Mao - III
"Olha ali, Mao!" Apontou Óli para o galho de uma das árvores, "um gato com duas caudas!"
"Se eu fosse parar pra olhar cada bicho estranho que você encontra, nunca chegaríamos em Vedas," respondeu áspero o homem.
Sim, depois de quase dois meses de jornada, nossos heróis quase chegavam ao seu destino final: a grande capital de Vedas, no centro da floresta de Mogu. Desde sua partida de Ek Chuak, encontraram dois vilarejos quase desertos onde foram tratados como convidados de honra; os rumores se espalharam como poeira ao vento, a caída do general Bakulu e a libertação de Ek Chuak pelas mãos do guerreiro viajante Mao eram notícias por todo o império, e Mao se aproveitou disso para conseguir comida e alojamento por onde passasse — já que não tinha dinheiro. Além desses dois vilarejos também encontraram, como de costume, bandidos e soldados dos quais arrancaram provisões, e um batalhão do exército enviado diretamente de Vedas, com o qual deram de cara na estrada, e logo Mao dizimou.
Acamparam para descansar e dormir em qualquer lugar, escorados em qualquer árvore apenas com uma fogueira e suas conversas. Óli e Mao criaram um belo vínculo de amizade nesse meio tempo — mesmo que o guerreiro mau-encarado não admitisse — e compartilharam pensamentos e memórias e experiências em volta da fogueira.
Óli também estudava sobre a mitologia grega com os livros que ganhou dos rebeldes de Ek Chuak, e treinava diariamente o uso de seu Link conectando-se com Asclepius, o deus da medicina e da cura ao qual virou devoto, e que teve grande influência na recuperação dos braços quebrados de Mao na última batalha do guerreiro. Resolveu gravar o Link em seu peito esquerdo sobre o coração, pois achou que ali seria a maior fonte de energia e devoção, e o cristal desenvolveu uma coloração verde. Após os eventos desses últimos dois meses, se deram conta de que estavam já perto de seu destino quando viram no horizonte uma gigantesca árvore que alcançava os céus, maior que tudo que já haviam visto antes, a grande árvore-mãe Gaia, e se animaram ao entrar na grande Floresta de Mogu.
~ ㊙️ ~
"Não fale assim, Mao," contestou o garoto. "Você deveria desfrutar mais da natureza, do presente. Essa floresta é magnífica, olha essa vista, os animais são lindos."
"Eu já desfruto o suficiente. Pouco é o suficiente." Ele dizia enquanto matava um mosquito de esmeralda que voava ao seu lado. "Meu objetivo é só um."
"Eu sei, eu sei... o mundo na sua mão, né?"
"Quando você ficou tão abusado? Não tô gostando nada disso."
"Foi mal," riu de leve o garoto.
Depois de entrar na floresta, continuando pela estrada de barro que os guiava, não demorou muito para encontrarem as primeiras casas de madeira. No início poucas, isoladas e abandonadas, mas logo povoadas e em maior quantidade, até se depararem com bairros inteiros ao redor da estrada. Era como se a civilização fosse nascendo quanto mais profundo na floresta entravam. De pronto, os habitantes eram ariscos, chegavam a fechar as janelas quando eles passavam para perguntar algo, "ei," mas logo ouviram uma voz chamá-los furtivamente, "você é o Mao, não?"
"De onde veio essa voz?" Se perguntou Óli.
"De cima," respondeu Mao enquanto olhava para o topo de uma das árvores. "Vamos," segurou o garoto pela cintura e deu um grande salto até um dos galhos da imensa árvore.
"AAAAHHHH!!" Óli gritou em surpresa e desespero com a intensidade do salto e a altura até pousarem. "Por favor não faça isso tão repentinamente," se ajoelhou e vomitou ali do lado, vendo seu vômito cair pelos ares até o chão.
"Nossa, você pulou do chão até aqui sem esforço!" Disse um homem impressionado — a árvore não media menos de trinta metros — enquanto saía do meio das folhagens. "Os rumores são certos então."
"E você quem é?" Perguntou bruscamente Mao.
"Ah, perdão, me chamo Robin," se apresentou o homem. "Já fiz parte do exército revolucionário, mas estou aposentado por motivos burocráticos," mostrou o bastão que usava de muleta e bateu com ele na perna manca.
"Ok, e o que quer com a gente?"
"Calma, Mao," interceptou Óli, "se ele já foi revolucionário, talvez queira nos ajudar."
"Exato, eu ouvi falar que estavam de caminho pra cá e os esperei desde então. Posso guiá-los pela cidade se qui-"
"Não precisa se incomodar," o interrompeu Mao, "eu quero ver como é essa cidade com meus próprios olhos." Mao nem se dava conta, mas estava mudando pouco a pouco. Tinha interesse na vida da população, como viviam na sociedade a qual ajudaria a destruir. Mesmo imperceptível para ele, estava desenvolvendo sua empatia. Talvez por passar tempo demais com Óli. "Se quer ajudar, me diga onde vive Sarkan."
