03. O Vilarejo Hong
Um tempo indeterminado se passou quando Cai Xing enfim se acalmou. As bordas dos olhos estavam inchadas e a fraqueza sentida era maior que o normal. Ele tentou se mexer, mas os braços não conseguiam sustentar o próprio peso. Desistiu ali mesmo, o corpo todo doía, o estômago estava limpo, nem mesmo a garganta sentia um som.
Dia após dia, o sol queimava as pessoas abaixo dela e as noites frias chegavam a fazer alguns mendigos perderem suas vidas, mas ao contrário dos malefícios, a consciência de Cai Xing retornava durante o período noturno. As alucinações que os perturbavam ficavam mais vívidas enquanto a lucidez retornava e era difícil distinguir o que era real ou não.
Morrer não era uma escolha ruim.
A visão estava borrada, as mãos cobertas de sangue, aquele sentimento sutil de prazer na matança quando o êxtase o corrompia. E não eram apenas suas lembranças, tudo vinha acumulado do passado do jovem príncipe.
Cai Xing acordou assustado. Ele respirou fundo e sentiu um calor surgir onde estava a ferida, mas não era doloroso ou desagradável. Seus olhos piscaram levemente fazendo os cílios tremer contra a luz, refletindo-a com suavidade. Sentia sede e, então, abriu os olhos.
Sua boca estava seca, então ele buscou água. Uma bacia transbordava desse líquido divino e com as mãos trêmulas agarrou o objeto, bebendo toda a água. Quando terminou, passou a língua pelos lábios.
— Cultivador Luo?
Uma voz feminina entoou, chamando o antigo dono do corpo. Tal presença quase o fez rolar no chão, completamente assustado. Não havia conseguido notar a presença de alguém ali, bem à sua frente. A dor o envolveu no mesmo segundo.
Cai Xing não demonstrou pudor quando passou seus olhos por todo o corpo da garota de aparência frágil e delicada. Suas feições não haviam se desgarrado da infância, mas também não parecia uma adolescente. Suas bochechas rosadas ergueram-se para um breve sorriso, antes dela pegar um palito com algodão na ponta e encharcá-lo de óleo. Em seguida, com as mãos nuas, um fogo azul cresceu nas palmas e acendendo o algodão. A chama tinha um ar hipnólogo e isso, o acalmou num segundo.
Por algum motivo, ele a achou familiar.
Ele desistiu de procurar palavras e até pensar e permitiu se acalmar, e, à medida que a chama azulada roçava contra a pele, mais sonolento ficava. Ela rodopiava em cima da ferida infeccionada e não ardia ou proporcionava dor.
— Por que está ajudando este eu? — sua voz saiu rouca e ele tentou se ajeitar na palha seca, falhando. Ao mesmo tempo, sentiu que seu ferimento havia melhorado e tornou-se mais alarmado — Quem é você?
A garota sorriu gentilmente e perguntou:
— Cultivador Luo, por acaso, perdeu sua memória?
Cai Xing parou um pouco e pensou ser uma excelente escolha. Havia muitas vantagens em trazer essa situação para o seu lado. Nunca foi incomum alguém perder sua memória após se machucar brutalmente, como o pobre Luo Hang havia sido, e isso poderia cobrir as falhas nas lembranças do garoto.
Por fim, assentiu em concordância com a garota.
— Não consigo me lembrar de muitas coisas — sorriu sem graça — É um infortúnio não poder me lembrar de uma jovem tão fofa!
A garota arqueou a sobrancelha direita vendo a pausa para a resposta. Uma desconfiança surgiu por detrás de tal ação, contudo a expressão e fala de Cai Xing eram firmes e não ocasionaram tal sensação. Além disso, ninguém arriscaria a ponto de quase uma morbidade só para fingir amnésia. Algo havia acontecido na floresta com esse sênior, mas ela esboçou um sorriso terno.
