Capítulo 2 - A garota nova
Disclaimer: Todos os personagens pertencem a JK Rowling. Esta fanfic é uma tradução autorizada de "Falsas Apariencias" postada em 2007 no FanFiction por Sisa Lupin.
Capítulo 2 - A garota nova
— E aí? Teve sorte dessa vez?
— Nada — suspirou o recém-chegado e se deixou cair sobre uma das cadeiras — Desse jeito, estarei mais próximo da sepultura do que de cobrar um mísero pagamento.
Desde um dos extremos da mesa, Sirius Black abaixou o jornal que estava lendo e observou seu amigo com benevolência. Sua passagem por Azkaban tinha mudado a sua vida, mas seu velho amigo, Remus J. Lupin, continuava precisando de um bom ânimo como nos tempos de estudante.
Ele, por sua vez, se limitou a pegar o jornal que o animago tinha deixado sobre a mesa enquanto passava uma mão em seu cabelo grisalho.
— Vamos, anime-se — lhe disse — Também não era uma vaga de Ministro, e tenho certeza de que iam te pagar uma mixaria.
— Uma mixaria seria alguma coisa.
— Vai encontrar outra coisa. Era o melhor da turma! Monitor, monitor chefe...
— Lobisomem.
"Começou..." pensou Sirius.
— Certo, você ganhou — disse, desistindo de todas as suas táticas, aquela batalha já estava perdida. Depois, ergueu-se e arrancou o jornal das mãos do amigo.
Remus bufou irritado, e decidiu levantar-se para pegar uma xícara e preparar um chá ou o que quer que tivesse naquela cozinha degradada. Não tinha pregado o olho a noite inteira, e aquele era um sinal evidente de que a lua cheia rondava já pelo céu.
Enquanto punha a cafeteira no fogo, pôde ver que Sirius o observava dissimuladamente por cima das notícias matutinas. De fato, só se preocupava por ele e não tinha nenhum direito de se irritar, era algo normal, sendo como era, o único amigo que lhe restava de sua juventude. Mas Remus não queria compaixão, já era o suficiente a sua própria.
— Hoje vem a garota nova, não? — perguntou para mudar de assunto e deixar que seus pensamentos se esfumaçassem.
— Ela tem nome — disse Sirius — Um muito estranho, devo dizer.
— Uma de suas conquistas? — questionou Remus com um sorriso nos lábios.
— Me ofende que essa seja a ideia que tem de mim, Aluado — retrucou, fingindo estar ofendido — É Nymphadora Tonks, a filha da minha prima Andrômeda. Era só uma menina quando a vi pela última vez, pouco antes de ser mandado a Azkaban... Lembra dela?
Remus concordou com um gesto de sua cabeça. Até aquele momento não tinha voltado a pensar nela.
— Talvez hoje a vejamos. Está há semanas adiando a sua primeira reunião.
— Bom, somos uma sociedade secreta de desajustados. Talvez tenha dado para trás.
Sirius teve que lhe dar a razão nisso, e piscou cúmplice. Apesar de suas tentativas de disfarçar, Remus sentia bastante curiosidade em conhecer a tal Nymphadora Tonks. Ultimamente não deixava de se perguntar o porquê Dumbledore quis uma jovem que acabava de sair da academia de aurores e sem nenhum tipo de experiência em duelos contra comensais.
"Deve ter algo nela difícil de perceber em um primeiro olhar", se dizia.
•••
— Chegou a hora — lhe disse uma voz autoritária — Espero, pelo seu próprio bem, que não nos desaponte.
— Ligo muito pouco para o que me acontecer. Se não fosse por suas chantagens, já teria contado a Dumbledore tudo o que sei.
— Sim, e sua família já estaria morta, então tente ser convincente e ganhar a confiança de todos eles se não quer que aconteça. Lembre-se, não esqueça de usar a oclumência o tempo inteiro, e especialmente na presença de Dumbledore. Não que seja um prodígio nisso, mas espero que se esforce mais do que fez até agora.
— Tivemos muito pouco tempo — lamentou-se — Deveria ter me dado mais aulas...
— Acabou o tempo! — exclamou enquanto afundava as unhas no braço dela — Agora, vou entrar. Depois de alguns minutos, é você. Entendido?
