Mao - I

"Se alistar sob o comando do Major Bóris foi a melhor escolha que fiz na vida!" Exclamava um homem fardado rindo de orelha a orelha, mostrando os dentes sujos.

"Com certeza," respondeu seu companheiro, contando as moedas de ouro que haviam dentro de um saquinho bem gordo. "Além de conquistar o território do sul, vamos ficar ricos! Os outros batalhões não são nem loucos de nos desafiar."

"Também, o Major Bóris é um dos poucos linkers do exército. Não vai ser difícil dominar a província inteira!" Eles riam juntos em tom de comemoração.

"Éééé? Linkers? Dominar?"

Os soldados distraídos em risadas nem perceberam a presença de um homem logo a sua frente. Era jovem, parecia ser um viajante, com bagagem e tudo; mas seu rosto estava escondido pelo pôr-do-sol que desaparecia no horizonte atrás dele, revelando apenas sua silhueta escura. "A conversa tá muito interessante. Posso me juntar?" Ele perguntou em um tom arrogante.

"E quem caralhos você pensa que é?" Um dos militares perguntou, enquanto seu companheiro puxava do seu cinto uma faca com a lâmina verde.

O homem da silhueta sorriu.

~ ☯️ ~

A história de hoje se passa em um futuro muito, muito distante, em um mundo — nosso mundo — já distópico. O destino, em meio ao seu caos, foi cruel mais uma vez, e deixou a Terra nas mãos de um terrível ditador por mais de um milênio.

Uma resistência foi criada, assim como tantas outras antes dela, mas contra o poder do tirano e seu exército, não havia muito o que ser feito pelas pessoas ordinárias.

A esperança era escassa, mas brilhava no fundo do coração dos sofredores. Isso nos leva até um certo homem, que estava disposto a mudar a trajetória da humanidade para sempre.

~ ✝️ ~

Em uma cidade ali perto...

O intimidador homem riscou um fósforo no cinto da calça, acendeu seu cigarro, deu um trago e o jogou no chão, queimando um caminho de fogo que percorreu do chão até uma casa simples de madeira que em poucos segundos estava completamente em chamas, junto com outras oito casas vizinhas, transformando a estreita rua e a grande plantação de trigo em um escaldante mar de fogo.

Era o major do maior batalhão do exército daquela região, que havia decidido expandir seu território e aumentar seu poder naquela província, começando pela área rural. Gritos e prantos eram abafados pelo som das chamas que estalavam no vento, mas ainda assim podiam ser ouvidos.

Diversas famílias sentavam na estrada de chão batido, observando com lágrimas nos olhos enquanto suas casas ardiam e todos seus bens eram roubados. Alguns choravam pelos entes queridos assassinados pelos cães do exército, aqueles que se recusaram a entregar seu ouro. Dezenas de homens fardados ameaçavam outras famílias, espalhados por outras ruas em grupos de quatro. Junto com o major, haviam mais três guarda-costas armados.

"Pare com isso, por favor!" As chamas brilhavam nos olhos do garoto que chorava suplicantemente no chão. "Eu já te dei tudo que tinha!"

"Não culpe a nós, moleque. Culpe o destino," respondeu o velho do cigarro, dando as costas ao menino. "Sou um dos poucos escolhidos pelo Imperador Sarkan, que finalmente percebeu minha lealdade e me deu sua benção!" Ele gritava em tom de admiração, "e me presenteou com essa maravilha da tecnologia," comentou gloriosamente enquanto acariciava o losango de cristal afundado em seu antebraço esquerdo, tinha uma coloração azul-escura transparente. "Ainda estou em fase de testes, mas o que importa é que o primeiro passo já foi dado," e riu.

O garoto fitava toda a plantação e seu antigo lar em chamas com a visão turva e embaçada de lágrimas enquanto ouvia a risada daquele homem que odiava com todas as forças.

"Que merda de mundo é esse.." ele pensou enquanto as lágrimas rolavam pela bochecha. "Isso não é vida.. essa submissão.. não passamos de animais nos olhos do império."

Tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas demais depois da surra que havia tomado dos soldados pouco tempo atrás, quando se recusava a dizer onde estavam as economias de sua família, que nem era muita coisa.

"Posso dar uma olhadinha nessa maravilha da tecnologia, senhor chefe-dos-soldados?"

Toda a frustração e impotência do menino foi levada com a voz forte que atraiu seu olhar, desviando-o da casa em brasas. Vinha logo do seu lado. "Quando esse cara veio parar aqui?" Se perguntou. "Um estrangeiro?"

Vendo do chão, o homem parecia ser imenso. Em seu rosto levava uma expressão esnobe e um sorriso arrogante e de seus ombros emanava uma aura definitivamente intimidadora, que deixou o pequeno suando frio e tremendo de nervoso.

Os guarda-costas se alarmaram e partiram pra cima do homem misterioso, "quietos aí," mas foram interrompidos pelo major confiante. "E quem você pensa que é?"