— Certo. Acabei de tratá-lo. — ela se levantou tirando alguma palha em suas vestes e agarrou a cesta com seus recursos medicinais. — Caso precise de mais alguma ajuda, só me chamar. Meu nome é Bai Suyin. Estou saindo agora.
— Por que está me ajudando? — insistiu na pergunta.
— É preciso um motivo para ajudar alguém necessitado? — Cai Xing ficou confuso e a garota, percebendo a reação estranha, continuou a falar: — Imortal Luo, só estou retribuindo o favor que me fez. — Ela sorriu gentil.
Cai Xing não conseguia se lembrar de tal pessoa ou sequer tinha uma impressão de Bai Suyin nas memórias de Luo Hang. O que essa pessoa almejava, afinal?
— Não pense errado... não fico triste por não se lembrar de mim. — A garota fez uma pausa e se virou para a porta. — Além disso, não esteja preocupado... um corta-manga como você não iria fazer nada contra mim, certo?
Cai Xing quase engasgou com a fala de Bai Suyin e baixou a cabeça.
Embora estivesse esquecido em seu passado, essa garota o fez lembrar-se da irmã que um dia teve. Cai Xing sempre se perguntou como ela passou sua vida depois que foram separados e esperou que fosse melhor do que quando estavam juntos. Eles eram miseráveis mesmo antes da morte de sua mãe.
Quando novamente ergueu a visão, não havia ninguém ali, como se fosse mais uma de suas alucinações.
-ˋˏ ༻✿༺ ˎˊ-
Um rumor muito popular circulava entre os camponeses na vila Hong: se há um ponto preto no mato, é bom. Se há um ponto vermelho no mato, não se aproxime. Contudo, se há um ponto branco no mato, fuja como se sua vida dependesse disso!
Devido a isso, quase ninguém usava roupas brancas nesse lugar. A única exceção eram os velórios, feitos no templo do deus da água, protetor do oeste. Eram ocasiões raras para os aldeões e extremamente fechadas, sempre acontecendo durante o dia num local afastado da floresta e em campo aberto.
Os camponeses diziam que os fantasmas que perambulavam pela região da Vila Hong carregavam uma grande malícia. Muitos anos antes, uma seita de cultivação ocupava o vale, mas devido a um conflito contra os demônios do culto, essa seita foi massacrada e esses cultivadores não conseguiram descanso.
Eventualmente, essas almas se transformaram em fantasmas poderosos e surgiam, vez ou outra, para assombrar os vivos em busca de vingança. Matavam sem discriminação atrás do responsável por suas quedas.
Infelizmente, os moradores não tinham para onde ir e não tinham moedas de ouro suficientes para pagar um cultivador a dar fim à sua agonia. Restava apenas permanecer na vila esperando a vontade dos céus.
Alguns dias antes, Luo Hang, para tentar retribuir a ajuda que recebeu dos aldeões, se direcionou para a floresta para tentar conter um desses fantasmas.
Nesse dia, completavam-se algumas semanas da recuperação de seu dântian, que praticamente havia sido destruído, portanto, ainda era instável. Luo Hang se preparou adequadamente, conseguiu artefatos numa cidade próxima, reforçou seu pequeno cultivo com pílulas e armou-se com uma espada de qualidade que acidentalmente encontrou à beira de um rio, na cintura de um homem morto.
Preparativos que, infelizmente, foram em vão.
Ao adentrar na floresta, à noite, uma densa névoa avermelhada acumulava-se próxima ao chão, impossibilitando a enxergar o que estava abaixo dela. Era difícil respirar, diferente de tropeçar num esqueleto ou algum cadáver fétido. Entretanto, diante de todas as más circunstâncias, o garoto estava firme e habilmente atento a cada movimento ao redor.
Ele usou seu poder para inspecionar num raio de cinco metros e seu sentido espiritual não captou nada. Então, prosseguiu calmamente para o interior da mata, que ficava mais fechada, assim como a intensidade da névoa vermelha.