Tonks assentiu e imediatamente depois, seu antigo professor de poções, e agora parceiro de crime — além de seu guardião —, afastou-se dos arbustos em que estava e dirigiu-se ao número 12 de Grimmauld Place para fingir mais uma vez a sua questionável lealdade a Dumbledore.
Talvez para ele fosse fácil, mas para Tonks não. Fazia semanas que suas pernas tremiam ao pensar na quantidade de bruxos e bruxas altamente qualificados que se reuniam no quartel. Olho-Tonto Moody, por exemplo, tinha sido o melhor auror que tinha pisado no Ministério em muitos anos e por isso tinha ganhado a total admiração da jovem. Como conseguiria enganá-lo?
E isso sem contar o seu primo, Sirius: doze anos preso em Azkaban é tempo mais que suficiente para conhecer todo o tipo de pessoa com que compartilhava cela. Seria capaz de examinar em seu rosto que era uma Comensal?
Apesar do tempo transcorrido, continuava lembrando-se dele com carinho. Quando era menina, ninguém de sua família suspeitaria que alguém como Sirius pudesse assassinar os seus melhores amigos. A Tonks daquela época se recusou a acreditar e preferiu conservar em seu coração o primo que a tratava com carinho e que lhe dava doces sem que sua mãe soubesse. A notícia que lhe deu o próprio Lorde das Trevas sobre sua inocência foi, sem dúvidas, a melhor que pôde receber diante daquelas circunstâncias.
Mas não era o momento de fraquejar, nadando entre suas lembranças infantis, a vida de seus pais dependia disso.
Tonks levantou-se com decisão de onde estava, e arregaçou a manga de sua camiseta. Com grande esforço fez com que a marca negra desaparecesse de seu antebraço e, em seu lugar, aparecesse uma mancha arroxeada, parecida com uma queimadura onde estava antes uma sinistra tatuagem. Em seguida, voltou a esconder a marca sob o tecido da sua manga de inverno, apesar de ser o verão mais quente do que se lembravam, sabia que voltaria a aparecer com o tempo, e que não podia correr riscos desnecessários. Depois, transformou seu cabelo escuro em uma cor rosa chiclete, como a que costumava usar e, finalmente, encaminhou-se até o quartel.
Assim que pronunciou o endereço da casa, uma porta saiu do nada entre os números 11 e 13, e imediatamente surgiram paredes e janelas imundas. Era como se, de repente, tivesse inflado uma casa a mais, empurrando as dos lados, afastando-as de seu caminho.
Tonks subiu os desgastados degraus de pedra sem afastar os olhos da porta, que se materializava diante de seu nariz. A pintura negra estava desgastada e arranhada, e a aldrava de prata tinha a forma de uma serpente torta, mas não tinha fechadura nem maçaneta.
A jovem puxou a sua varinha e deu uma batida na porta. Escutou os fortes ruídos metálicos e de um trinco correndo. Um segundo depois, a porta abriu-se com um rangido. Com cuidado, cruzou o batente e submergiu na quase completa escuridão do vestíbulo. Cheirava a umidade, poeira e a algo podre e adocicado, a essência de um edifício abandonado.
Naquele momento, não tinha ninguém no corredor, de forma que a jovem deixou vagar o olhar pela imensa casa. Em um instante, deteve-se a observar a grande lâmpada de cristal pendurada do teto e, sem perceber, seus pés foram encaminhando-se para trás para conseguir uma visão mais ampla.
De repente, sentiu que seus pés batiam em algo e depois...
— Ai! — gemeu Tonks completamente jogada no chão.
Sem que tivesse tempo para reagir, escutou um sibilo fraco, e então umas antiquadas lâmpadas de gás acenderam-se nas paredes e projetaram uma débil luz contra o papel de parede e sobre o rarefeito carpete onde estava jogada.
— Tudo bem?
Instintivamente, Tonks tentou levantar-se do chão. Não queria que ninguém a visse nessa posição. Mas uma forte dor em um dos tornozelos a fez desistir da ideia. Por que sempre tinha que fazer papel de ridícula na frente de alguém?
— Espere, não se mexa.
