Capítulo 4
"Você não pode levar tudo de mim" — Joshua Bassett
Sinto minhas mãos saírem um pouco do meu controle, quando percebo que estão tremendo. Nunca gostei muito de viajar de avião, e a ironia do destino me deu um amor ao esporte que mais viaja por aí. E tenho me questionado muito nos últimos dias, tenho dado tudo de mim há muito tempo e não consigo me sentir realizada e tão pouco cheguei onde queria, e tento manter acesa dentro de mim a chama da esperança. Jamais pensei que estaria indo acompanhar uma viagem de piloto, para fazer uma matéria sobre as férias dele. Quem liga pra isso?
— Pronta? — meus pensamentos se foram, assim que Matteo encostou em meus ombros.
— Sim... Mas ninguém chegou ainda — me referi aos seus amigos que iriam conosco até a Grécia.
— Então... — ele ajeitou seus cabelos, que estavam um pouco mais comprimidos do que o habitual — Não vamos mais para Grécia!
— Como assim? — tentei não parecer mais nervosa do que já estava. Tentei não parecer exigente e pedir uma explicação, afinal eu estava indo a trabalho e tecnicamente tenho que ser a sua sombra por onde quer que ele vá.
— Vamos para Verona. Minha casa — disse, sendo objetivo — espero que não seja problema — somente neguei com a cabeça. Mas ele parecia estar um pouco tenso e não parecia feliz — Essas são suas malas? — apontou para duas malas ao meu lado.
— Sim... — fiz menção de pegar e ele se adiantou, carregando elas para mim.
— Você não vem? — disse, já uns passos na minha frente. Quem vai entender esse cara, uma hora ele está sendo um idiota e em outra carregando minhas malas.
— Posso perguntar o motivo da mudança repentina de destino? — perguntei, e esperei que não me respondesse.
— Aniversário da morte do papai — ele abaixou um pouco do óculos e pude perceber pelo seu olhar, que não estava bem. Eu não disse nada e ele seguiu até o avião, permanecendo em silêncio por bastante tempo.
Permaneci em silêncio, porque ainda tentava reconhecer o terreno em que eu estava entrando para ficar por um período de tempo. Quando escolhi ser jornalista, eu sabia que enfrentaria muitas dificuldades e por muito tempo, estava começando acreditar que talvez esse caminho não fosse pra mim e como num sonho, a oportunidade surgiu. Mesmo que eu não reclamasse para ninguém, era pesado. Sem o apoio da minha mãe, eu me joguei de cabeça em um emprego, que apesar das maravilhas que eu venho vivendo, tem o lado ruim. Escolher trabalhar com um esporte que é dominado em sua maioria por homens, não é fácil e estando na empresa onde estou, é pior ainda. As pessoas não entendem o motivo e talvez nem precisem, porque é muito mais cômodo julgar as escolhas de uma pessoa ao invés de andar pelos caminhos aos quais ela passou.
— A senhora deseja algo? — Deixo meus pensamentos e dou atenção ao comissário de bordo.
— Uma água, por gentileza — pego minha necessaire na bolsa e logo seguida sinto o desespero tomar conta de mim, percebendo que deixei meu remédio para tomar em viagens acabou. DROGA.
E para não tentar transparecer meu desespero, me ajeitei na poltrona. Tentando não demonstrar o meu nervosismo, eu odeio ficar acordada em voos. Desde pequena, sempre tive medo de andar de avião e devido a muitas viagens do papai e ficar dividida entre ele e a mamãe, eu passava muito tempo em aviões. Sozinha.
Tentei manter o meu autocontrole e não surtar, mas é muito difícil para mim viajar de avião. E me sentir sozinha nesse processo, é pior ainda. Não que eu não fosse acostumada, eu era filha de pais com trabalhos malucos, ele um piloto de fórmula 1 e ela uma promissora estilista, então boa parte da minha infância passei em um avião. Mas depois de uma experiência negativa, eu fiquei traumatizada e só consigo viajar se estiver dormindo.
— Quer comer alguma coisa? — Havia passado algum tempo desde que decolamos e Matteo tentou engatar alguma conversa. Mas eu sabia que se eu colocasse algo no estômago, não iria ficar lá por muito tempo.
— Estou bem. Obrigada — procuro em minha bolsa os meus fones de ouvidos sem fio, que eu sempre perco.
— Afinal, o que é essa matéria que estão fazendo sobre os pilotos? — o moreno levanta do seu lugar e se senta na poltrona vaga ao meu lado. Já posso comemorar pelo segundos de conversas sem nenhum sarcasmo?
— Vamos aproximar os nossos leitores do que vocês são de verdade e não só o cara que pilota os carros da Fórmula 1 — explico e tento parecer menos invasiva possível. E mesmo sabendo que eu posso escrever a matéria mais elaborada, no final ela vai sofrer alterações e se tornará sensacionalista. O tipo de lugar onde eu trabalho, era o último que eu escolheria, se houvesse escolha.
O nosso papo não continuou, e estava quase comemorando o meu controle sobre meus sentimentos, quando fomos alertados de uma possível turbulência, eu senti todo o meu sangue se esvair do meu rosto. E senti minhas mãos gelarem, eu odiava essa sensação de não poder estar no controle de alguma coisa e ainda saber que o avião pode despencar daqui de cima, não era mais fácil ter ido de trem?