Percebeu o raio de seu sentido espiritual diminuir, sequer passava de dois metros devido a forte malícia no ar. Ele teve um pressentimento ruim; e, no segundo seguinte, uma melodia perversa começou a tocar.
A primeira nota repercutiu e influenciou a névoa, tornando-a mais densa. Nesse ponto, era incapaz de detectar algo à sua frente. A segunda nota fez com que qualquer mínimo som desvanecesse de imediato. A terceira nota, inesperadamente, dissipou a neblina vermelha. A música então, após alguns acordes, diminuiu o ritmo e se tornou mais macabra.
Seu corpo entrou em alerta, com os pelos eriçando tanto, que podia senti-los repuxar o tecido da pele. E quando, após alguns passos, se assustou tanto que cambaleou para trás, havia visto uma cena perturbadora. Ele quis vomitar enquanto arrepios escalaram suas costas.
Inúmeros cadáveres amontoavam-se em pilhas sangrentas e frescas, com o suco vermelho escorrendo entre os corpos azuis e arroxeados. Muitos deles tinham os membros cortados, nus e rostos desfigurados. Bochechas e narizes arrancados, com os olhos esbugalhados e outrora pendurados na face.
Uma boa parte desses cadáveres tinha as mãos levantadas, de modo que indicava que momentos anteriores à morte estavam tentando fugir de algo no chão e, de alguma maneira, os puxava para trás ao deixar marcas em seus tornozelos.
Repentinamente, uma cabeça se desprendeu do seu corpo após uma brisa suave. Luo Hang sentiu a ânsia de vômito intensificar-se. A cabeça decepada estava vazia: sem olhos ou nariz, a carne podre caía em pedaços ao mínimo movimento exercido, mas na boca, assustadoramente preservada, havia um sorriso sinistro. As larvas amareladas e esbranquiçadas retorciam-se por todo o crânio, com uma camada sutil de pus verde. Devido às rachaduras no osso, uma larva maior saiu apressada de dentro e caiu no chão, retorcendo-se.
O garoto engoliu a bile que subiu à garganta e já empunhou a espada, colocando-a em frente ao corpo. Deu mais alguns passos e gradualmente, a assustadora visão piorava, juntamente com o odor putrefato, ficando mais nítido em seu nariz. Quase podia distinguir as carcaças de animais das humanas. As humanas eram as piores, mais devastadas, mais horrendas.
"Até na decomposição, os humanos incomodam mais e são mais nojentos."
A floresta se tornava mais densa. As árvores ficavam mais próximas umas das outras e seus troncos também engrossavam à medida que avançava a caminhada. Um pensamento passou pela mente de Luo Hang: isso o lembrava dos bosques onde as bestas espirituais residiam.
Um arrepio subiu por suas costas. Ele sabia que, embora a maioria delas tenha deixado de existir, as que sobreviveram se esconderam nos lugares mais perigosos e sombrios para evitar os humanos.
Apenas esse pensamento o deixou perturbado e olhou para cima, conferindo a copa das árvores. Nesses lugares, a natureza emitia vida, envolta em auras incomuns, tendo alma e cultivo.
Naquele segundo, Luo Hang desejou voltar.
Além de fantasmas, essa floresta poderia ter bestas mágicas! Vivas ou mortas, sua alma residual, aquela que permanecia e podia carregar a malícia do pós-morte, estava presente. Se tivesse conhecimento sobre isso, nem teria entrado ali! Não importava retribuir o favor se ele fosse morrer.
Luo Hang decidiu voltar. Sua vida era mais importante que um favor aleatório, precisava estar vivo para caçar cada uma daquelas pessoas que o condenaram. Ele embainhou a espada novamente e correu em direção de onde veio. Passou novamente pela paisagem horripilante e a névoa começou a subir.
Quanto mais ele corria, mais neblina vermelha surgia.