Um homem de cabelo castanho com alguns fios grisalhos nas têmporas ajoelhou-se ao seu lado em um gesto preocupado. Tinha lindos olhos dourados, que naquele momento observavam seu tornozelo esquerdo exaustivamente.
Por alguma estranha razão, Tonks não conseguiu dar nenhuma desculpa ou, simplesmente, proferir alguma palavra na presença daquele homem. Algo estranho, já que não costumava ficar quieta nem submersa em água.
Remus puxou com cuidado a perna da mulher e tirou lentamente o sapato do pé torcido. Tonks estremeceu ao sentir o tato de suas mãos sobre sua pele, em busca de alguma fratura.
— Torceu o tornozelo. Por sorte não é difícil de resolver.
Ele pegou a varinha do bolso da calça e pronunciou um feitiço sobre o tornozelo da jovem.
— Melhor?
Ela assentiu timidamente, constrangida pela situação. Remus deu um sorriso e se deteve a observar seu rosto com maior atenção. Tinha o cabelo rosa bagunçado e grandes olhos cor de chocolate. De repente, sentiu como se tivessem lhe lançado a maldição Imperius e seu corpo não pudesse obedecê-lo. Ainda assim, tentou de todas as formas aparentar tranquilidade. A última coisa que queria era que a jovem pensasse que era algum tipo de pervertido, pois não precisava prestar muita atenção para saber que era muito mais nova que ela.
Apesar disso, Remus continuava observando a mulher de cabelo rosa que apareceu jogada na metade do corredor, ainda com uma de suas mãos postas sobre sua perna. Quando se deu conta disso, decidiu afastá-la imediatamente.
Tonks voltou a calçar o sapato enquanto sentia o coração bater com maior intensidade, não podia negar que aquele homem lhe chamava a atenção.
Estavam tão distraídos um com o outro que não perceberam que eram vigiados.
— Ora, ora — disse a voz de Snape com desprezo — Não disse uma palavra e já o tem a seus pés.
Ambos sobressaltaram-se com a intromissão e Remus levantou-se no mesmo instante enquanto Snape sorria com malícia.
— Entendo que alguém como você não possa controlar os instintos animais, Lupin, mas deveria ter vergonha de se aproveitar da ignorância de uma mocinha — prosseguiu.
Remus lhe lançou um olhar fulminante. Pelo menos, durante um instante, pois não conseguiu deixar de sentir-se culpado por ter se atrevido a tocá-la. Que tipo de primeira impressão estava dando?
Tonks olhou com apreensão o enfrentamento. Sabia que Snape desprezava a todos, mas nunca tinha lhe visto humilhar alguém de forma tão descarada.
— Agora ocupa o tempo em espionar os outros, Snape? — perguntou ela, ainda sentada sobre o tapete — Toma cuidado. Talvez alguém poderia socar esse proeminente nariz que tem, se não deixar de metê-lo onde não te interessa.
O professor de poções ainda teve tempo de lançar um profundo olhar de advertência, quando a jovem recusou a ameaça mostrando-lhe a língua. Aquilo o tirou do sério totalmente. Se Lupin não estivesse presente, teria de boa vontade dado uma surra na aprendiz, mas infelizmente teria que esperar. Saiu do lugar com um ondear de sua capa e os dentes apertados.
Remus ficou surpreso ao ver como Snape marchava, obedecendo-a sem nem hesitar.
— Me ajuda a levantar? — ela perguntou com um sorriso.
— Claro, me desculpe — ele balbuciou, estendendo a mão — Obrigado.
— Disponha. Detesto quem se acha melhor que os outros.
Ambos perceberam que seu espaço foi invadido imperceptivelmente pelo outro, estranhando ao comprovar que não eram indiferentes a esse fato. Tinha uma afinidade inusitada e quando tiveram certeza disso, se viram novamente interrompidos:
— Nymph?
Sirius entrou no corredor sem perceber que estava atrapalhando. Por sua vez, Remus afastou-se imediatamente dela, como se seu amigo fosse um pai ciumento.
— Sirius! — exclamou Tonks, após recuperar a compostura e correu para abraçá-lo.
— Sabe que eu amo que seja tão animada, mas... está me sufocando.
— Me desculpe — ela disse, enquanto relaxava o aperto — É que estou tão feliz de te ver.
— Eu também, pequena, embora tenha crescido bastante.
