08. Ponte para o paraíso


         A última vez que se lembrava de ir ao distrito da luz vermelha foi quando se tornou dono de um.

Cai Xing nunca gostou da ideia de se tornar dono de um bordel, mas só notou seu talento natural inclinado aos negócios quando uma única casa noturna se tornou um grande conjunto abrangendo todo o continente. Era um lugar especial que nem mesmo a facção ortodoxa era capaz de ignorar.

Vendas de informações, ervas mágicas proibidas, produtos eróticos, escravos, tráfico de todos os tipos de drogas. Não importava se era para o mundo marcial ou mortal, nas casas noturnas, todo tipo de negociação era bem-vinda.

Sob o nome de franquia Casa do Imperador, Cai Xing conquistou, apesar do anonimato de sua liderança, a maior rede de informações de todo o continente sul foi criada. A receita anual era grande o suficiente para patrocínio total de pelo menos duas grandes seitas além do Culto.

Mas, o que via em Cheu era além daquilo do que planejou no início. Além da exagerada decoração luxuosa por toda a parte, com lanternas de papel coloridas, véus de seda cobrindo a rua e todas as construções pareciam ser feitas com madeiras especiais, exalando energia espiritual.

No entanto, quando pensou em "além", era o fato de ter inúmeras crianças rodeando os bordéis, descobertas e quase nuas, trajando somente uma seda fina e joias para enfeitar cabelos e corpo. Crianças sendo acompanhadas por adultos que tinham olhares maliciosos para elas.

O que ele havia criado se tornou uma escória tão nojenta quanto ele.

Para ele, havia sido há pouco mais de sete dias, todo aquele sofrimento, desgosto e tristeza. Para eles, haviam se passado centenas de anos. Riu amargurado, um riso frio para si, debochando de sua própria capacidade e de suas mãos podres.

Passou entre algumas farmácias, lojas de roupas e suprimentos, onde encontrou diversos problemas com atendentes ousando se jogarem para seu virgem corpo. Cai Xing não pensou muito e entrou diretamente num bordel. O letreiro na placa estava esculpido os caracteres: "Ponte para o paraíso".

Lá dentro, o cheiro e a fumaça dos incensos chegariam ao olfato antes que fosse capaz de pisar no estabelecimento, um odor afrodisíaco convidando os clientes a aventuras sexuais.

Havia um palco no meio do salão de entrada, onde uma mulher completamente nua tocava uma música relaxante enquanto outros a olhavam tocar, tocando os próprios corpos. A musicista estava visivelmente desconfortável, mas ninguém ligava para seu desconforto.

Cai Xing também não ligava. Essas mulheres eram mais fortes e poderosas do que pensavam, então não precisavam de salvá-las ou confortá-las. Por seus próprios meios, se dessem sorte, escapariam desse sofrimento.

Uma jovem dama se aproximou ao notar sua entrada e arrumou seu qipao, levantando os seios para cima e se aposturando. Seus olhos estavam brilhantes ao vê-lo com trajes tão requintados, que havia trocado alguns momentos antes, e uma máscara que cobria a parte superior do rosto. A recepcionista abriu um sorriso astuto.

— Estimado cliente, seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento.

Ele a olhou de cima para baixo e de baixo para cima, com um sorriso malicioso, retornou o olhar para seu rosto coberto pelo pó de arroz e as bochechas cobertas por um batom vermelho feito do mais puro e atraente mercúrio.

— Nunca o vi por aqui, é sua primeira vez?

Deu uma risadinha, fingindo estar envergonhado.

— Sim, madame. — Seu olhar suavizou e ela se aproximou, segurando-o pelas mãos.

— Tem alguma preferência para as garotas? — Perguntou, ao esfregar os seios fartos no braço, olhando-o com aquele olhar coquete e inocente que faria qualquer idiota se derreter.

— Claro! — seu sorriso malicioso aumentou — Se tiver um pau entre as pernas, seria maravilhoso.

A alegria no rosto da cortesã quebrou como uma vara de bambu podre e ela se afastou tão rápido que deixou Cai Xing surpreso. Se ele estivesse com uma doença contagiosa, isso não teria sido tão breve.

