Wanzo - II
O sol nascia ascendente, mesmo longe da terra do sol nascente. A forte brisa oceânica batia contra as pequenas e frágeis velas da modesta barca de madeira que levava nossa mestre samurai ao seu destino desconhecido. Quando o primeiro raio de sol diurno aclarou seus olhos fechados, ela os abriu, se espreguiçou e sentou sobre uns panos sobre os quais havia dormido os últimos dias. Sua barriga roncava de fome, estava racionando a pouca comida que tinha já que não sabia quanto tempo mais tardaria para chegar onde quer que fosse. Já fazia quase uma semana que estava à deriva, e sinceramente não pensou que demoraria tanto para encontrar alguma ilha. Felizmente, enquanto esfregava os olhos, olhou para o horizonte, e conseguiu ver uma imensa árvore que surpreendentemente chegava até as nuvens, e o satisfatório sentimento de aproximar-se à terra firme inundou seu corpo.
Wanzo observava a imensa árvore e estranhou, pois via suas imensas folhagens e a extensão de seu colossal tronco, mas não enxergava a floresta a que pertencia. Apenas com o passar de algumas horas navegando naquela direção, conseguiu enxergar o resto das árvores, e logo a ilha sobre a qual emergia todo aquele magnífico verde. De longe, percebeu a magnitude daquela floresta e ficou impressionada, não se comparava com nada que havia visto em sua pequena ilha natal, e não conseguiu manter o sorriso fora do rosto.
Enquanto contemplava aquela descomunal árvore e sua floresta, percebeu navegar ao longe um grande navio francês, que rumava à mesma direção que ela. Se impressionou também com o tamanho do navio, pois haviam bem poucos em sua terra natal, e ver um daquele tamanho foi seu primeiro contato com uma diferença tecnológica tão grande.
Naquela época, o início do século XVII, a exploração europeia sobre outros continentes que começou no século anterior já estava dando seus frutos e a economia ocidental floresceu rapidamente com as riquezas que vinham da exploração das Américas, mas ainda havia um lugar que era intocável para qualquer império ou civilização, mas ao mesmo tempo sublime e ostentoso em recursos: a mítica Floresta de Mogu.
O reino absolutista francês na época era extremamente poderoso e influente no continente europeu, sendo assim, era um dos poucos governos que ainda não havia desistido de colonizar a grande floresta. Contudo, esta seria sua última expedição e tentativa. O rei Louis XIV, ao ouvir e sentir na pele as lendas sobre o esplêndido e devastador Espírito de Mogu, decidiu investir uma grande fortuna para trazer de um longínquo país asiático Khan Yi, um lendário mercenário arqueiro que dizem ter herdado dos deuses habilidades de caça e arqueria perfeitas. Sua fama como arqueiro chegou tão longe que outros países começaram a contratá-lo como mercenário para lutar em seus conflitos e comandar as frotas de arqueiros e artilharia de seus exércitos, sempre dizimando os adversários com estratégias inovadoras e habilidades de arco únicas e precisas. O preço exorbitante de seus serviços era o único que o impedia de lutar em todas as guerras da época.
Khan Yi percebeu de longe – quilômetros de distância – o pequeno barquinho de madeira que viajava entre a névoa e que se dirigia na mesma direção que ele. Também viu a espada de formato estranho e curvado na cintura da pessoa que viajava, e sorriu calado. Impressionou-se, no entanto, ao perceber que essa pessoa o encarava assim como ele a ela. Talvez fosse só impressão, pois naquela distância e baixa visibilidade, ninguém além dele poderia enxergar, pensou e virou o rosto.
"Um arqueiro e um exército, é?" Suspirou Wanzo. "Espero que a coisa não fique feia. Manchar de sangue meu primeiro dia em terra firme fora do Japão me traria má-sorte."
Algumas horas passaram e o barquinho de Wanzo finalmente chegou na ilha e em uma rama dali ela o amarrou. Pegou sua trouxa de roupas e mantimentos e dali tirou uma maçã, desembarcou com suas coisas e se espreguiçou ao pisar na terra firme. "Finalmente terra!" Desabafou em pensamentos, já cansada da instabilidade do barquinho navegando pelas ondas do oceano, depois de uma semana à deriva.