"Fico feliz que tenha perguntado," a resposta foi rápida e áspira, "então limpa a cera desses ouvidos sujos e escuta bem," apontou com ar de confiança pro comandante do batalhão corrupto, inspirou forte e gritou:

"EU SOU O MAO!"

A voz ecoou tão alto que fez as chamas dançarem. "Não se esqueça do nome que logo vai ecoar pelo mundo todo!"

Palavras pesadas e carregadas de poder saíam da boca do misterioso homem. Sua ambição chegava a ser palpável na atmosfera, e apesar de já estar traçando esse caminho faz tempo, nem ele imaginava as futuras repercussões de suas ações.

O major Bóris foi pego de surpresa pela abrupta e arrogante resposta do homem. "Eu estava pensando em uma possibilidade de te perdoar, mas essa arrogância toda te tirou esse direito, amigo. Em nome do grande Imperador Sarkan, você será executado aqui mesmo."

"Amigo? Há! Fique feliz em saber que será mais uma das pedras que pavilharão o caminho de glória do grande Mao!"

"Já ouvi demais. Matem esse insolente!" Ordenou o major e os três soldados partiram pra cima do denominado Mao, segurando em mãos adagas com lâminas verdes que emitiam um brilho estranho.

"Você realmente acha que esses peixe-pequeno são suficiente pra me parar? Meu dedo mindinho vai ser o suficiente!"

Os três capangas avançaram simultâneamente, com a intenção assassina de encher o homem de buracos e matá-lo sem escrúpulos. "Lentos." Com seus reflexos extremamente aguçados, a única reação do homem de trajes marciais chineses foi levantar o braço direito na direção de um dos soldados, esperar ele entrar em seu alcance e, com o dedo mindinho, dar um pateleco em sua testa. Três estouros altos soaram e três corpos arremessados longe. Três petelecos, um pra cada homem. "Só não foi menos de um dedo por ser impossível, idiotas!" E riu arrogantemente.

"Seu merda!" Uma veia soltava ma testa do major, "está se achando demais por ter derrotado três soldadinhos." Levantou o braço, mostrando o cristal preso dentro de sua pele, suas veias saltadas como se conectavam a ele. "Você tinha pedido pra ver minha maravilha da tecnologia, não é? Pois vou te mostrar todo o poder da benção do grande Imperador Sarkan! Link On: Ogum!"

O cristal começou a brilhar e borbulhar por dentro, as veias do braço do major pulsavam e seu sangue corria mais rápido. "Vamos ver como esse sorriso arrogante ficará em seu rosto depois de um ou dois socos com meu punho de metal." Sorrindo confiante enquanto sua pele enrigecia e adquiria uma certa camada de brilho, se agachou e meteu as duas mãos dentro da terra com força. Puxou com faciilidade do subterrâneo uma rocha duas vezes maior e mais gorda que ele mesmo, "TOMA!" E a arremessou com toda força na direção do viajante.

"Perfeito!" Mao cerrou o punho verticalmente e socou a pedra que se aproximava em alta velocidade, parando-a no ar e rachando-a em três grandes pedaços que caíram no chão. "Pele de aço, é? Huh. Aceito seu desafio."

Ele abriu os botões da veste cinza que vestia, parte do conjunto oriental (totalmente ancestral naquela época) e com um movimento a tirou e a jogou no chão. Sem camisa, aderiu uma posição de artes marciais orientais completamente anciã e já perdida no tempo.

Os olhos do garoto que antes brilhavam com as chamas de sua casa agora brilhavam ao mirar o homem ao seu lado. "Quem é esse cara? Mao? Um lutador viajante? Ou um rebelde?" Se perguntava boquiaberto após vê-lo derrubar facilmente três soldados e uma rocha imensa.

Olhando de baixo para cima o homem sem camisa, não podia deixar de sentir-se impressionado. Aquelas costas musculosas pareciam prontas para carregar o peso do mundo inteiro.

"Você pode ser forte, mas ninguém pode me vencer com esse cristal!" O major mostra o antebraço. "Essa é a prova da confiança do Imperador Sarkan em mim! Diga adeus a esse mundo, Mao!!" Gritou e correu na direção do sem-camisa. O cristal em seu braço brilhava e borbulhava intensamente e cada passo que o velho dava em seu frenesi rachava o chão com um estrondo, como um elefante.

"Cristal, é?" Mao levantou a mão direita. "Como esse?" Cerrou o punho e bem no meio da parte de trás da sua mão enraizado um cristal cinza, fosco e com fragmentos de ferrugem. "Melhor não contar com isso!" Gritou e jogou a mão direita pra trás e a esquerda pra frente, girando o tronco e posicionando os pés perfeitamente, ajeitando-se de acordo com a trajetória do oponente que corria em sua direção.

