Basile III
"Já parou pra pensar qual a origem das suas habilidades?" Perguntou a voz ecoante. "Como funcionam, por que as têm?"
"Esporadicamente."
"Lembre-se dessa sensação, então," a voz vinha de um homem de luz que pousava o polegar esquerdo na testa do jovem, fazendo aquele ponto começar a vibrar intensamente. "Este movimento é a base de tudo. Também é o seu poder."
A vibração aumentou em intensidade e frequência, e se expandiu para o corpo todo do rapaz, até os extremos de sua pele; e quando chegou a níveis extraordinários, quando sentia que seu corpo já não aguentaria mais, pouco antes de explodir, ele acordou.
Se abriram lentamente os olhos de Basile, revelando o túnel de árvores que levava ao céu nublado e de aparência chuvosa. "Outra vez esse sonho?" Ele indagou. Era a sexta noite seguida que sonhava a mesma coisa. "Um homem de luz, a origem dos meus poderes.." enquanto ele tentava criar uma conexão entre os detalhes do estranho sonho e o fato de estar naquela floresta misteriosa, sentou-se escorado, se espreguiçou e esfregou os olhos.
A vista solene e um tanto triste do grande espírito de Mogu dormindo enquanto sua cor esmeralda se esvaía no ar e seu próprio corpo translúcido ia perdendo composição o encheu de sentimentos. Estava mais que claro que aquelas eram suas últimas horas naquele plano, de fato, já tinha que ter desaparecido fazia alguns dias segundo cálculos de especialistas. Para Basile, era como se estivesse presenciando a história acontecer perante seus próprios olhos, as engrenagens universais abrindo portas para uma transição de eras.
E realmente era. Aquele ano em específico, 2030, foi um ano decisivo para a humanidade, e extremamente conflictivo. A tão aguardada desaparição do guardião da floresta mística era considerada, por muitos, a salvação da humanidade. O clima do planeta estava extremamente instável graças às consequências do aquecimento global e o derretimento das calotas polares que arrasavam a Terra. Temperaturas mínimas congelantes de 50° negativos e máximas escaldantes de 65°, catástrofes naturais quase apocalípticas como enormes tsunamis e avassaladores terremotos por todo o globo; terras antes férteis agora totalmente secas e improductivas, e com a poluição dos mares e rios, até a água potável era escassa. Gradativamente, a fome e a sede foram se tornando fatores cada vez mais comuns na vida das massas, e a raça humana se deparava com a extinção – ou pelo menos a extinção da sociedade moderna.
Nesse período, foi criada pelas grandes potências mundiais a PSA – ou Planet Saving Agency – uma instituição governamental com a finalidade de estudar as consequências climáticas, resgatar as pessoas das catástrofes cataclísmicas e resolver os problemas gerais dessa crise. Não obstante, essa organização autorizada pela ONU e financiada pelo G7, membros do grupo Bilderberg e outros mega-empresários multimilionários, tinha controle de grande parte do poder militar e tecnológico mundial, sendo até conhecida como símbolo de união entre as potências. O que seria perfeito, se as decisões finais mais importantes e impactantes não fossem tomadas pela pequena elite de poderosos que controlavam muitos dos governos de potências a nivel global por detrás das cortinas, uma pequenina organização conhecida como – entre muitos outros nomes – NWO, a Nova Ordem Mundial.
Agora, com o Grande Espírito fora de jogo, a possível exploração da Floresta de Mogu traria imensos benefícios para a humanidade em todas as escalas. Numerosos recursos naturais, minerais e fósseis, a serem aproveitados e assim continuar com o estilo de vida consumista contemporâneo e o mercado multimilionário de petróleo; avanços científicos em diversas áreas através do estudo dos peculiares animais e plantas dali, uma biosfera ancestral jamais tocada pela mão humana; revelação de misterios históricos da origem do ser humano pela arqueologia milenar dali; um novo lar para essa raça que já quase não tinha onde viver. Variados eram os motivos pelos quais grande parte da população – principalmente os grandes corporativos – era a favor da exploração da floresta, e a grande justificativa era a sobrevivência e evolução da raça humana.