A cortesã olhou para ele com certo rancor e virou-se para trás.

— Taiyang! — o grito agudo entoou para dentro do salão e logo, um jovem desengonçado tropeçou para o lado da mulher. — Acompanhe o rapaz. — O desgosto era evidente em sua voz.

O pequeno cortesão, muito tímido, o guiou para o terceiro andar e através de um elevador. Cai Xing podia ver o quão trêmulo seu corpo estava, os ombros encolhidos e ele mal via seu rosto, mesmo sendo mais alto que ele. Havia um hematoma em seu braço, na parte posterior. Um perfume floral emanava de seu corpo, provavelmente também coberto por loções eróticas.

O quarto era luxuoso, mas Cai Xing não prestou atenção nos detalhes, mas ficou de olho na banheira no canto do quarto. Ele se jogou na poltrona e colocou os pés na mesa.

— Como você trabalha, rapaz? Está tremendo tanto que vou achar ser sua primeira vez... é virgem?

Cai Xing o observou. Seus cabelos pretos e franja cobriam seus olhos. Alguns cachos pendiam no ar, formando pequenas cascatas bonitas. Estava praticamente nu se não fosse a seda transparente escura em seu corpo.

O jovem cortesão encarou seu cliente. Um par de olhos verdes, tão vívidos quanto o mais belo campo de gramíneas, compunham o rosto com traços finos e demarcados, com a ponte do nariz alta e lábios sutis.

Sob os saudosos olhos de Cai Xing, Taiyang se sentiu acuado, como se o rapaz, quase tão delicado quanto um graveto e quase tão jovem como um filhote de porco, pudesse arrancar seu coração com apenas uma das mãos. Ele não buscava o prazer.

— Eu gostaria de dedicação. Faça seu trabalho bem e vou ajudá-lo com sua liberdade.

Era a reação que Cai Xing esperava. Taiyang ficou quieto, um tanto pensativo e, para lhe mostrar algum apreço e confiança, tirou a máscara do rosto.

— Sou Luo Hang... — ergueu o queixo para a lateral, mostrando-lhe um lugar à mesa — posso não ter a posição de um príncipe agora, mas ainda há muito para ser conquistado.

Curioso, o cortesão se aproximou para ouvir a oferta, sem saber que, a partir daquele momento, negociava com demônio em pessoa.

Uma dezena de garrafas de vinho de flores foi levada para o quarto de Cai Xing durante sua estadia. Perdeu a noção do quanto havia bebido e apenas teve consciência quando foi chutado para fora do prostíbulo por dois homens pela porta dos fundos.

Taiyang o agarrou pelo braço e o ajudou a se levantar do chão. Seu hanfu azul estava sujo, coberto pela poeira e o cheiro do álcool que emanava dele era tão forte que Taiyang precisou tapar o nariz.

— Jovem Príncipe, por favor, não faça isso. — Implorou, segurando um riso.

Cai Xing abraçava o prostituto pela cintura, era um lugar sensível e, pela forma que o vagabundo sem teto o segurava, fazia-o querer cair na gargalhada. E estava tão bêbado que sequer conseguia andar sozinho.

Taiyang encarou-o quando, de repente, Cai Xing ficou estático, estreitou os olhos e ficou numa postura pensativa.

— Não me chame assim... esse não é o meu nome... — abriu um sorriso travesso.

O mais velho revirou os olhos. Detestava esse tipo de homem bêbado e geralmente somente os deixava num canto na rua, deitado no próprio vômito e mijo, porém, esse rapaz lhe fez uma oferta tentadora. Provavelmente, a melhor desde que se conheceu na vida.

Ele sonhava com liberdade desde os seis anos. Esse Jovem Príncipe mostrava um caminho para encontrá-la e ele possuía capacidade e extirpe para tal. Ainda que seus títulos e poder tenham sido destruídos, seu corpo foi jogado aos porcos e imundos.

