Capítulo 3 - Sempre que ela precisar

Disclaimer: Todos os personagens pertencem a JK Rowling. Esta fanfic é uma tradução autorizada de "Falsas Apariencias" postada em 2007 no FanFiction por Sisa Lupin.

Capítulo 3 - Sempre que ela precisar.

Tonks tentou se acalmar enquanto a senhora Weasley a conduzia em direção ao salão. Tinham acontecido muitas coisas desde que cruzou o umbral daquela casa, e ainda não tinha passado do corredor.

— Dumbledore virá hoje, Molly? — perguntou, disfarçando o tremor de sua voz ao pronunciar o nome de seu antigo diretor e novo inimigo.

— Oh, é claro. Não deve demorar a chegar — lhe respondeu.

Acabavam de entrar por uma sala lotada, onde a esperavam vários bruxos e bruxas que Tonks reconhecia graças às fotografias que alguns Comensais tinham lhe mostrado. Por sua vez, todos viraram-se com curiosidade para sua nova companheira, que cumprimentou a todos com um aceno de mão e se apresentou.

Snape a olhava do outro lado da mesa com os olhos vazios, e ela obrigou a si mesma a fechar a sua mente. Por nada no mundo desejava que soubesse o envergonhada que se sentia por agir como uma criança no primeiro dia de aula diante de bruxos tão experientes.

Do contrário do que esperava, os membros da Ordem sorriram amavelmente. Pensaram que parecia nervosa, mas era normal, levando em conta a situação.

— Bem-vinda, Tonks. Eu sou Bill Weasley — cumprimentou um homem ruivo, que aproximou-se para apertar a sua mão.

Em seguida, o resto foi se apresentando, com exceção de Kingsley que já a conhecia do trabalho e que tinha lhe recomendado pessoalmente. Muito menos Snape, já que era normal não se mostrar agradável com os recém-chegados e, portanto, ninguém se surpreendeu com sua falta de cortesia.

Quando chegou a vez de Olho-Tonto, Tonks teve a sensação de que seu olho mágico a olhava de forma analítica.

— Então é auror, hum? Hoje em dia aceitam qualquer um na academia — grunhiu.

— Alastor! — Molly o repreendeu — Seja agradável. É o seu primeiro dia.

— Certo, certo — resmungou, olhando irritado para Molly. Depois virou o seu olho mágico para a jovem — Desculpe-me, senhorita, acabei de sair de um baú depois de ter ficado preso durante um ano e meus modos não são o que eram — acrescentou com ar nostálgico — Mas aprendi a lição! Sabe qual é?

— Vigilância constante — disseram os outros.

— Bando de mal agradecidos. Onde estariam sem mim? — perguntou mal humorado — E onde estão Black e Lupin? Não me surpreenderia que os Comensais os tivessem sequestrado. É melhor eu ir e verificar o que aconteceu com eles...

E sem mais, marchou com sua orgulhosa mancada, murmurando entredentes sobre a insensatez de seus companheiros e o erro que cometia Dumbledore em permitir que pessoas tão pouco preparadas ingressassem na Ordem.

— É sempre assim? — perguntou Tonks, não conseguindo disfarçar um sorriso quando ele se afastou.

— Ah sim... mas vai se acostumar — respondeu Kingsley — É que pode ser um pouco super protetor com todos nós.

— Super protetor! Isso é um eufemismo — retrucou Bill — Outro dia quase montou uma operação para que os Comensais não me atacassem a caminho do banheiro.

— Pode ser paranoico às vezes, mas no fundo tem carinho por nós, mesmo que não queira admitir — acrescentou Hestia, divertida.

Como todos os demais, Tonks sorriu apesar de sentir-se terrivelmente culpada. Sem dúvidas, nenhum dos presentes merecia que tivesse um obstáculo a mais entre eles e, apesar disso, a marca que levava no antebraço esquerdo começou a doer.

Então, apareceu de novo Olho-Tonto, junto com Sirius e Lupin. Um sorriso inconsciente surgiu em seus lábios, deixando de lado os seus tristes pensamentos.

— Já estamos aqui, são e salvos, como podem ver — disse Sirius — Não é mesmo, Remus?

— Quê? Ah sim! Claro — disse Remus, que estava muito ocupado observando de soslaio a sua nova companheira.

— Vamos, amigo, sentemos antes que seja mais óbvio — sussurrou em um tom cúmplice.

Remus saiu de sua distração e foi sentar-se imediatamente. O animago puxou a cadeira que estava do lado do amigo para sentar-se, mas então pensou melhor.

