Wanzo - III

Os primeiros raios de sol que conseguiram desviar das folhas brilharam forte nos olhos fechados de Wanzo que dormia tranquilamente, e ela os abriu calmamente com algumas piscadelas. Foi só olhar pra cima que se deparou com a imensa criatura de esmeralda que sentava em postura meditativa e sobre cujas mãos ela passara a noite dormindo.

Deitada sobre o mudra do grande espírito, ela apenas admirava os seguintes feixes de sol, que pouco a pouco davam luz ao amanhecer, refletirem no corpo translúcido do animal, fazendo-o brilhar em padrões geométricos por dentro e emitir uma aura esmeralda que o circundava como uma aurora. Podia dizer sem dúvida alguma que era a vista mais linda que seus olhos já haviam visto – até o momento. Sentia sua pele quentinha, liquosa, fofinha e meio gosmenta – sem grudar, completamente uniforme – que mesmo estando na mão, não era diferente do rosto nem do pelo, pois era totalmente feito disso. E abraçava sua grande mão. Um sorriso de criança é esboçado em seu rosto involuntariamente, e ela se deixa levar pela alegria inocente daquele momento.

"Mogu, você é uma maravilha. Tão fofinho," ela diz o apertando, quase afundando em sua mão.

Ele percebe os movimentos da samurai na palma de sua mão esquerda que repousava na outra, e sorriu ao sentir aquele carinho todo. Era a primeira vez em séculos, milênios, que era tratado assim – nem seu maior amigo e mestre Buda era tão afetuoso. Essa emoção positiva de afeição e amor gerava uma vibração interior que se notava pelo corpo todo do avatar, e essa frequência irradiava pela atmosfera do lugar, gerando um satisfatório sentimento de tranquilidade ao redor dele.

"Que coisa boa," ela fechava os olhos e inspirava fundo, sentindo essa calma no ar entrar nos pulmões e essa vibração quase fundir-se com sua pele, e então, se espreguiçou.

~ ✳️~

Era o terceiro dia de Wanzo naquela floresta. O primeiro, marcado de sangue e um evento um pouquinho psicótico – que ensinaria uma lição de humildade valorosa à monarquia francesa, e a deixaria com uma pulga atrás da orelha sobre uma certa espadachim.

Já o segundo dia passou inteiro com Mogu, tentando encontrar alguma forma de se comunicar com ele. De alguma forma, ele a entendia perfeitamente – mesmo falando em japonês ancestral – mas não conseguia responder de forma alguma, apenas com gestos.

Wanzo o contou muitas histórias de seu país, sua cultura, do seu bushido, suas batalhas, e o motivo por ter saído de lá. Mogu se interessava muito e sempre pedia que ela continuasse quando acabava, e após buscarem umas frutas pra comer, o dia passou voando. Ela pegou no sono deitada na palma da gigante e confortável mão esmeralda enquanto olhava para as estrelas que brilhavam múltiplas e cintilantes no céu, desenhando as mais diversas constelações.

Agora desperta, enlaçar a katana na cintura de seu kimono foi a primeira coisa que fez, e logo saltar ao chão da mão de Mogu.

"E o que faremos hoje?" Perguntou.

O gorila dá de ombros.

"Como não sabe? Nessa floresta deve ter muitos lugares lindos!" Disse com os braços abertos. "Quero explorar."

Só de ouvir a palavra explorar, diversos locais incríveis aparecem em sua memória e ele se levanta até animado. A floresta podia ser asustadora em certos pontos, principalmente pelos bichos gigantes e mortais que ali habitavam, mas não deixava de ser uma maravilha natural. Ele a pegou em mãos e a pousou em seu ombro direito, e assim se foram dali.