Olhou ao seu redor e não viu mais que as largas e grossas raízes da árvore maiores que ela mesma, tanto que emergiam do subsolo que não as aguentava, e davam luz às imensas barreiras naturais que bloqueavam toda sua visão. Ficou impressionada com o tamanho delas, e agora entendia o porque de ter demorado tanto pra chegar após tê-las avistado. "Então aquela árvore gigante deve ser muito, mas muito maior do que imaginei," pensou, "decidida a primeira parada. Adeus, monotonia! " Ela riu consigo mesma enquanto começava a adentrar a floresta com passos ansiosos.
Realmente era um lugar lindo. Mirava as plantas imensas que brotavam de todos os cantos, as belíssimas flores de todas as cores, algumas até que nunca havia visto. Os belos animais, das mais variadas espécies, como pássaros com as penas coloridas com todas as cores do arco-íris, macacos imensos com uma mão na ponta da cauda – usada com extrema precisão para segurar-se nos galhos – e alguns até estranhos, como insetos do tamanho de sua mão que a deixavam desconfortável. Ela se sentia como em uma terra de fantasia, admirada com as maravilhas naturais daquele lugar e a magnitude de tudo dali. Era como uma anã em uma terra de gigantes, e quase se sentia confortável assim, considerando que era a samurai mais procurada e contestada de sua terra, o que pode fazer o ego de um subir à cabeça, convenhamos. Acabou chegando em uma imensa e grossa árvore, bastante maior em escala que as que a cercavam. "É essa?" Se perguntou e olhou para cima. "Não, essa não alcança as nuvens."
Apesar de fazer já algumas horas desde que estava caminhando, não havia se cansado – principalmente depois da longa viagem – mas quis parar um pouco ali naquele lugar e contemplá-lo, até porque aquela era a árvore mais grande que já havia visto pessoalmente em sua vida. Resolveu a escalar e o fez, deixando ali encostadas suas coisas – menos é claro sua preciosa katana – e subiu pouco a pouco pelo abissal tronco, até chegar num primeiro corpulento galho e começar a saltar de um ao outro, até chegar na copa.
Ao pisar num dos mais altos galhos, um vento forte soprou em seu rosto ao mesmo tempo que deu de cara com a vista dali de cima, conseguindo enxergar toda a imensa floresta, as árvores abaixo que do chão eram enormes, ali pareciam miniatura, e como a em que estava haviam muitas outras. Muitas aves voavam por ali, aves belíssimas e algumas até monstruosas em tamanho. Também enxergou, como não, Gaia; a árvore-mãe daquela mística floresta, cujas folhagens mais altas chegavam a tocar as nuvens. Ali resolveu se sentar, escorando as costas no tronco da árvore, e ao observar por um bom tempo a bela paisagem dali, acabou cochilando.
Não demorou muito para acordar, em cima com um sentimento de paz interior muito prazeroso. Se espreguiçou e baixou da árvore de galho em galho, até chegar no chão. Olhou para trás e viu o massivo tronco, uma pequena parte sua já cobria todo seu campo de visão, e se lembrou por algum motivo do palácio do shogun que havia cortado em dois.
Aquele tronco com certeza era muito maior e mais resistente que o palácio, e um pensamento cruzou sua mente: "será que consigo cortá-la?" Um vento forte soprou e um silêncio estranho assomou o lugar. Ela se virou na direção da árvore, respirou fundo, e quando foi aproximar a mão da empunhadura da espada, um estrondoso barulho foi escutado. Um rugido ensurdecedor que fez o vento soprar cortante e os tímpanos vibrarem. A terra começou a tremer enquanto um estouraz ruído acompanhava cada um dos tremores, e vinham em sua direção. Wanzo se alarmou e focou sua atenção na direção em que vinham os estrondos, e não demorou para que chegasse sua origem.