Ele era um imortal. Até mesmo um ignorante como ele sabia que um cultivador era incapaz de se recuperar de feridas tão grandes, quanto as que esse príncipe sofreu em tão pouco tempo.

"Luo Hang é alguém capaz."

Agarrar sua coxa dourada não era motivo para se envergonhar. Pelo contrário, seria um ato de misericórdia para si.

O bêbado em seus braços inclinou a cabeça e falou com seriedade:

— Meu nome é Maldito Corta Manga.

Taiyang: "..."

Ele realmente detestava esse tipo de bêbado. E diante de todo o caminho para a pousada onde esse infeliz estava hospedado, ele não parava de falar ou resmungar, ou reclamar do quão estúpidas as pessoas podem ser e se gabando de como foi fácil roubar um Pirralho Gu.

Quando entraram na pousada, atraíram olhares: um casal jovem, um deles rico e o outro muito bonito. Definitivamente, chamaria atenção e o restaurante, no final da hora do galo, era o horário mais auspicioso e cheio.

O cortesão apenas baixou a cabeça enquanto alguns olhares de nojo e outros de pura lascívia escorriam sobre eles, como a enxurrada na terra suja, arrastando a sujeira sobre ela. Estava envergonhado, pois muitos ali o conheciam do distrito.

— Jovem Príncipe, onde é seu quarto?

— Quarto? Não há quarto! Que quarto? — Riu desesperadamente.

Cai Xing se soltou de Taiyang, cambaleou para frente e tropeçou nos próprios pés, estava prestes a se integrar com a madeira, mas foi salvo de cair com o rosto no chão por alguém. Um muro perfeitamente duro.

— Ai! Por que tem um muro aqui, Taiyang? — Esfregou o nariz e deu um passo para trás.

O muro: "..."

— Yifu não podemos ir para Shibo Qi... Ai! Shizun, por que parou de repente?

Cai Xing reconheceu o dono daquela voz, imediatamente. Ele podia estar bêbado, mas era perfeitamente capaz de distinguir um elefante de um camelo.

Sua intuição era certeira.

O muro era alto, então precisou olhar para cima. Lá em cima, havia um céu claro, mas por que parecia tão frio? Cai Xing não pôde deixar de notar a marca de beleza abaixo do lábio, localizada no canto esquerdo. Estava perfeitamente alinhada num local estratégico, ao lado dos lábios que pareciam tão macios e...

Instintivamente, deu um passo para trás.

— Vamos, Yan'er.

Sem se despedir ou mencionar qualquer outra coisa, o homem de robe branco azulado e com uma máscara no rosto desapareceu de sua visão com um jovem correndo atrás dele.

Cai Xing fez beicinho e cruzou os braços. Ele abriu a boca, querendo dizer algo, mas logo desistiu. Então olhou para Taiyang, que estava num canto, escorado à parede. Parecia apavorado.

— E-Essa p-pessoa...

Cai Xing riu. Ele apontou para o prostituto segurando a barriga, seus olhos eram como duas meias-luas. Achava a expressão no rosto do outro, muito engraçada.

— É meu quarto, você quer entrar? — Perguntou ao limpar o canto dos olhos.

Mas não houve uma resposta. Taiyang continuou a olhar para o ar, perplexo. Isso o tornava um pouco tedioso.

— Se não quiser entrar... — sorriu sugestivo — a noite pode ser fria! — Balançou a cabeça algumas vezes, com uma expressão séria.

Taiyang piscou algumas vezes, tentando entender o que Cai Xing lhe dizia. Ele apertou os lábios e olhou-o com medo. Abriu a boca algumas vezes e fechou as mãos em punho.

— Não entendo. — Murmurou, sua voz mais baixa.

Cai Xing deu de ombros, ainda se divertindo com a situação. Ele guinou para frente, lentamente na direção de Taiyang.

— O que há para entender, querido? — Respondeu num tom tão doce e melódico, que causou arrepios no cortesão e, por isso, não percebeu a provocação maliciosa.

O maldito parou a poucos centímetros do rosto de Taiyang e inclinou-se para mais perto e soprou algumas palavras:

— Você e eu podemos brincar a noite toda...