"Não é difícil de encontrar," respondeu o homem meio desapontado com a resposta do outro, após tanto tempo de espera, "se continuar nessa estrada, uma hora vai enxergar ao longe um grande castelo de cristal. Fica bem no meio da floresta, em frente à grande árvore Gaia. Não tem como perder, esse é o castelo de Sarkan, e dificilmente ele sai de lá."
"Olha!" Apontou Óli outra vez, "de novo aquele gato de duas caudas."
"Outra vez isso?" Suspirou Mao.
"Não pode ser," disse o outro com a voz trêmula ao olhar para o gato.
"O que foi?" Perguntou o garoto.
"Esse é Linx, o gato de Sarkan!" Contestou. "Dizem que ele fala a língua humana!"
"QUEEEEEEEEEEEE?!" Gritou o garoto perplexo. "Temos que pegá-lo rápido!"
Em parêntesis, apesar do Japão não existir mais naquela época, suas lendas sempre serão eternas — pelo menos em minha mente — e uma delas é a do nekomata. Dizem que quando um gato vive até os 100 anos, sua cauda se divide em duas e ele vira um nekomata, um gato que ilude os humanos falando sua língua, e por vê-los com desprezo, os mata com suas habilidades necromânticas e bolas de fogo criadas nas pontas de suas caudas. Linx, no entanto, era bastante apegado a Sarkan, e vivia pacificamente como um gato doméstico qualquer, com todos os luxos imagináveis.
"Espera," ordenou Mao, "essa não é a oportunidade perfeita? O gato avisará Sarkan e ele virá até nós," ele riu maléficamente, "nem precisaremos nos mover!"
"Não acho que será assim de simples," murmurou Óli desanimado.
"Acho estranho ele estar pela floresta," comentou o ex-revolucionário. "Deve ser pelo Festival das Constelações. Como fazem muito barulho na cidade, ele deve ter vindo pra cá. Que má sorte temos." O gato se perdia por entre as folhas.
"Que festival é esse?" Perguntou Óli.
"Em Vedas, principalmente no distrito central, as pessoas glorificam Sarkan como um deus e um grande governante benévolo. O Festival das Constelações acontece todo ano, e comemora a ascenção milenar ao poder do imperador. Dizem que Sarkan foi o responsável por uma mudança de eras astrológica que já estava predestinada, como um tipo de messias. Chega a ser irônico. Nesse exato momento, o Papa Bishop deve estar dando um discurso longo e hipócrita."
Mao estremeceu ao ouvir esse nome. Seus olhos arregalaram e em sua mente veio outra vez a visão do passado. Se lembrou da voz gentil e preocupada rogando por sua sobrevivência. Do cetro de ouro com duas serpentes envolvendo-o até a ponta. O Link afundando em sua mão direita ardendo. "Bishop..." ele põe a mão no rosto, quase aflito. "Quem é esse Bishop?" Ele pergunta com agressividade na voz, a qual não consegue controlar.
"Mao?" Óli o observa preocupado.
"Bishop é o Papa, a maior figura de autoridade da igreja. Pode ser considerado o braço direto de Sarkan, pois a posição de Papa é escolhida a dedo por ele. Ouvi falar que ele é o usuário de Link mais habilidoso do império."
Ao escutar o homem, Mao se calou e refletiu por um momento. "Mudança de planos. Robin, me leve até esse tal Bishop."
~ ☮️ ~
As ruas da cidade estavam lotadas. As lojas fecharam cedo, mas os estandes vendiam comidas típicas de festivais e produtos variados como roupas, cristais e máscaras. As pessoas jogavam conversa fora e riam em grupos com suas confortáveis vestes de seda decoradas como o céu estrelado, alguns até mascarados, dançando com a música que ecoava mais alto que a torrente de risos e alegria; as crianças corriam umas atrás das outras, jogavam bola e comiam doces; os casais andavam de mãos dadas e trocavam presentes e beijos. Uma atmosfera de animação e altruísmo emanava pelas ruas, diferente de todos os outros lugares pelos quais Mao já havia passado. Era como se a tirania de Sarkan não existisse, não fosse parte de suas vidas. "Achei que aqui seria o pior lugar de todos," pensou Mao, "mas isso também não me surpreende. Será que essas pessoas sabem qual o preço dessa felicidade toda?"
