Capítulo 13
Soraia chegou perto de Marcela e fez carinho no braço dela (daquele jeitinho se encostando de lado e apoiando a cabeça no ombro da amiga) de modo rápido como que só para lembrá-la de que estava ali e depois voltou para onde estava anteriormente, cortando os temperos que seriam usados para preparar o jantar que seria servido a fim de receber Gustavo como namorado ou "noivo" de Denise. A família ainda não tinha entendido o que seriam. Descobririam na ocasião.
Não seria um momento super feliz, mas fizeram para evitar que Denise ficasse mais nervosa, e o próprio Gustavo não falasse depois que foi mal recebido e quisesse levá-la para longe.
— Menina, fica assim não. Foi escolha dela, a vida é dela a gente não pode obrigar a pessoa a não ser burra. Pode tentar, a gente tentou, mas obrigar não. – Soraia disse gesticulando as mãos, e uma delas segurava a faca que usava. A expressão que fez, se Marcela não estivesse tão chateada, teria dado risada.
— Eu sei... Mas ele tava tão feliz nos dias que "tavam namorano"... – respondeu e erguendo o dedo indicador direito, de modo a enfatizar o que diria a seguir — E ela também tava feliz. – depois, voltou ao que estava cortando. — Não tô em paz fazendo esse jantar, mas ela pediu, e até Marcus disse pra eu não ficar chateada e ajudar. Pra depois não dar alguma coisa nela e o pior acontecer. Tô fazendo isso, mais pro Anthony ficar tranquilo de que eles vão ficar por aqui, do que pelo casal. – debochou quando falou "casal".
— Essa ideia que Marcus teve foi boa. Todo mundo ficou retado, mas, se a gente não fingir que tá tudo certo, ele pode convencer ela. Sabia? de ir pra outro lugar e sabe Deus como esse "home" vai tratar ela. Que cabeça dessa menina viu! Deixar um cara bom como ele. Engraçado que é toda "tiradinha a esperta" e olha a situação que entrou. Mas dizem que ele tem lábia. – depois que disse, Soraia olhou para o lado de fora e comentou "ela tá vindo". – "bicha burra, te odeio, magoou meu amigo". – não odiava, era modo de extravasar a raiva em pensamento.
Denise tinha ido comprar um ingrediente que faltava, e quando entrou, percebeu que elas voltaram a ficar quietas como quando antes dela sair. Entendeu que era por ela, pois sabia como elas gostavam de conversar. Lavou as mãos e continuou cortando os legumes que tinha deixado antes de sair.
— Bebe um pouco mais de água que hoje tá quente. Tá comendo? – Soraia disse e se calou novamente. – " Tem que cuidar. Às vezes, mesmo cuidando acontece coisa triste. Que com você não aconteça, é muito difícil".
Ela respondeu que sim, que todos estavam cuidando bem dela – "mesmo não estando tão felizes por eu ter terminado com Marcus".
Formou-se um silêncio que seguiu até que terminaram de preparar, e Marcela disse para ela ir se arrumar, logo Gustavo chegaria.
Denise confirmou num gestual de cabeça, porém ainda sentia um tom distante na cunhada, assim como de Soraia, mas entendia o motivo.
***
Dias antes...
Marcela e Soraia estavam na cozinha, quando Marcus passou pelo pátio. Ele as viu na mesa tomando um cafezinho e falando do capítulo da novela, então voltou, deu um beijo na testa de cada uma e disse que iria dormir, mas a expressão no rosto era de tristeza.
Perguntaram o que houve, e onde estava Denise. Ele disse que ela tinha ido até a casa de Laura, e antes de sair falou — Tem certas coisas na vida, que são vividas por alguns, mas somente apreciadas de longe por outros. O amor é uma delas. Ela terminou, vai dar uma chance a ele. Não encham a menina de questões, foi a decisão dela, vamos respeitar. - depois saiu.
Segundos depois, Denise chegou. Ela não encontrou Laura em casa, e voltou em seguida. O viu sair da cozinha e subir as escadas ao lado para acesso ao pavimento superior.
