Capítulo 11

Essa sou eu rezando para que

Essa seja a primeira página

Não onde a história termina

Meus pensamentos ecoarão o seu nome

Até eu te ver de novo — Taylor Swift

Quais as chances de um dia que começou péssimo terminar da melhor forma possível?

Uma em um milhão.

Quando o ar nos faltou, fomos obrigados a separar nossos lábios que tinham urgência um pelo outro. Se há semanas atrás me dissessem que eu estaria na piscina do Giordano e beijando ele, eu daria risada.

— Wow!!! — o rosto do moreno parado na minha frente estava completamente feliz.

— O que? — disse, um pouco sem graça.

Eu não estava acostumada com esse tipo de situação, por mais que eu fique com alguns caras de vez em quando. Os momentos românticos não são e nunca foram o meu forte, não estou habituada com a forma como devo agir ou falar. Mas como nem tudo é flores, as minhas inseguranças conseguem falar mais alto do que tudo isso.

— Você é perfeita. Beija maravilhosamente bem — e como uma pessoa pode mudar tanto assim da noite pro dia.

Não posso negar que Matteo Giordano é de longe bem diferente do que eu havia arquitetado em minhas ideias. Um tanto surpreendente se eu puder admitir.

— Obrigada... Mas acho que deu a minha hora de ir para cama — suas mãos se soltam de mim.

— Isso vai se repetir? — pergunta, enquanto saio da piscina e apanhei uma toalha.

— Eu... eu... — confusa, respirei fundo — de verdade, não sei.

Ele saiu da piscina e veio até mim, não hesitei em esperá-lo.

— Ursinha, amanhã vai estar tudo estranho entre nós? — e de repente esse apelido me alegrou ao invés de irritar.

— Matteo — segurei suas mãos — eu prometo, que amanhã não vou ficar estranha com você. Eu só preciso assimilar tudo o que aconteceu aqui — fiz um carinho em sua mão trêmula.

— Tudo bem — ele me puxou para um breve selinho — tenha uma boa noite — retribuí o carinho.

— Tenha uma boa noite — fui sorrindo e olhei para trás e ele ainda estava no mesmo lugar observando ir embora.

— Você ficaria ainda mais linda num maiô com os braços de fora — Nos despedimos como dois adolescentes no colegial, acredito que seja assim mesmo. Nunca me senti tão boba alegre na vida. E me senti confiante, linda e maravilhosa como há tempos não me sentia.

Talvez eu estivesse me apaixonando por Matteo Giordano.

Talvez.

Os dias de folga haviam sido maravilhosos, porém voltar a realidade me deixou um pouco atordoada. Estou sendo cobrada sobre a matéria que deveria sair na minha coluna e estou correndo dela como o diabo corre da cruz.

E ainda não tive coragem de dizer ao Matteo que a matéria vai ao ar e que eu não tenho nem poder dizer não. Eles querem alimentar ainda mais a briga entre o Smith e o Matteo, é o que vende na maioria das vezes.

— Até esqueceu que eu existia na sua viagem? — Ana reclamou assim que me encontrou.

— Foi muita correria e muita intensidade — disse, e realmente eu tinha sido um pouco falha como amiga.

— Eu quero saber tudo depois.

— Ok... Eu te conto, depois que nos organizarmos nessa loucura que está — disse, mostrando que nosso local de trabalho estava uma bagunça.

— Vamos ajeitar isso aqui? Afinal, o melhor patrão do mundo vem esse final de semana — senti que minhas pernas perderam as forças.

— O QUE? — disse, espantada.

— Ele mandou e-mail avisando que viria para resolver algumas pendências sobre uma matéria misteriosa e aproveitaria para ver a corrida — debochou — Quando vê assim vai falar sobre uma nova namorada de um piloto, sobre uma bebedeira nas férias. Ele é sempre muito exagerado — tagarelava — Giu, você tá bem? — perguntou, assim que se deu conta que eu estava estática.

— Eu preciso falar com o Matteo — foi a única coisa que saiu da minha boca, eu estava paralisada.

— O que está acontecendo? — perguntou, confusa.

— Eu te conto tudo depois. Você segura as pontas por aqui? — perguntei, meu estado era puro desespero que nem esperei a resposta.

Nosso final de semana foi uma correria total e tanto eu quanto Matteo, não nos vimos. Apesar de termos vindo juntos para a Bélgica, não falamos nada sobre o beijo e o final de semana foi tão corrido tanto para mim quanto para ele, que só trocamos algumas mensagens de texto.

— Olá, Gabe — cumprimentei a assessora dele que se dirigia ao encontro dele — Você sabe do Matteo? — não queria transparecer o desespero, mas a julgar que estou ofegante.