Vedas realmente era uma bela e próspera cidade considerada por muitos como um paraíso na terra. Ocupava grande parte do centro da Floresta de Mogu com grandes monumentos de cristal talhados ao redor das árvores, que criavam um cenário natural e inovador, a mescla perfeita de civilização e natureza. Pontes de cristais coloridos, corda e madeira conectavam as residências e lojas que eram construídas ao redor dos grossos troncos e em cima dos resistentes galhos, criando diversos andares asimétricos que se destacavam no ambiente e sustentavam diversas lojas e casas coloridas. Os animais que não eram afetados pela presença da civilização coexistiam em paz com os humanos, e até interagiam com eles. Não havia melhor lugar para viver uma vida livre, plena e abundante.
Sarkan fazia questão de que Vedas fosse perfeita, a cidade onde todos sonhavam viver, e ao fazê-lo, serem gratos eternamente a ele. Uma utopia sem violência, sem crimes, sem preconceito, sem sofrimento nem dificuldades.
Claro, no fim tudo isso tinha um árduo preço, e era a liberdade e sofrimento do resto do império, milhares de cidades cujos habitantes eram explorados pelo governo e os cães do exército, que se aproveitavam da situação — e da indiferença de Sarkan com as cidades distantes — para explorar o povo, roubar e matar como quisessem.
Óli pensava parecido enquanto caminhava ao lado de Mao pela multidão, seguindo os passos de Robin. Não conseguiu esboçar um único sorriso enquanto observava o ambiente eufórico, as fantasias, as atuações teatrais, a música. Aquilo tudo o lembrava sua casa sendo queimada, e sua plantação em chamas junto com seu pai. Ele cerrou os punhos com força e abaixou a cabeça. Se sentia como um estranho naquele ambiente. "Fique calmo, Óli," ouviu a voz de Mao, que percebeu sua insegurança. "Se você não gosta do mundo como ele é, a única saída é mudá-lo. E você pode." Ele disse firme enquanto continuava olhando pra frente. "Se eu posso, tenha certeza que você também pode."
Óli, surpreso, se emocionou com as palavras de Mao, como se elas preenchessem um vazio que ele nem sabia que tinha. Óli possuía um forte instinto revolucionário, e sempre foi inseguro sobre seu lugar no mundo. Sentia grande admiração por Mao, era o homem mais incrível que havia conhecido, que estava a ponto de mudar o mundo com seus próprios punhos; e conhecendo sua natureza fria, arrogante e insensível, aquelas palavras soaram quase surreais e o inspiraram. Ele se sentiu melhor e sorriu.
"Obrigado, Mao."
"Pela quantidade de gente amontoada ali na frente, acho que estamos perto," comentou Robin, que usava uma máscara roxa estrelada.
Pouco a pouco a multidão foi apertando enquanto eles se aproximavam do maior parque de Vedas, o Parque da Harmonia, onde ficava a monumental igreja de cristal de Hermes, o centro religioso do império, lugar em que o Papa receberia visitas de fiéis para ouvir seus males e clamores durante o festival. Logo, uma voz começou a ecoar enquanto as conversas começavam a cessar.
"Queridos irmãos," a voz era suave e gentil apesar de soar alto, "mais um ano se passou e o grande império continua em sua glória máxima. Sob a proteção e bênção do nobre Imperador Sarkan, Vedas continua seu dia-a-dia de paz e harmonia." Os três continuavam de caminho até o centro do parque, esbarrando e desviando das pessoas em sua frente, enquanto escutavam atentamente as palavras que soavam. "Esperemos que o Festival das Constelações e suas oferendas tragam mais um ano de prosperidade para Vedas e o grande império!"
Todos aplaudiam e ovacionavam as palavras do jovem Papa que já podia ser visto em cima de um palanque na frente da reluzente igreja. Suas vestes brancas arrastavam pelo chão limpo, decoradas com linhas douradas pelas bordas e símbolos religiosos de ouro encrustados pelas mangas e o peito. Seu cabelo loiro chegava a brilhar com os raios do sol, e aparentava ser jovem, mais novo até que Mao. Segurava em suas mãos o grande báculo dourado rodeado por duas serpentes que nunca saíram da mente do guerreiro.
"Nunca ouvi tanta hipocrisia na minha vida." A voz forte que foi escutada no meio da multidão interrompeu os aplausos, e esboçou expressões curiosas nas pessoas ao redor. "Tudo isso é tão ridículo que chega a me deixar nervoso," continuou, "mas o que mais me deixa nervoso aqui, é essa sua cara escrota!" As pessoas se distanciaram e revelaram Mao ali no meio do povo, encarando de baixo o Papa e vestindo uma expressão de raiva no semblante.
"Hipocrisia? Ridículo?" O sacerdote indagou. "Como ousa difamar este belo festival e esta terra sagrada com essas palavras insolentes?!"