Em contrapartida, a Floresta de Mogu era a última reserva natural do planeta, e suas extravagantes árvores, incluindo a majestosa árvore-mãe Gaia, eram partes vitais do ecossistema da Terra, pois junto com os (já poluídos) oceanos, era principal fonte de oxigênio do planeta. Todos no fundo sabiam que assim que os governos tocassem nas primeiras árvores da floresta, a raça humana estaria condenada, e os que não aguentavam essa realização, lutavam com todas as forças contra esse processo, tentando propor soluções alternativas que não envolvessem destruir o último órgão saudável da mãe Terra.
Os debates foram calorosos e muitas vezes agressivos, mas apesar das pessoas terem sido divididas entre pró-exploração e anti-exploração, o primeiro grupo era claramente mais numeroso – e coincidentemente o grupo favorecido pela mídia.
O desespero popular era tal que muitos grupos manifestavam perto da entrada leste da floresta, a grande massa gritando pela invasão e colheita de recursos, com placas que se liam "pelo avanço da espécie", "comida para nossos filhos", "a sobrevivência da humanidade."
Era compreensível o sentimento da massa, considerando o tanto que estavam sofrendo. Milhares de pessoas morrendo todos os dias com as catástrofes naturais, epidemias, a fome, falta de estrutura para atender a todos os enfermos, crise econômica global. A ironia era a contradição de seu desejo, de acordo com a perspectiva do grupo de resistência que também ali estava, defendendo a floresta e bloqueando a passagem à ela com uma barricada humana. "O avanço da humanidade acabará quando colocarmos o primeiro pé ali!" Gritavam eles enquanto o conflito continuava.
Todo esse estardalhaço era sentido pela floresta inteira, e o Espírito de Mogu, já esvaindo-se, apenas esperava o momento em que agir. Afinal, havia prometido que apenas atuaria para proteger a floresta e nunca mais. Basile se deu conta da expressão preocupada no rosto do Espírito, e se levantou pra caminhar em sua direção. "Não se preocupe, seus últimos momentos aqui serão pacíficos." E com uma expressão tranquila e um toque na face do avatar, flutuou para longe dali.
~ ⚖️ ~
"Sabia que isso aconteceria," disse enquanto se direcionava a entrada leste, a qual demoraria algumas horas para chegar. "Espero que o conflito não seja tão grande. Conhecendo a mentalidade daqueles desgraçados, os danos colaterais podem ser numerosos," murmurava enquanto acelerava o vôo, "também estou curioso com o tema do pergaminho. Bom, melhor me preocupar com isso quando chegar a hora," pensou ao lembrar-se do escrito que deixei ali séculos atrás. O pergaminho nada mais continha que instruções para uma sincronicidade multidimensional, a qual logo chegaremos.
Perto da entrada leste da floresta, homens uniformizados tanto em camuflagem quanto em ternos pretos, fortemente armados, começavam a brotar em batalhões, marchando em direção às árvores. Logo, tanques platinados de movimento dinâmico seguidos de exoesqueletos mecânicos de guerrilha, a última tecnologia militar. No ar, drones munidos de grandes bombas negras sobrevoavam os batalhões mecânicos. Afinal de contas, Mogu era uma ameaça internacional que já havia destruído dezenas de exércitos e matado milhares de homens. E para enfrentar uma lenda milenar assim, mesmo sabendo o que ocorreria, todo cuidado era pouco. O logo do globo envolvido por um anel vermelho sobrescrito PSA decorava cada um dos uniformes negros dos soldados e cada estrutura mecânica, e a diversidade étnica e tecnológica só esbanjava a escala militar de nível global da organização.
Os militantes cessavam as brigas e discussões enquanto se aproximavam os militares. Os grupos a favor agora clamavam "PSA, PSA, PSA", e os contra gritavam em protesto enquanto os da barricada humana, apesar de assustados, deram as mãos e mantiveram suas posições.
Em pouco, um homem de terno e óculos escuros saiu por de dentro da formação, um agente de alto escalão, e em um microfone conectado à uma grande caixa de som, proclamou: "depois de mais de uma década de sofrimento e decadência, a raça humana está pronta para prosperar outra vez. Não pode ser coincidência que o fim de Mogu seja nessa mesma época de crise mundial, só pode ser uma oportunidade de Deus, e iremos aproveitá-la." O grupo concordante bradou e aplaudiu, e ele continuou, "temos ordens de invadir a floresta, e qualquer um que bloqueie o caminho da agência será tratado como obstáculo."
