Mogu - I
A história de hoje se passa no quarto milênio antes de Cristo, entre os anos 3000 e 4000 a.C; quando os bosques ainda eram cheios de vida — tanto animal quanto tribal — e a sociedade era mais simples e naturalista.
África, o berço da humanidade, continente de reis e conquistadores, deuses e lendas, mitos e origens. Em uma época tão mítica e culturalmente rica, a existência de criaturas extraordinárias não é tão inesperada, e milhares de contos, rumores e lendas circulavam em diversas línguas anciãs; muitas, infelizmente, esquecidas — outra vantagem maravilhosa da onisciência — mas todas sem dúvida incríveis.
Poderia passar boa parte da eternidade vagando pelas páginas da história desse grande continente, mas focarei a narrativa em uma das florestas mais antigas daquele lugar lotado de vida, e que viria a ser um dos lugares mais importantes do planeta no futuro. Na antiga floresta de Kakamenya, conhecemos Mogu.
Mogu é um gorila, filho do macho alfa do bando, com a responsabilidade de proteger todos outros. Mogu desde filhote desenvolvia suas características de liderança, e seu carisma entre os da sua espécie era como nunca antes visto. Com os anos foi se tornando um grande líder para o bando, por fim sucedendo seu pai como o gorila alfa.
A responsabilidade era grande, mas Mogu estava preparado. Era o maior e mais forte adulto do bando e defendeu inúmeras vezes seus protegidos de tribos indígenas vendedoras de pele e, mais recentemente, exploradores asiáticos acompanhados de caçadores.
As cicatrizes acumulavam no corpo de Mogu e junto com elas, sua reputação como a "besta devastadora" que com cada dia passado se tornava mais renomada. E não apenas entre os humanos, que temiam adentrar seu território, mas também entre outros gorilas que estavam sendo caçados sem escrúpulos e migravam em busca de ajuda e socorro.
Mogu foi o primeiro líder animal a juntar diversas tribos de uma espécie selvagem em uma só, unificando diversos bandos — alguns antes inimigos — com a intenção de proteger seus irmãos. Todos se protegiam nas costas do grande gorila Mogu; todos o respeitavam e todos o temiam.
As décadas passaram e a expansão asiática continuou, e com ela surgiu uma nova ameaça: o mercado negro. Todas as noites um gorila do bando era abduzido de maneira desconhecida sem nenhum outro perceber. Os filhotes e as fêmeas tinham prioridade por serem mais leves e fáceis de carregar pelas tropas misteriosas que vagavam pelas sombras. Para Mogu, um inimigo invisível e cauteloso era muito mais perigoso que um inimigo guerreiro e poderoso.
Os sequestros cessaram por alguns dias, mas em uma fatídica noite... a atmosfera tinha um ar diferente, e Mogu podia sentir. A chuva trazia o mal presságio e seus instintos o alertavam de que a noite seria perigosa, mas o macho alfa estava preparado. Junto de outros machos, estava vigilando por cima das árvores todo seu território, até que ouviu alguns ruídos camuflados entre as folhagens. Não foram altos, mas foram o suficiente. Mogu rugiu alto e bateu no peito forte, chamando a atenção de todos os machos do bando e preparando-os pro conflito.
O grande gorila saltou da árvore e correu na direção das folhagens, e ali encontrou um homem completamente vestido de preto, camuflado na escuridão e tremendo de medo. Ele aproximou seu imenso rosto ao do homem, olhou no fundo de seus olhos e rugiu alto. O homem — um guerreiro asiático altamente treinado — se mijou ali mesmo. Mogu segurou o homem pela nuca e o jogou contra uma árvore, partindo sua coluna em duas, seguido por um grito excruciante de dor.
E logo, mais gritos, estes porém das gorilas fêmeas que fugiam por suas vidas dos homens camuflados que aumentavam em números a cada segundo.
A raiva explodia nos olhos de Mogu, que em um frenesí de fúria, saiu caçando os asiáticos um por um. Cada patada era um cadáver, e quanto mais homens ele encontrava, mais corpos de seus irmãos animais ele achava estirados pelo chão. Sua cólera era tanta que nem sentia as picadas em todo seu corpo, o que deixava os homens ainda mais assustados. Eles usavam uma espécie de zarabatana com dardos envenenados com tranquilizantes, assim desmaiavam os machos guerreiros — cortando suas gargantas logo após — e capturavam as fêmeas e os bebês para vendê-los no mercado negro.