Taiyang tremeu ligeiramente. Era a primeira vez em todo o tempo com ele que mencionava atividades sexuais. Não era incomum esse tipo de abordagem e não havia surpresa no pedido desse do cliente, mas poderia passar mil anos e ele nunca se acostumar.

Sempre era doloroso e humilhante. Eles o machucavam e ele sangrava, mas nunca paravam até estarem satisfeitos. Ele pedia para parar, mas nenhum deles escutava e antes que suas feridas sararem, tudo acontecia novamente.

— E-eu... — Taiyang tentou responder, mas sua voz falhou.

Cai Xing sorriu novamente, mas dessa vez revelando-se brincalhão. Ele deu um passo para trás, como se tivesse desistido de tentar e parou de sorrir.

— As prostitutas naquela época ao menos sabiam flertar... você não é engraçado Taiyang. — Deu um tapa de leve em seu ombro.

Taiyang olhou para ele confuso. Num instante, ele parecia bêbado e no outro mais sóbrio que ele. Ele aproximou o corpo, foi até a porta do quarto e colocou a mão sobre o cristal mágico para abri-la.

— Entre, a única coisa que quero é dormir. Faz tantos anos que não durmo tão bem, preciso aproveitar o máximo.

— Você...

— Ah, sim. Estava sóbrio o tempo todo, foi divertido. E... foi ótimo não ter tentado me roubar... agora, entre!

Cai Xing arqueou as sobrancelhas, enfatizando seu desejo.

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Havia noites que eram mais fervorosas que outras. Enquanto pequenas tavernas e latrinas enchiam-se de pessoas em seus refeitórios, nos grandes bordéis eram os quartos que enchiam e, nos restaurantes, somente os mais ricos entravam.

Outrora, nos lugares mais sombrios, mendigos e assassinos arrastavam-se para as sombras, nos lugares mais sombrios para buscar ou comida, ou por informações.

As sobras dos restaurantes eram disputadas com os cães e gatos, assim como as informações eram compradas a todo instante desses pedintes e, os assassinos só faziam seu trabalho.

Não era diferente ali naquela pousada, mas por fora, parecia tudo muito quieto enquanto por dentro o refeitório daquela bodega estava lotado. À noite, o refeitório se tornava um local de bêbados e famintos, com mulheres andando entre as mesas servindo-os de maneira servil enquanto os olhares sujos e atitudes pervertidas eram cometidas. A conversa era alta o suficiente para perturbar um surdo.

Cai Xing estava descendo as escadas, havia dormido até o período da tarde e no restante do tempo, preferiu passar contemplando a ressaca enquanto o sol se punha.

Taiyang não estava lá quando acordou nem havia deixado um bilhete, mas ficaram até tarde conversando e negociando sobre os trabalhos que esse rapaz faria para ele.

A cada passo, a alma cansada naquele corpo, via o mundo girar e os gritos e risadas pareciam tão altos que fariam seus ouvidos explodirem.

"Maldita hora que You Xiaolin me chamou!"

E lá estava ele, sentado próximo a uma das janelas do estabelecimento, no andar térreo e pendurado ao peitoral, sorrindo como um idiota.

— Gege, tem certeza que conhece o dage bonitão?

— Se Xiaolin disse que conhece, Xiaolin conhece! — levantou a mão com a palma aberta — Não duvide desse grande irmão!

O garotinho baixou a cabeça, meio entristecido.

— Desculpa, gege...

— Lian Lian...

— Pequena raposa, por acaso há um fantasma desse lado? — Cai Xing brincou.

Assim que terminou de falar, a taverna ficou estranhamente silenciosa. Alguns deles pegaram em suas armas levantando a guarda.

— Não! Não! Não! São meus irmãos! — You XiaoLin sacudiu as mãos no ar nervosamente e a tensão do ambiente foi dispersada.

— Irmãos? — Cai Xing esticou o pescoço para fora e encontrou as duas crianças que salvou durante o dia.