Apenas a ameaça e a progressiva aproximação do exército fez com que grande parte da barreira humana se desfizesse, e os poucos que restaram agora eram apontados com rifles de assalto de alta precisão. "Favor limpar a trajetória dos agentes da PSA em três minutos, ou tomaremos represálias," disse novamente o mesmo agente. Três minutos passaram voando e o homem sinalizou com a mão a rajada de disparos. Uns saíram correndo, outros continuaram ali por suas convicções, mas todos suavam frio.
"Fogo!" Gritou o homem e os disparos foram escutados. Os olhos fortemente fechados e nervosos dos cidadãos da barreira logo se abriram ao notar apenas silêncio, e se surpreenderam ao ver todas as balas – de borracha – paradas em suspensão no ar. Centenas de balas redondas e azuis que caíram no chão logo em seguida. A atenção dos estupefatos foi direcionada às árvores, e de dentro da floresta saiu um rápido vulto que pareceu cair rapidamente de joelhos na frente dos manifestantes, e ao se levantar, se viu que era Basile.
"Parem com isso imediatamente!" Gritou o jovem. "Não há necessidade para violência." Ele se impressionou com a escala da artilharia que enviaram para a floresta apenas para ocupá-la. "Nada além do esperado," pensou.
"Basile Bélanger." O agente observou. "Nossas fontes informaram que ele apareceria, mas não acreditei. Um homem desses realmente se entregaria assim depois de tantos anos de perseguição?" Refletiu enquanto apontava sua pistola pra ele. "Basile Bélanger, por diversos confrontos passados e crimes contra o estado, a PSA e a humanidade, tenho ordens para executá-lo à vista."
Sim, nos anos de reclusão e viagens de Basile, ele acabou se tornando um dos maiores procurados da época, tanto a ponto de ter uma recompensa da CIA pela sua cabeça. Os governos mundiais eram bem cientes tanto de sua genialidade quanto de suas habilidades psíquicas, e não deixariam alguém assim viajar livremente por aí. Também, diversas vezes o caminho de Basile o levou até situações de conflito com planos illuminatis.
Como quando ele acabou com uma operação de testes humanos de drogas experimentais na África, onde alegavam administrar cocteis de medicinas para diversas doenças – como malária e AIDS – enquanto estudavam os efeitos de químicos e substâncias recém descobertas e criadas, drogas cuja origem de distribuição era nada mais nada menos que a Fundação Rockefeller; ou quando seus estudos sobre a biosfera terrestre e a relação dela com a gravidade terrestre – utilizando cálculos de matéria escura – o levaram até a Floresta Amazônica, onde destruiu planos de desmatamento em massa que devastaram a floresta quase inteira, ao ser implorado por várias tribos indígenas desesperadas. Apesar de ter detido o projeto, a floresta já não era mais o que um dia havia sido. Ninguém percebeu isso acontecer, já que cada país estava ocupado com seus próprios problemas políticos e socioeconômicos, mas esse evento levantou pela primeira vez a questão na mente de Basile: "e se o aquecimento global não foi planejado?"; também quando solucionou a crise de 24 – uma crise econômica global arrasadora na segunda década do século XXI, causada pelas consequências do câmbio climático e as condições de vivência extremas – com o maior ataque hacker já registrado na história, que alvejou todos os bancos centrais, a bolsa de valores e o próprio valor das moedas em si; entre diversas outras ocasiões que o converteram em um estorvo para os poderes e seus planos a nivel global, e assim era considerado um terrorista.
Com o sinal do agente, os soldados mudaram a munição para balas de verdade e apertaram seus gatilhos outra vez, mas outra vez as balas pararam instantaneamente no ar em frente ao jovem.
"Não vou deixar que ponham em perigo nem essas pessoas nem a floresta."
