04. O homem vestido de branco (I)
O sol brilhava em seu auge e era tão brilhante que poderia cegar uma pessoa, quando numa casinha no interior um jovem cultivador abriu os olhos e sentiu uma dor na cabeça horrível. A luz do sol atravessou o enorme buraco no teto de sua casa e acertou seu dono sem pudor.
Cai Xing, praguejou diversos nomes estranhos e xingamentos possíveis. Ele queria dormir, porra! Há quanto tempo não dormia tão bem!
A visão ainda desfocada e uma tontura inexplicável tomaram seu corpo, tornando-o ainda mais fraco. Ele encarou o sol pelo buraco do telhado. Pela posição da estrela, constatou que era a hora da cabra.
"Ah! Isso era ótimo! Perder tempo na 'cama' foi uma boa sensação."
Cai Xing sentiu-se relaxado, como se estivesse flutuando num campo de ervas macias, daquelas que fabricavam as camas, nunca soube o nome delas. Mas, eles as chamavam popularmente de ervas do sonho. Ele as viu uma única vez e se encantou pela textura delas.
Mas, em seus sonhos, elas eram pintadas em vermelho. Havia um campo inteiro delas em Jiu Tian Shan e todas foram arruinadas por ele. Alguns discípulos ainda colhiam aquela erva do sonho enquanto iam sendo decapitados um a um. Silenciosamente. O sangue espirrava nas ervas e elas absorviam o líquido vermelho e quando encharcadas, choravam sem regalias.
Naquela época, Cai Xing pegou uma delas e guardou no bolso. Depois disso, ele seguiu até o Salão Ancestral da seita e nunca mais retornou. Ela permaneceu no bolso mesmo depois de sua morte, enquanto o cadáver apodrecia.
Ele sacudiu a cabeça, desvencilhando dessas memórias. Certamente, não tinha orgulho delas, no entanto, nunca se arrependeu de ter feito nenhuma de suas atrocidades. Se pudesse voltar no tempo, faria exatamente o mesmo. Ele nunca foi um santo, fez o que prometeu a si mesmo e manteve suas palavras e seus objetivos em mente.
O mundo justo, como assim o chamavam, foi destruído pelos seus crimes e ele nunca iria voltar atrás ou se arrepender. Inocentes perderam a vida no meio dos criminosos, mas se era necessário fazer algo, que não deixasse um caminho para retaliação. Tudo precisava ser varrido, assim como um dia fizeram.
E ainda que o arrependimento lhe ocorresse, já era tarde demais. Tudo isso ficou no passado, trezentos anos no passado. E tudo isso custou-lhe a vida, seu corpo e seu nome deixou de existir.
Cai Xing levantou relutante. Queria poder ficar mais tempo deitado sobre aquelas ervas do sonho espalhadas no chão. Então, também se lembrou que não era mais quem era servido. Se precisasse do mínimo, ele o teria que fazer. Ele voltava à época em que não fora recrutado pelo Pavilhão de Sangue.
— Cultivador Luo! — uma voz masculina e idosa o chamou pelo lado de fora do casebre.
"Maldição! É difícil até ter paz nesse mundo?"
Cai Xing colocou a cabeça para fora do buraco usado como janela.
— Vejo que ainda não consertou a casa. — o homem, na verdade, se tratava do velho vendedor de ervas medicinais. — Se chover, irá desabar! — apontou para cima, onde o telhado tinha a abertura.
Ele analisou a casa e pensou um pouco. Aquele velho estava certo, quer dizer, se minimamente ventasse um bocado a mais talvez ela sairia voando e acertasse um idiota sem sorte, mas não iria tomar um trabalho inútil, logo que sua estadia também seria pas-sageira.
— Trivialidades. — Cai Xing refutou. — O buraco no teto, por exemplo, posso ver as estrelas à noite. Se não é um privilégio, serei um cachorro.
O velho homem riu. Ele não conseguia entender esse garoto.
Antes do retorno a caça ao fantasma, ele quase não falava e sempre mantinha uma expressão fechada, agora até fazia piadas. A experiência de quase morte o fez melhorar? Ele coçou a cabeça confuso.
— Garoto, vim saber como você está! Soube que o fantasma da floresta é muito poderoso! Disseram que o cultivador foi quase morto!
— Por que quer saber? — Cai Xing respondeu de forma rude.
Para aqueles que viveram rodeados pela desconfiança e pela desgraça, uma simples pergunta era uma grande questão. Era esse tipo de pergunta que o levava a uma luta, uma tentativa de assasinato ou alguém tentando forçá-lo para baixo.
— Você não ganhará nada com tal informação.