Na primeira parada não demorou para chegarem. De longe já podia se sentir a brisa mais fresca, aliviando um pouco mais o calor tropical, e logo o barulho forte da água caindo. Então, desviando de um último espesso tronco de árvore, viram a imensa cachoeira que fluía poderosa e chocava contra um riacho, criando um lago de água cristalina que se dividia em vários canais e continuava alimentando a foresta. Várias formações de pedra pontiagudas dividiam a água que caía forte de mais de sessenta metros de altura, superando em tamanho até as grandes árvores ao redor. O musgo verde se destacava entre a água, e junto com as folhas, contrastava com as pedras molhadas e criava uma paisagem de pintura com o sol que refletia nelas. Animais de diversas espécies se encontravam ali pra beber e banhar-se, como um habitat natural de harmonia, sem presas nem predadores, e os olhos de Wanzo brilharam surpresos.

"Que lindo!" Ela se aproximou calmamente do lago e se agachou ao lado de um grande coelho com penas sedosas ao invés de pelos, e longas asas no lugar de orelhas. O animal percebeu que ela veio com Mogu e abaixou a cabeça, convidando-a pro carinho na cabeça que ela fez. "Que fofura," e sorriu.

Olhou ao redor e percebeu a bela e rara peculiaridade das criaturas dali. Animais que evoluíram com os milênios naquela biosfera rica em vida, nunca antes tocada pelo homem. Logo ao seu lado, um gato com listras de tigre e grandes orelhas peludas bebia d'água do lago. Rolando sobre uma rocha molhada, um casal de leões albinos com marcas espirais vermelhas desenhadas pelo corpo e grandes jubas de fumaça. Observando-a curioso, um majestoso alce com chifres florais tão grandes quanto seu corpo e formatos tribais que cobriam todo seu pelo cinza. Um grande elefante com uma tromba enrugada que parecia de pedra se banhava, jogando água do lago sobre as costas, que também molhava passarinhos escamosos que ali tiravam uma soneca. Uma pequena família de raposas com longos pescoços brincava também, tão nanicas que pareciam recém nascidas, aprendendo a caminhar. Na beira do lago, tartarugas com cascos de musgo dormiam tranquilas. Todo tipo de animais magníficos coexistindo em  harmonia, eram demasiados para contar.

Wanzo apenas os admirava com um sorriso gentil esboçado no rosto, até perceber o grande espírito se aproximar. Com a presença dele, os animais se sentiam mais seguros que nunca – o único motivo de ainda estarem ali na presença de um ser humano – pois confiavam nele como grande guardião da floresta que era.

Ele acenou com a cabeça, para que ela entrara na água. Fazia calor, mesmo no início da manhã, e a água era limpa e cristalina, tão pura que até propriedades curativas possuía.

"Já estava sentindo falta de um banho mesmo," ela comentou enquanto se levantava e cuidadosamente pousava sua katana no chão, logo se despindo do kimono branco listrado manchado de sangue, deixando-o perfeitamente dobrado ao lado da espada. Mergulhou a ponta dos pés na água e viu que estava fresquinha, nem muito gelada nem morna, na temperatura ideal, e então se atirou no lago.

A sensação da água fresca dançar por sua pele era uma delícia. Tão boa que quase perdia a sensação de seu próprio corpo. Relaxava enquanto boiava na superfície e até sentia seu ferimento na bochecha – que apesar de não doer mais estava cicatrizando – coçar, como se estivesse sendo purificado. Ela prende a respiração e mergulha, e nada até o fundo do lago – que cada vez era mais profundo – observando os belos corais coloridos, os cardumes que nadavam em sincronia e os pequenos crustáceos de cristal. Apenas nadava tranquilamente, sentindo-se uma com a água, como se flutuasse pelo espaço sem saber onde seu corpo começa e termina. Ela volta pra superfície e, cegada pelos brilhantes raios de sol, olha pra cima e vê a magnânima cachoeira cair como uma torrente.

"Mogu!" Ela chama. "Me leva lá em cima por favor!" Diz apontando pro topo da cachoeira enquanto nada até a beira do lago. 

O espírito se aproxima e, ao pousá-la em seu ombro gentilmente, escala a montanha rochosa facilmente, deixando-a com cuidado ali em cima.

Ela olhou as grandes árvores dançando com o vento de cima da cachoeira, e a imensa altura dali até o lago. Respirou fundo, fechou os olhos, abriu os braços e se preparou.