— Esperava o quê? Se passaram catorze anos! — exclamou Tonks, afastando-se para vê-lo melhor — Também mudou muito.
— Para melhor, é claro — ele retrucou, presunçoso.
Ela permitiu-se o luxo de duvidar e gargalhou ao ver a cara de frustração que seu primo demonstrou. Ele acabou rindo também, comprovando que nada tinha mudado, já que continuava sem conseguir se irritar com ela.
Sirius olhou por cima do ombro e percebeu a presença de Remus.
— Já vi que se conheceram.
Notou que o rosto de Tonks corava. Mas o que aconteceu com aquela menina?
— Na verdade, não nos apresentamos — disse Remus, aproximando-se com um sorriso.
— Nymph, te apresento meu melhor amigo, Remus J. Lupin. Ela é Nymphadora Tonks, a filha da minha prima Andrômeda.
A jovem o fulminou com o olhar.
— Mas prefere que a chamem de Tonks — ele acrescentou rapidamente.
— Prazer em te conhecer, Tonks — Remus a cumprimentou amavelmente.
— Digo o mesmo, Lupin.
Remus estendeu a mão e ela apertou sem conseguir afastar seus olhos dos dele. O gesto se prolongou tanto que Sirius sorriu dissimuladamente diante da cena. Era engraçado ver seu melhor amigo corar como um adolescente.
— Que tal irmos para a sala de estar? — Remus perguntou voltando à realidade, e escondendo sua mão no bolso — Dumbledore deve estar a ponto de chegar — acrescentou.
Naquele momento, apareceu pela porta da cozinha uma mulher ruiva. Ao ver a jovem, aproximou-se deles como um tornado.
— Bem-vinda, querida. Deve ser Nymphadora...
— Tonks, me chame de Tonks.
— Oh! Como queira! Eu sou Molly Weasley.
Molly olhou desaprovadoramente para Sirius e Remus, talvez mais para Sirius.
— O que fazem aqui parados no meio do caminho? Nem sequer a convidaram para entrar? — perguntou — Venha, querida, não seja tímida, eu vou apresentá-la aos outros. Enfim, perdoe-os, tem muita poeira na casa, e parece que lhes entra pelo cérebro — acrescentou em um tom confidente enquanto a guiava para a sala.
— Eu ouvi isso! — exclamou Sirius.
Enquanto isso, Tonks não pôde evitar olhar para trás. As palavras de aviso de Snape sobre Remus chegaram à sua mente mais nítidas do que nunca:
"Não o subestime, é extremamente perigoso... Um lobisomem".
No entanto, não era por isso que o olhava. Não parecia tão perigoso como tinha lhe descrito. De fato, não se parecia nem um pouco com a ideia que tinha sobre os lobisomens.
Quando se afastou, Sirius percebeu que o amigo continuava olhando para a porta em que ela acabava de ir. Por fim, Remus percebeu que o animago estava muito calado ao seu lado.
— O quê? — perguntou.
Sirius tinha uma sobrancelha erguida e o olhava como se adivinhasse todos os seus pensamentos. Então sorriu de forma crítica.
— Então o lobo mau quer comer a chapéuzinho rosa, não é?
— Mas o que está dizendo? — perguntou escandalizado, olhava para os lados, esperando que ninguém tivesse ouvido.
— Reconheço esse sorriso bobão quando vejo. Vai disfarçar as evidências, Aluado?
— Eu nem a conheço!
— E a primeira impressão? Olha, não vou te julgar. Se não fosse a minha prima...
— Almofadinhas — o advertiu com os dentes cerrados.
Remus suspirou e mordeu a língua. Era evidente que quando Sirius agia desse jeito o melhor a fazer era ficar em silêncio antes que lhe desse mais ideias. Enquanto isso, para Sirius era mais do que evidente o que se passava pela mente do lobisomem: isso lhe alegrava em parte — confirmava que continuava sendo um ser humano com sentimentos como qualquer outro —, mas também o preocupava.
— O que fazem aí parados? Vamos! A reunião já começou! — disse a voz de Olho-Tonto de uma sala — Não abaixem a guarda, nem mesmo no quartel! Nunca se sabe o que pode acontecer.
"Nem me fale" pensou Remus.
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