O velho homem deu um passo para trás assustado. O humor de uma pessoa poderia mudar tão rápido? Ademais, poderia fazer uma carranca tão feia e amedrontadora como foi feita por ele?
Como alguém que é velho e com vasto conhecimento do mundo idoso achou que Cai Xing parecia um assassino experiente.
— P-Perdoe-me! — as palavras saíram tropeçantes e automáticas. Ele abaixou a cabeça de imediato, não conseguia olhar aquela expressão!
"Pessoas poderosas não gostavam de ser observadas pelas pessoas comuns.", era o que ele pensava.
Cai Xing percebeu sua atitude e sacudiu a cabeça negativamente. Ele murmurou alguns insultos a si mesmo e colocou a cabeça para dentro da 'casa', deixando o velho lá fora. Ele não tinha nada a ver com essa pessoa. Ele não iria pedir desculpas nojentas a ele!
Se havia algo que o fazia arrepiar e tremer de raiva era alguém tentando pedir perdão a ele. De que adianta alguém pedir perdão depois de seus atos já feitos? Não irá mudar nada! Era só não o fazer! E Cai Xing perdia o controle em todas as oportunidades.
Controlando seu péssimo humor, em tom suave, mas aterrorizante ele gritou para o velho:
— Desapareça da minha frente, lixo inútil!
"É um sortudo por eu não separar a cabeça de seu corpo."
O velho viu suas pernas amolecerem e caiu de joelhos no chão e com o coração batendo enlouquecido. A voz de Cai Xing tinha ressoado com energia espiritual. Para um mortal comum e idoso, uma pequena pressão já era suficiente para agredí-los.
Ainda agonizando no chão de dor e medo e após um longo tempo não havia saído. Notando isso, Cai Xing passou pelo pano usado como porta e acenou com a cabeça para ele, se curvando e retornou para dentro da casa recuando seu poder.
"Ah, merda! O que eu acabei de fazer?"
Ele riu de sua própria atitude.
"Quase acabei de matar um velho aleatório!"
A risada desesperada não cessou até o momento em que o ferimento incomodou. Cai Xing agarrou os cabelos com força, os puxando. Ele tombou para um canto e continuou a rir e encostou a cabeça na parede. Uma gota de sangue desceu e pingou no chão amadeirado, aos poucos, tomando a forma de um coração. A risada se propagou mais feroz.
"Eu me feri... de novo."
Ele olhou para o lado e notou que restavam algumas ervas medicinais, e decidiu colocá-las para ferver. Um chá medicinal seria melhor que a postura quase imprudente em derramar a água fervendo no corpo.
Cai Xing achou que sua garganta ia cozinhar com a temperatura da água. Se quisesse continuar a viver, ter seu corpo sendo ferido constantemente acabaria com ele. Claro, isso não importava se fosse alguém poderoso, mas não era o caso.
— Preciso de mais álcool!
Não era noite, porém Cai Xing sequer se importava com esse mínimo detalhe. É claro, por razões desconhecidas, beber a noite de fato se tornou mais propício e agradável. De alguma forma, nunca se ligou aos costumes, a questão voltava-se ao querer. Ele queria beber, ele iria beber, não haveria alguém capaz de o impedir. Os resultados... bem, que viessem.
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À noite, quando as estrelas irradiavam a luz fria, a temperatura caiu bruscamente no final da hora do rato.
Depois de ser jogado para fora da taverna, um cultivador perdeu o senso de direção e trocou sua 'casa confortável' pela sangrenta e assombrada vegetação selvagem. Geralmente, dava-se nomes a lugares como este, mas tinham tanto medo que não conseguiam nomeá-la.
Passaram-se tantos anos, mas nenhum cultivador tinha poder suficiente para suprimir a malícia. Embora o único a atingir poder suficiente, ele tinha mais para resolver, além do que, não havia rumores sobre essa floresta estranha. Ser poderoso dava-lhe mais trabalho em suprimir cultivadores demoníacos que surgiam por todo lugar. Era um trabalho árduo!
Talvez devessem nomear essa floresta antes, assim os rumores atrairiam especialistas. Floresta sangrenta? Floresta da devastação?
Para Cai Xing, talvez fosse algum tipo de carma. Os céus haviam mesmo lhe amaldiçoado?Ele apenas almejava se afastar ao máximo de problemas, mas quando recobrou a consciência, já estava fundo na mata.
Várias sombras brancas divagavam em um lento cortejo. Pareciam indicar para onde ele deveria seguir. Patético. Ridículo. Pateticamente ridículo. A coisa na floresta estava atrás dele? Ou melhor, atrás de Luo Hang? Cai Xing decidiu segui-las. Especialmente ridículo!