"Banzai!" E se atirou de lá de cima, dando vários mortais e piruetas na caída, e mergulhando como uma flecha com a ponta das mãos na água. Volta até a superfície e respira enquanto ri.

O gorila a olha, ruge alto batendo com as mãos no peito, e se atira logo depois. Ela arregala os olhos e tenta fugir, mas só dá tempo de ver ele caindo como uma bola de canhão no meio do lago, e ser levada pela grande onda que veio com a queda, jorrando água pra tudo que é lado. Os animais chegaram a fugir desesperados.

"Ai, Mogu," ela se levanta depois de ter arrastado a cabeça na terra, amortecida pela água, "você quase me matou!" Grita reclamando. "Até os animais foram embora!" E fez beiço.

O gorila apareceu na superfície. Era incrível, mas o centro do lago tinha de profundidade quase o que a montanha tinha de altura. Era um dos lagos mais importantes da floresta, que conectava diversos canais em um só na imensa cachoeira, e logo os separava. Mogu vai até a beira e balança todo seu corpo, se secando como se tivesse pelos, e rindo enquanto ouve os reclamos da samurai.

Logo, escutam um tremor, e uma pinça gigante sai de dentro d'água, e logo um gigantesco caranguejo vermelho coberto por uma couraça de pedra espinhosa, que grita alto e agudo, e ataca Mogu repentinamente.

O fio extremamente afiado da pinça gigante cortou em dois o braço líquido de Mogu, que caiu no chão se separando como se fosse água. Ele se assustou e segurou o monstro, que o rivaliza em tamanho, com o braço restante.

"Que isso?!" Grita Wanzo enquanto corre até sua espada, que foi levada pela onda.

"Espere!" Ela ouviu uma voz ecoar em sua cabeça. Não tão ouvir, mas sim sentir soar, como uma emoção intrusa que a deteu.

Ela virou e viu o grande avatar afastar a criatura com força, e se curvar para ela enquanto se distanciava, como se pedisse desculpas. A criatura gritava forte, irritada, talvez até assustada, mas logo se acalmou e voltou às profundezas do lago.

A samurai se aproximou de seu amigo enquanto ele juntava seu braço do chão e o reconectava ao corpo, e se juntou como se fosse água. Ela se impressionou com a cena, e também pelo fato dele conseguir se comunicar em momentos cruciais. 

"Você é mais sensato do que eu pensava, Mogu," ela disse enquanto se aproximava, "não quis lutar porque achou que estava errado?"

Ele apenas acenou que sim, e ela sorriu.

~ ⚙️ ~

Algumas horas passaram até descansarem um pouco e chegarem na próxima parada. Era uma caverna que estava escondida por entre as árvores, que mais parecia uma grande rachadura numa imensa formação rochosa. Um brilho estranho era emitido de lá de dentro, que deixou Wanzo curiosa, mas ela não queria se separar de Mogu.

"Você não cabe aqui, né," ela comentou.

Ele gestuou com as mãos para que ela entrasse de uma vez, e um pouco relutante, ela o fez.

Era uma entrada um pouco estreita, mas cabia sem problemas. Adentrou a caverna enquanto se apoiava nas paredes de pedra úmida, e de cara percebeu a origem do brilho. Cogumelos. Eram vários grupos de cogumelos luminosos que emitiam luzes coloridas, e se mesclavam na escuridão criando parâmetros psicodélicos de cor. Quanto mais se aprofundava nas estranhas da caverna, mais ampla ela ficava, e mais cogumelos encontrava. Diversas espécies, uns com corpo grande e grosso, outros finos com o chapéu aberto, redondos, outros quadrados e finos, cilíndricos, com vários padrões únicos desenhados em cores diferentes. Cresciam em famílias, e mesmo sendo singulares em formato e aparência, todos emitiam certa luz que iluminava a caverna.