Primeiro a gigante mão esmeralda que apoiava em uma das árvores como se fosse um poste. Logo o ameaçador rosto e o colossal corpo translúcido do imensurável Espírito de Mogu. Ela se chocou completamente sem palavras nem reação ao mirar aquela criatura homérica; um imenso gorila que competia em tamanho com as grandes árvores dali, com o corpo transparente como fumaça e verde como água do oceano. Infelizmente, sentiu a intenção assassina e a bela criatura mais se assemelhava a um monstro, que rugiu forte e saltou rápido na sua direção. Rapidamente, ela apoiou os pés na árvore e com um impulso saiu da trajetória da criatura que caiu com os colossais braços onde ela estava, causando um rotumboso estrondo que pôde ser ouvido em toda a floresta.
"Se eu fosse pega nisso, não sobraria nem os ossos!" Acercou a mão à empunhadura da espada, esperando a próxima investida do grande espírito gorila, mas logo após encará-la ele girou rapidamente a cabeça, como se distraído por algo, e saiu disparado dali. "Como assim?!" Pensou ela, e sem pensar duas vezes, começou a seguir o monstro. "Não vai escapar!"
Ela quase perdia o equilíbrio com cada passo da arrancada do grande espírito graças ao impacto causado por cada impulso dele, sem nem contar que quase não conseguia acompanhá-lo tamanha velocidade, já que também usava seus copiosos braços para agarrar-se nas árvores e propulsionar-se ainda mais. Não demorou para ela começar a perder a criatura de vista e ter que apoiar-se nos troncos para impulsionar-se também, saltando por entre os grossos galhos das árvores.
Ainda que era extremamente rápida – e se orgulhava de sua velocidade – perdeu o espírito de Mogu de vista em alguns minutos. Subiu na copa de uma das árvores para tentar buscar o gigante gorila, e alguns instantes depois, outro intenso rugido foi proferido e causou tremores tanto no chão como nas folhagens das árvores, o que quase a fez perder o equilíbrio.
Logo, gritos. Muitos gritos de desespero e terror. Ela saltou à uma das ramas mais próximas e sorriu ao dar-se de cara com o mesmo exército que havia visto antes no navio sendo massacrado pelo imenso monstro. Uma patada horizontal era suficiente pra matar dezenas, cujos corpos voavam pelos ares como se fossem bonecos de pano. Olhou ao redor e viu uma grande fogueira, que acenderam eles já que estava quase escurecendo. "O monstro veio por mim no momento em que decidi cortar a árvore," refletiu, "e deve ter atacado eles pela fogueira. Será que é o espírito protetor desse lugar?" Se perguntou.
E de fato era. Mogu tinha uma conexão tão forte com aquela floresta, que sentia em sua alma qualquer intenção maligna que fosse causada ao lugar, através da consciência coletiva da floresta e os seres que ali habitavam, e com os quais ele era profundamente conectado. Por isso antes mesmo dela sacar sua espada da bainha, ele já foi em sua direção.
É curioso, as plantas compartem uma consciência coletiva entre elas e sentem – e expressam através de seu campo magnético – o sofrimento que sentem, mas ainda mais interessante é sentirem isso momentos antes da fatalidade ocorrer, como se prevessem de alguma forma a hostilidade direcionada à elas. Essa premonição é algo que todos os seres conscientes – e tudo é consciente – possuem, e também explica muitos comportamentos intuitivos do ser humano, mas isso é assunto pra outro dia.
Os soldados do exército francês estavam preparados psicologicamente para enfrentar o monstro, e foram prometidos grandes fortunas e terras também, mas viver na pele aquela situação desesperadora era outra história. Os que tentavam revidar eram esmagados como formigas ou arremessados como projéteis nos próprios companheiros. Canhões estouraram e as balas atravessaram o corpo do avatar como se fosse água. Tudo enquanto as ferozes e impiedosas patadas arrasavam pouco a pouco o número e a moral dos soldados.
"Que animal mais impressionante," comentou pra si mesma Wanzo, "se ele for intocável mesmo, talvez nem eu seja capaz de cortá-lo.." pensou curiosa por um segundo, sentindo até certa tentação. "Não, seria imprudente atacá-lo, considerando que é o espírito protetor dessa floresta. E também, pra que enviariam um exército pra cá?" Desde seu incidente com o shogunato, Wanzo estava particularmente desiludida com governos e militares. "Com certeza por algum motivo podrido."