Aos poucos o verde da floresta se convertia em escarlate de sangue, tanto humano quanto animal. Mogu sentiu um cansaço iminente e caiu de joelhos, e logo de cara, na lama ensanguentada. Percebeu que em seu corpo estavam cravados dezenas de dardos — talvez centenas — e já não conseguia mais se mover. Sua visão turva enxergava apenas os homens de preto enterrando suas espadas tortas no peito de seus irmãos caídos e indefesos, e o sangue escorrendo na lama.
"Não é a toa que chamam esse de besta devastadora," ouviu vozes aproximando-se por trás, mas não entendia o que diziam. "Todos os outros caíram com um ou dois dardos, mas esse aí aguentou dezenas."
"E matou muitos dos nossos também," respondeu um outro se aproximando do corpo do imenso gorila, "mas chegou a hora dele. No fim bestas são só bestas." O homem apontou sua espada torta no peito de Mogu e o apunhalou com força. Ele já não sentia dor, graças ao tranquilizante, e a única coisa que o deixava desperto era sua raiva.
O sangue de Mogu foi jorrando de seu peito e sua visão cada vez mais embaçada, até chegar ao ponto de finalmente desmaiar. Isso, por falta de sangue, não pelo poderoso veneno dos caçadores. Seus olhos foram cerrando lentamente até enxergar nada mais que o breu.
~ ✴️ ~
Da mesma maneira lenta que seus olhos fecharam, eles abriram. Sem sonho nem pesadelo, mas as memórias trágicas ainda eram frescas. Mogu acordou em um lugar estranho construído com madeira, palha e folhas, e tinha um cheiro agradável de ervas. Seu ferimento no peito estava coberto com uma pasta esverdeada que exalava um cheiro forte, e o animal confuso se levantou do canto onde estava escorado.
De repente, um velho entrou na tenda. Um humano. O gorila rugiu alto e pulou na direção dele, mas seu ferimento o impediu de causar danos sérios no coitado.
"Calma! Calma!" Disse o velho levantando os braços e mostrando as duas mãos, "eu estou aqui pra te ajudar," disse nervoso. O gorila não entendia palavra nenhuma que saía da boca do outro, mas viu que de sua cintura saía o mesmo cheiro forte da pasta em seu peito, e começou a cheirar. "Esse é seu remédio. Minha tribo encontrou seu bando, mas você foi o único sobrevivente. Alguém tentou apunhalar seu coração, mas seus músculos fortes impediram a lâmina," ele dizia em sua língua anciã. "Mas claro, você não me entende."
Mogu era inteligente, e apesar de não entender as palavras do velho, sabia que havia sido salvo por ele. Entretanto, isso não era motivo de felicidade, pois todos seus protegidos estavam mortos, e a dor da perda e do fracasso pesava em suas costas.
O gorila começou a viver naquela tribo indígena desde então. Era uma tribo com uma forte ligação com a natureza e o mundo espiritual e, além de humanos, haviam muitos outros animais vivendo ali, estes que foram salvos das mesmas circunstâncias que o primata.
No início estava deprimido pelos acontecimentos, afinal, foi incapaz de proteger seu bando, sentia como se lhes tivesse falhado como guardião. Também estranhou a convivência, pois sempre viveu em torno de outros gorilas. Mas aos poucos foi aprendendo a se comunicar e foi adquirindo os mais variados conhecimentos dos habitantes da tribo, que se impressionaram com a capacidade de aprendizado do gorila, que logo foi batizado como 'Mogu' pelos viventes do lugar.
Ali ele viveu por mais alguns anos, foi onde encontrou sua segunda família e uma segunda chance para viver. Se juntou aos guerreiros da tribo e saía para caçar e resgatar animais feridos junto com eles. Mesmo assim, sempre que enxergava um humano desconhecido ou de outro grupo, se sentia irritado. Aquela noite chuvosa nunca foi esquecida mesmo com o passar dos anos, e seu ódio pelos homens não esvaiu mesmo vivendo em uma tribo cheia deles.
Certo dia, Mogu estava voltando de uma de suas caças noturnas quando ouviu a trompeta de guerra soando ao longe. Quanto mais se aproximava da tribo, mais barulhos horrendos escutava. Gritos de horror, o som de lâmina perfurando carne e o sangue jorrando incessantemente. Uma cena semelhante à de anos atrás, acontecendo agora com sua segunda família, que aprendeu a amar mesmo com suas diferenças.