Eram gêmeos, sendo uma menina e um menino e a semelhança entre eles só podia ser diferenciada devido sua voz, logo que eles eram extremamente parecidos. Cai Xing só notou a semelhança naquele momento. O mais impressionante, certamente, foi a forma em que eles piscavam. Nunca passou por sua visão o quão fofo era essa ação natural e também as mãos gordinhas deles.

— Se eles são realmente seus irmãos, deveria lhe dar conselhos a não ficar correndo aleatoriamente. Se não fosse por mim, nesse mesmo dia, no próximo ano, faria um ano de suas mortes.

You XiaoLin engoliu a seco com um sorriso desconcertado.

— Xiao shidi...

Sua voz trêmula ressoou pelos ouvidos de Cai Xing, que pôs um sorriso no rosto. Se este último não fosse um pouco distraído, poderia ter descoberto que, assim que abriu um sorriso, causou arrepios em XiaoLin.

— Primeiro, eu gostaria de agradecer-lhe por hoje. Se não tivesse interrompido, meus irmãos... poderiam ter realmente sido mortos.

O garoto levou a manga do robe ao rosto, secando as lágrimas. Ele quase perdeu a compostura quando soube que seus irmãos tinham se envolvido com aqueles jovens mestres.

— Se há qualquer coisa que deseje, eu, You XiaoLin, o farei para recompensá-lo. — A voz saiu meio abafada — Não importa o quê, eu o farei!

— Nem sabe meu nome e faz promessas! — Cai Xing falou casualmente, quase em tom de repreensão — As leis dos céus são tirânicas e plenas e juramentos são absolutos. Não faça promessas aleatoriamente! — alertou.

Um rapaz se aproximou da mesa e Cai Xing pediu comida para quatro pessoas. You XiaoLin não teve tempo para recusar.

— Sou Luo Hang.

Era estranho se apresentar com tal nome, causava-lhe arrepios.

— Luo... da família Luo da capital?

Cai Xing acenou positivamente. You XiaoLin, surpreso, quase gritou em exaltação, mas ao perceber a rudeza, diminuiu sua modulação de voz.

— Você é aquele que foi expulso da família? Como você tem força interna, então?

Cai Xing estreitou os olhos. Como esse garoto podia mudar seu humor tão de repente? Que tipo de esquisito era esse? Bem, ele havia esquecido que também era assim.

— Assim como existem flores sangrentas, há segredos obscuros. — Cai Xing disse com um sorriso estranho no rosto.

Ele mesmo não sabia como aconteceu, como seria capaz de explicar a alguém? E mesmo que soubesse, como ver alguém que perdeu seu dântian e o recuperou tão rapidamente com bons olhos? Cai Xing desejava viver em paz, então não precisava explicar claramente esse tipo de situação.

De repente, ele se levantou e inclinou o tronco pela janela. Ao ver as duas crianças fofas, disse:

— Porra! Entre se quiserem comer alguma coisa.

— Crianças não podem entrar aqui. O proprietário não permite.

O rapaz que trazia o jantar o interrompeu, antes que quebrasse a única regra dessa taverna.

Seu nome é Si Long e completava dois anos de serviço para o proprietário. Quando ele entrou, seu chefe enfatizou que detestava crianças e não as queria em seu estabelecimento.

No entanto, um dia, um dos seus colegas de trabalho deixou acidentalmente uma criança entrar. No dia seguinte, esse homem foi achado morto no dia seguinte com suas vísceras e massa cerebral espalhadas no chão na porta do estabelecimento. As crianças também foram mortas, porém, de forma limpa.

— Soube do acontecido. É uma verdadeira lástima! Aquelas duas crianças eram amigos dos meus irmãos. — You XiaoLin comentou com um semblante triste. Num movimento suave, sua mão direita foi à nuca. — O homem era nosso pai. Por gentileza, espero que não insista, sênior Luo...

— Eu sinto muito! — Si Long expressou seus sinceros sentimentos.

Naquela época, Si Long só não saiu do emprego porque precisava muito de dinheiro. Ele detestava o patrão. E continuava até hoje porque também precisava de dinheiro. Ele recebia muito bem!

