Capítulo 7
Duas almas com um mesmo pensamento. Dois corações que batem como um só.
°°°
Já eram por volta das 6 da tarde e meu irmão estava andando de lado à outro da sala. Nesse passo ele vai acabar furando o chão.
-Júlio pela milésima vez, calma! Ela vai aparecer!-Digo pegando no ombro dele.
-E se ela desistir de vir? E se ela achar que estou feio? E se...
-Ah Júlio para de graça! Você está arrumadinho e se ela for cega, vai gostar de você.
-Gabi você não está me ajudando!-Júlio diz com uma cara de chateado.
-Ah perdoe bebê! Você vai arrasar! Só precisa ser você mesmo e...-Nessa hora a campainha tocou.-Será que já é ela?
-Sim!-Júlio correu até a porta mas ao abrir fechou a cara-Quem é você?
Deixei meu irmão resolver a questão de quem estava na porta e corri para a cozinha a fim de ver se meu escondidinho de batata estava pronto. E para a minha surpresa e alívio, ele estava pronto antes da visita chegar. Então, tirei a travessa do forno com a ajuda de um pano de prato e o coloquei bem no centro da mesa, tendo o cuidado de colocar umas folhas de hortelã para enfeitar o prato.
*Está uma gracinha.
Meu irmão apareceu na cozinha e se sentou na cadeira pensativo, sem ao menos olhar para o escondidinho que tanto adora.
-O que houve Júlio? Pela sua cara parece que alguém morreu.
-Não é nada!
*Nunca não é nada....
-Quem era na porta?-Digo sentando ao seu lado.-Por acaso era alguém dizendo que sua quase namorada não vem?
-Não boba! Só era um tal de Henry-Diz e fico confusa por não reconhecer a pessoa pelo nome-Ele disse que era nosso vizinho.
*Sinto meu coração acelerar só de finalmente conhecer pelo menos o nome do meu vizinho. Henry, um nome até bonito por sinal, será que ele é bonito pessoalmente? Ai meu Deus, o que está acontecendo comigo?
-E o que ele queria?-Tento não demostrar tanto interesse, mas estou muito curiosa para saber o que ele veio fazer aqui.
-Ele queria dar boas vindas! Disse que ficou feliz pelo convite do jantar na sexta e mesmo eu não sabendo que jantar era esse concordei com um sorriso falso.
-Verdade, vamos dar um jantar na sexta para nossos vizinhos. Esqueci de te avisar!-Digo sorrindo para meu irmão que faz uma careta.
-Você conhece esse cara? O vizinho no caso?
-Não! Por quê?-Digo um pouco nervosa.
-Não sei! Ele disse que queria te ver mas eu falei que você estava ocupada.
*Ele queria me ver? Ai meu Deus! Ele queria me ver!
-E o que ele disse depois disso?-Digo tentando esconder a curiosidade.
-Disse que poderia esperar para falar contigo, mas fechei a porta na cara dele. Que abusado!
-Júlio! Você não fez uma atrocidade dessas!-Digo ficando de pé.
-Quem disse desgraça?-Meu pai entra na cozinha e senta na cadeira-Hum...escondidinho-Ele ia colocar a mão mas Júlio não deixa.
-É para minha....
-Possível namorada!-Digo chateada-Júlio porque bateu a porta na cara do nosso vizinho?
-Você fez isso filho?-Meu pai encara o Júlio espantado.
-Claro! Ele nem conhece minha irmã e já queria ficar cheio de intimidades....onde já se viu!
-Que bom que fez isso filho! Está certíssimo.
-Pai!
-Marido!-Minha mãe entra na cozinha e o encara um pouco chateada-Não incentive uma atrocidade dessas.
-Até que enfim alguém me entende!-Digo agradecendo aos céus.
-Esse vizinho é bonito? Pode ser um candidato a namorado da Gabi-Minha mãe diz super empolgada e fecho a cara.
*Ninguém merece
Nesse momento a campainha toca e todos ficam se olhando. Júlio levanta ao mesmo tempo que meu pai e arruma a roupa tentando disfarçar os amarrotados.
-Vou abrir a porta!-Minha mãe diz saindo da cozinha e Júlio me olha meio receoso.
*Parecia que ele ia passar mal.
-Vai dar tudo certo!-Sussuro para ele e ele dá um breve sorriso.
-Seja bem vinda Susana!-Minha mãe caminha com a possível namorada de Júlio até a cozinha.