Estavam sendo invadidos por outra tribo indígena que buscava vender humanos como escravos para os impérios africanos da época.
Mogu simplesmente não podia acreditar. Duas vezes seus queridos eram atacados por homens gananciosos. Duas vezes que era tarde demais. Como pode existir um animal tão deplorável quanto o ser humano? O que se passa na cabeça deles para cometer essas atrocidades? Por quê?
Mogu correu pela tribo, esmagando qualquer guerreiro que aparecia pela sua frente. Mais uma vez os corpos estirados de seus queridos preenchiam sua vista e o cheiro de sangue impregnava em suas narinas. Correu até chegar na tenda onde acordou pela primeira vez, e ali encontrou o cadáver do velho que um dia salvou sua vida.
A raiva ferveu o sangue de Mogu e o ódio cegou seus olhos. Seu rancor era algo único por si só — tão puro que chegava a ser admirável — o instinto mais primal de todos.
O primata sentiu algo queimar dentro de seu peito, e de dentro do seu coração sentiu algo expandir. Era sua alma. A fúria transformou seu espírito em uma personificação de seu instinto primal. Ia crescendo cada vez mais e tomando forma animal. A alma de Mogu expandiu até o tamanho de uma árvore, e já era visível a olho nu na forma de um gorila espectral e colossal.
O gorila e seu avatar gorila.
Sua faísca foi brutalmente acesa pelo ódio.
O avatar de Mogu rugiu alto e forte — rugido esse que ecoou por toda a floresta e, dizem lendas, que por todo o continente — um rugido de rancor, emoção, terror e morte, e bateu com os dois braços gigantescos incessantemente em seu peito.
A partir daí, a história é uma carnificina. O avatar de Mogu, que não era menor que a maior e mais antiga árvore da floresta, alcançava facilmente com seus braços qualquer humano que se atravesse a correr ou gritar. Mogu perseguia e seu avatar destroçava, agora mais que nunca fazendo jus à alcunha de besta devastadora.
Quando a vida do último invasor esvaiu e se ouviu seu último grito desesperado, a alma de Mogu contraiu e entrou em seu corpo mais uma vez, e ele foi embora daquele lugar, jurando para si mesmo, pela memória de todos que conheceu e amou, que mataria todo e qualquer humano que passasse pela sua frente.
~ ☪️ ~
Poderia parar por aqui. Muitos capítulos acabam em uma nota trágica para manter o leitor na ponta dos pés. E o que mais trágico que uma vida de amor, responsabilidade, sofrimento, aceitação e morte? Poderia, mas ainda há outro encontro muito interessante no destino de Mogu.
Desde o dia de seu juramento, mesmo muitos séculos depois, a floresta de Kakamenya era cada vez menos alvo de caçadores e exploradores. O motivo? Um gorila gigante e esmeralda transparente atacava sem hesitar qualquer um que se aproximasse da floresta, esse era o rumor espalhado pelas tribos e os asiáticos.
Muitos riam dos boatos e adentravam a floresta mesmo assim, afinal, quem acreditaria em um animal incrível desses? Os ousados acabavam por se arrepender de seu cepticismo, caindo nas imensas mãos do avatar de fúria de Mogu, alimentando cada vez mais os rumores, que com o passar dos tempos se tornaram lendas.
Mais alguns anos se passaram. O despertar da Faísca de Mogu aumentou exponencialmente sua vida útil e regredia o envelhecimento do gorila. Poucos eram os homens atrevidos o suficiente para entrar na floresta, tanto que seu nome já havia sido esquecido, e nos mapas estava completamente inexplorada. Fábulas de uma criatura gigante e violenta rondavam pelo continente, e o conselho de todos os moradores dos arredores da floresta era simples e direto: não entre.
Entretanto, essas lendas inspiraram a curiosidade de um jovem monge viajante que estava mochilando pelo mundo. Jovem monge esse que também era motivo de rumores, o viajante misterioso que trazia o progresso e a iluminação em suas palavras. Era um homem muito querido por todos os lugares que visitava, fazendo com que suas dúvidas sobre a floresta fossem respondidas com protestos e preocupação. Mas seu interesse foi maior, e na floresta ele adentrou.
Era um lugar imenso, então caminhou por dias. Vagou quase uma semana sem parar para comer nem dormir, em busca da tal criatura, mas não a encontrou tão facilmente. "Se o monstro não me atacou até agora, algum motivo deve ter," ele imaginava. "Ou será que estou andando silenciosamente demais?"