Ainda com expressão triste e os olhos marejados, ela se aproximou da porta, sabia que no dia seguinte perguntariam então era melhor dizer logo.
Disse que família era algo sério para os pais dela, que a mãe apesar de situações, nunca deixou o esposo e que ficariam ainda mais decepcionados se ela estivesse com alguém que não fosse o pai do bebê. Agradecia demais o que Marcus quis fazer por ela. Que gostava muito dele mesmo de verdade, mas já que Gustavo queria uma chance e logo depois de perder o pai, ela não poderia negar o direito dele.
Nesse momento, Soraia segurou a mão de Marcela, pois sabia que o fogo nos olhos estava quase presente mesmo sem olhá-la.
A segurada de mão ajudou, pois ela respirou fundo, e respondeu a cunhada — Você é quem decide, a vida é tua. Mas ta jogando a felicidade fora. – saiu, deixando Soraia e Denise na cozinha, e foi até o quarto do irmão.
*
Marcus se deitou na cama, fechou os olhos.
"Você sabia, ela estava sem jeito nos últimos dias. A única vez que me apaixono, precisava acontecer isso?"
*
Denise estava quieta, sem jeito, mal olhou para ele. Marcus perguntou o que estava acontecendo, enquanto fazia carinho no rosto dela.
Ela começou dizendo que o que ele queria fazer por ela, nunca esqueceria, que ele sempre estaria no seu coração.
Ele sentiu em seu coração que precisava dizer as palavras que nunca pensou dizer, por lembrar de como seu pai sofreu por sentir, mas resolveu ir contra os instintos. — Faço por te amar. Te amo.
Aquilo pegou Denise em cheio, e a fez se sentir mais arrasada ainda. Se fosse qualquer outro cara, ela dispensaria de modo muito mais fácil, agradecendo e seguindo. Mas, ele tinha mexido com ela, de forma diferente que Gustavo que ela também gostava, e estava numa situação que não desejaria a ninguém, escolher entre dois amores. Mas de fato, a escolha em si não estava exatamente em suas mãos, afinal Gustavo tinha direitos como ela pensou em todos os momentos antes daquela conversa.
— Ele conversou comigo, pediu uma chance. Me perdoe Marcus, por favor. – ela pediu, não por medo dele, mas por saber que ele ficaria muito triste.
— Acho que ele só está fazendo isso porque estamos juntos. Ele não te ama, isso ficou claro na discussão e como ele te tratou.
— Ele acabou de perder o pai, disse que refletiu, que era sua chance de ter família, que estava tão preocupado com pai, desesperado, que acabou descontando em mim e me pediu perdão. – vendo que Marcus ia falar outra coisa, ela continuou, do mesmo jeito calmo que ele estava. Ele sempre falava com ela com respeito, carinho. — É melhor consertar tudo enquanto há tempo, do que decepcionar mais ainda os meus pais, o meu pai mais ainda. Já não deveria ter acontecido desse modo, não me orgulho, por isso preciso dar a chance que ele está pedindo, ele tem direito.
Ele sentiu como se um vazio o dominasse. Imaginou o quanto o outro enfiou na cabeça dela sobre "ter esse direito ou sobre os pais dela". — E o que a gente sente fica como? Eu não quero ser egoísta não, eu entendo o que você tá dizendo, mas é difícil ouvir isso. Ele poderia estar passando o que fosse, mas nada justifica ele ter tratado você daquele jeito. O que garante que ele vai mesmo te respeitar, se não fez isso ao saber que estava esperando um filho dele? Já pensou nisso?
Ela ficou em silêncio. Se lembrou do conselho que Laura deu: "Melhor você ficar com ele, do que ele infernizar sua vida pra tomar a criança, só por você tá com Marcus. Já pensou, se por raiva ele pega o filho de vocês e vai pra longe?"
Marcus perguntou, com medo de uma resposta que ele sabia que poderia existir. — Você ama ele?