— Oi Giulia, tudo bem? Ele acabou de falar de você... O que mudou entre vocês? — piscou para mim — Se odiavam e agora chegam juntos no paddock, ficam procurando um ao outro — eu dei um sorrisinho, porque apesar de querer entrar na brincadeira. Não tinha clima.

— Eu preciso falar muito com ele — estava desesperada. Pois eu sabia que o meu chefe chegaria não só com a matéria pronta, mas com um ultimato.

— Ele está em uma reunião de última hora com o pessoal da Scuderia, e eles odeiam que interrompam. Eu inclusive nem participei, para resolver outras coisas.

São nessas horas que eu não queria ter nem um pouco de orgulho, me sinto uma marionete no meu próprio emprego. Já fiz muita coisa sem reclamar, mas jamais publicaria essa matéria sobre o Matteo. Uma coisa irreal.

— Está bem — não era justo eu atrapalhar a corrida dele, eu que deveria resolver o problema — Gabe, você me faz um favor? — ela consentiu com um aceno — diz ao Matteo que nem tudo é o que parece.

— Eu digo querida, mas agora eu fiquei preocupada — ela tocou meu braço — Existe algo que eu deva saber?

— Não sei — não sabia se deveria confiar ou não — Só diz isso a ele. Eu vou tentar apagar o incêndio — a deixei complementamente estática e saí em direção ao meu motorhome.

Por mim o fogo nem começaria mas conhecendo o meu superior. Este lugar está prestes a explodir.

Os meus dedos já estavam doloridos de tanto bater na mesa, faltando poucos minutos para a corrida o meu chefe nos contemplou com a sua belíssima presença.

— Se revirar os olhos mais uma vez, é capaz que ele perceba — Ana me cutucou enquanto o babaca falava no telefone e fazia sinal de silêncio para nós duas.

— Como você diz que precisa falar com os funcionários e fica no telefone. Temos mais o que fazer — comentei, tentando controlar minha ansiedade e a falta de paciência.

— Ok, Teresa. Depois eu falo com você — ele se virou para nós e o cara estava vestido com um terno horrendo — Vamos ao que interessa — guardou o aparelho — minha mulher enche o saco às vezes. Mulheres né? — Quando ele fala assim de sua esposa, é nojento. Porque ela é uma ótima pessoa e com certeza irá direto pro céu só por ter tido sim a esse macho escroto.

E quando os homens estão em minoria em algum lugar em que ele esteja presente, ele sempre faz algumas piadas machistas.

— Ana, preciso que foque nem tirar boas imagens do Matteo Giordano. Provável que ele ganhe a corrida de hoje e quero aproveitar bem a felicidade dele antes de soltar o que nós temos para a mídia — minha amiga odiava o cara, mas nunca batia de frente com ele. Porque diferente de mim, ela não tinha nascido com família rica e precisava de cada centavo do salário.

— NÃO — disse, um pouco mais alto que o normal e o babaca se assustou.

— Não, o que? — rebateu.

— Não pode soltar a matéria hoje — tinha que falar antes com Matteo, por mais que ele soubesse que o cara tinha material, ele precisa saber por mim.

— E o que vamos soltar então? Porque nosso engajamento está lá embaixo nessas últimas semanas. E precisamos mudar isso pra ontem.

— Deixa eu conversar com o Giordano primeiro — eu não poderia demonstrar intimidade — Eu tenho mais material que você — ele arqueou a sobrancelha para mim.

— Então, quer dizer que a sua viagem rendeu? — questionou, com aquele sorrisinho idiota no rosto.

— Sim, teremos uma matéria excelente. Do jeito que você quer, mas primeiro preciso falar com ele! — demonstrei mais desespero do que deveria transparecer.

— Por que se importa tanto com o que ele vai achar? Dane-se — enrijeci meu corpo, tentando manter minha postura profissional — A não ser que algo a mais tenha acontecido? — ele se aproximou de mim, e pude sentir seu perfume barato.

— Eu só não acho legal soltar uma matéria assim, ainda mais de algo tão pessoal? — ele estava perto demais, o suficiente para ver o suor se formando na minha testa.

— Eu já sei — estalou os dedos e se afastou de mim — Ele traçou a jornalista e agora você está de quatro por ele?

— O que está insinuando? — me surpreendi quando Ana interferiu e ele se virou para ela.

— Está andando muito com ela — apontou para mim — Vocês sabem né que nesse mundo os pilotos só querem mulheres quando têm algo em troca? — Se aproximou de mim.

Como se não fosse assim em todo lugar.

— Tudo bem! Eu vou deixar você bancar a heroína e de dar até o fim do dia — caminhou em direção a porta, e prendi minha respiração — Se apresse, talvez não consiga.