— Não há problema! — Si Long continuou. — Por favor, permita-me pagar por essa refeição. Adicionarei um vinho para os senhores e levarei para as crianças.

Cai Xing sorriu. Mais gentilezas, mais dinheiro sobrando. Burrice seria não aceitar uma refeição gratuita.

Devia economizar o máximo que pudesse até a competição da Seita Xue Hua. Só a inscrição já descobrira que seria caro e, assim que pudesse, devia procurar alguns elixires e pílulas medicinais. Portanto, ele não poderia ficar sem um tostão. Estar numa seita não significava ganhar dinheiro, era justamente o contrário.

— Então, o incomodaremos por isso. — Cai Xing respondeu com um olhar inocente.

Si Long saiu rapidamente, tinha uma sensação estranha ao olhar para aquele cliente com um olhar de raposa.

— Luo Shidi não é como nos rumores... apenas na parte de que é um corta-manga. — You XiaoLin analisou, colocando a mão no queixo.

— Oh... — Cai Xing ficou curioso. Apesar de ocupar o corpo, as confusões causadas pela reencarnação estavam em seu auge ainda.

— Sobre esses rumores, como são?

— Aya! Sênior Luo, é muito famoso! Impossível não saber! — XiaoLin ficou surpreso.

— Alguns dias atrás, tropecei numa pedra no rio e bati minha cabeça... Este humilde está muito confuso. — Ele coçou a cabeça, atuando. — Antes disso, morava num lugar tão remoto que nem fantasmas iriam!

Cai Xing tirou da manga um pequeno frasco com álcool e bebeu um gole para escutar que tipo de pessoa era seu benfeitor.

— Certo, certo. Uma pena! Começo por onde? — Sua expressão mudou, a fofoca pareceu animá-lo mais ainda. — Portanto, o primeiro rumor duvidoso é a saída de Dage da Seita Yang Wu.

O rapaz suspirou.

— Diga-me se for mentira, não gosto de meias-verdades ou calúnias inteiras! — falou seriamente. — Esse, em particular, ouvi de cultivadores de sua antiga seita. Eram um garoto gordo e um garoto narigudo e seus modos eram péssimos e sua fala, detesto lembrar. Não desejo que minhas orelhas sangrem com vulgaridades! No entanto, disseram que Luo shidi não foi expulso da Seita Yangwu por seduzir os dois jovens mestres da seita com afrodisíacos e sim rechaçado da seita. E que o motivo foi a princesa real... — XiaoLin ficou embaraçado com o que ele ia dizer e queria se esconder. — Engravidou a princesa morta?

O álcool espirrou de sua boca como se fosse uma cachoeira. Diante de todas as possibilidades, já havia cogitado sobre isso. Na floresta, aquelas ilusões do fantasma eram realistas demais.

Estava relutante em admitir isso. Esse Luo Hang era esse tipo de pessoa... ele, então... era pai?

"Porra, eu sou pai!"

"Isso é fodidamente insano! Quem é pai aos quinze anos? Nem os mortais se apressam tanto!"

Mas, que caralhos essa criança se meteu? Ele não estava preparado mentalmente para tal coisa! Sentiu arrepios.

Os céus não podiam ser mais misericordiosos com ele, alguém que não apreciava a companhia infantil. Sempre as achou piores que alguns pequenos demônios de sua seita.

O pânico subiu ao seu rosto e Cai Xing se viu em quase indefeso. Não seria responsável por uma criança desconhecida. Nem que a tribulação celestial o acertasse naquele momento! Tentou respirar, mas sentiu dificuldade, seu coração palpitou e dentro de si, um sentimento de tristeza cresceu.

Ele baixou a cabeça e passou a fitar o chão fixamente.

"A-Hang matou nosso filho..."

"A-Hang matou nosso filho..."

"A-Hang matou nosso filho..."

A voz de Li Yue alcançou seus ouvidos, um sussurro singelo e distorcido, carregando toda a dor do mundo. Sua cabeça doeu, numa pontada afiada. Sentiu como se uma espada atravessasse seu peito. Estava acima da Montanha dos Nove Céus.