Ele caiu no chão, em cima de um cadáver.
Boom.
Uma explosão surgiu alguns metros atrás dele.
Rapidamente, ele se levantou com a respiração já acelerada e ofegante. Foi então que o desvio de rota. Não era o caminho pelo qual havia passado. Olhou ao redor e um suor frio tomou conta do seu corpo quando a melodia macabra voltou a ser tocada. As mãos trêmulas que seguravam a espada vacilaram e fizeram-na cair no chão.
Um grito violento repercutiu na floresta.
— Aaaaaaaaaah!
Luo Hang pulou assustado.
A melodia ficou mais lenta.
Luo Hang notou que, se a situação não fosse horrível, apreciaria aquela música em notas fúnebres. Sua vida era tão patética quanto elas.
Outro grito, ainda mais alto e mais próximo, ecoou em seus ouvidos. Fumaça vermelha subiu até a altura de sua cintura.
— Quem está aí? — A pergunta saiu inconsciente, quem ou o quê estivesse presente, não responderia.
— A-Luo... A-Luo... A-Luo...
— Xiao Jie?
Ele reconheceu a voz de imediato.
Seu olhar procurou pelo vermelho.
— Xiao Jie?! Xiao Jie?!
Luo Hang andou apressado, pisando firme e cada vez mais respirando pesado. Ele gritava o nome daquela pessoa em suas memórias.
— Xiao Jie, é v-você? — Ele gaguejou ao ver alguma coisa se mexer no meio da névoa.
Um ponto branco surgiu e, lentamente, cresceu no meio da cor escarlate, tomando forma humana. Sua pele esverdeada e curvas delicadas apontavam ser um cadáver feminino. Ela usava um vestido branco rasgado em seus braços e em várias partes na barra, uma roda de sangue manchava da cintura até os quadris. Seu olhar sem vida fitava o garoto com medo. A garota sacudiu os braços como se estivessem quebrados. O barulho dos ossos chacoalhando debaixo da roupa era arrepiante.
— A-Luo...
Luo Hang caiu de joelhos no chão, horrorizado. Sua tremedeira contagiou o restante de seu corpo, enquanto lágrimas surgiam sem parar. O grito de horror dessa vez veio dele. Luo Hang agarrou os cabelos, puxando-os com força.
— Xiao Jie está morta! Xiao Jie está morta! Xiao Jie está morta...
Como se uma espada afiada tivesse atravessado sua cabeça, Luo Hang sentiu uma pontada de dor tão forte ao associar aquela informação a sua amada Xiao Jie. O garoto gritava repetidamente e, sem perceber, cada grito era acompanhado de poder espiritual.
Na Vila Hong, naquela noite, todos acordaram assustados com os gritos horrendos que pararam apenas ao amanhecer.
— Por que você me matou, A-Luo? — A jovem fantasma repetiu a noite inteira e, logo em seguida, ria enlouquecida. — Hahahahahaha, por que me matou? A-Luo matou nosso filho. Hahahahahaha!
Por fim, ao amanhecer, a fantasma avançou para cima do garoto, armando suas unhas imitando uma fera selvagem. Seus olhos ganharam o tom avermelhado e brilhavam em ódio.
Ela cravou as unhas nas costas daquele garoto, rasgando sua carne, enquanto ele urrou como um animal, mas não se mexeu. A fantasma continuou a lançar mais ataques e eles ficavam cada vez mais intensos. Suas costas já estavam feridas, sem pele, sangrava como uma carne qualquer e os ossos ficaram expostos.
Luo Hang sentia que a qualquer momento poderia desmaiar e morrer, no entanto, a dor lhe mantinha vivo e acordado.
— Xiao Jie, perdoe-me... — Luo Hang disse baixinho, chorando.
A fantasma o olhou por um momento, inclinando sua cabeça. Parecia curiosa. Mas aquela já não era mais Li Jie, não era mais sua pessoa amada.
