Capítulo 5

"Meu pai me disse, quando eu era apenas uma criança, estas são as noites que nunca morrerão" - Aviici

Voltar para casa sempre era nostálgico, pelo simples fato de que eu sempre esperava que pudesse encontrar meu pai aqui. Não importa quantas vezes eu viesse para casa, eu sempre voltaria ao garoto de quinze anos que perdeu o pai. Aquele dia um pedaço do meu coração se foi com ele, eu ainda consigo lembrar dos seus conselhos, dos nossos momentos e senti falta de tudo o que a vida nos tirou. Por muito tempo eu quis arrancar a dor do meu peito, agora eu aprendi a conviver com ela.

Ela permanece aqui desde da noite em que eu me despedi dele e soube que nunca mais eu seria o mesmo, dói desde então.

O cheiro dele ainda está aqui e o moletom velho que me acompanha por onde quer que eu vá também carrega. Não importa quantas vezes eu o lavei, ainda está lá.

- Posso vê-lo? - Voltei no tempo e posso ver a cena claramente em minha mente.

- Não quer contatar sua família primeiro? - ela perguntava e automaticamente neguei. Minha mãe tinha ficado no hospital por muito tempo e finalmente, ela tinha voltado pro hotel.

- Eu ligarei mais tarde - a enfermeira nem se deu o trabalho de contestar ou algo assim, me lembro de andar por um corredor que parecia mais gelado naquele momento e fui até seu quarto.

- Leve o tempo que precisar - ela disse, ao abrir a porta me deixar com o meu pai. Morto.

- Obrigado - me lembro do arrastar da cadeira e depois de olhar para ele por longos minutos, acho que era demais para um garoto de quinze anos suportar. Mas eu estava ali por ele, pela minha família.

Mesmo com toda a pressão e correria na vida o meu pai sempre teve como prioridade, a família. Sempre que podia, se fazia presente. Eu não conseguia imaginar uma vida sem ele para me instruir e me ver dar os primeiros passos para a mesma carreira que ele. Ele era meu amuleto de sorte.

- Pai... - foi a única coisa que eu consegui dizer, antes de desabar em lágrimas ao lado do corpo gelado do meu único e melhor amigo. Eu daria tudo para tê-lo de volta. Como eu enfrentaria a vida sem ele, sem os seus conselhos?

Me recordo de chorar por horas e depois finalmente apagar ao lado do corpo gélido, mas eu pouco me importava, eu só queria estar com ele uma última vez.

A enfermeira veio até mim algumas horas depois, não soube ao certo. Então, eu limpei meu rosto e parti para o hotel. Eu não sabia o que dizer, o que fazer. Não sabia como seria dali em diante, mas era dolorido. A única coisa que eu não fiz foi chorar depois de sair do quarto do hospital e só chorei por alguma coisa anos depois. Chorei novamente por outra perda inimaginável.

- Ficou lindo, não é? - Mia sentou ao meu lado e admirava o quadro que minha mãe tinha colocado na sala e deitou sua cabeça em meu ombro - Eu ainda consigo lembrar da risada dele e de todos nossos momentos com ele.

- Eu nem posso acreditar que já fazem dez anos - não dizia a ninguém, mas a dor ainda estava. A perda e toda a falta que ele fazia para nossa família.

- Sou grata por ainda estarmos unidos - Mia sempre foi mais emotiva que eu - Coisas assim destroem as famílias e tivemos o privilégio de continuarmos assim. Eu amo vocês - então a abracei.

- Eu também amo vocês! - disse para poucas em minha vida, porque amar alguém é bem maior do que só três palavras. É preciso demonstrar isso a quem se ama. Não demorou muito até que sermos interrompidos por nosso cachorro.

- Não me lambe, Beau - Mia tentou a defesa, mas o bulldog francês já estava em cima do sofá e participava do abraço.

- Senti falta disso!! - Olhei para minha irmã, enquanto Beau se ajeitou em meu colo.

- Eu também. Eu sinto falta de você.

- Estou aqui - no fundo eu sabia o que ela estava querendo me dizer.

- Eu quero o meu irmão - ele suspirou - aquele velho e divertido Matteo - pude assistir um filme passar na minha cabeça.

- Uma pessoa muda depois de apanhar tanto na vida - me fechei para todos os sentimentos bons que eu já havia sentido. Afinal todos que eu amei um dia, partiram.

- Se abre de novo! Você precisa disso, o seu coração precisa! Você é bem maior do que todas as perdas que nós já tivemos! - insistiu.

- Não é como apertar um botão, Mia - era involuntário agir assim, quando algumas das minhas relações estão tomando uma proporção de compromisso. Eu fujo. É mais fácil e indolor.

- Dá uma chance... Essa nova garota - eu a interrompi.

- Essa que vive falando mal de mim na internet? - rebati.

- Ei, leia as matérias em que ela elogiou sua forma de pilotar! As únicas coisas que ela te critica é a forma como leva sua vida - me alfinetou - Mesmo que ela não tenha nada a ver com isso, ela escreve bem. E está certa - e como sempre faço para fugir de algo ao qual eu não quero falar, eu mudei o rumo da conversa. Peguei Beau e coloquei no colo dela e saí. Era infantil da minha parte, mas pelo menos eu não falaria nada - Você sabe que eu estou certa! - ela gritou e eu mostrei meu dedo pra ela.

Voltei pra casa umas horas depois e estava tudo escuro, exceto pela luz da cozinha. Ouvi conversa e decidi conferir, dei de cara com minha irmã, mãe e Giulia conversando.

- Olha quem voltou - minha irmã disse e apontou para cadeira ao lado de Giulia - se junta a nós. Nossa convidada fez um doce para nós - ela se virou para a loira - Brigadeiro né?

- Esse doce é típico do Brasil, não é?

- Sim... Aprendi com uma amiga na época de faculdade e desde então não posso viver sem - ela brincou e me ofereceu uma colher - Sua dieta lhe permite? - provocou.

- Com certeza!!! O que sobrou aqui - puxei o prato - é meu.

- Eu disse pra você! Esse garoto é uma formiga - minha mãe disse e se levantou - Se não se importarem, eu já vou para cama. Amanhã eu acordo cedo para caminhar com a Nana - ela beijou cada um de nós, inclusive Giulia - Tenham uma boa noite!

- Nossa - minha irmã bocejou - De repente me deu um sono também - ela deu risada e também levantou - Boa noite - mandou beijos no ar para nós dois. E agora o único que ouvimos é da colher batendo no prato.

- Quer mais? - ofereci.

- Não... Já atingi a cota de doce por hoje - disse, olhando para a colher que estava na minha mão.

- Come. Uma vez só não vai fazer mal - dei risada e levei a colher próxima a ela.

- Não posso - ela empurrou a colher e eu não insisti para não criar nenhum clima estranho.

- Acho que vou para o quarto também - ela disse se levantando.

- Já vai dormir? - Ontem eu dei uma checada nas redes sociais dela de madrugada e ela estava online.

- Talvez - ela abriu um sorriso lindo para mim e tento não olhar demais.

- O que acha de assistirmos um filme? - Ela estava na minha casa e seria um pouco chato se ela recusasse. É isso que caras legais fazem, não é?

- Eu escolho.

Não demorou até que eu estivesse sentado no nosso cinema improvisado assistindo um filme de romance, onde dois amigos apaixonados não tem coragem de revelar isso e se desencontram e eu estava vendo isso com a jornalista que podia tornar minha vida um inferno, fiz uma anotação mental para não deixar que as ideias de Mia tomassem minha mente. Onde eu tinha me metido?

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