Susana parece daquelas mulheres decididas e com aquele estilo de modelo. Ela é até bem bonita para meu irmão: Seus cabelos parecem de índio: compridos, pretos e bem lisos na altura da cintura. Ela é morena e quase do mesmo tamanho que meu irmão que tem 1,70 de altura.
*Me sinto uma menina perto dela, ela é uma mulher perfeita.
-Oi!-Meu irmão olha para ela com um sorriso bobo.
-Oi-Ela retribui o sorriso-Você está arrumadinho! Nem parece o Júlio que conheço-Diz dando um leve tapa no ombro dele e ele fica todo sem graça.
-Ah.....obrigado! Nem me arrumei tanto assim-Ele me encara e eu faço um gesto para ele elogiar ela-E.....seu....quer dizer....sua....bom....você está linda!
-Obrigada-Ela sorri e fica um pouco corada.
-Bom, não vai apresentar sua amiga?-Meu pai diz colocando a mão no ombro dele.
-Sim! Gente essa é a Susana e Susana esse é o meu pai Felipe, Minha mãe Sônia e minha irmã Gabi.
*Primeira vez que ele não diz minha irmã chata....meu irmão está crescendo.
-Prazer gente!-Ela assena em nossa direção com um sorriso bem aberto.
-Bom, vamos comer? Vocês dois estão muito magros!-Minha mãe diz e todos rimos enquanto sentamos nas cadeiras.
O jantar foi bem agradável, Susana é um doce de pessoa. Durante o jantar ela ficou contando como que eles se conheceram e as vergonhas que meu irmão passou na faculdade. Meu pai ficou encantado por ela estar também fazendo administração e minha mãe às vezes ficou um pouco incomodada com a proximidade dos dois e pela primeira vez, até eu fiquei um pouco incomodada com isso também.
Após o jantar, fomos para a sala e a conversa prosseguiu, mas de certa forma eu não fiquei muito ligada no assunto e comecei a pensar sobre minha vida sem meu irmão. Parece estranho de dizer isso mas, por mais que eu ache meu irmão um mala, se ele casar e montar sua família, a vida aqui em casa será tão chata e eu ficarei sozinha. Esse sentimento pela primeira vez me deixou bem triste.
*Preciso sair daqui....respirar um pouco.
-Bom!-Digo me levantando do sofá e todos me encaram-A Ana me chamou para ir a praça aqui pertinho-Menti a parte da Ana-Vou ver o que ela quer e já volto!
-Tudo bem filha, só não demora!-Minha mãe diz com um sorriso no rosto.
-Ok, foi um prazer conhecer você Susana!-Digo pegando em sua mão.
-O prazer foi meu em conhecer você e a família do Júlio. Quem sabe não marcamos alguma coisa para fazermos, como irmos ao shopping, que tal?
-Ótimo!-Digo com um meio sorriso-Beijos e já volto!-Digo caminhando até a saída.
Fecho a porta e por um minuto respiro um pouco do ar gelado daqui de fora.
*Devia ter pego um casaco.
Como não posso voltar nesse instante, prefiro com frio mesmo ir até a praça. Ela fica à uns cinco minutos da minha casa, então caminho tranquilamente pelas ruas até o local. Ao chegar, me sento num dos banquinhos da praça e fico observando as crianças que estavam brincando na quadra ao lado. Algumas pessoas caminhavam tranquilamente pelo local e tinham alguns casais passando de mãos dadas, o que me deixou um pouco desconfortável.
*Por que estou tão incomodada com isso? Qual é! Sempre quis que Júlio saísse de casa e agora....quando ele finalmente arruma alguém legal eu me sinto como....como se fosse perder meu irmão para sempre.
-Oi!-Olho para o lado a fim de ver quem interrompeu meu pensamento e vejo o Harry com um sorvete na mão-Que surpresa te ver por aqui! Você não tinha que ir à um jantar?
-Sim! Bom....ele ainda está tendo....mas estava um pouco depressivo para mim e resolvi sair um pouco.-Digo enquanto ele senta do meu lado.-E o seu jantar?
-Ah, o meu foi cancelado. Não entendi muito o motivo mas....ele foi adiado para semana que vem.
-Show!-Digo olhando em seus olhos-Nossa, que bom que estamos aqui então.
-Sim-Abre um sorriso fofo para mim-Toma! Pega o meu sorvete!
-Não posso aceitar Harry!
-Pode pegar! Eu vou comprar outro-Diz estendendo o sorvete de chocolate e eu pego.-Já venho.