Não demorou para ver uma claridade no fim do túnel. Já semelhante à luz do dia, achou que era uma saída, mas quando passou percebeu que era o verdadeiro interior da caverna. O teto mais parecia o céu estrelado, pois brilhava intensamente com inúmeros pontos de luz colorida gerada pelos fungos que nem se viam dali debaixo. Já se movendo com mais liberdade, Wanzo explorou o o lugar com brilho nos olhos.

"Como é possível esses cogumelos emitirem luz.." ela imaginava enquanto tocava no chapéu de um visco rosa com padrões florais brancos. Passou por cogumelos grandes como árvores, cujas bases se tornavam ninhos de diferentes espécies de cogumelos aglomerados, e também por cogumelos de cristal que cresciam de dentro das rochas, esses emitiam um brilho ainda mais intenso.

Chegou até o que parecia um pequeno lago, mas percebeu que era bem rasinho e apenas seu pé afundava com suas sandálias de madeira. Ela atravessou pela água e percebeu que mais ao longe, onde já tinha terra, havia algumas pequenas casas.

"Alguém mora aqui?" Se perguntou curiosa. "Bom, vamos descobrir. Espero que não arrume problema, já bastou aquele primeiro dia." E acariciou a cicatriz na bochecha, mas deixou escapar um meio sorriso ao se lembrar do lendário arqueiro. Um grande e inesquecível oponente.

Já pisando na terra e tirando os pés d'água podia contar quatro pequenas casas feitas de duas grandes folhas vermelhas cada e cipó, com uma quinta sendo construída. No meio delas todas, uma grande fogueira quase do tamanho de uma pessoa, que queimava pura e aquecia o ambiente gelado, afastando a umidade. Uma criança sai de trás da fogueira, se levantando enquanto olhava curiosa pra samurai.

Os olhos grandes e inocentes da garotinha de cabelos brancos e pele morena e sua expressão curiosa aqueceram o coração de Wanzo, que adorava coisas adoráveis. Ela acenou para a garotinha, que sorriu e correu na sua direção, mas foi bloqueada por um homem que a segurou. O homem também tinha a pele morena e cabelos brancos, e olhava para Wanzo um pouco desconfiado, e até assustado.

A mulher se aproximou um pouco mais e parou, juntou as mãos e se curvou levemente, cumprimentando o homem e logo sorrindo.

"Olá," disse a samurai.

"Konichi..?" a garota inclinou a cabeça sem entender o que a samurai disse em sua língua estranha.

"Ah é, vocês não me entendem," disse acostumada já com a diferença linguistica que também teve com Mogu. Ela apontou para si mesma e proclamou pausadamente: "Wanzo."

O homem já mais calmo percebeu a situação, e não sentiu nenhuma malícia na intenção da mulher, então apontou para si mesmo e se apresentou: "Sisilo." Apontou para a menininha e disse: "Kali."

Wanzo se curvou outra vez e a garotinha correu na sua direção e a abraçou nas pernas. Era clara a expressão de interesse da menina, que olhava para ela dos pés à cabeça, tocava com gentileza em seu kimono branco com listras amarelas – que ela aproveitou pra limpar no lago – e em sua katana, que tão gloriosamente se destacava na cintura dela. Mas o que mais notou e já não conseguia desviar a mirada, foi o cabelo negro.

Wanzo percebeu e se ajoelhou, e deu um abraço na garota. "Kawaii," ela disse enquanto esfregava o rosto no cabelo branco como a neve dela, e a pequena fazia o mesmo, acariciando os cabelos negros como a noite da samurai. Era a primeira vez que via alguém com o cabelo preto, e não conseguia conter seu olhar quase incrédula.

O homem falou algo, aparentemente chamando alguém, e outras pessoas apareceram ali. Wanzo se impressionou ao ver que todos tinham cabelos completamente brancos, mesmo muitos sendo jovens, e todos com a pele morena a qual também nunca tinha visto. "Que belo contraste," pensou e se aproximou deles também, se curvando a todos e se apresentando.