Nesse exato momento sentiu um forte golpe em cima do ouvido esquerdo e caiu no chão. Era um disparo de sniper, e as pessoas que formavam o bloqueio que antes de impressionaram com o rapaz agora corriam e fugiam do meio do tiroteio. Basile levanta rapidamente e retira a bala de seu crânio, o qual quase havia sido perfurado – o que o salvou foi um programa que implantou em seu subconsciente, para que sempre que algum objeto penetrasse seu corpo sem ele ter consciência disso, criar uma barreira protetora e repelente em todas as suas camadas de tecidos. "Preciso ter mais atenção," pensou e flutuou para mais perto da floresta, também para se distanciar das pessoas.
"Então seu objetivo é defender a floresta," indagou o agente enquanto apertava um dos botões de um controle que segurava, e dos ombros das dezenas de exoesqueletos mecânicos do exército, saíram vários mísseis para todos os lados, esses que se dividiam em vários outros e se convertiam em centenas. "Pois tente protegê-la e sobreviver ao mesmo tempo."
"Não medirão esforços para acabar comigo, não importando danos ambientais e humanos. Lógico." Basile voou rapidamente nas direções aleatórias dos mísseis, e ao se aproximar, fechava o punho e os esmagava com a intenção, explodindo-os no ar sem causar dano a ninguém. "São muitos, mas tenho que conseguir."
Voava aerodinâmicamente enquanto desviava de rajadas de tiros e parava outras no ar, se aproximava de mais mísseis e os detonava. Apontou a mão para um dos robôs exoesqueletos e o lançou pelos ares, controlando-o para chocar e explodir dezenas de mísseis ao seu redor, lançando-o depois contra um tanque, destruindo-os. Apontou a mão direita à infantaria e tirou das mãos dos soldados todos seus rifles, fazendo-os pairar ao seu redor e disparar sobre as dezenas de mísseis que restavam ao mesmo tempo que desviava deles.
Tanto o agente e os soldados quanto as pessoas manifestantes observavam boquiabiertos a demonstração de poder psíquico que muitos nem acreditavam ser possível. "Essa é uma arma experimental," hesitou o agente da PSA, "mas se a deixaram em minhas mãos foi porque imaginavam esse cenário." Ele apertou outro botão em seu controle e os drones começaram a mover-se pelo ar, formando um padrão geométrico, e logo começaram a disparar pouco a pouco as bombas negras na direção geral de Basile e da floresta. Eram oito bombas, uma para cada drone, negras em formato de elipse, que emitiam um som estridente ao mover-se pelo ar.
"Esse barulho.. não pode ser," se desesperou Basile enquanto rápidamente ia de encontro às bombas, as parou no ar com todas as suas forças e apagou qualquer mecanismo de propulsão ou aquecimento, pousando-as suavemente ali perto de uma árvore enquanto pensava: "pelo ruído que fizeram os mecanismos dessa bomba, ela é perigosa. Depois me desfaço delas com cuidado." Infelizmente, um dos drones estava fora do campo de visão de Basile – graças à formação estratégica – e sua bomba já estava chocando-se contra uma das grandes árvores quando ele se deu conta.
Nesse momento, Basile sentiu algo que nunca havia sentido antes. Um pressentimento tão forte que quase o levou ao desespero. Uma intuição potente que fez sua perspectiva de tempo desacelerar quase por completo. O ar soprava fortemente e quase fazia as árvores falarem. A floresta toda sentia essa pressão, tanto nos animais que se escondiam nas ramas quanto nas árvores que balançavam seus galhos intensamente. Os olhos do Espírito de Mogu se abrem por completo ao sentir essa distorção na consciência coletiva da floresta.
A bomba, ao chocar-se contra o rígido tronco da grande árvore, fez com que a estrutura interior da ogiva implodisse. No mesmo instante, desde o centro da implosão, começou a se expandir instantaneamente um tipo de substância negra quadriculada que crescia pelo espaço como se o preenchesse por completo, desde a distância entre uma folha e outra até a distância entre um elétron e o núcleo, no espacio vazio entre átomos.
A velocidade de expansão era assustadoramente rápida, só naquele breve instante que parecia infinito para Basile enquanto seus olhos desesperados enxergavam a cena, a expansão já havia preenchido a árvore por inteiro e um pouco mais, se aprofundou no chão, e até, infelizmente, alcançou algumas desafortunadas pessoas.