O homem sentou-se ao pé de uma imensa árvore para comer sua primeira refeição em sete dias e, logo ao sentar-se, ouviu ruídos distantes. Se levantou abruptamente e se preparou.
O barulho ficava cada vez mais alto a medida que se aproximava. O que antes eram sons distantes agora eram estrondos que tremiam a terra. Não demorou muito e a criatura finalmente apareceu. Mogu.
O gorila rugiu forte e, acompanhado de seu bravado, de suas costas saiu seu avatar, crescendo rapidamente em tamanho até equivaler a imensa árvore na qual se sentou o monge.
"Então você é o famoso monstro da floresta," disse o monge. "Como conseguiu personificar sua alma em forma animal, isso não sei," comentou, "mas em todas as minhas viagens, apenas os druidas com a maior e mais profunda conexão com a natureza conseguiram fazer isso."
Mogu não deu ouvidos. Seus olhos estavam cegos de raiva e isso se refletia no imenso gorila transparente que emanava como vapor de suas costas. O avatar bateu forte três vezes no peito, barulho que ecoou alto pela floresta, e saltou na direção do homem com os braços pro alto. O monge jogou seu khakkhara no chão, seguido de seu chapéu de palha, e fez um sinal de reza com a mão direita. O colossal avatar gorila caiu com todo seu descomunal peso em cima do homem, batendo forte com os gigantescos braços de cima para baixo. O impacto fez as imensas árvores balançarem e a poeira levantar.
Mogu deu as costas e se preparava para ir embora, completamente seguro da morte do humano, quando foi interrompido pela mesma voz de antes. "Seus olhos vermelhos de raiva não combinam com sua alma verde cristalina, amigo." O gorila se virou e viu o monge de pé sobre a imensa rachadura no chão, intacto e imóvel.
Não pensou duas vezes e invocou seu avatar para esmagar o homem de uma vez por todas. Correu na direção dele, rugindo e batendo no peito, até chegar na sua frente e desferir uma patada com toda sua força na esquerda do viajante, sentiu seu poderoso braço se chocando contra o corpo dele, e logo após, o colossal braço do avatar fez o mesmo, dando uma patada no homem que mais uma vez ecoou pela floresta com um estrondo. Outra vez a poeira abaixou e o homem continuava intacto.
Mogu se descontrolou em meio a sua fúria e começou a desferir golpes e patadas em frenesí, e seu avatar de cólera o acompanhava em cada ofensiva. Podia sentir o corpo do humano com cada investida, e não se movia um centímetro, mas o gorila não desistia.
Minutos se passaram. Horas. Quem sabe dias. O vigor do animal estava acabando e sua forma espectral já se dissipava como fumaça. Seus golpes cansados não eram nem a sombra de antes, e aos poucos ele foi cessando a investida, ofegando e respirando forte, até cair no chão em frustração e desespero. Como um humano, um ser tão frágil e cruel, conseguiu resistir tanto? Esse era o limite de sua força? E seu juramento, não valia de nada? Inúmeros pensamentos abstratos passavam na cabeça do gorila.
"Se isso é o suficiente para acalmar sua raiva, continue o quanto quiser," quebrou o silêncio o monge, "mas seu ódio não é saudável nem para você, nem para a floresta." Ele estendeu a mesma mão direita da reza até o rosto do animal e o acariciou. "Não se preocupe, eu vou te ajudar."
Mogu levantou a cabeça e fitou o rosto daquele homem. Sua visão o surpreendeu ao enxergar a expressão que o monge esboçava. Paz. Era isso que seu semblante transmitia, pura harmonia. Viu no mais profundo de seus olhos que ele sabia, sabia da dor e do sofrimento que existiam, da crueldade do mundo e a agonia da perda. Mas ia muito além, pois sua serenidade era transcendental, e isso o cativou. O olhar gentil, empático e iluminado do monge lhe mostrou que o entendia, e então alcançou seu coração.
E pela primeira vez em muitos, muitos anos, ele não sentiu ódio.
"Meu nome é Siddhartha Gautama, mas pode me chamar como quiser," se apresentou o monge. "Muitos me chamam de Shakyamuni, ou simplesmente Buda." Ele uniu as duas mãos e fez uma reverência. "E você, amigo, como se chama?"
Este encontro foi a única maneira do destino se redimir com Mogu, e mudaria sua vida — e a de muitos outros por vir — para sempre.
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