"Terra sagrada? Há! Você acha que me importo com essa merda?" Ele cerrou forte os punhos enquanto seu sangue fervia com cada segundo que passava com o rosto nostálgico refletindo em suas retinas, clareando sua memória antes turva. Ele não havia mudado nada. "Vendo essa cara sua, a única coisa que tenho vontade.. é de quebrá-la!" Ele deu um forte e rápido salto na direção do clérigo e jogou a mão direita pra trás, juntando todas as forças no soco que mirou no estômago dele.
"Homem tolo." Um forte brilho dourado saiu de seu cetro, uma luz cegante e intensa. "Link On. Senhor, tenha piedade desta pobre criatura." De repente, em um instante tão rápido que pareceu instantâneo, Mao sentiu um fortíssimo impacto em suas costelas, que o lançou pelos ares rápido como uma bala, até colidir com uma das lojas de cristal ao redor do parque, atravessá-la e bater contra o tronco de uma das árvores.
Alguns segundos se passam e Mao recobra a consciência. "O-o que foi esse impacto?" E tosse cuspindo sangue no chão. "É a primeira vez.. que sinto um golpe tão pesado.." com dificuldade ele levanta dos escombros e sai dali. Sentia várias das suas costelas direitas quebradas.
Os cidadãos gritavam assustados, era a primeira vez que presenciavam um ato de violência em suas vidas pacíficas. "Acalmem-se, meus queridos irmãos," disse o Papa Bishop. "As autoridades lidarão com esse terrorista. Enquanto isso, evacuem o parque o antes possível!" E todos seguiam suas instruções. Óli e Robin se escondiam e observavam o confronto, preocupados pelo guerreiro. Sabiam que apenas atrapalhariam.
Os soldados logo cercaram Mao, que saía de dentro da loja já analisando a situação. A dor não lhe incomodava, mas um golpe tão forte e rápido — a ponto dele mesmo não conseguir nem perceber ou aguentar — foi algo que o surpreendeu.
Um dos soldados correu na direção de Mao, que desviou da estocada desferida e segurou sua lança de lâmina e cabo azul, girando-a rapidamente contra o rosto do mesmo, e empalando-o em seguida com ela. "Parados," proclamou, "o próximo passo que vocês derem, com certeza será o último." Sua expressão era calma, mas seus olhos queimavam com as chamas da fúria. Sua intenção assassina causou terror nos soldados, cujas pernas travaram como se estivessem diante uma besta selvagem.
Mao sacode a lança azul, jogando o corpo empalado no chão, estava tão gelada que queimou sua mão, quase congelando-a, mas não se importou e a arremessou com toda sua força na direção do Papa. Este a percebe, e a destrói com um golpe de seu cetro pouco antes dela alcançá-lo.
"Não consigo acreditar que alguém sobreviveu àquele golpe," comentou perplexo. "Não achei que era possível. Quem é você, guerreiro?"
"Eu não preciso do seu reconhecimento nem sua simpatia, desgraçado, não outra vez." Mao se posicionou em sua postura de combate, com as pernas entre-abertas e joelhos flexionados, braço esquerdo mirando o oponente e direito abaixo da cintura. "Eu sou o Mao. E minha chegada aqui marca o último dia de vida deste império!"
O guerreiro se desloca rapidamente até os soldados e os segura pela gola do uniforme, lançando-os no ar com força na direção do clérigo. Começa correr até ele, lançando outros soldados com poderosos socos e empurrões, esses que já começavam a fugir em desespero. Ele salta até uma parede ao seu lado e impulsiona com os pés na direção do palanque.
"Me perdoem irmãos," relutou o jovem, "por não conseguir salvar todos. Link On." Uma luz cegante brilhou novamente, e de repente, ele desaparece.
Mao cai no palanque confuso e vira o rosto para buscá-lo, e o vê no chão junto com dois dos soldados que havia arremessado. "Obrigado por provar minha hipótese," ele pensou, "então você pode pode se teleportar, ou se mover instantaneamente de alguma forma. Tenho que tomar cuidado."
"Quanta violência desnecessária!" O jovem se volta à ele. "Qual seu objetivo aqui?"
"Que ironia dizer isso depois de me atacar com intenção de matar," riu Mao. "Meu objetivo é acabar com você, Sarkan e esse império. Meu nome apagará qualquer rastro disso aqui da história da humanidade!"
"Mao..." o jovem Papa fitou atentamente o rosto do homem à sua frente, e ao dar-se conta, arregalou os olhos. "Não pode ser."
Mao pisou forte no chão, rachando-o e fazendo subir uma cortina de poeira. Bishop viu algumas pedras saírem da poeira rápidas como projéteis, e as bloqueou com o cetro, mas logo sentiu um forte golpe nas costelas que o lançou longe e o fez quicar no chão. "Só retribuindo o presente que você me deu," disse o guerreiro arrogantemente, após quebrar algumas costelas do clérigo.
"Ele é rápido." Se levantou com dificuldade. "Você.. é aquele garoto, não é? O sobrevivente dos Azai."