— A-Luo matou nosso filho. Hahahaha...
Ela ergueu um braço, parecendo seu último ataque.
No segundo em que ela ia descer o braço para arranhá-lo uma última vez, uma nota maliciosa reverberou pelo ar. A segunda deixava de ser macabra para ser calma, quase uma canção de efeitos soníferos, era harmoniosa e sutil. Também era tocada excelentemente pelo praticante. A jovem fantasma parou e, por fim, acalmou todo seu rancor. Ela se virou à origem do som, curvando os lábios num sorriso medonho e podre.
Um homem de vestes brancas pousava como a pétala de uma flor sobre uma superfície calma, em cima de uma montanha de cadáveres. Ele usava uma máscara prateada e nas mãos, uma guzheng preta adornada em pequenos lótus dourados. Seus vastos cabelos dourados dançavam com a música. Um sorriso malicioso permanecia em seus lábios rosados.
Ele continuou sua música e o fantasma Jie foi se afastando de Luo Hang. No minuto seguinte, o garoto desabou no chão e, devido à sua pouca sorte, espetou seu corpo em um toco de madeira quebrada, rasgando seu abdome.
Cai Xing acordou assustado. O sonho era muito vívido, como se ele tivesse acompanhado cada segundo dele.
"Então foi assim que isso aconteceu..."
Ele olhou a ferida, sentindo o corpo estremecer. Não sabia quantos dias havia se passado, mas a ferida estava quase curada. As roupas estavam molhadas devido ao suor e também fedia como carniça. Do seu corpo, inúmeras impurezas haviam saído.
Um barulho de ronco surgiu na barriga. O rapaz se levantou e percebeu a noite estrelada do lado de fora. Ele bocejou e já saiu arrancando suas roupas em direção ao lago. Não soube quanto tempo ficou por ali, perdeu-se no tempo relaxante do banho e quando saiu foi direto para a Vila Hong, procurar uma taverna para poder comer. Uma dose de álcool o faria bem também.
-ˋˏ ༻✿༺ ˎˊ-
— Pela manhã, me encontrei com cultivadores na Cidade de Cheu. — Um homem de meia-idade entrou na taverna acompanhado de mais dois companheiros. — Disseram que ouviram os rumores sobre o fantasma da montanha e vão vir até aqui para subjugá-lo.
Um dos acompanhantes riu e em seguida os três se acomodaram numa mesa.
— Senhor Ming, acho que está delirando! Quando foi que um cultivador depois da queda dos demônios fez alguma caridade?
Senhor Ming coçou a cabeça levemente envergonhado, seu colega tinha razão.
— Senhor Peng tem razão!
— Claro que tenho razão, sou o mais sábio desta vila. Hahahaha! — a figura pretensiosa do homem atraiu olhares.
— Concordo, senhor Peng é muito sábio. — o outro homem concordou.
— Aqueles malditos cultivadores só carregam nome!
Aos poucos, toda a taverna havia sido tomada pela agitação e pelas palavras do "sábio Peng".
Isso ocorria a Cai Xing que as seitas de cultivadores, sem ressalva, entraram em reclusão e poucas pessoas, provavelmente, teriam acesso a esses lugares. Ele deveria saber sobre isso, se não fosse pelo corpo meio quebrado que havia tomado.
Do outro lado da taverna, ele prestava atenção aos maus modos do 'sábio Peng'. Sua vontade era de ir ali mesmo esfregar o nariz dele no chão, mas preferiu continuar a jantar sem interrupções. A sopa de lótus com carne de porco e o vinho local estavam muito deliciosos para serem deixados de lado por alguém trivial. Se fosse em sua vida anterior, teria arrastado esse velho até a rua e o chutado até o amanhecer.
Pessoas que se autoelogiam demasiado e com soberba merecem cobras na roupa e não merecem créditos.
Assim que a taverna silenciou a voz jovial daquele rapaz ecoou por todo o estabelecimento.