Os instintos de Basile – nada além disso para ser tão rápido e tirar proveito de seus reflexos psíquicos – o fizeram criar uma grande barreira esférica ao redor da expansão negra, separou completamente os átomos uns dos outros e paralisou qualquer tipo de movimento quântico numa área de alguns milímetros ao redor da expansão. Sua mente visualizava com perfeição a divisão de cada molécula, o distanciamento de cada eletron, partículas subatômicas fixadas em uma única e total possibilidade. Uma barreira literalmente intransitável, pela qual, num nível fundamental, nenhum tipo de informação poderia passar.
Barreira essa que foi alcançada quase imediatamente pela expansão de matéria negra, e em alguns instantes, a matéria em um estado de expansão e preenchimento quase infinito, começou a preencher seu próprio espaço em níveis multidimensionais, manifestados nesse plano físico. A matéria dentro da esfera começou a eclodir consigo mesma e alcançar níveis extremos de massa, elevando cada vez mais a aceleração da expansão, até chegar ao ponto de superar a velocidade da luz e gerar uma singularidade. Isso acabou criando um apocalíptico buraco negro dentro da barreira esférica.
Isso tudo ocorreu em alguns milésimos de segundo. Desde a perspectiva de todos os outros ali, uma gigantesca bola completamente escura – tanto que nem parecia deste mundo e sim algo demoníaco – revestida de algo que parecia uma camada de vidro, apareceu do nada onde antes eram árvores imensas, e emitia uma pavorosa e intensa sensação. Para as pessoas mais próximas, seu campo de visão foi completamente involucrado pela escuridão. O agente que apertou o botão não podia acreditar em seus olhos ao se dar conta do que fez.
Basile, completamente tomado pela intuição e o instinto, concentrava-se completamente em continuar separando o espaço entre o buraco negro e a atmosfera da Terra, ou tudo estaria perdido. Um segundo seria o suficiente para a gravidade infinita da singularidade distorcer completamente o espaço-tempo que ocupa o planeta e causar danos irreparáveis, e seguramente a extinção de toda a vida ali. No entanto, seu limite estava próximo e o medo começava a tomar conta de sua mente. As pessoas tremiam em pé com a cena, algumas não aguentavam e caíam ao chão que tremia junto com o vento que dançava em terror, sentimento que se espalhava visivelmente pela mente de todos os abismados.
De repente, um ensurdecedor estrondo soou e o chão tremeu com um impacto. Estrondosos batidos no peito e logo um atordoante rugido que ecoou por toda a floresta, pelos mares e os ares. Era Mogu, que chegou até a entrada da floresta com um poderoso salto, e todos ficaram boquiabiertos.
Ele segurou a barreira esférica com seus musculosos braços. Era quase do seu tamanho. A apertou com força e rugiu alto enquanto aplicava todo seu ser naquele agarre. Moveu a esfera alguns centímetros, e deslocando-a pouco a pouco, cada vez mais ganhando velocidade e momentum, até conseguir levantá-la e girá-la pelo ar. A pressão do vento e a força centrífuga que quase criava um tufão fez os que ali estavam segurarem em algo ou sair voando.
Com toda a força que conseguiu conjurar do fundo de sua alma, Mogu arremessou longe a esfera, que voou rapidamente até sair da atmosfera da Terra. Já fora do alcance de Basile, a barreira esférica espacial se evaporou, mas como a singularidade já estava criada, o buraco negro não se expandiu, apenas continuou seu movimento constante pelo vácuo do espaço, destinado a absorver muita matéria e causar bastante caos pelo seu caminho.
O Avatar de Mogu ofegou um pouco, e caiu sentado no chão. Basile, exausto, respirou fundo e fitou o rosto do espírito, que o retribuiu. Os manifestantes gritavam eufóricos, principalmente os contra a exploração, já que puderam ver em pessoa o Espírito de Mogu pela primeira e última vez, salvando-os ainda por cima. Basile sentiu um calor em seu peito e uma frequência um tanto estridente ecoou pela sua mente, até chegar num nível que conseguiu entender. Não eram exatamente palavras, eram como sentimentos que lhe eram transmitidos telepaticamente.