Rapidamente ele corre em direção a barraca de sorvetes. Ele estava lindo e estiloso, sua calça estava rasgada nos joelhos, sua blusa estava um pouco colada no corpo, me dando pela primeira vez, uma visão boa de seu físico e por cima, estava com uma jaqueta de couro e seus óculos estavam em seu rosto, dando um tcham no visual.
*Bem diferente da versão dele na escola, o que gostei bastante.
-Voltei!-Diz sentando ao meu lado com outro sorvete de chocolate-O que faz aqui sozinha? E sem casaco?
-Ah....só estava pensando!-Digo o encarando-E você?
-Bom, vim comprar sorvete!-Diz enquanto lambia um pouco do sorvete e fiquei encarando sua língua passeando pelo sorvete.
*O que está acontecendo comigo? Devo estar ficando louca.
-Bela lambida! Quer dizer....sorvete no frio?-Digo virando o rosto e lambendo meu sorvete tremendo um pouco pelo vento que estava um pouco gelado e evitando olhar nos olhos dele nesse momento.
-Sim, prefiro tomar sorvete quando o tempo está mais gelado. No calor não tem graça! O sorvete derrete mais rápido e me sujo todo-Diz rindo um pouco e tira seu casaco-Toma! Veste isso!
-Harry! Não precisa sério!-Digo agradecendo aos céus por esse ato, pois parecia que eu iria congelar.
-Claro que você não precisa-Diz com ironia-Seu queixo está batendo um no outro de tanto frio.
-Mas e você?
-Relaxa! Estou de boa!
*Fiquei bem desconfortável com isso mas prossegui.
-Então, você mora por aqui?
-Sim, aqui é um bom lugar para se viver....estive durante a tarde conhecendo os arredores da localidade e gostei bastante.-Diz com um sorriso no rosto-E você? Também mora por aqui?
-Também!
-Que coincidência!-Sorri para mim e logo após volta a comer seu sorvete.-Podemos voltar sempre juntos então da escola.
-É....-Digo terminando meu sorvete e jogo o guardanapo que estava envolta da casquinha no lixo e Harry faz o mesmo.
-Você está linda!-Ele diz pegando em minha mão-Fiquei muito feliz por te encontrar hoje.
-Por quê? Eu não sou tão especial assim!-Digo sorrindo de lado.
-Claro que é! Na verdade é a garota mais especial que conheço.-Conclui brincando com meus dedos e percebo que ele tem não só uma mas várias tatuagens.
-É......bom, me conta sobre as tatuagens!-Digo mudando de assunto e ele fica um pouco confuso.
-Gosto de tatuagens! Cada uma delas tem um significado para mim.
-Show!-Digo olhando para a âncora que estava em seu braço-Essa âncora significa o quê?
-Significa força. Já reparou que nos barcos e navios quando eles querem o parar jogam a âncora?-Assenti e ele prosseguiu um pouco animado-Então a âncora impede o navio de sair do local e ela é tão pequena....ninguém dá nada para ela mas ela é mais forte do que pensam. Passei por uma fase da minha vida em que ninguém dava nada em mim, diziam que eu ia fracassar e eu provei que sou mais forte do que pensam, como a âncora.
-Bem filosófico isso-Digo e ele sorri-Mas o que passou?
-Digamos que sofri bullying-Diz com um olhar distante-Passei por problemas na família por parte de mãe, minhas tias achavam que eu era um idiota e que não seria capaz nem de trocar uma lâmpada pois eu não enxergaria nada.
-Que horror! Como podem dizer uma coisas dessas de você que é tão talentoso?-Digo e ele fica um pouco corado.
-Enfim, teve um dia que teve um pequeno incêndio na casa de uma delas, se o fogo espalhasse pegaria nas casas de toda a vizinhança e faria um estrago danado. Elas ficaram bobas quando o idiota aqui foi lá e as ajudou.
-Sinto muito!-Digo apertando um pouco a sua mão.
-Não sinta, estou feliz, sério! Provei para elas que não sou cego. Foi bom passar por isso-Diz olhando para nossas mãos que estavam unidas.-É bom compartilhar essas histórias com alguém.-Diz levantando minha mão e beijando a palma.
*Senti meu corpo todo se arrepiar e ao olhar para ele, percebi que ele percebeu esse fato. Com isso fiquei bem envergonhada e me levantei num pulo.
-Bom, eu preciso ir!-Digo lhe entregando o casaco.
-Mas já?-Ele fica de pé-Deixa eu te acompanhar até sua residência.
-Não precisa! Eu vou....indo-Digo me aproximando dele e dando um leve beijo em sua bochecha e logo após saí correndo sem olhar para trás, pela segunda vez não percebendo a reação dele.
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