— Senhor Peng é muito sábio. — Cai Xing deixou as palavras saírem naturalmente em teor sarcástico. Foi mais forte que ele.
Ele colocou um pedaço de carne na boca.
— Criança, o que disse? — um senhor Peng irritado surgiu.
Ele se levantou da mesa e apontou o dedo para o garoto, que degustava distraído o último pedaço de carne da sopa. Ele ignorou o homem.
— Você... Hmpf, você não está morto ainda? — Senhor Peng fez uma expressão confusa.
As palavras soaram interessantes, então ele decidiu brincar.
— Claro que não! Sou a pessoa mais sortuda dessa vila! — Então ele zombou daquele homem 'velho' com algumas palavras afiadas. — Senhor Peng queria que eu estivesse morto?
Um brilho malicioso surgiu nos olhos de Cai Xing.
Aquela atitude pretensiosa pegou o velhote de surpresa, como a todos no salão da taverna. As pessoas costumam manter esses tipos de questionamentos para si ou deixavam-nos ambíguos, fazer isto de forma tão leve era incomum.
A veia da testa do senhor Peng subiu e o rosto ficou vermelho de raiva, ao mesmo tempo, em que se sentava bufando como um touro.
Ele se resignou, qualquer palavra o trairia desgraça. Mas, apesar disso, todos na Vila Hong conheciam o temperamento do Senhor Peng com cultivadores.
Desde que a mulher e seus dois filhos faleceram sob os cuidados de um cultivador ortodoxo, Peng Fa passou a ter uma aversão absoluta por qualquer um daqueles imortais hipócritas. Ver a família morrer sob a proteção de um daqueles poderosos mestres, especialmente como aquele cultivador, o fez perder toda a confiança nas seitas de cultivação.
Cai Xing não sabia desse fato. Era uma das memórias que faltavam naquele corpo. Quando Luo Hang, chegou à Vila Hong, senhor Peng até quis matá-lo.
Senhor Peng suspirou e tentou se acalmar, de toda forma aquela criança não tinha relação com seu passado. Luo Hang era apenas um garoto mimado! Não valia seu tempo.
— Vocês cultivadores merecem todos morrer!
— Embora quase sua vontade tenha sido atendida pelos céus, fui abençoado com uma boa sorte e tive oportunidade de escapar daquele fantasma. — Ele colocou a colher dentro da vasilha e sentou-se elegantemente. — Mas, devo concordar com o Sábio Peng, cultivadores são todos hipócritas.
— Oh. — havia algo que concordavam.
Cai Xing pediu por outra jarra de vinho.
— Mas, para a falta de sorte desse miserável eu, o fantasma tinha pelo menos uma cultivação de nível supremo. Claro, isso se for um fantasma. — sempre havia a possibilidade de alguém tentar esconder algo.
A conclusão feita por Cai Xing tão calmamente, assustou as pessoas dentro da taverna. Tratando-se de fantasmas, ainda se referindo a um supremo tão casualmente como se não fosse nada e depois de ter apanhado por ele, era, no mínimo, ridículo, certo?
Como almas perdidas que se corromperam ao ficar no mundo mortal, pois ainda têm pendências, os fantasmas são tomados pela obsessão e atraídos por tudo aquilo que se assemelha a ela. No entanto, também existem aqueles que nascem de sentimentos negativos humanos e transformam-se em algo físico. Estes, no entanto, são ainda mais perigosos devido à pureza da malícia.
Assim como os cultivadores, eles têm seu próprio tipo de classificação conforme a intensidade da malícia carregada: inferior, feroz, obsessivo e supremo. Quanto mais alto, mais perigoso ele pode se tornar e, ainda, este fantasma supremo, como aquele da montanha, poderia controlar outros abaixo dele.