"O que você veio fazer aqui?"

Yu Mei. Sua roupa manchada de sangue, o rosto coberto de lágrimas, mas havia um sorriso estampado em seu rosto. Ele estava em seus braços.

"Obrigado..."

Havia se ajoelhado. A segurava em seus braços. Li Yue estava deslumbrante aquela noite. Ela sorria, como se os céus se ajoelhassem sob seus pés. Os cabelos brancos esvoaçavam enquanto ela rodopiava em sua frente e ele parou, a observando.

Da sua boca: "Está magnífica..."

Li Yue correu pela ponte e virou-se para trás, com as mãos para trás. Sangue escorreu de seus olhos, o pescoço partiu-se para o lado. O mundo estava vermelho.

Que a morte o alcançasse.

Uma risada entoou. Olhou para trás, mas não havia ninguém.

A palpitação em seu peito o fez segurar o robe, agarrar o peito com força, as mãos estavam sujas pelo sangue. Então, percebeu que a risada vinha de sua própria garganta, desesperada.

— Luo... Hang?

Ao escutar o chamado, olhou para cima.

— Está tudo bem? — You Xiaolin perguntou preocupado.

Assim que Cai Xing viu a expressão de You XiaoLin, fechou os olhos por um instante e se acalmou. Abriu um sorriso, mais falso que era capaz de expressar.

— As pessoas fingem ser tolas, mas são tão traiçoeiras quanto raposas! O Dao Celestial há de julgá-las severamente! — tomou um gole de vinho para terminar a conversa — Sempre fui uma pessoa justa! Aqueles malditos espalham fofocas como se fossem verdades! Eles não têm medo da ira dos céus?

Suas palavras foram sem hesitação, falou eloquentemente cada uma delas, repleta de confiança. Mas a sudorese que tinha, a tremedeira em todo seu corpo e a tentativa a todo custo manter sua respiração denunciariam seu estado se ele não fosse um digno mestre em fingir. Em fingir estar bem.

— Diga-me, Jovem Mestre You, como um promíscuo corta-manga desde meus primeiros anos de vida, poderia engravidar uma mulher? Não posso virar um da noite para o dia. É algo que carrego desde a gravidez de minha mãe.

— Então, xiao shidi realmente comprou afrodisíaco e seduziu dois homens da seita e foi expulso?

Ele riu. Cai Xing não sabia o que era pior: ser um príncipe dândi frequentador de prostíbulos femininos ou ser acusado de seduzir alguém. Em toda sua vida, ele só dormiu com dois homens!

Sua pergunta chamou a atenção das pessoas dentro da pousada. Muitos olhares de desprezo foram direcionados à mesa deles. Mas, Si Long que chegava com jantar, quebrou a curta tensão que se exerceu no refeitório.

— Jovem Mestre, companheiro You, o jantar de vocês. Apreciem a comida, por favor. Caso precisarem de mais alguma coisa, sintam-se à vontade para chamar esse humilde. — Ele se curvou antes de receber uma resposta e saiu apressado.

Cai Xing também não se importou, porque antes de Si Long virar as costas, sua boca estava cheia dos dois lados, provocando uma grande bola em seu rosto. Ele parecia bastante fofo assim, era o que diriam, mas You XiaoLin apenas o achou parecido com seus irmãos mais novos. E, pensando nisso, espiou os pequeninos do lado de fora. Eles pareciam muito felizes com aquela refeição. O brilho em seus olhos era uma satisfação enorme para ele, e não pôde deixar de sorrir timidamente.

— Podemos ser amigos?

Surpreso com a pergunta, You Xiaolin voltou seu olhar para o mais jovem.

Ele não esperava por um dia alguém ter interesse em criar laços de amizade com ele. Sentia-se indigno disso.

— Sei que não mereço isso, mas...

— Não termine essa frase. — Cai Xing o interrompeu.

You Xiaolin não conseguiu ver sua expressão, pois o outro estava com a cabeça baixa.