"Insolente! Onde você achou esse Link? Parece que vou ter que te matar mesmo!" O major saltou na direção dele, causando um rombo no chão onde pisara tamanha a força de suas pernas. Em um piscar de olhos estava com o punho ao lado do rosto de Mao, mas antes de alcançá-lo, sentiu um forte impacto em sua barriga, um soco em vertical que esmagou em seu estômago e o lançou na direção da casa em chamas em alta velocidade. Colidiu com a parede, o que fez a construção abalar e mergulhar o coitado em um mar de fogo e madeira.

"Aço não é duro o suficiente. Volte quando ter pele de titânio ou algo assim."

Ele se agachou para pegar a veste cinza do chão e a vestiu. O menino o encarava impressionado, procurando o que dizer.

"Bom, se cuida, garoto," se despediu Mao enquanto ia embora com as mãos nos bolsos e assoviava.

"E-espera! Por favor, me ajuda," rogou ele, "esses lixos do exército queimaram minha casa e a plantação onde meu pai estava escondido.."

"Qual seu nome, menino?"

"Óli! Eles me espancaram quando-"

"Óli," interrompeu o homem, "foi mal, mas eu não sou um bom-samaritano. Estava pelos arredores quando acabei por aqui no meio da treta. Estou indo pra capital na Floresta de Mogu." Voltou a andar, indo embora. "Quando puder andar, busque a vida. Passando pelo que passou, será fácil mesmo nesse mundo cruel." Palavras duras, mas Mao já havia passado por poucas e boas em sua vida para ter essa atitude. Numa época como aquela, era como se amadurecia.

O pequeno sentia a frustração vir a tona mais uma vez. "Você salvou minha vida e agora vai me deixar aqui assim?!" Se distraindo da dor com a discussão e já fora de uma situação desesperadora, conseguiu se levantar depois de reunir todas as forças. "Mao!"

O outro parou e virou seu olhar ao pequeno. Admirou sua preserverança ao ter se levantado, percebia-se pelos seus ferimentos que estava tendo dificuldade só em manter o equilíbrio.

"Espera aqui," mandou e, caminhando calmamente, entrou na casa em chamas.

Barulhos de madeira e entulho quebrando foram ouvidos desde fora e algumas tábuas em chamas foram arremessadas pelo teto e pelas janelas, e logo saiu de lá Mao, segurando pela cabeça o Major Bóris, que gemia de dor.

Arrastou-o pelo chão e jogou seu corpo chamuscado quase sem vida perto de onde estava Óli, o impacto acordou o velho que, ao fitar o rosto do homem que o venceu tão facilmente, se desesperou.

"E-espera, p-por favor..." o que antes era um poderoso e intimidador líder de batalhão estava reduzido a um miserável implorando pela sua vida, "não me mate! Eu posso te dar ouro! Posição! Terras! O que você quer?" Ele se exaltava cada vez mais com cada passo que o homem de vestes chinesas dava em sua direção.

"O que eu quero?" Ele agarrou novamente a cabeça do homem com a mão direita. "Se você é um homem, o que mais poderia querer?" Apertou os dedos com força e se pôde ouvir o crânio do velho rachar, e logo seus gritos desesperados. "Segurar o mundo com minhas próprias mãos, isso é o que eu quero!"

A vida do coitado não durou muito mais. Óli observou perplexo enquanto Mao segurava o braço esquerdo do defunto e ponderava sobre o cristal.
"Então essa é a arma que esse Sarkan inventou, o famoso Link.." Olhou para o próprio punho direito e logo para o braço do morto outra vez. Não hesitou muito, cravou os dedos entre a pele e o objeto e o puxou com força, fazendo espirrar sangue por todo lado, mas o cristal permaneceu limpo e intacto.
"Toma," jogou o losango na direção da criança. "Faz tua vida com isso."

Óli segurou o cristal azul, estava fosco e escurecendo aos poucos, perdendo sua cor e ficando transparente. Quando voltou seu olhar ao homem, percebeu que ele já estava longe, caminhando sem olhar pra trás. O garoto ponderou sobre si, sobre o cristal, sobre a situação e sobre o homem misterioso chamado Mao ao qual nunca mais vería. "Se eu viajar com esse cara.. talvez eu possa encontrar uma forma de acabar com esse mundo de injustiças," ele pensou. Desde criança ele observou a maneira como famílias pobres sofriam nas mãos do governo milenar de Sarkan, e seu sonho sempre foi lutar contra esse império corrupto de alguma maneira.

Apesar dos ferimentos, a dor já havia passado, e ele se levantou e correu na direção do homem. Este percebeu o garoto ao seu lado e impressionou-se com sua recuperação repentina, sorriu e calou, e Óli riu em seguida. Seu caminho acabava de se entrelaçar com o do homem que o salvou.

Mal sabia que o caminho que esse homem percorria, possivelmente, mudaria o rumo da humanidade.

"Então, Mao, você já ouviu falar do exército revolucionário?"

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top