Haviam quase vinte pessoas ali, pelo que contou. Alguns poucos velhos, muitos homens e mulheres, dois ou três jovens e apenas a pequena Kali de criança. Todos se apresentaram, mas ela não conseguiu lembrar de todos, eram nomes estranhos, apenas o da mãe de Kali, Sakali. Eram extremamente amigáveis, e a tratavam com muita hospitalidade, oferecendo comida  – com cogumelos de vários tipos e sabores como ingredientes – mostrando suas casas, seus pertences, e falando freneticamente mesmo sem ela entender nada. Wanzo se impressionava com cada detalhe do lugar e adorava ouvi-los, era uma língua bem estranha cheia de Ss por entre as palavras. Não era a toa que era a tribo dos Sasalisaras.

Wanzo percebeu que as folhas que construíam as casas eram bem grandes e grossas, e completamente vermelhas e secas. Eram folhas raras de uma espécie de árvore da Floresta de Mogu, cuja genética acabava criando folhas extremamente resistentes, mas elásticas. Apenas uma ou duas caíam a cada outono, e cada vez menos com o passar dos anos. As duas folhas eram amarradas com cipós e basicamente essa era a casa. As roupas e camas dos Sasalisaras também eram feitas de um tipo de folha menos elástica e mais flexível.

Haviam também muitos objetos de barro e cristais e folhas, mas muito pouco trabalhados. Também algumas ferramentas de ossos de animais, cadáveres das presas que encontravam pela floresta já mortas. 

Se aproximou da fogueira. E viu que apenas uma flor vermelha abastecia o fogo inteiro. As chamas contínuas pareciam ser absorvidas pela flor, que exalava através das pétalas uma substância inflamável, que alimentava o fogo e criava um círculo natural autossustentável.

Ignis Flos, uma das flores mais raras da Floresta de Mogu, e um dos sistemas orgânicos mais impressionantes da Terra, na minha humilde opinião. Nascia apenas dentro de um vulcão adormecido no extremo noroeste da floresta, absorvendo a energia do calor extremo do magma, que graças à sua estrutura celular ajudavam na fotossíntese junto com os poucos raios de sol que entravam pela boca do vulcão. Assim, ela absorve calor e exala calor, e uma vez que se incendeia, apenas cresce evolui cada vez mais, infinitamente gerando energia térmica e criando um fogo eterno. A Floresta de Mogu era cheia de maravilhas da natureza assim, certamente foi um lugar misterioso e místico.

Então Wanzo se aproximou da casa em construção, uma única folha amarrada em um grande cogumelo seco, e questionou com gestos o que significava aquilo.

"Mogu," respondeu Sisilo.

Wanzo se colocou pensativa. Mogu era o espírito e protetor da floresta, então até duvidava da existência de humanos por ali. De fato, a tribo dos Sasalisaras era uma de duas. Eram os descendentes de uma tribo da Amazônia que foi dizimada na colonização europeia, e viajou com seu pouco conhecimento naval pelos oceanos. Pouquíssimos sobreviventes chegaram na África e encontraram a imensa Floresta de Mogu, onde se alojaram. Como desde séculos sempre foram uma tribo respeitadora da natureza e da vida animal, Mogu os permitiu viver dentro da caverna, onde poderiam criar um lar desde que não interferissem no ecossistema da floresta. Até por isso deviam esperar que as folhas caíssem naturalmente, sem influenciar em nada na ordem natural das coisas. De qualquer jeito, essa já era sua filosofia de vida, e consideravam Mogu como um deus protetor ao qual rezavam diariamente e admiravam. Já conheciam o terror e a dor de perder seu lar uma vez, então agradeciam aos deuses pelo que tinham.

Wanzo passou umas boas horas ali, tentando se comunicar com os adultos, vendo as tradições e costumes da tribo, explorando a caverna com os jovens e brincando muito com Kali, sua nova amiga a qual se apegou bastante. Longe dos adultos, tirou sua katana da bainha e mostrou algumas técnicas para Kali, que se impressionou com aquele objeto totalmente alien para ela, com o fio brilhante que reluzia e refletia até sua imagem. Kali segurou a espada com dificuldade e tentou movê-la, mas era muito pesada e não conseguia. Contudo sentia seu poder, e também uma certa vibração que a deixava um pouco agoniada. Mesmo assim, ela adorou e riu e brincou.