Seu corpo maldito não o obedecia!
A bebida não lhe fazia bem, pois se tivesse sóbrio, correria daquelas sombras!
A sensação de estar sendo observado pelo caminho era terrivelmente nostálgico e vagava por cada pedaço do corpo. Provavelmente, iria morrer ali. e sobreviver seria por mera sorte.
Felizmente, para ele, o medo da morte havia desaparecido assim que seu amado, Yu Mei, acertou-lhe aquele golpe. De todo modo, nada surpreendentemente devido às posições que se encontravam. E, mesmo negando o contrário, Cai Xing queria que fosse daquela maneira, um desejo íntimo e tímido em prol do fim de seu afável sofrimento. Já tinha vivido o suficiente, acalmar sua desgraçada vida era melhor.
Aquela música macabra e lenta iniciou suas notas. Era o som de uma guzheng e a melodia era perfeita com notas afinadas. Presumia-se que o fantasma devia ser de um cultivador bastante habilidoso quando vivo. E fosse por Luo Hang ou ele mesmo, a melodia parecia-lhe familiar, mas não sabia dizer sobre essa familiaridade.
A mata ficava mais densa. As árvores quase se encontravam em algumas interseções. A baixa temperatura também o prejudicava devido a seu baixo — quase inexistente cultivo. Se uma batalha fosse iniciada, morreria logo.
Uma lâmina espiritual veio em sua direção. Por pouco, ele desviou e bateu de costas numa árvore. A lâmina cortou outra árvore com quase um milênio de vida. Um desperdício, ele pensou. Outra lâmina espiritual sombreou a inicial. Ela girou no ar e veio em direção à Cai Xing, quase atravessando o estômago.
"Ainda bem que meus sentidos permaneceram."
Cai Xing usou seu patético poder espiritual e o concentrou nos olhos, pois sua visão gradualmente ficava escassa. Apostou em confiar nos seus sentidos e na capacidade desse novo corpo. Aparentemente, ao menos isso ele recuperou alguma coisa nos seis meses hospedado na vila.
Com um cultivo no auge da condensação de qi não seria tão inútil, certo? (Não! Não nessa situação em específico!)
Ele saltou para cima e desviou-se para a esquerda quando uma grande lâmina espiritual e mais poderosa passou a menos de um decímetro dele. Ela estraçalhou sete árvores milenares. As costas que estavam contra o tronco, estavam molhadas de suor. Ele sorriu secamente.
"Posso contar um pouco com a sorte..."
Cada uma delas vinha de direções diferentes, portanto, o fantasma estava em movimento. Audacioso e perspicaz! Não pode deixar de admirar e quase o elogiou em voz alta.
Procurou na manga do roupão externo se havia algo que pudesse ser usado como arma. Havia várias coisas inúteis como pedras comuns, mato aleatório e até uma lista de compras roubada de um outro cultivador. As sobrancelhas caíram junto com os ombros: quem roubaria uma lista de compras?
Encontrou algumas pílulas de baixo nível, três facas de arremesso, algumas agulhas e uma espada quebrada e desgastada. Sua sorte havia acabado, pelos céus! Apesar de fracas, as peças não o deixariam perder sem resistir.
Um barulho estranho por perto o assustou. As folhas dos arbustos balançaram depois de algo indistinto voar entre eles. Desde sua entrada na floresta, não avistou nenhuma fera, provavelmente - e com sorte, elas seriam escassas nessa altura da floresta.
"Mestre demoníaco. Não é um fantasma."
Cai Xing deu um passo para trás por instinto. Mantinha uma expressão pensativa, sem perder a calma. A voz ainda lhe parecia mais familiar, com um tom até nostálgico, porém não conseguia identificá-la.
— Imortal da Estrela Caída.
Quase seu coração parou.
Aquele era seu título como imortal, na época de sua Ascensão. Como esse fantasma aleatório sabia de sua existência? Talvez ele...
Um movimento por trás dele o fez virar. Como um fantasma seria capaz de transitar uma alma pelos três reinos!? Outro vulto passou em sua frente e com ele, uma dor excruciante veio como se tivessem espetando ferro quente em sua cabeça desorganizando seus pensamentos.
"Precisamos trazê-lo de volta mestre!"
"O garoto não está completo, mas precisamos dele."
Eram lembranças de Luo Hang? Algumas cenas passavam como um relâmpago, estavam embaralhadas e incompletas. Uma confusão que o fez cair no chão. O suor apareceu com a dor vindo em repetidas pontadas por todo o corpo. Nem as mil agulhas de seu antigo mestre usadas como punição doíam ao que sentia agora. Abriu a boca, buscando pelo ar.