"Coincidentemente eu sou," respondeu. "Mas não pense que eu quero vingança nem nada do tipo. Lutar por um motivo desses não me satisfaria."
"Quem diria que o Mao dos rumores seria aquele mesmo garoto," ofegou o clérigo.
"Ouvir um pirralho me chamando de garoto é outra coisa que não me cai bem!" Mao pula alto na direção do loiro e lança mais algumas pedras em sua direção, para obrigá-lo a se mover. Bishop desvia para o lado e segura seu cetro com as duas mãos.
"Sinto muito, Mao, mas não posso deixar tamanho perigo pro império continuar existindo." A ponta do seu cajado volta a brilhar. "Sinta a glória infinita da luz de nosso Senhor todo poderoso. Link On: Deus!" E a luz intensa voltou a cegar todos ao redor, incluindo Mao.
De repente, antes mesmo de perceber, Mao sentiu outro pesado impacto em seu estômago, que o fez cuspir sangue e desmaiar, e foi lançado ao chão em alta velocidade como uma pedra, causando uma grande rotura ali, que deixou uma pequena cratera no chão batido. Bishop estava de pé ao seu lado, com uma expressão ofegante no rosto.
"Você é um grande lutador, Mao," disse, "fez bem em chegar até aqui. É uma pena que as coisas tenham que acabar assim," ele termina, "mas tenho a benção divina ao meu lado, e esse é o maior de todos os poderes."
Realmente, a habilidade do Papa Bishop é uma das mais impressionantes que já vi um ser humano possuir. Através do Link ele se conectava fisicamente com o próprio Deus — a manifestação divina da consciência universal em seu estado mais puro nessa dimensão física, diretamente da Fonte, a origem energética dos planos superiores mais inconcebíveis — e manifestava sua luz divina, podendo assim se mover na velocidade da luz por alguns instantes.
Desde sua perspectiva, o tempo simplesmente parava, pois como diria Einstein, um corpo que alcança a velocidade da luz não possui experiência de tempo, e ele atuava nesses poucos momentos movendo-se cerca dessa velocidade cósmica. Entretanto, era um movimento limitado, pois causava grande estresse em seu corpo. Teoricamente, nada além da luz consegue alcançar essa velocidade, e o que consegue, ganha uma massa quase infinita graças à geração massiva de energia cinética e geraria uma singularidade; mas Bishop era protegido pelos poderosos campos eletromagnéticos emitidos por seu coração e o chakra correspondente — o Anahata — amplificados pelo Link graças à sua fervorosa fé e estado de consciência, fazendo com que seu corpo fosse protegido das velozes vibrações de suas moléculas, mesmo ainda causando grande estresse em seu corpo com qualquer movimento que fizesse, não importava o quão mínimo. Contudo, qualquer leve toque nessa velocidade era mais que suficiente para matar uma pessoa normal.
Bishop se vira aos soldados, preparando-se para ajudá-los, mas sente um forte aperto no tornozelo. Era Mao que o segurava com força e sangue nos olhos. "Impossível!"
Mao ergue o clérigo pela perna ao mesmo tempo que se levanta, e começa a rodopiar rapidamente, arremessando-o com força em uma direção aleatória. Sem perder tempo, arranca até ele com uma feroz pisada e posiciona o punho perto de seu queixo, desferindo um destruidor soco à curta distância, dobrando a velocidade do lançamento e fazendo o Papa chocar forte contra um grupo de soldados na frente da igreja, que amorteceu seu impacto, mas quase os matou no processo, e os arrastou até a grande porta da gloriosa igreja de cristal transparente.
"Não sei se aguento outro desses golpes," pensa Mao cuspindo sangue no chão. "Tenho que acabar com ele antes dele ativar essa luz de novo."
"Me perdoem, meus irmãos," Bishop se levanta com dificuldade, apoiando o cetro no chão, "e obrigado por terem salvo minha vida." Apesar de ter um poder impressionante, não estava acostumado a lutar, e os golpes de Mao eram tão efetivos nele quanto em qualquer outro soldado. "Enquanto eu tiver minha fé e esse Link, você nunca me vencerá, Mao!" Ele gritou.
"Fé," o lutador pensou. "A fé é a fonte de energia do Link." Nesse instante de hesitação, viu a ponta do cetro do Papa brilhar. Apontando para o chão, Mao deu um soco no ar, perfeitamente alinhado e parando bruscamente — uma técnica marcial ancestral dos Azai — produzindo uma rajada de vento que lançou os fragmentos de chão, pedra e cristal na direção do Papa, e saltou logo atrás deles.
"Você está subestimando o poder de Deus. Link On."