"Já deve ser tarde," pensou Wanzo após certo tempo ali, e resolveu ir embora. Se despediu de todos, e abraçou Kali forte ao ver sua expressão triste e chorosa. Ela também estava triste, pois havia se apegado à garotinha, então teve uma ideia. Desembainhou só o início da lâmina da espada, e cortou uma mecha de cabelo seu. Sabia que a menina havia se impressionado com seu cabelo negro, e após amarrar a mecha com um troço de cipó fino, a deu pra garotinha.

Kali apertou o cabelo negro em seu peito, e resolveu fazer o mesmo. Seu pai hesitou, mas logo aceitou sorrindo. Ela cortou com cuidado uma mecha de seu cabelo branco e a deu para Wanzo, que a amarrou justo na parte onde havia cortado. Fez o mesmo com a garota, e as duas sorriram ao ver as mechas contrastando. Então, após um último abraço, Wanzo se virou e se foi. 

"Adeus!" A samurai acenava enquanto ia embora.

Os Sasalisaras todos gritavam e acenavam e se emocionavam com a partida dela, principalmente Kali. Era a primeira vez em toda a existência da tribo que alguém de fora aparecia, um momento bastante temido pelos sábios, mas que no fim foi uma experiência enriquecedora para todas as partes.

~ ⚕️ ~

A mulher voltou pelo mesmo lugar que entrou, mas como o esperado, Mogu não estava mais ali. Por algum motivo achou que ele estaria meditando, mas não estava surpresa por ele ter ido embora. "Bom, posso voltar sozinha," pensou, e começou o caminho de volta.

Tentava seguir o mesmo caminho pelo qual viera, mas não se lembrava completamente por onde era. Mesmo assim, caminhava tranquilamente, aproveitando a atmosfera mais fresca do lugar, agora no entardecer. "Espero chegar antes de escurecer pelo menos."

Quando menos esperou, ao dar a volta por uma das árvores, Wanzo deu de cara com o monumento de pedra que refletia os últimos raios de sol, a Pirâmide de Buda que descansava pelo campo aberto de flores e plantas. Era a segunda vez que via aquele lugar, mas não deixava de ser impressionante, principalmente a sensação física quase elétrica e pacífica que sentia em sua pele só de estar ali.

Ela se aproximou e subiu os degrais. Se sentou no último deles ao chegar no topo e ficou admirando a paisagem. O sol já quase estava se pondo, ela havia andado por horas e estava um pouco cansada já. Tirou do bolso interior do kimono o cogumelo seco que havia ganhado de presente da tribo. "Será que é comestível mesmo isso aqui?" Se perguntava enquanto observava o chapéu vermelho e redondo cheio de pontinhos brancos do cogumelo. "Não acho que eles me dariam nada venenoso ou algo assim. Bom, pelo menos não é dos brilhantes." Ela ri e come o cogumelo. Tão seco que chegava a estar crocante, e com gosto de nozes.

"Esse lugar realmente é impressionante," pensou consigo mesma. "Imagino quantas coisas interessantes, lugares e animais lindos e incríveis não devem haver aqui," ela sorria só de imaginar. Nunca foi devota da exploração, mas olhar as paisagens enquanto viajava a pé era uma das coisas que mais a agradava em ser uma ronin. E isso aquela floresta tinha de sobra. "Acho que vou ficar aqui até achar algo melhor pra fazer."

Ela levantou e foi até o centro da pirâmide. Suavemente empunhou sua katana e a desembainhou. Fechou os olhos, respirou fundo, e rapidamente cortou o ar, um corte vertical e veloz que fez o vento chorar. Inspirou mais uma vez e deu outro corte no ar. E assim repetidamente.