"Obrigado," sentia a voz. "Graças a você, pude proteger a floresta uma última vez." O avatar gorila esboçou o que pareceu um sorriso, e se curvou levemente. "Posso sair deste plano sem arrependimentos." Basile sentia uma sensação de gratidão imensa em seu peito, que emanava por todo o ambiente dali, acabando com qualquer tensão. "Em seu subconsciente vou deixar a direção, você saberá como chegar." E de repente, o jovem sabia a localização da pirâmide de Buda. Se impressionou ao dar-se conta de que o pergaminho que deixei era verdadeiro, já que havia escrito:
"Atente-se à mensagem do gorila Mogu. Quando chegar lá apenas sente, respire em silêncio e abra sua mente. Encontrarás muitas respostas, e com certeza muitas novas perguntas."
"Me pergunto quem será esse alquimista Cornelius," imaginou Basile, e eu ri.
O corpo translúcido de Mogu começou a se desfazer no ar, como se evaporasse. Sua cor, antes esmeralda, já era quase cinza, e cada vez mais difícil era de enxergá-lo. Ele pousou as mãos no colo, fazendo um mudra e tomando posição meditativa. Sua face era solene e pacífica, e a vista era bela para todos os presentes que se surpreenderam e maravilhavam com a criatura que acabara de salvar suas vidas, e o planeta inteiro no processo. Seus olhos brilhavam com a imagem do colossal gorila transparente que pouco a pouco se dissipava no ar, deixando apenas uma sensação amorosa no peito de cada um, até desaparecer por completo.
O silêncio calou por alguns instantes, até ser interrompido por um ríspido barulho de disparo. A bala parou logo ao lado do rosto de Basile que estava deitado. O agente de antes apontava sua pistola para ele. "Merda, ele não estava distraído?"
"Você!" Basile levitou do chão e encarou o homem. Apontou sua mão para ele e, com a intenção, o levantou e aproximou velozmente seu corpo até pegar em seu pescoço e apertar. "Eu imaginei que vocês utilizariam minhas descobertas para construir armas, mas nunca pensei que fossem idiotas o suficiente para usá-las!" E deu um soco na cara do homem que o derrubou, mas levitou seu corpo outra vez. "Deixei bem claro no meu livro o quão perigoso seria a matéria escura, uma matéria multidimensional, mesclada à força nessa dimensão física! O planeta... não, o sistema solar inteiro seria absorvido!" E deu outro soco no homem. "Diga aos seus superiores que isso não ficará assim. A partir de hoje, as coisas mudarão." E o lançou em direção aos batalhões.
"Pessoal!" Gritou Basile chamando a atenção de todos ali. "Como vocês podem ver, se não fosse pelo nobre Espírito de Mogu, todos estaríamos mortos, e o planeta sugado pelo buraco negro." Ele desceu ao chão, entre os dois grupos. "Essa é a extensão da ganância da PSA e os poderes por detrás dela. Não se importam nem com a vida do planeta, quem dirá com a floresta, e pior ainda, quem dirá com VOCÊS!" E apontou para eles. "Nós podemos sobreviver, nós podemos mudar, podemos continuar. Podemos viver sem explorar a Floresta de Mogu, podemos coexistir com o ambiente e uns com os outros, precisamos disso. Apenas precisamos perceber nosso verdadeiro potencial, e quem são nossos verdadeiros inimigos, para acabar com eles JUNTOS." Voltou sua mirada para o exército e os agentes da PSA. Os que o escutavam bradaram levantando as mãos para o ar. "Eu me proponho a ajudar a solucionar essa crise, e pra isso peço a ajuda de todos vocês. Nós podemos ter energia limpa e grátis, abundância de alimentos e recursos para todos! Apenas precisamos nos propor, e conseguiremos! Tudo é possível para nós. Somos a raça humana!"
Os aplausos, assobios e gritos soavam alto no lugar, alguns até clamavam o nome de Basile. Pessoas tanto do grupo a favor quanto contra a exploração da floresta resolveram se unir por um bem comum, pelo futuro da humanidade, juntas. As palavras de Basile – gravadas por muitos e espalhadas mundialmente em poucos dias – acenderam a faísca de revolução que brilhava no fundo do coração de cada um que sofria com as injustiças e corrupção do sistema da época, e esse foi o início de uma insurreição que marcou o mundo de várias maneiras, algumas até trágicas, mas principalmente progressivas. O início de uma revolução na consciência coletiva do ser humano, a Revolução de Bélanger.