O brilho intensificou e o tempo parou. Bishop, com passos calmos e intensos, caminhou em direção ao homem, desviando dos pedregulhos, movendo-os com o cajado, dando um passo para o lado. Não demorou para alcançar Mao, com os músculos já tensos pela pressão de se mover naquela velocidade. "O que Sarkan fez com sua família foi imperdoável," ele falou parado na frente do homem estático em posição de corrida, "você diz que não é por isso que luta. Não sinto que seja mentira, mas com certeza aquele massacre teve grande influência em seu subconsciente." Ele levantou com força o braço, segurando quase pela ponta o cabo do cetro, "mas mesmo entendendo, eu não posso deixar você chegar até Sarkan. Ele pode ser um monstro, mas me deu um motivo para viver, me deu uma missão nesse mundo de sofrimento." Apertou com força o cabo e o desceu rapidamente, pesado como se estivesse dentro d'água, e bateu com a ponta de ouro na cabeça do guerreiro de cima pra baixo. Ofegante, ele soltou um suspiro longo, e com isso, a rajada de vento se resumiu, os troços de chão e cristal chocaram contra árvores, e o guerreiro caiu de cara no chão, esmagado pela força absoluta do golpe que rachou seu crânio. Sangue escorria de sua boca e suas narinas, e sua consciência já não estava.
O Papa o olhou de cima com certa tristeza na mirada. Apesar de ser o mais fiel lacaio de Sarkan, também era o mais compreensivo e piedoso, e odiava a violência.
"O Link.." a voz rouca e fraca quebrou o breve silêncio, "usa o psicológico do usuário." Bishop ficou perplexo ao ouvir as palavras cansadas escaparem da boca de Mao. "Eu sabia desde o início, mas só me dei conta agora." Os dedos de sua mão direita se moviam com dificuldade, ele mal conseguia se mexer, e o cristal de ferrugem nas costas de sua mão destra começou a brilhar. O homem que ofegava no chão respirou fundo, reunindo forças. O cristal começava a borbulhar por dentro, perdendo sua textura de ferrugem e fazendo as veias ao redor saltarem, e ele sentia seus músculos contraindo e logo expandindo, como se os forçasse sem se esforçar. Essa energia que percorria seu corpo o fazia esquecer a dor, aliviando todos seus sofrimentos e trazendo até certa lucidez em sua mente. Quando o brilho do cristal se intensificou, ele gritou:
"Link On: MAO!"
As pernas do Papa quase tremiam ao ver o homem com o rosto manchado de sangue se levantar do chão só com a força das pernas, sem se apoiar, após aquele golpe tão devastador, e encará-lo com um olhar sereno e impetuoso. Os músculos do corpo inteiro de Mao se contraíam ao máximo, fazendo com que se curvasse levemente pra frente com os braços meio abertos, sem conseguir fechar nem um punho. Ele sentia que aquele era o limite total de seu corpo físico. Seu limitador de força subconsciente havia sido removido.
"L-link o-" o clérigo levantava o cetro que começava a brilhar, mas foi interrompido por um forte baque no peito — que por sorte foi bloqueado pelo cajado — e o arrastou varios metros para trás. Ele viu que Mao preparou sua investida e rapidamente ativou: "Link On: Deus!" E com o clarão de seu cetro, o tempo parou. Então se assustou, pois a mão de Mao bloqueava todo seu campo de visão, pronta pra agarrar sua cabeça. "Ele chegou aqui tão rápido," pensou afobado, "um segundo mais tarde e seria meu fim." Ele segurou o cetro como um bastão de baseball, girou duas vezes no mesmo lugar e acertou com a ponta no estômago de Mao de baixo pra cima, com toda sua força.
Mao sente a magnitude do impacto em seu estômago e é lançado pelos ares tão rápido que distorceu o espaço, os rígidos músculos contraídos de seu abdômen amorteceram o golpe, mas os sentiu se rasgando por dentro. Se chocou forte contra o grosso galho de uma das árvores, mas nem o sentiu, e saltou forte — com um impulso que quebrou a rama — na direção do Papa. Os olhos do sacerdote não conseguiram nem acompanhar os movimentos do guerreiro que simplesmente desapareceu de sua vista, apenas sentiu o forte murro acertar sua barriga, e a mão de Mao aberta como uma garra quase atravessar seu estômago, que o fez vomitar e cair de joelhos no chão sem forças.
O sorriso fomentado pela adrenalina de Mao se dissipou aos poucos de seu rosto, e olhou para o jovem quase que com pena. "Isso foi o suficiente?" Dizia quase desapontado. Segurou com força a cabeça do loiro que gritava em agonia tentando escapar, "parece que vou ter que testar esse limite com Sarkan," e se preparou pra jogá-lo contra a igreja, mas foi interrompido por um grupo de homens que apareceu e se jogou contra ele.
"O que você está fazendo com Vossa Santidade?!"