— Senhorita — disse, olhando para Tonks — Seu lugar.

— Obrigada — respondeu enquanto se sentava de forma pouco cerimoniosa.

Tentava não olhar para a pessoa que estava à sua esquerda, nem pensar no calor que começava a subir por suas bochechas.

Sirius sorriu dissimuladamente, enquanto caminhava para o outro lado da mesa.

O lobisomem, por sua vez, tentava fingir indiferença. Não tinha ignorado o sorrisinho de seu amigo e tentou adotar a maior naturalidade possível para que seu "querido" amigo não tirasse conclusões precipitadas.

Isso era certo. Então por que diabos não conseguia deixar de se sentir estúpido?

Tonks notou como seu companheiro abaixava a cabeça e observava as mãos sem saber o que fazer. Nesse momento, disse a si mesma que tinha que fazer alguma coisa, e pigarreou para chamar sua atenção enquanto pensava em algo que pudesse começar uma conversa civilizada.

— Esse feitiço que usou é incrível — disse — A maioria dos que uso te deixa dolorido um tempo, mas esse não.

— Que bom saber, eu costumo usá-lo muito. Mais do que gostaria, na verdade.

— Sério? Eu sou completamente desastrada também, sempre estou tropeçando em qualquer coisa — quis continuar a conversa — É difícil pensar que exista alguém tão desastrado quanto eu.

— Às vezes quebro alguma coisa, mas não é por ser desastrado, é por azar mesmo.

Tonks o observou em silêncio e tentou decifrar aquilo que suas palavras escondiam, mas só tinha franqueza em seu sorriso. Não podia suspeitar de um homem que tivesse um sorriso tão sincero quanto o de Remus Lupin.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro — disse surpresa e, de certa forma, assustada.

— Isso que acontece com o seu cabelo é normal?

"Que droga" pensou enquanto puxava uma mecha de seu cabelo e observava todas as tonalidades vermelhas que surgiam. A última coisa que queria era que pensasse que era um bicho estranho, e ainda por cima colorido.

— Sim, mas nunca me acostumo. Costuma acontecer quando estou irritada ou... — calou-se na metade da frase e Remus ficou olhando-a interrogativo — É um dos inconvenientes de ser metamorfomaga — tentou corrigir-se.

— Sério? — perguntou atônito — Realmente é metamorfomaga?

— Pois é. No começo, demorei para apresentar os sintomas, mas quando estava com um mês de vida, já era capaz de transformar meu cabelo em um completo arco-íris.

Para reforçar sua resposta, Tonks fechou os olhos com força e começou a mudar seu cabelo do vermelho ao violeta, do violeta ao azul, do azul ao seu favorito, o rosa.

Remus sorriu maravilhado diante do peculiar dom de sua nova companheira. Acabava de descobrir um dos motivos pelos quais Dumbledore tinha lhe permitido ingressar na Ordem, além de sua simpatia, claro.

— Nossa, nunca conheci alguém com esse dom. Lembro que a professora McGonagall nos contou sobre metamorfomagia quando estudava em Hogwarts, dizia que esses casos acontecem de um em um milhão.

— Tem uma memória admirável. A maioria não sabe nem sequer o que significa...

Do outro lado da mesa, Sirius observava seu amigo conversando animadamente com a filha de sua prima favorita. Embora não pudesse ouvir sua conversa aquela distância, sabia perfeitamente que estavam falando sobre o peculiar dom de Tonks, pois Remus parecia ter abandonado a sua timidez anterior para concentrar-se em averiguar mais sobre suas qualidades.

Aluado nunca mudaria. Enquanto lhe apresentassem algo insólito, não podia perder a oportunidade de descobrir tudo o que pudesse sobre o assunto, fosse um livro único no mundo, a descoberta de uma nova espécie de um grindylow ou algum daqueles estranhos objetos mágicos que gostava de colecionar.

Claro que agora o que captava a atenção do lobisomem não era um livro antigo, nem uma criatura aquática, nem nenhuma quinquilharia do Beco Diagonal... Era uma mulher.

Sirius sorriu de lado. Pensou na probabilidade de que esses dois se envolvessem, mas via como algo bastante improvável. Seu amigo era um lobo solitário, sempre caçava para sobreviver. Ambos compartilhavam uma natureza insólita, mas isso não era algo que fosse suficiente para uni-los, precisavam de um pequeno empurrão como o que deram em James e Lily há anos. No entanto, as probabilidades de que Remus magoasse sua adorada Nymph eram muito altas, nem sequer sabia se ela conhecia seu pequeno problema peludo, e isso era de grande relevância porque também não queria que ela magoasse seu melhor amigo, como já tinha feito certa mulher no passado.