De repente, uma flecha com um papel preso na ponta traseira caiu suavemente no olho do Espírito de Mogu, e afundou para dentro de seu corpo. Os caracteres do papel brilharam e explodiu dentro da cabeça do monstro, fazendo ele perder o balanço e cair para trás.
"Agora, ataquem!" Gritou a voz forte que vinha do lendário arqueiro Khan Yi que disparava de cima de um cavalo, e a artilharia do exército, consistida de arcos e rifles flintlock, começaram a disparar em massa contra o avatar. Canhões soavam mais uma vez e as bolas agora explodiam dentro de seu corpo, causando uma vibração estranha em sua anatomia. O redor do espírito se cobria em fumaça e ele grunhia.
Wanzo, sem pensar duas vezes, saltou da árvore e com um impulso caiu sobre um canhoneiro pronto para disparar, e cortou com um rápido movimento todos os canhões cercanos e seus respectivos donos.
"Q-quem é você?!" Perguntou um soldado assustado que ela não entendeu.
Nem ela mesma sabia o porque de ter ajudado o avatar de Mogu, foi inteiramente guiada pela intuição e o instinto, coisa que era bem difícil, já que era bastante racional em suas ações. "Wanzo é meu nome," proferiu e velozmente cortou o homem em dois.
Ouviu um estouro mais suave e ligeiro que um canhão, um disparo rápido vindo de sua esquerda. Seus reflexos desumanos e alta velocidade de saque fizeram ela conseguir sacar pouco da espada da bainha a tempo e bloquear a bala que vinha na direção de sua cabeça. "Uma arma de fogo?!" Logo se deu conta, todos os soldados a apontavam suas pistolas flintlock, a tecnologia de barril da época recém criada a mando do rei Louis XIV; coisa que ela não estava nem um pouco acostumada, vinda de uma terra de samurais dominada por armas brancas. "E todos eles as utilizam? É em cada uma que me meto por subestimar os outros.." ela pensava enquanto desesperadamente procurava uma saída daquela situação e um arrepio subia pela sua espinha, até ouvir a ordem logo após: "FOGO!"
Ela rápidamente cruzou os pés e desembainhou sua espada, e os disparos foram escutados, dezenas em sua direção. Enquanto isso, girava com agilidade os pés, o tronco e o corpo todo, a bainha e a katana, em um corte giratório tão veloz e potente que o ar ao seu redor se dispersou como um vendaval, que defletiu a trajetória das balas todas, até acertando alguns soldados no processo, e livrando-a do perigo enquanto ela respirava ofegantemente e os soldados a miravam estupefactos.
Seu coração batia rápido e seu sangue fervia como nunca, em um estado de adrenalina pura após ter escapado da morte certa mais uma vez. E então ela se lembra. Aquele sentimento, aquela euforia, a excitação que só uma situação como aquela poderia oferecer.. naquele exato momento, ela existia além de si mesma. A batalha era sua forma máxima de expressão, de se sentir viva. E um sorriso psicótico foi esboçado em sua boca.
Ela saltou fugazmente para o lado e após dar uns giros no ar, caiu cortando ao meio um dos infelizes soldados. Sem desperdiçar um movimento, ela girou outra vez e cortou outro detrás, enquanto movia o pulso para trás e encaixava outro movimento horizontal que decapitou dois soldados mais. Seus pés e mãos e pernas e braços se moviam em harmonia total ao ponto de seus movimentos parecerem uma dança, onde cada passo trazia uma morte. E o cheiro e cor de sangue rapidamente começaram a impregnar o lugar. Infelizmente para os soldados, recarregar uma flintlock demorava um pouco por ter de limpar seu cano, e nesse pouco tempo dezenas já estavam mortos, e o terror se dissipava enquanto Wanzo pulava alto e caía cravando sua katana em outro militar, e de aí emendava um uma sequência de giros que dilacerava todos ao seu redor.
Mesmo com o terror dominando seus nervos, alguns soldados já conseguiam recarregar as flintlocks, e ao se dar conta, Wanzo riu. Ela deslizou ágilmente para sua esquerda e acertou com sua bainha em um dos soldados, que foi lançado pra cima de outros três e perderam o equilíbrio todos.