"Seu demônio!" Gritavam os homens, simples civis, fiéis ao império e a igreja, segurando o braço do guerreiro e se impressionando com sua rigidez de aço.
"Saiam daí, rápido!" Gritou Óli de longe, saindo de seu esconderijo e segurado por Robin. Sabia que a situação poderia ficar feia.
Mao voltou seu olhar até os homens. Sentiu nojo de sua ignorância, por defenderem aquela tirania toda da qual nem eram conscientes. O rosto vermelho de sangue e o olhar psicótico lançado fez eles caírem ao chão em terror absoluto. Esse pequeno momento de distração foi suficiente para que Bishop, apressadamente, ativasse seu Link.
A ponta do cetro brilhou intensa e vendo de perto Mao percebeu que o Link estava ali na ponta do cajado entre as serpentes, era de cor dourada transparente e em forma de esfera. Mas era tarde, outra vez o tempo havia parado. Bishop escapou do agarrão de Mao e o observou com uma expressão de pena. Aquele olhar tão cheio de ódio, de fúria, de agressividade, emitia uma carga tão negativa que afetava até seus arredores. Mas ele entendia, sua empatia o fazia se identificar com tudo que ele passou sendo o único sobrevivente dos Azai. Mas mesmo assim, ele tinha uma missão a cumprir.
"Depois de tudo isso, não acho que vou conseguir te matar com qualquer golpe," comentou ao perceber as drásticas mudanças no corpo do homem, "mas tenho que te deter de alguma forma." Ele levantou com grande dificuldade — já estava esforçando-se pra não perder consciência pelo dano recebido — e posicionou horizontalmente seu báculo, acertando com força na perna esquerda de Mao e afundando-o em sua carne até sentir seu osso romper. Tentou mover outra vez o cetro, mas seu corpo já quase não aguentava, ele segurou com todo o cuidado do mundo os dois civis e os afastou dali, e caindo de joelhos no chão sem forças enquanto tossia sangue, viu o tempo voltar a andar.
Mao sentiu aquele intenso impacto rasgar completamente os músculos de sua perna e quebrar sua tíbia em duas. Com dificuldade, ele se apoiou na perna até se acostumar com ela, o que não demorou nada, e encarou seriamente o sacerdote. "Você vai se arrepender de não ter me matado agora," ele disse, "essa foi sua última chance, e você a desperdiçou salvando eles."
"Pense o que quiser," o loiro se levantou ferido, "eu vou te parar em nome de Sarkan."
Mao assumiu sua postura marcial, e com um rápido deslocamento, começou a correr em círculos ao redor do Papa. Os fiéis ainda não tinham escapado e Bishop se preocupou, pois mesmo com a perna esquerda quebrada, ainda era difícil acompanhar os movimentos do homem. Sua única escolha era utilizar seu Link outra vez mais, sabendo que seu corpo já não aguentaria muito mais. Era a primeira vez em sua vida que teve que usá-lo tantas vezes seguidas, e já sentia choques de tensão percorrerem todos os seus membros, mas não tinha outra escolha. Dessa vez iria acabar de uma vez por todas com aquela luta, mesmo sacrificando seu próprio corpo no processo, pensou.
"Pai cósmico, criador ao qual todos pertencemos e que em todos habita, me proteja uma última vez," orou e o Link dourado de seu cetro emitiu outro cegante brilho.
Mao sorriu enquanto ponderava em sua mente, era o momento que estava esperando. Pisou vigorosamente com a perna direita e, no momento certo, propulsou com força. Já havia se acostumado com o tempo levado para ser ativado o Link do Papa. Em um piscar de olhos ele se aproximou enquanto calculava o tempo, sentindo seus músculos quase estourando; e sem conseguir cerrar um punho, lembrou de uma técnica marcial que já havia esquecido completamente. Abriu a palma da mão inteira e acertou com ela rápido como um disparo no peito do clérigo, impulsionando com o cotovelo um golpe horizontal perfeitamente alinhado contra seu tórax, no exato momento em que seu Link foi ativado.
"Palma Vazia," as palavras escaparam involuntárias da boca de Mao ao se dar conta instintivamente, que de tanto viver com os punhos fechados, havia esquecido dessa técnica ancestral tão bela e fluída de seu clã, e essas palavras foram as últimas ouvidas pelo Papa Bishop.
Quando menos percebeu, o mundo parou junto com o tempo, e sentiu uma dor excruciante em seu peito, e seus pés já não estavam mais no chão. Fora lançado com força, e sentia a pressão intensa que a fricção do ar fazia contra seu corpo, que lentamente se movia em direção à igreja. Já era impossível controlar sua trajetória, no ar não tinha apoio para fazer força alguma nem se movimentar. "Essa foi sua resposta então," ele pensou. Fechou os olhos com força, um tanto frustrado, mas logo aceitou e esboçou uma expressão serena. A tensão em seu corpo já fraco criada pelo movimento involuntário naquela velocidade quase esmagou seu corpo, sentiu como se pouco a pouco ele fosse forçadamente se desintegrando, mas apenas o suficiente para lhe causar dor. "Então esse é meu fim."