Depois dela, Remus sempre preferia afastá-las do que ser afastado: uma atitude muito pouco complacente consigo mesmo, mas que não podia jogar na sua cara, sabendo o quão complicada era a sua situação.

— Sirius? — escutou a voz de Hestia enquanto passava uma de suas mãos diante do rosto — Onde aprendeu a dormir de olhos abertos? — acrescentou quando ele despertou de seus pensamentos.

— Não se preocupe, senhorita Jones. É uma de suas muitas anomalias — alegou Snape, olhando-o com um de seus sorrisos debochados do outro lado da mesa — Certamente que tinha muito tempo livre em Azkaban para aperfeiçoar essa técnica, não é mesmo, Black?

— Olha, Seboso, faça um favor a todos e aprenda a calar esse orifício que tem na cara se não quiser que o faça eu mesmo.

— Não se ofenda, Black, mas suas ameaças estão começando a decair desde que Potter não está aqui para respaldá-las com algum de seus absurdos feitiços para principiantes. Lamentável.

Como se fosse movido por uma mola, Sirius levantou-se com ímpeto e sua cadeira caiu no chão com um grande baque.

Todos viraram-se na direção do primogênito dos Black, inclusive Tonks e Remus, vendo como seus olhos cinzentos faíscavam em direção a Snape.

"Ah não. De novo não", implorou Remus para si mesmo.

Sirius procurou rapidamente a varinha em seus bolsos, mas a lucidez voltou mais rápido a sua cabeça e obrigou-se a parar.

— Se Dumbledore não confiasse em você, da próxima vez faria pensá-lo melhor as coisas antes de falar dessa maneira dos meus amigos.

— Que consideração de sua parte. Já vejo que Dumbledore fez um bom trabalho te segurando em uma coleira como um cachorro vira-lata — retrucou com deboche — Por que não aceita que não tem a coragem necessária para empunhar uma varinha contra mim?

Tonks notou que Remus se tensionava na cadeira como se esperasse que, de uma hora para a outra, Snape sacasse a varinha contra seu amigo. O lobisomem puxou a própria varinha e a apertou com força, esperando a reação de Sirius. Dessa vez, tinha ido longe demais.

A jovem olhou para o primo, que tentava se conter, mas o sorriso debochado de Snape comodamente sentado em sua cadeira não o ajudava a refrear sua vontade de lhe quebrar o nariz desproporcional.

— Já basta.

A voz de Albus Dumbledore, o maior bruxo da história para alguns e o mais temido inimigo para outros, apareceu com sigilo do nada, justo quando Sirius erguia a varinha.

Sirius deixou cair o braço lentamente sem perder o contato visual dos olhos negros de Snape nem por um instante.

Os que estavam sentados, levantaram-se visivelmente aliviados por sua chegada.

Já a metamorfomaga nunca se sentiu tão indefesa diante de sua majestosa presença. Mediante a oclumência, concentrou tudo o que pôde para que aqueles olhos azuis, que agora a olhavam, não penetrassem todos os cantos obscuros de sua mente. Se o fizesse, a vida de seus pais correria grande perigo.

Sustentou o olhar, pensando nas consequências de seu fracasso quase até o limite de suas forças, e depois de alguns segundos, que pareceram horas, Dumbledore sorriu para a jovem.

— Bem-vinda à Ordem da Fênix, Tonks. Tenho certeza de que logo estará à altura de suas habilidades — disse o ancião diretor com sinceridade.

— Obrigada. Não desapontarei, professor.

— Eu sei disso.

Dumbledore afastou o olhar da jovem, e imediatamente depois, fixou-se em Sirius e Snape.

— Quanto a vocês dois, espero que chegue o dia em que deixem de nos honrar com seus duelos de varinhas. Da próxima vez, reservem a sua ira para os Comensais.

— Faria de boa vontade se me permitisse sair como os outros — alfinetou Sirius.

— Já conversamos sobre isso — o diretor suspirou — É perigoso que saia, e ainda mais agora. Há muitos olhos que poderiam descobri-lo. Até que se saiba a verdade, deve permanecer aqui... essa é minha última palavra.

— Como quiser, professor — replicou Sirius em um tom irônico enquanto pegava a sua cadeira e sentava-se de novo, em um gesto indignado.