Francamente, nunca esperou nada de qualquer pessoa. Desde que estava com seu coração despedaçado, desejava se proteger e manter uma distância. Não tinha amigos no passado, alguém com quem pudesse conversar nem que fosse sobre a cor da terra. Sinceramente, ele gostou da companhia desse infeliz.

You Xiaolin, contudo, não sabia desse fato. Ele pensou que essa pessoa reconhecida pelos céus e tão famosa quanto um Grão-Mestre se rebaixaria a tanto. Ele só estava ajudando. Só ofereceu uma ajuda. Seria uma desonra para esse jovem mestre!

— Xiao Ge...

Interrompendo a baixa voz de Cai Xing, a porta da pousada foi aberta com um chute. Ela foi arrancada e voou alguns metros e foi em direção às costas de um homem, que conversava com um rapaz jovem e animado.

Alguém gritou tentando alertá-lo, mas o objeto estraçalhou ao encontrar o corpo daquele homem. Nem um arranhão foi feito, nem mesmo uma fina camada de suas roupas foram rasgadas, mas a sopa que ele tomava derramou em seu colo. O rapaz que o acompanhava ficou assustado com essa ação repentina.

— M-Mestre... se machucou? — ele gaguejava e, em uma atitude repentina e nervosa, ele se levantou e tentou limpar e secar o caldo das roupas brancas de seu mestre.

— Está tudo bem...

A veia da testa dele subiu, mas logo se acalmou e se virou para as pessoas que entraram na taverna, mantendo uma atitude calma. Ele usava uma máscara que cobria metade de seu rosto, deixando os lábios delicados e rosados à mostra. Ao olhar tal beleza, eles pareciam macios. Cai Xing encarou os traços finos e notou uma pinta abaixo do lábio inferior. Ele engoliu a seco.

Como havia deixado tal beleza escapar de seus olhos? Mas, havia algo familiar nele. O homem da pinta sexy sorriu com escárnio ao ver as figuras bem vestidas e disse:

— Esses jovens mestres não tiveram intenção, certo?

Junto à sua pergunta, ele liberou uma lasca de seu poder, quase esmagando as pessoas ali.

— Um cultivador da alma nascente!?

Assim que alguém gritou, aquele cultivador poderoso recolheu sua força. E todos ficaram aliviados por sua atitude misericordiosa, era uma pressão esmagadora. Se esse homem ficasse furioso, poderia levar metade da cidade às cinzas.

Cai Xing, como espectador, sentiu sua alma desprender do corpo. Ele era um sortudo. Encontrar um cultivador da alma nascente era raro e, mais raro ainda, querer fugir de um e sobreviver.

A taverna, por algum tempo, entrou num silêncio arrebatador. Foi só depois do homem retornar ao que sobrou de sua refeição que a atmosfera retornou à tranquilidade.

Apesar do medo em seus corações, a conversa fluía naturalmente em meio a exclamações e admiração. Para uma pessoa comum, chegar no pico da condensação de qi já era uma conquista extraordinária e eles já eram poderosos, não podiam imaginar o quão poderosa essa pessoa era.

— Perdoe a ousadia desse jovem mestre. — O rapaz que havia quebrado a porta se curvou para cumprimentar o cultivador da pinta sexy. — Gostaria de me desculpar, se precisar de qualquer coisa, vá até a mansão da cidade e o satisfaremos.

Embora estivesse suando frio, seus olhos pararam nos lábios daquele homem por alguns segundos antes de sair do seu torpor.

— Tenho alguns assuntos a resolver com dois lixos inúteis, peço perdão por incomodá-lo, Grande Mestre.

O rapaz encarou Cai Xing e You XiaoLin.

Por outro lado, desde que aquela gangue adentrou na pousada, Cai Xing só tirou os olhos e a boca de seu jantar para olhar àquela beldade e voltou para seu prato. Estava aproveitando ao máximo essa vida luxuosa de paz que nunca teve em sua vida anterior, não precisava se importunar com esses porcos fedidos.

— Luo Hang! You XiaoLin! Venham até aqui fora se forem humanos!

Porra! Era difícil comer em paz!

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