"Ougi: Chi no Ame." Ela proferiu e cortou a cabeça de todos eles em um único movimento horizontal extremamente limpo, que fez espirrar violentamente sangue de todos seus pescoços e criar literalmente uma chuva de sangue – como diz o nome da técnica – que além de esconder ela dos atiradores, os desesperou ainda mais.
Ela ria freneticamente enquanto corria por entre as gotas de sangue que eram cortadas pelo afiado fio de sua katana que dilacerava seus inimigos em movimentos ligeiros e mortais. Os tiros eram abafados pelos chuvascos carmín, mas ela os escutava e desviava ao escutar o ruído. Usou o próprio resbaladiço do sangue para deslizar na direção onde mais soldados haviam, e cortá-los todos ao meio com um limpo corte nivelado, e com um corte vertical separar os corpos e gerar ainda mais sangue para camuflar-se e horror na moral de seus inimigos. Não é a toa que, em sua última batalha, ganhou a alcunha de Lâmina Escarlate.
Em meio à chacina, a torrente de sangue e as risadas psicopáticas, ela percebeu entrar em seu campo de visão um projétil extremamente rápido que atravessou seu rosto e rasgou sua bochecha esquerda, isso porque conseguiu desviar a cabeça de leve para o lado, graças aos seus reflexos sobrehumanos. Era uma flecha, cujo atirador fugia em cavalo junto com suas tropas, e a encarava como quem a desafiasse. Era Khan Yi.
"Aquele arqueiro!" Ela já não ria mais. Sentia seu rosto arder, mas não podia diferenciar seu sangue do dos outros. Ao tocar sua bochecha, percebeu que o ferimento era tão profundo que encostava em seus dentes com os dedos. "Isso vai deixar cicatriz. Que bom que consegui desviar."
Antes mesmo dela começar a correr atrás dele, um forte impacto foi escutado de trás sua, e o grande Espírito de Mogu se levantava mais uma vez em todo seu esplendor, e batia repetidamente em seu próprio peito e rugia alto, tanto que se escutava desde fora da floresta e fazia a mesma tremer. Os poucos soldados que restavam começaram a fugir desesperadamente por suas vidas, não tinham chance alguma contra o monstro mais a espadachim misteriosa. Estranhamente, Mogu não foi atrás de nenhum. Ao perceber sua falta de hostilidade e que se dirigiam para fora da floresta, os deixou ir, e Wanzo ao perceber, fez o mesmo.
Em poucos instantes, estavam ali sozinhos o gigante gorila e a samurai, entre uma imensa poça de sangue e dezenas de corpos despedaçados ou esmagados. Após inspirar e expirar, ela se aproximou do imenso avatar, não sentia nenhuma hostilidade vindo dele, e continuou. Parou na sua frente, tendo que levantar a cabeça bruscamente para poder vê-lo por inteiro, como se visse um prédio desde baixo, e dali o encarou para ver sua reação.
A criatura a observou, percebeu que era a mesma pessoa de antes, mas reconhecia que ela o havia ajudado. Abaixou seu colossal rosto até o chão, e a encarou olho a olho. Wanzo se impressionou com seus olhos, aquela imensa face translúcida e esmeralda que a encarava com seus profundos e belos olhos, e respirava suavemente, transmitindo até certa sensação de paz, completamente diferente de antes. O gorila levou um de seus imensos dedos até o rosto dela, o que a assustou por um segundo, e afagou gentilmente seu profundo ferimento.
Ela sentiu uma sensação fria como se fosse água, mas também calma, pois aquele toque tranquilizou sua dor de forma mística. Encarando aqueles magnânimos e luminosos olhos, sentiu uma conexão ser criada ali mesmo, como se pudesse sentir junto com ele as emoções do grande espírito. E eram elas gratidão, pacifismo, interesse e preocupação pela mulher que arriscou sua vida por ele. Foi um contato extremamente marcante, e Wanzo sentiu que todos aqueles dias à deriva valeram a pena.
~ ⚔️ ~
O grande espírito voltou para seu lugar de repouso, antes gestuando para que a samurai o seguisse. Apesar da dor ter calmado, o ferimento em seu rosto era demasiado profundo e necessitava ser tratado com urgência. Em quase meia hora de caminhada chegaram eles na árvore central do bloco florestal onde costumava descansar Mogu.