Os poderes de um fantasma variam e dependem da própria obsessão ou também daquilo que foram em vida, mas principalmente, a causa da morte. Se, por exemplo, um lenhador morre enquanto caça um urso numa floresta, esse lenhador, incapaz de se livrar desse sentimento de inferioridade por morrer tão ridiculamente, caçará pessoas poderosas para matar.
Mas, os mais perigosos são aqueles que eram cultivadores em vida, como aquele fantasma que matou Luo Hang. Eles eram poderosos demais para um simples cultivador de nível tão baixo lidar com ele. Cai Xing acreditava que apenas um cultivador superior do pico do núcleo dourado teria o poder de exorcizá-lo.
Mas ficaria preocupado caso fosse algum desses tipos nascidos da malícia humana. Eles eram irracionais em suas buscas e uma quantidade enorme de corpos e esqueletos carregava o Feng Shui daquele lugar. Quando um fantasma encontrasse o motivo de sua obsessão, seria incapaz de parar até concluir seu objetivo e mesmo após concluído, o corpo de Luo Hang estava intacto.
Um mistério, um verdadeiro mistério!!
— Cultivador Luo. — A dona da taverna chamou o garoto. — Se o que diz for verdade, estamos todos mortos!
Nesse momento, todas as pessoas haviam se juntado à mesa desse jovem, mais curiosas do que amedrontadas. Elas o olhavam comer tão calmo quanto um monge e ficavam perplexos. Ele não tinha medo? Ou, depois de ser quase morto, como ele mesmo disse, esse sentimento foi embora? Ou ainda, a loucura dele poderia ter aumentado? Nenhum deles podia responder a isso!
A verdade por trás dessa aparência de calma era que esse rapaz foi um lorde demônio em tempos passados e obviamente, um fantasma supremo não era nada em seus olhos. Ele já foi um imortal por alguns anos e isso o tornou menos assustado com as coisas. Quantos desses fantasmas haviam desaparecido com um estalar de dedos em sua frente ou quantos foram esmagados pelas solas de sua bota?
— Não coloquem muitos olhos sobre isso! — Cai Xing disse, tomando um bom gole de vinho, um bom vinho — Mesmo que pudesse, não acham que esse fantasma já não teria matado seus ancestrais e vocês não existiriam!? Provavelmente é um fantasma da montanha e fantasmas da montanha não podem sair do seu lugar de morte.
Ele cruzou as pernas e tomou outro gole de vinho. A mentira havia se tornado parte de sua vida, embora a detestasse. Felizmente, em certo ponto de sua vida, conseguiu se tornar um bom mentiroso.
Enquanto contemplava sua glória, em algum momento, o ar havia tomado uma tensão esquisita que fez Cai Xing após relaxar por um segundo, endireitar-se. O movimento rápido fez suas costas doerem e a ferida no abdômen apitar freneticamente.
— Esses rumores desse fantasma da floresta... há quanto tempo existem? Noventa anos? Pouco menos? Quantos relatos existem desse fantasma deixando a floresta?
Eles se entreolharam e concordaram sobre não existir nenhum boato sobre isso. No entanto, um deles pontuou algo que também deixou Cai Xing um pouco perturbado:
— Cultivador Luo, é certo que não há nada sobre esse fantasma saindo da floresta, mas se ele for um desses que o senhor falou, por que ele não sai da floresta?
"A velhice não o fez bem! Por acaso é surdo? Eu não disse claramente que ele é um fantasma da montanha? Porra!"
Mas, embora tenha dito isso em pensamento, ele apenas franziu a testa e deu um suspiro cansado. E, ainda que fosse um fantasma da montanha, mesmo para um fantasma desse nível, sair do lugar de origem da morte é quase impossível. A não ser que ele descubra alguma maneira de quebrar as restrições, era impossível sair. As restrições celestiais existiam por algum motivo e eram difíceis de serem quebradas!