Era um treinamento que gostava de fazer, que clareava a mente e testava sua velocidade, dependendo do som que o vento fazia ao ser cortado. Com a mente em silêncio, Wanzo começou a sentir uma paz interior queimar em seu coração fazendo-a sorrir à toa. Ela abriu os olhos e olhou pro céu laranja. O dia já se acabava e o sol deixava apenas um rastro de sua existência na noite, iluminando as grossas nuvens com sua luz crepuscular que refletia vermelha e criava tons de laranja maravilhosos nelas.

Ela fechou os olhos de novo e se sentou. Respirava fundo e sentia como o ar fresco passava por sua garganta e entrava em seus pulmões, como se fundia em suas células e logo como se esvaía por suas narinas, e também sua fragrância pura e gélida. Ouvia o canto dos pássaros distantes, a dança constante das folhas, o movimento dos arbustos pelos animais curiosos. Sentia o vento tocar sua pele e trazer consigo uma sensação de tranquilidade total, e se mesclava com sua pele assim como a água o fez na cachoeira.

Pensamento algum passava por sua mente. Seus sentidos se complementavam completamente com o cenário, como se fossem um só. A samurai pouco a pouco perdia as sensações de seu corpo e logo a individualidade entre ela e o mundo começava a se dissipar.

Seu corpo já não estava. Tudo que estava era o vento, as árvores e suas folhas, os animais e suas famílias. Com os olhos fechados, a mulher podia ver toda a floresta. Todos os animais que já se preparavam pra dormir, outros que se preparavam pra caçar, todas as plantas, até Mogu que meditava em paz e a tribo que comia uma sopa de cogumelos em volta da fogueira enquanto comentavam sobre a misteriosa mulher que os visitou mais cedo. Ela viu a todos como se estivesse pertinho. De repente, sentiu a grande necessidade de abrir os olhos, uma sensação repentina que envolveu todo seu ser, e ela os abriu.

Estava num lugar vazio. Via tudo totalmente negro ao seu redor, e o chão de rochedo cinza opaco. Sentia seu corpo bem mais leve que o normal também. Olhou pra cima e viu a imensidão de estrelas que brilhavam intensas em feixes de luz. Inúmeras e incontáveis, ainda mais que quando vistas da floresta. Mas ainda mais impressionante, e até um pouco inacreditável, era o gigantesco globo que flutuava no espaço. Azul em sua maioria, com vários rastros brancos do que parecia ser fumaça estática, e alguns troços de verde escondidos. Wanzo observou com seus olhos arregalados.

"Não pode ser.." disse incrédula. "Aquela é a Terra?!"

Não podia negar que era uma vista impressionante e maravilhosa, mas ainda assim teve que beliscar a própria bochecha. Havia esquecido da cicatriz e se assustou, mas percebeu que não tinha nada na cara. "Será que isso é um sonho?" Se perguntou. Mas era estranho, pois se sentia mais lúcida que nunca! Uma clareza estranha, que até fazia parecer que ela havia acabado de despertar de um sonho, não entrado em um. Aquilo era mais real do que qualquer coisa que havia experiênciado, e ela se tocava pra ter certeza de que não estava louca. 

De repente, o ambiente fica pesado. A intuição aguçada de Wanzo começa a alarmar um perigo próximo, e ela se pôs atenta aos arredores. Não via nada na escuridão, estava completamente sozinha naquele lugar frio e isolado. A surpresa se deu quando olhou de novo pra cima na direção da Terra.

Uma colossalmente astronômica mão negra pouco a pouco cobria a Terra com seus dedos macabros e a segurava. Todo o azul da água e o branco das nuvens era absorvido, o verde também se ia como se nunca houvesse existido. Toda a cor é absorvida pela completa e absoluta escuridão daquela apoteósica mão negra. Sua própria presença distorcia o espaço tempo de forma que era difícil saber o que era. Antes que sólida ou gasosa, parecia ser feita de espaço puro. Uma escuridão onde a luz não conseguia habitar. A mulher sentia com agonia e as mãos no peito como cada célula de vida esvanecia do planeta como ar escapando de um balão, e não demorou para o planeta passar de uma bela esfera de água e vida para uma rocha cinzenta que flutuava no vazio do vácuo.