Ele tinha alguns instantes mais até acabar o tempo limite de seu Link, e então, se chocaria contra a parede de cristal da igreja acelerado como uma bala. Sua sobrevivência era impossível, ele sabia. Agora em paz, ele fecha os olhos, e memórias de sua vida começam a passar por seus olhos como cenas de um filme.
"Finalmente," abria os olhos ao escutar a voz potente e se via dentro de um grande tubo cilíndrico cheio de gosma vermelha. "Criar o homunculus perfeito é mais difícil do que imaginei, até para mim." A silhueta gigantesca e musculosa saía das sombras e encostava no vidro uma esfera dourada, que começava a brilhar, "principalmente um que reaja tão bem com o Link. Você me será útil, Bishop."
"Tenho um presente pra você," a grande silhueta do homem lhe joga um grande cetro dourado do tamanho de seu corpo em crescimento, "cuide disso como se fosse sua vida." Aquele cajado o acalmou como nada o havia feito antes, como se fosse parte de si, e ele o apertou com carinho.
"Você cuidará dessa cidade em meu nome, e a fará ser a mais próspera de todo o império," ordenava forte o colossal homem, "assim como os papas antes de você. Esse é seu propósito."
Enquanto se lembrava e valorava suas experiências nessa vida, que durou quase cento e cinquenta anos — até pouco para um homunculus imortal — ele sentia sua luz já se esvaindo. Mas já estava preparado. Seu semblante esboçava uma expressão de paz enquanto seu corpo sofrido sentia o tempo voltar a correr, e com isso, o instantaneamente veloz choque contra a porta da monumental Igreja de Hermes, que quebrou suas fortes estruturas de cristal e quase a demoliu por inteiro.
Nesse instante, o corpo do Papa não era mais que uma mescla nojenta de sangue, órgãos, ossos quebrados e vestes de seda.
Mao então se acalmava e seus músculos se relaxavam, fazendo-o cair sentado no chão quase sem forças. Mesmo com as costelas quebradas, traumatismo craniano, músculos rasgados e o osso da perna esquerda partido em dois, o mais difícil era ficar quieto e manter a consciência.
"Mao!!!" Gritou Óli preocupado enquanto corria em sua direção.
"Óli.." Mao balbucea, "onde você estava?"
"Escondido por aqui. Mais importante, seus ferimentos!" Ele tirava de sua mochila algumas ervas e faixas. "O que foi aquilo? Você conseguiu utilizar o Link?"
Normalmente responderia arrogantemente, mas naquele momento só queria descansar, e se calou.
Óli percebeu e cobriu a perna de Mao, seu ferimento mais aparente, com um extrato de ervas e a enfaixou com dois galhos retos. Uniu as mãos sobre o ferimento fechando os olhos, e com calma e concentração, proferiu: "Link On: Asclepius." Uma luz verde úmida e calorosa aliviava, mesmo que um pouquinho, a dor da perna de Mao, intensificando o efeito das ervas medicinais e pouco a pouco acelerando a regeneração das células danificadas, algo que Óli aprendeu sozinho e estava treinando com animais feridos.
"Então você realmente ia matar aqueles homens?" Ele não resistiu e perguntou.
Mao lembrou dos civis, que já haviam fugido a tempos. "Você realmente me acha um monstro, não é?" E riu de leve.
Mao não respondeu a pergunta, mas não os mataria. Essa batalha o fez perceber muitos aspectos de si mesmo que já havia esquecido. O golpe da Palma Vazia, uma das técnicas secretas dos Azai, aprendida apenas com o controle total de uma mente em harmonia consigo mesmo e a Natureza. Uma outra ramificação do estilo ancestral de seu clã, que além de treinar até o limite o corpo, também desenvolvia a mente. Ele se deu conta de onde poderia melhorar em vários aspectos e como evoluir ainda mais. Percebeu os erros que cometia e das emoções que tinha guardadas dentro de si. No fim, quase se sentiu agradecido ao Papa Bishop.
E agora, apenas um obstáculo restava para a conclusão de seu objetivo principal. Sarkan, o próprio Imperador, o grande, benevolente, imortal, sábio e todo poderoso Sarkan. Seu castelo de cristal não estava tão longe dali, apenas alguns blocos florestais de distância. E Mao já não via a hora de se recuperar um pouco mais de seus ferimentos e partir para lá. E sua respiração levemente ofegante foi transformada em um leve sorriso desvanecido.
O sorriso de alguém que estava preparado pra agarrar seu destino com as próprias mãos.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top