Ele gestuou para ela sentar-se – o que ela fez, escorando-se no tronco da grande árvore para descansar – e foi até um específico arbusto, baixou a cabeça e arrancou um pequeno galho. Voltou até a árvore e o jogou perto de Wanzo. Era um galho cheio de grandes folhas ásperas, que emitiam um cheiro bem forte e ácido. "Pegar planta, esfregar na cara," gestuou o gorila com as mãos. A samurai riu ao ver a criatura esmeralda colossal esfregando as mãos na cara, enquanto pegava o galho e se curvava em agradecimento. Arrancou suas folhas e as pousou sobre o ferimento, que ardeu como nada que já havia sentido, e ela grunhou enquanto colocava mais.
"Muito obrigada," ela se curvou de novo. "Eu sou Wanzo," disse enquanto apontava para si mesma. "Wan-zo," repetiu lenta.
O grande espírito se curvou em respeito, e apontou para uma pedra, a qual ela se aproximou e leu um inscrito. "Não sei o que diz," disse desapontada, já era uma língua milenar naquela época. "Bom, logo aprenderei seu nome de alguma forma, estou segura," e sorriu para o avatar.
Ali eles pararam para comer e descansar, tempo que Wanzo aproveitou para acariciar e abraçar a criatura, sentir sua estranha pele, como uma camada liquosa, que mesmo podendo ser atravessada era firme e equilibrada. Como amava animais, se sentia na glória total, e o próprio espírito de Mogu também desfrutou dos momentos de carinho.
Logo, ele se levantou e a pediu que o acompanhara. A samurai o fez e eles foram de caminho. Ela era a primeira pessoa em séculos que aparecia ali e o ajudava daquela forma, então o grande espírito decidiu que poderia levá-la lá. Mais algumas horas caminhando e chegaram, tempo suficiente para que a ferida de Wanzo já não doesse mais graças à planta – o que a surpreendeu. Ao terminar a volta por uma árvore que bloqueava sua visão, se deparou com uma esplendorosa pirâmide. A pirâmide de Buda.
Não chegava a ser tão grande quanto o avatar de Mogu, muito menos as imensas árvores dali, mas ainda assim era uma vista bela e impressionante. O musgo verde cobria os extremos da pirâmide e destacava ainda mais seus três andares bem distinguidos, e linhas decorativas roxas assinalavam os degrais de pedra da escada que levava até o topo, que estranhamente, não tinha ponta e era plano. Os raios de sol refletiam nas partes lisas, perfeitamente talhadas e polidas do que parecia ser rocha, e criavam um bonito efeito para os olhos do observador. Uma sensação de paz e quietude emanava daquele lugar, muito mais que qualquer outra parte da aparentemente hostil floresta. Era como se ali se pudesse sentir fisicamente uma energia positiva na atmosfera.
Wanzo se sentiu maravilhada com a visão e o sentimento de calma e aventura que a acolheu. "Você quer que eu entre aí?" Perguntou ao grande espírito, que respondeu acenando com a cabeça. Ela caminhou até chegar na pirâmide, sentindo o vento soprar forte e o pacífico sentimento que a fazia sorrir só de olhar a paisagem. Ela chegou nos primeiros degrais e os subiu, observando com atenção todos os detalhes daquele monumento cheio de símbolos e caracteres desconhecidos para ela. Demorou pouco pra chegar no topo e não encontrou nada, apenas um grande símbolo no chão, composto de vários círculos um dentro do outro, formando um belo padrão. Deu a volta por toda a extensão do topo, observou um pouco dos arredores da pirâmide e a paisagem, mas não passava de um belo lugar vazio.
Após um tempo de procura, ela desceu as escadas e caminhou na direção do espírito, "não encontrei nada lá em cima não," lhe disse até um pouco confusa, e o grande espírito gorila apenas suspirou baixinho. Eles voltaram com passos lentos para o lugar de descanso, e até chegarem já havia dado tempo de escurecer. Se deitaram juntos ali, Wanzo apoiada no rosto do avatar, que era extremamente fofo e bom de dormir, e descansaram o que puderam.