Wanzo caiu de joelhos no chão. Boquiabierta, não sabia nem o que expressar. Uma lágrima escorreu de seu rosto. Se algo podia ser chamado de fim, era aquilo.

Seu olhar acompanhou a mão e sua origem, e percebeu uma imensa região no espaço sideral onde estrelas não brilhavam. Uma escuridão dezenas de vezes mais grande que o planeta Terra, que se camuflava no vácuo silenciosamente, mas claramente existia, e agora que percebida, bloqueava quase que por completo o campo de visão da samurai.

Essa... coisa, acabou notando a presença de Wanzo que lamentava a destruição de seu planeta ajoelhada no chão da lua. Sem esforço, o vazio percorre a imensa distância até ali. A escuridão cabal distorcia completamente a realidade e enchia a mente de Wanzo de desespero.

Ela percebeu duas esferas que – quase impossívelmente – eram ainda mais negras que a escuridão. Eram uma singularidade caótica de trevas de onde toda a escuridão era gerada, e essas esferas eram direcionadas para a mulher, que se sentia observada.

"I-isso são olhos?" Ela se perguntou com dificuldade. Era a primeira vez que sentia uma sensação de terror tão fundamental em suas entranhas. "Quem é você.. o que é você.. maldito shinigami!!!" Ela grita com todo o ar de seus pulmões. Realmente, Deus da Morte seria uma descrição poética para o que era aquela existência.

Wanzo se levantou, secando as lágrimas com a manga do kimono, e encarou aquelas esferas de nada com toda a coragem que conseguiu invocar. Lentamente levou a mão direita até a cintura e foi buscar a empunhadura de sua espada. Para sua surpresa total, ela não estava ali. "Qu-"

Seu semblante agora era desespero total.

"Minha katana." Ela olhava para o chão freneticamente, buscando sua espada. "Minha katana." Tocava a cintura, como se não conseguisse acreditar. "Minha katana. Minha katana." Era a primeira vez desde sua infância que não tinha sua katana por perto. Desde que lhe foi dada de herança por sua mãe em seu leito de morte. "Minha katana. Minha katana... MINHA KATANA!!!" Ela gritou alto enquanto seu olhar se desviava sem querer aos céus, e via a abismal mão negra descer em sua direção. O céu já não existia, apenas escuridão. E os arregalados olhos ansiosos de Wanzo apenas observavam ela se aproximar. Felizmente, sem relutância e nos últimos segundos, ela conseguiu aceitar.

Aquele era o fim.

~ ⚖️ ~

E abriu os olhos.

Estava sentada de pernas cruzadas no topo da pirâmide. Não havia saído dali nem por um momento.

Sua testa suava frio, e ela apenas respirou por uns momentos tentando processar a informação. Apertou forte a bainha de sua espada que descansava ao seu lado, mais forte do que nunca.

"O que foi isso?" Se perguntou, colocando a mão na testa. "Será que foi o cogumelo?" Ela olhou ao se redor e viu que ali estava Mogu. O grande espírito a observou calmamente enquanto ela despertava de seu estado meditativo profundo, e ao vê-la confusa – e um pouco ansiosa – acariciou seu rosto suavemente com as costas da mão macia. "Obrigada, Mogu," ela se acalmava instantaneamente. "Vamos embora daqui, por favor."

Ele concordou, a pôs tranquilamente em seu ombro, e se foram dali.

Wanzo não sabia, mas naquela noite, todos os que alcançaram um estado de consciência elevado tiveram a mesma visão. A visão do fim do universoA decadência de todas as coisas causadas por uma existência desconhecida, apenas apocalíptica. Um futuro perdido, que rezo para que não chegue. 

Infelizmente, rezar não é o suficiente – apesar de bastante eficiente. Wanzo uma hora ou outra perceberia que essa premonição, mais real que sua própria realidade, se apresentou à ela por um motivo.

Isso é uma oportunidade que posso aproveitar. De fato, ter a mestre samurai do nosso lado seria um grande reforço para a proteção da ordem e a harmonia universal.

Ela apenas precisa notar.

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