O silêncio prosseguiu, desta vez ela abaixou a cabeça. – "Como vou dizer que sinto o mesmo pelos dois? " — Não quero que pense que não te amo, eu... – ela chorou.
Ele sentiu que pressioná-la só a faria sofrer, então resolveu desabafar já pensando em encerrar o assunto, mas queria que ela que ela escutasse. — Você o ama... sei que sente algo por mim, mas vejo que o sentimento por ele é mais forte. – "E eu acabei de dizer que te amo..." — Sei que aceitou meu pedido como ajuda, mas eu estava, estou sendo sincero, fiz por vocês dois, porque... – ele tocou a barriga dela. — Quero que vocês dois sejam felizes, e que você não sofra com sua escolha. Que ele saiba honrar o lugar que você está dando a ele. – "Agora vai pra casa, Marcus. Não vai desabar aqui. Seja forte".
Ela levou as mãos ao rosto, e começou a chorar copiosamente.
Ele a abraçou e fez carinho nela, dizendo para que não chorasse, que tinham muito "chão pela frente".
Denise levantou o rosto, olhou nos olhos dele. — Marcus, não aceitei só por ajuda, eu gosto muito de você, nunca pensei que alguém pudesse se apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo. – ela fechou os olhos — Eu me sinto tão confusa... Mas não é só sobre o que eu sinto, não posso fazer isso com ele, nem com meu bebê. Imagina quando for maior e me perguntar? Me acusar de não ter dado uma chance ao pai?
Ouvir aquilo deu "certa dor" em Marcus. Ele tinha feito tantos planos em poucos dias... pensou que seria tão bom pai, que o idiota não faria falta, mesmo entendendo que em algum momento da vida a criança ficaria curiosa.
Ela o abraçou, pedindo desculpas.
Naquele momento ele entendeu, e pôde jurar que ouviu um "Eu te amo também" e viu que de fato ela estava confusa, mas não seria como Gustavo, a manipulando. A amava tanto, mesmo em tão pouco tempo, que facilitaria para ela, no fim das contas o desgraçado tinha vantagem de estar de luto e ser o pai. — Não chore mais. Olha, eu vou precisar de um tempo pra me acostumar, mas não vou deixar de tratar bem por isso. Vou ficar de olho no sacana.
Ela não entendeu a última palavra e ele percebeu, os dois riram, e ele tocou o rosto dela, dizendo que era muito melhor vê-la assim. — Vamos pra casa. – ele disse se levantando do banco da praça, e ela o acompanhou.
Marcus não se enganou, ela disse mesmo "eu te amo", por isso o sofrimento que estava em tomar a decisão.
Ela disse que veria a amiga, antes de ir para a pousada. Ele deu um beijo na testa dela, e disse que não voltasse tarde, precisava descansar cedo, faria bem. Ela ficou observando ele ir, e pensou "não verão só o meu rosto de quem chorou, você está com os olhos cheios d'água também. "
***
Então estavam ali, jantando ou mal tocando na comida, e escutando Gustavo falar que gostaria de provar que estava dizendo a verdade, que estava arrependido pela atitude anterior.
Em certo momento, César pediu licença, dizendo que ia ao banheiro (e tinha mesmo dois, próximo ao pátio) mas a verdade é que ele foi ver se Marcus estava no quarto, e ao encontrar o amigo lá, ficaram escutando música baixinho e bebendo shot de cachaça.
Marcela, pouco depois que César saiu (e ela desconfiou pela demora de voltar que ele não tinha ido ao banheiro) disse mais uma vez que sentia muito pela perda de Gustavo, depois levantou, emendando que já estava tarde – e nem estava – mas Anthony não argumentou, pelo contrário, confirmou.
Ela chamou Soraia para ficar com ela na cozinha, esquentando a comida para levar para o irmão. Enquanto chorava por não poder fazer nada pela situação, e pelo coração partido dele.
Denise ao se despedir, na calçada em frente a pousada, pediu que Gustavo fosse paciente, pois eles estavam chateados. Para sua surpresa, ele sorriu, deu-lhe um selinho e disse que ela não se preocupasse e que "só deles fazerem o jantar, já estava ganhando". Que ele conquistaria a todos, era só questão de tempo, depois completou que, se ele tivesse o amor dela, já seria perfeito.