Os remanescentes soldados e agentes haviam sido facilmente expulsos pelo povão, e Basile ficou por ali com a multidão, discutindo propostas de tecnologias novas, avanços científicos beneficiários, ideias de sobrevivência coletiva, coexistência pacífica uns com os outros e com a natureza, e também projetos geniais para restaurá-la à sua glória.
Horas e horas se passaram, o discurso foi longo. Desde projetos de melhorias tanto sociais quanto econômicas, até filosofias de união e valores, discursou até sua voz ficar rouca. Suas palavras gravadas e transmitidas ao vivo pela rede para o mundo todo. Cientistas, inventores, arquitetos, professores, funcionários, gente de todas as áreas – até empresários e marketeiros – todos que se relacionavam com as palavras e visões de Basile e se impressionavam com suas geniais ideias, começaram a se unir para transformá-las em realidade. Aquele foi um longo e decisivo dia para a humanidade, principalmente longo. O sol se pôs e muitos ali ainda estavam, e a noite era uma criança.
~ ☮️ ~
Basile acordou e já era tarde. Os raios de sol brilhavam intensos por entre as imensas folhas das árvores que faziam um túnel ao céu. Havia se acostumado a dormir naquele lugar, apenas achou um pouco solitário sem a presença do grande espírito ali. Ele bocejou e abriu novamente o pergaminho velho. O leu uma última vez e se lembrou da mensagem de Mogu. A direção já estava em sua mente, sabia onde tinha que ir, e se levantou então. Se espreguiçou e levitou por entre as árvores.
Apesar de flutuar, o caminho ainda duraria horas. Desenhava em seu caderno as mais diversificadas espécies de animais e plantas, tartarugas com cristais geométricos nascendo em seus cascos, lobos com pelos de musgo, pássaros com longos rabos coloridos, flores gigantes com padrões de cores psicodélicas; a biosfera era rica, e um prazer para os olhos curiosos, como sempre. Rabiscava em seu caderno enquanto uma maçã flutuava em sua boca, e ele a mordia.
Em algumas horas, sentiu um pequeno calafrio na espinha, e ao dar a volta por uma das grandes árvores, se deu de cara com seu destino. A pirâmide de Buda. Seus olhos se apaixonaram pelos detalhes naturais e arquitéticos daquela paisagem, e antes de mais nada, parou para desenhá-la.
A sensação de paz e harmonia emitida naquele lugar era quase fisicamente sentida, e muito prazerosa. Basile logo caminhou na direção da pirâmide, admirando cada cantinho, até chegar em suas escadas e subí-las. Começou a sentir a mesma vibração de seus sonhos, na testa entre os olhos. Começou fraca, mas quanto mais subia os degrais, mais notável ficava. Quando chegou no topo, percebeu que não havia nada além de um símbolo de círculos gravado no chão.
"Sentar, respirar em silêncio e abrir a mente, né," ele lembrou. Caminhou até o meio do topo da pirâmide, no centro do círculo principal do símbolo, e sentou-se ali. Percebeu que naquele ponto, as vibrações eram mais fortes que nunca. Fechou os olhos e respirou fundo. As folhas dançavam com a brisa suave e os pássaros cantavam ao fundo, naquele ambiente harmonioso e acolhedor, a mente de Basile se deixava dormir – o que era algo difícil de acontecer – e entrava em um estado de consciência pura.
"Basile." Escutou uma voz. Soou baixinho, como se saísse de dentro de sua cabeça, mas logo outra vez mais alto. "Basile!" Ouvir a voz o transportou imediatamente para um lugar de luz quase cegante, mas misteriosamente confortável e hospedadora. Quanto mais Basile a percebia, mais cores e padrões iam surgindo naquele silencioso espaço em branco. Não sabia onde estava, só sabia que estava completamente consciente.