Snape não pôde evitar esboçar um sorriso triunfante em seus lábios.

— Sentem-se todos, por favor — disse enquanto tomava o seu lugar e esperava que os demais seguissem seu exemplo — Devo dizer-lhes que não há muitas novidades em relação a Voldemort e seus asseclas — prosseguiu em um tom sério — Não tem nenhuma novidade por sua parte desde que o Lorde das Trevas retornou. Sem dúvida, parecem estar preparando algo que não querem que saibamos.

— Cada vez são mais precavidos — acrescentou Kingsley — Acredita que planejam algum golpe contra o Ministério?

— Não, não acredito. Fudge se nega a acreditar em seu retorno e talvez isso os beneficie de algum modo. Tomara que saibamos logo. Por agora, só intensificaremos as guardas, é o que podemos fazer.

— E quanto a Hagrid? Sabe-se mais sobre ele e Madame Maxime? — perguntou Bill.

— Ainda não, mas é muito cedo para isso.

— ...Ou muito tarde — acrescentou Olho-Tonto em um tom misterioso.

— Vamos, Moody, não pode ser um pouco otimista? — pediu Emmeline.

— Quando Olho-Tonto for otimista, Snape será amável — disse Sirius com um meio sorriso dirigido ao seu eterno rival.

Dumbledore suspirou abatido. Aqueles dois não mudariam nunca?

— Ainda não terminei — disse depois de ter pigarreado para chamar a atenção de todos — Temos um assunto pendente — continuou quando todos o olhavam novamente — Considerando que Tonks é nova na Ordem, é bom que alguém se ofereça voluntário para guiá-la nos primeiros dias...

Sirius abriu a boca para oferecer-se. Afinal, quem melhor do que ele? Mas voltou a fechá-la. Não ia ser de muita ajuda se nem sequer podia sair da própria casa.

— Diretor, eu estaria encantado de ajudar a senhorita Tonks a integrar-se — disse a voz de Snape, olhando diretamente para a jovem.

O animago o olhou fixamente. Era a primeira vez desde que se conheciam, e isso fazia tempo, que pretendia ser gentil com alguém e tinha que ser justamente nada mais nada menos que sua parente.

— Nem pensar!

Sirius voltou a jogar a cadeira para trás e encarava o professor de poções. Já Remus não ficava muito atrás em sua surpresa inicial, mas obrigou-se a relaxar o semblante, sabendo que não era adequado esse tipo de sentimento vindo dele. Além do mais, Sirius já estava com a guarda levantada.

Tonks observava a cena, sentindo o rubor cobrir o rosto. Era sério que pensavam que Severus Snape estava tentando flertar com ela?

Tudo tinha sido cuidadosamente pensado para que Snape se oferecesse como seu guia para tê-la ainda mais vigiada, mas o maldito professor de poções não contava com o quão super protetor o primo dela podia ser.

Dumbledore movimentou a cabeça com ar ausente. Era óbvio que aqueles dois não tinham conserto, dizia seu gosto.

— Black, não é porque não consegue pensar em outra coisa, que o resto de nós pensa assim.

— Então por que não desviou os olhos dela desde que chegou? — perguntou Sirius com um tom acusador.

— É o suficiente, senhores — alegou o diretor, vendo que a situação estava escapando de suas mãos — Se não há outro voluntário, Snape se encarregará, Sirius.

— Remus! Remus o fará! — exclamou sem saber o que dizia — Não é, velho amigo? — acrescentou em um tom suplicante enquanto o olhava.

Remus ficou pálido. Quanto menos queria se envolver com ela, mais fácil o destino tornava as coisas.

Depois de alguns segundos, suficiente para pensar no que devia dizer, e vendo que todos os seus colegas o olhavam expectantes — especialmente Sirius —, Remus assentiu sem poder olhá-la nos olhos.

— É claro — disse o licantropo — Sempre que ela precisar.

Tonks sabia que devia recusar. Snape devia ser quem a orientasse, eram as ordens do Lorde das Trevas. No entanto, ao ver seus olhos verdes enquanto a observavam timidamente, sabia que não queria recusar.

— Claro. Seria ótimo.

Ele sorriu e Sirius suspirou aliviado enquanto Snape lhe lançava um olhar desafiante.

O primogênito dos Black acabava de salvar a filha de sua prima das mãos do cruel professor de poções, mas, ao mesmo tempo, acabava de lançá-la nas garras do inseguro lobisomem.

A dúvida cruzou o ambiente. Tinha feito o certo?

Só o tempo diria.

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