecer um pouco da gastronomia brasileira.
__ Pequena, espero que não seja uma daquelas garotas chatas, que só se alimentam de alface e água. Porque aqui no Brazuca's come-se bem!
__ Não, senhor.__ Respondo um pouco tímida.
Fernando dá uma gargalhada segurando a barriga avantajada.
__ Já gostei dela!
Nos indica uma mesa.
__ Vou te apresentar a verdadeira culinária mineira, doçura!__Me envia uma piscada.
__ Vamos devagar para não assustá-la, Fernando.__ Bartolomeu parece se divertir.
__ Deixe comigo. Manolo! Aguiar! Sejam atenciosos com meus amigos!__ Fernando avisa seus garçons.__ Com licença, meus queridos. Tenham uma ótima refeição. Vou dar algumas orientações na cozinha. Fiquem à vontade. Se precisarem de algo, só mandar me chamar.__ Pisca mais uma vez para mim, aperta a mão de Bartolomeu antes de se afastar.
Bartolomeu o observa entrar por uma porta e depois começa a falar...
__ Conheci Fernando quando vim morar em Boston e ainda era universitário. Estava em fase de adaptação e ouvi falar sobre esse restaurante que servia comida brasileira. Então, toda vez que a saudade de minha terra aperta eu venho aqui.__ Explica Bartolomeu.
Aceno apenas a cabeça e olho ao redor, admirando a decoração rústica, imitando o clima de fazenda. Em cada mesa há garrafinhas verdes com palavras escritas em português pintadas em branco. Em uma das paredes foram expostos vários quadros. Alguns de fotos dos principais pontos turísticos brasileiros, outros são fotos de Fernando com personalidades famosas. Identifico alguns jogadores de futebol, modelos, políticos, entre outros.
__ Acho o clima do estabelecimento de Fernando muito agradável e familiar. Me faz lembrar a fazenda onde nasci e cresci.
__ Eu gosto.__ Digo distraída absorvendo a atmosfera.__ É aconchegante.__ Viro e sorrio para ele que me observa sério.
__ Já saiu do país alguma vez, Samantha?
__ Não. Nunca tivemos oportunidade. Minha mãe vivia para trabalhar e pagar despesas. E olha só no que deu. Mal aproveitou a vida.
__ Mas você tem passaporte?
__ Sim, tenho. Fizemos uma vez, mas nunca usamos.
__ Acho que chegou o momento de usar.
Bartolomeu me analisa com expressão misteriosa.
__ Como assim?__ Fico alerta.
__ Meu irmão do meio vai casar. Tem me ligado insistentemente quase todos os dias, você sabe.__ Afirmo com a cabeça. __ Relutei muito em ir ao Brasil.__ Pigarreia.__ Tem pessoas lá que não gostaria de rever. Porém, aconteceram fatos que me fizeram repensar.__ Bartolomeu fala sem me encarar. Mas me olha quando diz a última frase.__ Gostaria que você me acompanhasse.
__ O senhor, digo, você, pretende trabalhar enquanto estiver lá? Por isso precisa me levar?
__ Também, mas para isso teríamos que partir daqui já casados. Zacary tem me cobrado isso desde o dia em que anunciou minha promoção.
Nos encaramos e nesse momento, um dos garçons começa a servir pequenas porções de comida.
__ Aipim frito, torresmo, couve, arroz, feijoada e por último, um medalhão de bisteca com queijo e bacon. __ O garçom chamado Manolo diz o nome de cada prato.
__ Nossa! Acho que não vou comer nem a metade disso!__ Olho para a variedade de comida.
Bartolomeu sorri.
O clima tenso se dissolve. Almoçamos e conversamos em uma atmosfera amigável. O humor de Bartolomeu melhorou consideravelmente desde que chegamos no restaurante do amigo brasileiro. E saber que ele reconsiderou a possibilidade de visitar a família, me deixa feliz.
Uma pena que toda a atenção e simpatia direcionadas a mim sejam motivadas por interesse. Sei que ele está ansioso por uma resposta.
Ele só quer garantir a promoção.
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Após o almoço, nos despedimos do simpático Fernando, entramos no Audi de Bartolomeu e seguimos de volta ao conglomerado empresarial. Fizemos o início do percurso em silêncio, mas enquanto estávamos parados em um semáforo resolvi sanar uma curiosidade...
__ Bartolomeu?__ Ele me olha surpreso. Mas parece satisfeito em me ouvir chamá-lo pelo primeiro nome.__ O que significa "belezoca"?
Ele olha para frente sorrindo.
__ Quer dizer " linda".__ E acrescenta voltando a dirigir.__ Mas pode significar também "irresistível".
__ Ah...__ Viro para a janela sem poder encará-lo.
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Já no prédio da empresa, Wanda da recepção vem ao meu encontro assim que descemos do elevador...
__ Samantha! Um oficial de justiça esteve aqui a sua procura.
__ Quê?!__ A cor de meu rosto deve ter desaparecido, porque Bartolomeu apoia minhas costas com uma das mãos. Claro que isso não passa despercebido para as "Três Marias" da recepção.
__ Ele disse que havia te procurado em seu endereço, mas como não a encontrou, descobriu onde trabalha. __ Wanda explica.
__ Acho que era algo relacionado a dívida, processo na justiça...__ Shirley sonda.
__ Com certeza é ordem de despejo.__ Taylor acrescenta em um tom mais maldoso.__ Não tem pago o aluguel, Samantha?
__ Obrigada pelo recado, Wanda. Com licença.__ Sigo para o escritório.
Passo pela porta de vidro que dá acesso a antisala, onde fica minha mesa, já sem poder conter as lágrimas. Desabo na cadeira. Abaixo a cabeça sobre os braços.
É claro que Taylor sentiu prazer em fazer o comentário ferino, mas está certa na dedução. Há meses venho remanejando o dinheiro reservado ao aluguel para pagar as dívidas. Agora corro o risco de perder o único teto que tenho.
__ Samantha...__ Uma voz masculina pigarreia. Sei exatamente quem é.
Levanto a cabeça e vejo em sua expressão o desconforto ao ver meu rosto vermelho e inchado. Me estende um lenço.
__ Obrigada.
__ O que está esperando para aceitar minha proposta?__ É direto. Mas também parece inconformado com a situação.
O encaro por alguns minutos.
Ele tem razão. O que estou esperando? Ser despejada e precisar morar de favor na casa de meus vizinhos?
Por mais que não seja uma escolha honrosa, pelo menos não viverei de favores. Posso encarar esse casamento como um contrato de trabalho.
Respiro fundo e encosto na cadeira.
__ Eu aceito...
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