Assim que a porta do motorhome bateu, pude respirar e segundos depois ouvi a chuva cair lá fora.

— Vamos? — Minha amiga me tirou do transe — Será que vai rolar a corrida ainda? — Ana tinha essa habilidade de mudar um pouco de assunto para tirar o foco da tensão.

— Obrigada!

— Me agradeça contando o que está rolando aqui — touché.

— Vou te contar, mais tarde! Pode ser? Agora eu nem tenho cabeça para isso!

— De hoje não passa! Você está estranha — pontuou, já que eu não contei nada para ela, como eu contaria algo que eu nem mesmo sabia.

Eu estava mesmo apaixonada por Matteo Giordano?

A chuva atrasou a largada e eu estava toda molhada tentando me desviar do caos ao voltar pro motorhome. Não tinha condições em ficar no meio da confusão do paddock, alguns pilotos já estavam revoltados com a direção que deveria ter cancelado a prova. Mas com o calendário apertado, jamais eles fariam isso.

— MEU DEUS — gritei, quando senti um braço me puxando para dentro de um box.

— Está fugindo de mim? — o moreno praticamente me arrastava em meio a sua equipe — A Calloways disse que estava me procurando?

— Sim... É urgente! — apertei seu braço, o que o fez parar entre dois motorhome e a chuva ainda nos molhava.

— O que aconteceu? — seu olhar preocupado se encontrou com meu desespero.

— O Jefrey quer publicar a matéria sobre o seu antigo relacionamento? — até eu fiquei confusa com a frase, soou como se estivéssemos em um relacionamento.

Não estamos. Estamos?

— Deixe que publique! Eu não ligo — disse, relaxando os ombros — Eu já estou cansado de ter a sensação de viver duas vidas, não irei esconder mais nada. O que o povo pensa de mim, não importa! — segurou meus ombros.

— Você não liga?

— Não! Eu ligo! Eu ligo para o que você pensa! Você me apoia? Confia em mim? — segurou minhas mãos e eu jamais o abandonaria.

Quando ele me contou toda sua história, pude entender o motivo porque ele não gosta muito da imprensa, ele se escondeu muito tempo de tudo isso. Por medo do julgamento, por medo de manchar a reputação e nome de seu pai, que nunca tinha se envolvido em polêmica. Mesmo com tudo o que Smith disse, eu ainda acredito nele. E não são os meus sentimentos por ele falando, é a verdade em que ele disse tudo isso.

— Confio! — disse, segurando suas mãos com força demonstrando apoio.

E então ele rompeu o pequeno espaço que ainda existia em nós, e me beijou. Só tinha alguns dias desde da última vez, e eu já estava sentindo falta dos seus lábios, da sua pegada, do seu perfume. A chuva nos contemplava dessa vez e eu nem me importava com o que aconteceria depois, o nosso momento era bem mais importante, se pudesse ficaria aqui por dias.

— Encontrei — ouvimos a voz da Calloways e nos separamos rapidamente. Ela fingiu que não viu nada — Matteo, vamos?

— Não vai embora, depois da corrida a gente conversa! E lembre-se, os outros não importa! Se você confiar em mim, eu dou conta — beijou minha testa, deixando somente um sorriso idiota que me fez esquecer de todos os meus problemas.

A corrida tinha sido um fiasco, com direito a terminar com safety car e bandeira vermelha de alguns acidentes na pista. E Matteo subiu no pódio e diferente dos outros dias, Smith não estava com cara amarrada de que não estava gostando. Sua expressão era de alguém que tinha ganhado algum presente, e para alguém que tinha terminado em terceiro lugar. Alguém como ele, não era normal.

— Giu? — minha amiga apareceu esbaforida — Você já viu o twitter? — disse, me estendendo o celular.

Minha visão ficou um pouco turva e parecia que o chão embaixo dos meus pés havia desaparecido e de onde nós estávamos, tínhamos a visão perfeita do pódio. A felicidade estava estampada no rosto de Matteo e do Smith também, assim que o babaca conseguiu me colocar no seu campo de visão abriu um sorriso e senti como se meu sangue estivesse sendo drenado de todo meu corpo.

As gotas da chuva caíam na tela do celular, mas ainda conseguia ver com clareza fotos e o título da matéria sensacionalista sobre nós dois, na viagem. No cemitério, no passeio em que ele me contou tudo e a gente se abraçando, no almoço depois disso, a última e mais comentada de todas: nós dois aos beijos entre os motorhomes.

Hoje.

Todo contraste estava presente neste momento, assim que ele estourou a champanhe o seu olhar alcançou o meu e ele soube que havia algo de errado.

— Vamos tirar ela daqui — escutei Calloways segurar em meu braço e falar com minha amiga, antes de me tirarem dali. 

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