Sinto que o pavor e medo tomam conta do meu corpo, e em momento não me importo como que e quem está à minha volta. Me recolho na poltrona e sinto que o avião começa a chacoalhar, me fazendo entrar em um desespero muito maior e minha garganta se tranca. O meu coração acelera e seus batimentos já estão descompassados e sinto minha respiração ficar ofegante.
— Giulia? — Matteo que está do meu lado, tenta segurar minhas mãos que estão gélidas e molhadas — Está tudo bem? — A única coisa que eu consigo fazer é negar com um gesto e então ele não perguntou nada — Ei, presta atenção em mim. Você consegue focar só em mim? — Sinto ele colocar suas mãos que tem uma textura suave sob meu rosto e virá-lo em sua direção — Giulia, respire e inspire junto comigo — ele simula os movimentos e mesmo com uma visão um tanto quanto embaçada, eu consigo olhar em seus olhos, que estão transmitindo preocupação. Vou atendendo os comandos que ele me dá e sentindo meu corpo voltando ao seu controle e sinto um ponto de calma habitar em mim. As mãos dele já não estão em meu rosto, mas ainda estou vidrada em seu olhar. Um olhar calmo e triste. Suas mãos encontram as minhas mãos e consigo me sentir estranhamente confortável. Aos poucos minha respiração vai entrando em sua normalidade e com um pouco de vergonha de toda a situação, não digo nada e ele permanece em silêncio. Suas mãos ainda estão tocando as minhas.
— Vai ficar tudo bem — nossos olhares ainda estão em contato e sinto que os meus pesam demais para que eu consiga os manter abertos, e então adormeço com aquela vista.
O clima de verão nos contemplou assim que chegamos em Verona e comecei a me perguntar por qual motivo eu nunca tinha vindo nessa cidade linda. Matteo não me perguntou nada sobre o que aconteceu no voo e eu também fingi que nada havia acontecido, era melhor assim. E minha intuição me dizia, que aqui eu veria uma outra parte do Matteo Giordano, algo que ninguém nunca viu. Por mais que ele esteja sempre em holofotes em todos os lugares, sua vida em casa sempre foi uma incógnita e talvez esse seja o motivo para que eu esteja aqui.
— Já esteve aqui? — acho que ele percebeu que eu estava admirada com a beleza do lugar.
— Não — confessei e ele deu risada.
— Uma italiana que não conhece Verona. Interessante — e realmente era questionável, a cidade romântica que todos almejam vir.
— Sempre quis conhecer, mas Verona é um lugar para conhecer com um amor — quis retirar o que disse no segundo seguinte em que minha boca se fechou.
— Nunca tinha pensando por esse lado. Mas você não acha estranho esperar alguém para conhecer lugares? E se o amor nunca aparecer?
— De toda forma aqui é lindo e preciso confessar que deveria ter vindo antes — observo a linda e antiga cidade somente pela janela e já estou encantada. E pude notar que estamos nos afastando um pouco do centro da cidade e o silêncio pairava entre nós novamente, foi assim durante todo o caminho até a casa do piloto.
— Chegamos ao refúgio do famoso e lindo, Matteo Giordano — disse, ao passarmos pelo portão da belíssima mansão e confesso que era bem mais bonito que nas fotos que divulgaram depois que ele decidiu reformar tudo por aqui no ano passado.
— O seu ego deveria ser vendido em cápsulas — provoquei — normalmente as pessoas não se referem a si mesmo em terceira pessoa como famoso.
— Quer um pouco? — piscou para mim e se eu fosse um fã dele, provavelmente estaria desmaiada agora. Mas estou blindada a este tipo.
A diferença entre descermos do carro e sermos atropelados por um trio de mulheres divertidas, foi de segundos.
— Minhas orações foram atendidas. Meu neto trouxe alguém para casa e não é um dos seus amigos pilotos — a avó dele, que pouco aparecia em corridas ou algo do tipo, me puxou para um abraço um tanto quanto apertado me deixando um pouco sufocada.
— Olá — cumprimentei, tentando não ser muito invasiva.
— Achei que nunca mais ia voltar, seu desnaturado — a irmã dele pulou no pescoço dele.
— Se tivesse avisado que iria trazer sua colega, teríamos feito uma recepção mais calorosa — sua mãe disse e em seguida me cumprimentou também com um abraço. Acho que mais calorosa que isso é impossível.
— Não se preocupem! Estou a trabalho e peço desculpas por não terem sido avisadas — disse, sem acreditar que ele não havia avisado a família sobre a minha estadia por aqui.
— Não se preocupe. Estamos acostumadas. Agora vem, vou te apresentar a casa — sua irmã entrelaçou seus braços nos meus e saiu me arrastando para dentro da casa.
— Minhas malas...
— O Matteo vai se virar, querida — e fui arrastada para um tour na casa. E pude sentir uma ponta de inveja dele, com essa família receptiva e divertida. Se eu tivesse feito o mesmo que ele, provavelmente minha mãe teria me deserdado só pelo fato de ela não estar preparada para receber uma visita. Uma família assim sempre foi meu sonho, voltar para casa não seria um martírio.
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