A agonia vinha de diferentes formas, dilacerando a carne de dentro para fora alcançando o âmago com torpor. Se abrisse os olhos, Cai Xing supunha que poderia ver cada músculo retorcer sobre essa aflição repentina.
Ele caiu sentado e apoiou as costas no tronco de uma árvore, com as mãos cravadas na coxa. Sangue fluía de todos os seus orifícios. Era a mesma sensação que sentiu ao morrer, como se tudo começasse a se tornar inútil.
Deveria apenas se entregar? Não! Não! Não era covarde!
Cai Xing tentou respirar fundo, mas tudo ficava cada vez mais distorcido e doloroso e o sangue saindo de seu nariz dificultava a respiração. Piscou várias vezes tentando firmar a visão. Num instante uma figura apareceu em sua frente com um borrão.
A pessoa estava ajoelhada com a cabeça baixa, os cabelos dela impossibilitaram enxergá-lo por completo. Uma espada cravada em seu peito deixava uma ferida pequena e fatal. Suas roupas que à primeira vista pareciam impecáveis e níveas, começaram a ficar coloridas em contato com líquido escarlate e ferroso. A pessoa não emitiu algum som quando desabou desacordada.
Ainda sendo torturado, ele se arrastou até o cadáver. Não soube o porquê de estar curioso com isso ou como tirou forças para ir até lá. Cai Xing virou o corpo. O sangue parecia ter formado algumas pétalas no roupão branco. Algo capturou sua atenção. Na barra das mangas, um bordado de lótus em azul o fez estremecer. Levou a mão até os cabelos da pessoa e os retirou do rosto.
Tremulando, ele pronunciou devagar:
— Yu... Mei?
Cai Xing, sem se importar com a dor, recuou bruscamente. Não podia ser... Como? Como seu amado Yu Mei estava assim? Quem o assassinou? Olhou para suas mãos. Havia sido ele! O que...
— Yu Mei, acorde! Não brinque com isso!
Não houve resposta. A cena mudou. Agora ele estava diante do salão Ancestral da Montanha dos Nove Céus. Os anciãos se reuniram e Yu Mei estava ajoelhado e acorrentado diante dos oito anciãos. O homem bonito, estava acabado. Olheiras profundas e o homem pareceu adoentado.
— Yu Mei, você é o grande mestre da Montanha dos Nove Céus! Por que se envolve com esta escória?"
A paisagem mudou e mais uma vez, ele segurava o homem nos braços. Mesmo sacudindo o corpo para acordá-lo, gradualmente a temperatura foi ficando mais baixa.
— Yu Me...
Antes que percebesse, as lágrimas tornaram-se sangue formavam uma pequena tempestade. O choro alto trovoava para as plantas e os animais espirituais e pequenas faíscas de poder saíam da ponta dos dedos. A montanha de seu coração foi partida mais uma vez.
De repente, o cadáver se mexeu. Com os olhos abertos parecia que não era mais Yu Mei, não aquele que conheceu. O corpo era dele, mas os olhos dele reluziam em um verde brilhante e vivo e sua pele craquelada lembrava as terras áridas do continente central. Alguém o transformara em um cadáver feroz. O fato o fez gargalhar em meio a sua pequena tempestade. Yu Mei poderia ter ressentimentos tão profundos assim?
O cadáver se levantou e cravou as garras em seu pescoço. E seus punhos seguraram os do cadáver.
O que poderia ter causado ressentimento nele? Cai Xing pensou em várias possibilidades enquanto o cadáver enfiava as unhas mais profundas em sua garganta. O que poderia ter sido? Alguém que ele não pôde salvar? Seus pais? Alguém que o fez sacrificar algo? Ele não conseguiu pensar em nada.
— Ah...
Ele sorriu ao passo que a morte pareceu se aproximar. Desde quando ele tinha entrado em uma ilusão? A tempestade inundou seus olhos e aceitou a morte. Não se importava, havia cometido muitos erros, merecia isso. No entanto, o pior ele estava revivendo há pouco e nunca se perdoaria por isso.
Seu sorriso aumentou ainda mais, ele parecia em paz e agradecido, no entanto, desapareceu logo em seguida, quando os braços do cadáver foram fatiados por uma espada.
— Shizun, há sobreviventes!
Virou o pescoço para o lado. Duas imagens reais se solidificaram. A de um jovem garoto avisando seu mestre e a de um homem mais velho adiante. A melodia fantasma saiu de seus ouvidos.
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