Ela sorriu.
Ele se afastou, assobiando e com as mãos nos bolsos. Quando atingiu certa distância, a expressão feliz que fez em frente a ela foi dando lugar a um "ar" mais sério.
Ao chegar em casa, a prima perguntou como havia sido e ele comentou que se segurou para não rir do sotaque que a Marcela ainda tinha – e ela falou pouco- assim como o irmão dela tinha sotaque de interior, e que ele não tinha participado.
A prima respondeu que imaginava que logicamente Marcus não iria participar, afinal ele tinha roubado a namorada do cara. — Bem que eu poderia consolar aquele lindo. Fazer ele esquecer ela.
Gustavo fingiu que não ouviu a graça.
Ela pediu que contasse mais, e ele respondeu que foi interessante escutar um pouco do que Anthony resumiu sobre a família ser algo importante.
Ele tirou a jaqueta, e pendurou enquanto disse que observando o lugar, se houvesse uma boa administração até daria futuro. Pensou que poderia demorar um pouco mais do que com Regina, mas se associar a eles não seria tão ruim.
Se sentou ao lado dela no sofá. — E só pra esclarecer, não roubei ninguém. Ela foi minha, primeiro. Não mandei ele ser lerdo.
— Ele não é lerdo, ele é muito cavalheiro. Não foi igual a você que se aproveitou dela. Ele é muito respeitador, por isso que tem um monte querendo ele.
— Igual a você, e ele nem olha. Vai ficar querendo a Denise. – ele gargalhou.
— Insuportável. – ela até deu um chute leve nele, depois se encolheu novamente. — Ridículo, nojento. Só Denise mesmo pra querer você.
— Olha que tem mais querendo... – ele relaxou mais o corpo. — Mas brincadeira à parte, quem sabe se você se chegar direitinho, ele te olhe.
— Tô besta que você vai ser pai... – ela comentou olhando a televisão.
— Nunca me imaginei tendo filhos. – " Minha vida foi escutar que foi ruim pra minha mãe eu ter nascido".
— Faz diferente com o teu. Vê se vira um pai melhor do que o teu foi. Coitado de teu filho ou filha se tu fizer igual. – viu a expressão de quem sabia que ela estava certa, mas mesmo assim não queria que falasse do pai dele — E sei que mesmo assim você gostava dele, queria ter feito mais. – olhou de novo para a televisão — E quem sabe você se apaixone mesmo pela Denise. Ela é linda e não foi nenhum sufoco quando você quis deitar com ela. Pode ser que essa paixão dê certo.
Gustavo não respondeu nada pois a mente foi para longe. Aquilo dito pela prima o fez se lembrar da garota por quem havia se apaixonado, no tempo da escola, e ela por ele, pois foram o primeiro um do outro. Mas ela, a mãe e os irmãos tiveram de ir morar com os avós dela em outra cidade após a morte do pai, e então há mais de 5 anos não a viu. Se a família dele ainda tivesse a grana que ele tanto ouvia nas histórias que sua mãe lhe contou sobre seu avô, poderia ter ficado com ela, que com mais um pouquinho de estudo, boas roupas, poderia se passar por madame.
— Ouviu? – a prima o cutucou com o pé. Ela tinha perguntado se ele iria querer café, ela resolveu que iria fazer.
Ele olhando o nada, envolvido nos pensamentos, disse — Só sei que o Anthony e o tal do Marcus atrapalharam meus planos com a Regina, contaram para ela. Não vou mais deixar ninguém me atrapalhar. Por causa do que fizeram, eu não tive condições de salvar o meu pai.
Laura sentiu o ódio nas palavras dele, e imaginou se um dia ele descobrisse que não haviam sido os dois, e sim, ela. Continuou olhando a televisão e agradeceu mentalmente quando ele disse que iria tomar banho e dormir.
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08/02/25
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