Esse suposto fantasma permanecia no mesmo lugar por décadas, mesmo tendo um alto cultivo. Então, havia pouca possibilidade de ser uma dessas mutações. Talvez a loucura se desenfreou e agora ele vaga naquele lugar? Bem, ele não sabia do que poderia se tratar essa insistência e, claramente, nem desejava saber. Logo mais, iria embora desse lugar mesmo, seria melhor estar em um lugar que não o reconhecessem. Só precisaria cultivar um pouco antes de partir.
Era melhor não contar a essas pessoas sobre isso também. Ele abriu um sorriso amigável e falou:
— Também não sei, senhor. Não sou uma biblioteca e, infelizmente, não possuo poder o suficiente para detê-lo também.
Todos ficaram boquiabertos com a resposta daquele rapaz. Maldito! Não custava ser gentil? Mas ele continuou a falar antes dessas pessoas retaliarem.
— Resta a todos não entrar naquela floresta. Incomodá-lo seria pior. Não tentem se tornar herói, pois irão se tornar lindas bonecas da coleção do Renomado Senhor da Montanha.
Ainda que estivessem com certa raiva dessa criança maldita, no final, todos concordaram com o cultivador. Quanto mais longe da montanha, melhor!
Senhor Cheng, do outro lado do salão, não deu atenção às insanas ideias de um garoto de quinze anos. Um fantasma que nem mesmo um cultivador de alto nível poderia subjugar? Besteira! Ele cruzou os braços e ficou ranzinza, batendo o pé no chão.
Após uma longa noite de explicações em relação a fantasmas e várias curiosidades dos moradores e intensas garrafas de álcool, Cai Xing retornou ao casebre cambaleando. Foram muitas histórias vindas dos moradores e muitas perdas por parte deles. Cai Xing chegou próximo a se solidarizar com isso, mas ele revirava os olhos ocasionalmente todas às vezes que uma terminava.
"O renascimento talvez tenha amolecido o meu coração?"
— Não! Sou o Lorde que massacrou inúmeras vilas! — Gritou para o céu. — Eu sou o MALDITO CORTA MANGA!
Ele mal se aguentava em pé e precisou parar algumas vezes para não cair na estrada. Ao chegar, ele se deitou na palha e ficou encarando o céu pelo buraco no telhado. Mais tarde, com certeza, ele precisaria de arrumar esse problema. Se chovesse, cairia mais chuva dentro da casa do que fora.
Bom, ele já havia decidido tomar um caminho diferente nessa vida. Estava cansado de ser alguém aclamado e cheio de responsabilidades, no topo. Gostaria de viver uma vida simples, como um discípulo qualquer de uma seita qualquer, sem pressa e grandes feitos. Quem sabe poderia até encontrar um novo significado para viver. Infelizmente, não era isso que os céus preparavam para ele.
Sua única ressalva seria não poder encontrar mais sua pessoa amada. Um amontoado de lágrimas cresceu em seus olhos, assim como o peito pareceu apertar-se diante dessa possibilidade. Havia prometido encontrá-lo numa outra vida, mas aqui estava ele... ainda restava essa responsabilidade?
Em toda sua vida, sonhou em ter uma boa vida com a pessoa que amava. Queria poder ver seu aborrecimento, seus sorrisos e como ficava tímido quando estava em seus braços, passar momentos bons e ruins ao lado dele.
Cai Xing, mesmo imerso nas lembranças do passado, sentiu algo quente escorrer pelo rosto. Era uma lágrima solitária. Fazia sentido, até ele era solitário, por que suas lágrimas não seriam?
Naquela noite, uma estrela caiu do céu, tão solitária quanto Cai Xing. Não se sabe onde pousou, mas parecia ter encontrado seu caminho.
⁜
Pequeno teatrinho
Cai Xing: EU SOU O MALDITO CORTA-MANGA!
Yu Mei: EU SOU O MARIDO DO MALDITO CORTA-MANGA!
Autora(Xiao Yu): EU ESCREVO SOBRE OS CORTA-MANGAS!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top