~ ✡️ ~
Wanzo acordou bruscamente com um fortíssimo rugido e o grande avatar gorila saindo disparado dali. Assustada, percebeu que já estava quase amanhecendo, e imaginou que a floresta devia estar sob algum tipo de perigo, que provavelmente o mesmo exército de antes. Deu uns tapinhas na cara pra despertar, pegou sua katana e saiu correndo na mesma direção que o espírito.
Já havia desistido de alcançá-lo, pois sabia que ouviria sua voz logo e se guiaria por ela. Dito e feito, e em alguns minutos ela se deparava com o borde da floresta, que estava mais perto naquela direção em que foram, leste, e mais um campo de batalha. Algumas das árvores estavam em chamas, e os soldados tentavam espalhar o fogo, enquanto outros distraíam – e morriam no intento – o Espírito de Mogu.
Ao longe, já nos arredores da floresta, ela via se acercar uma tropa de canhões. "Não acho que bolas de canhão fariam dano à criatura, mas explodir dentro de seu corpo causou uma reação.." Pensou Wanzo, enquanto dava um impulso e corria silenciosamente na direção do pelotão.
Ao chegar perto, percebeu um grupo de soldados camuflados deitados, "eles prepararam uma armadilha?" E saltou para o lado enquanto via os tiros passarem raspando, mas ainda no ar, sentiu seu braço esquerdo ser perfurado. "Merda, agora o arqueiro está com eles! Tudo deve ter sido estratégia dele, até o incêndio.." pensou a samurai enquanto pousava no chão e avançava rapidamente na direção dos soldados que recarregavam suas armas. Com um forte impulso, já estava sobre seus corpos deitados, a posição perfeita para serem decapitados, tudo tão rápido que chegou a assustar os canhoneiros que vinham de trás, que só viram feixes de sangue saindo do chão.
Wanzo furtivamente se aproximou deles, e ao perceber outra flecha em sua direção – agora mais atenta – usou um dos soldados como escudo. Percebeu a direção na qual estava Khan Yi, e ele sabia disso, teria que aproveitar melhor seus disparos ou jogaria com a vida.
A samurai aproveitou o momento de hesitação para mutilar todos os canhoneiros e seus canhões, com poucos cortes ligeiros e limpos. Ela saiu correndo na direção da flecha anterior, atenta para qualquer outro disparo; apesar da grande maioria do exército estar lutando contra o gigantesco gorila, ainda haviam muitos soldados ali. Melhor assim, mais divertido. Ela já havia se acostumado com os disparos de rifle flintlock, pelo seu barulho característico e o movimento do ar.
Com um ligeiro jogo de pés e extrema flexibilidade, ela deslizava pela grama e agachava, saltava, dilacerava dois soldados, corria, desviava outros tiros, avançava, cortava uma flecha ao meio, cortava um militar ao meio, e assim ia diminuindo a distância até uma zona cheia de arbustos e algumas árvores – que pareciam miniatura comparadas com as da Floresta de Mogu – e era ali que o arqueiro lendário se escondia. Os soldados já nem se aproximavam dela, pois era ir de abraços para a morte certa, sentiam. "Aquela mulher é um demônio!" Pensavam.
Wanzo sentiu e ouviu um disparo bem a sua frente, desembainhou rapidamente sua katana e a cortou a flecha ao meio perfeitamente, mas para sua surpresa, uma segunda vinha na mesma trajetória, logo atrás dela, sendo escondida pela primeira. Com os braços abertos após o corte, ela só conseguiu dobrar um pouco o corpo, e a flecha que perfuraria seu coração, perfurou seu ombro esquerdo, poucos centímetros de distância do mesmo.
"Merda!" A flecha cravada em seu ombro bloqueava seus movimentos com o braço esquerdo, e ela guarda a bainha na cintura outra vez – com seu estilo a usa como bastão com a mão esquerda, e a espada com a direita – e saiu correndo outra vez, antes de ouvir mais tiros dos soldados que aproveitaram seu ferimento, mas erraram todos quando ela se foi.
Mais duas flechas, agora ela se agacha completamente, e desvia das duas, mas outra cai suave e potente nas suas costas, e crava entre duas costelas. "Agh!" Ela grita de dor. "Ele atirou para cima sabendo onde eu estaria?" Se surpreendeu com a capacidade de análise do arqueiro, e até o admirou por um momento, mas tinha que acabar com isso logo ou a coisa poderia piorar pro seu lado.
Aproveitando a posição agachada, deu um forte impulso para a diagonal, e voltou a correr na direção das árvores. Já havia corrido quilômetros desde que a batalha começou, e não faltava quase nada para chegar, até conseguia ver a silhueta do arqueiro por entre as árvores. Ele disparou duas flechas e se escondeu atrás da árvore, mas rapidamente reapareceu do outro lado e atirou duas mais. Wanzo cortou as duas primeiras e desviou das últimas, dando também um pequeno salto instintivamente. De relance com o canto dos olhos viu no chão diversas armadilhas. "Sabia que queria me distrair com esse segundo disparo," ela riu, "agora é minha vez!"
Ainda no ar, ela segura a katana como uma lança, o que surpreende o arqueiro, e a arremessa com força num ângulo alto e aberto. O arqueiro hesita em tirar os olhos dela, mas precisa saber em que direção e velocidade estava vindo a espada. Com um olhar de relance ele viu, mas foi deslumbrado pelo sol que brilhava intensamente por entre a névoa bem na direção dos seus olhos. Ele se recupera rápido, e sabia onde cairia a espada – ao seu lado, sem perigo – mas foi o bastante para perder a mulher de vista.
Ele se desesperou, se jogou pra trás, e foi surpreendido pela sombra da samurai que bloqueou o sol em sua cara – chegou ali mais rápido do que ele esperava – e a viu enquanto girava, pegava a espada que caía ao mesmo tempo ali do lado ainda no ar, e aproveitando o mesmo giro, cortava fora toda a parte direita de seu corpo. Braço, perna e tronco até o ombro. "Ougi: Karadagari," suspirou. O lendário arqueiro caiu ofegante no chão, e sentiu todo o peso da samurai que caiu sobre ele e o encarava com uma sádica expressão e um olhar psicótico na mirada.
"Então é você, Wanzo da Lâmina Escarlate," ele disse em japonês, "ouvi rumores de você pouco após seu exílio. Sabia que era um monstro, mas não tanto," e riu enquanto sangue jorrava de sua boca e sua vida quase se esvaía com cada palavra.
"E você como se chama?" Ela perguntou enquanto segurava a lâmina de sua katana e pressionava contra o pescoço dele, e sangrava.
"Khan Yi."
"Foi uma boa batalha, Khan Yi." Ela disse enquanto com a outra mão acariciava as folhas que cobriam seu profundo ferimento no rosto. "Essa cicatriz será prova disso. Últimas palavras?"
"Nenhuma. Apenas uma dúvida.. por que você se aliou ao Espírito de Mogu?"
"Mogu…" o nome ecoou na cabeça dela, qualquer intenção assassina havia desaparecido instantaneamente e qualquer pensamento ou emoção sobre a batalha também. "Então esse é seu nome." Ela apenas alegrou-se de saber como se chamava a criatura que tanto a cativou, e com quem já havia criado uma relação mais bonita que a de quase todas as pessoas que passaram por sua vida miserável. Sem pensamentos agressivos, ela levantou enquanto cortava sutilmente a garganta do arqueiro, para que morrera em paz; cortou o ar para limpar sua katana, a guardou em sua bainha e se foi dali, de encontro com Mogu.
No meio do caminho, ela ouviu um último forte rugido e fortes impactos ecoarem pelo ar. Apurou o passo, passando por centenas de corpos estraçalhados, esmagados e quebrados das maneiras mais grotescas. Em pouco, se deparou com a criatura que batia forte e rítmicamente em seu próprio peito, declarando mais uma vitória contra os inimigos da floresta. Ele percebeu a presença dela e parou, se curvou um pouco e a observou.
Ela se aproximou dele calmamente, meio ofegante de tanto correr e doendo e sangrando por seus novos ferimentos. Parou perto dele, o mirou nos olhos, e se curvou o que fez doer extremamente suas costelas, mas ela aguentou enquanto dizia: "prazer em conhecê-lo, Mogu!" E sorriu para ele.
O gorila sorriu de volta, e a carregou nos ombros até a floresta.
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