"Olá, Basile," ouviu a voz outra vez. Sentiu a informação entrar em seu coração como uma emoção, da mesma forma que com Mogu. Virou sua cabeça na direção da voz e viu um homem de luz, que pouco a pouco foi adquirindo a forma de um homem normal, mais velho. "Me chamo Yesod, sou seu espírito protetor."
Basile pareceu completamente atônito com a introdução. "Espírito?! Como assim?" Perguntou cético.
"Não deixe conceitos humanos ou significados semânticos bloquearem sua perspectiva, Basile," disse calmamente o homem. "Sei que você possui a mentalidade extremamente racional e científica, mas nossa realidade é muito mais complexa do que aparenta."
"Então é isso que o alquimista quis dizer com 'mente aberta', não?" Ele riu consigo mesmo. Olhou para si mesmo, seu corpo que flutuava sozinho era quase translúcido e brilhante. Seus arredores também não pareciam com nenhum cenário que havia visto em sua vida, mas ainda assim misterioso e palpável. Mais importante de tudo, estava consciente – talvez mais do que normalmente estaria – então aquilo só podia ser real. "Bom, não é como se eu não acreditasse em fenômenos paranormais não explicáveis pelo viés científico. A própria matéria escura foi um grande desafio para ser entendida, e a consciência continua sendo o maior mistério de todos."
"Hahaha, eu imaginei que assim seria," sorriu Yesod. "A curiosidade é o combustível do conhecimento, afinal. E isso é algo que sobra em você."
"Suponho," suspirou Basile.
"Ter citado a consciência como o maior mistério foi um bom exemplo," disse Yesod. "A ciência diz que a consciência não pode influenciar na matéria, mas como então eu posso, com minha intenção, fechar os dedos e formar um punho? Por acaso não é minha mente que está controlando a matéria no momento em que a movo com minha intenção consciente?"
"Boa pergunta, realmente é interessante. Também já pesquisei experimentos que mostram como pensamentos afetam movimentos de partículas quânticas," respondeu Basile. "Isso tem algo a ver com minha habilidade?"
"Pois sim, meu amigo! Sua habilidade é uma extensão de sua consciência. Da mesma forma que controla o movimento dos dedos com a mente para formar o punho, você controla a matéria ao seu redor, com o poder do pensamento e da intuição, que também são energia assim como todo o universo. Habilidades psíquicas são inerentes ao ser humano, apenas adormecidas. Você nasceu com uma delas já desenvolvida ao extremo, a telecinese. O próprio plano em que estamos agora, é alcançado através de outra habilidade natural nossa: a projeção astral."
"Projeção astral?" Se perguntou Basile. A palavra 'astral' soava bastante esquisita e esotérica para seus ouvidos racionais. Yesod tocou a testa de Basile com o polegar, e uma vibração ali surgiu. Prontamente, o cenário branco desapareceu, e os dois estavam na floresta mais uma vez. Basile agora flutuava de verdade, conseguia sentir a diferença entre voar com seus poderes telecinéticos e levitar naturalmente, era notável e confortável. Ele olhou para baixo e viu a pirâmide, e para sua surpresa, seu próprio corpo ali sentado.
"Isso é prova o suficiente," riu.
"Essas e muitas outras habilidades se manifestam biologicamente neste terceiro plano dimensional através da glândula pineal, que é conhecida em diversas civilizações como o 'terceiro olho'", continuou Yesod. "Você já possui vasto conhecimento das leis universais do plano físico e como ele funciona, e até por isso possui grande controle sobre ele com sua habilidade psíquica, mas a realidade é bem mais complexa do que esta simples dimensão, e está intrinsicamente conectada com a consciência universal e as energias fundamentalmente manifestadas por ela."
Basile pousava a mão no queixo e refletia as palavras do homem. "Interessante. Intrigante. Isso, na verdade além de explicar algumas coisas, levanta outras conotações interessantes. Imagino que tenha bastante para me contar, então."
"Disso você pode estar seguro," e riu.
O jovem riu junto. "É um prazer conhecê-lo, Yesod," e estendeu a mão.
"Igualmente," o outro a apertou.
Enquanto o mundo passava por drásticas mudanças e insurgências, Basile cada vez mais traçava seu destino. Este encontro enriqueceria tanto a vida de Basile quanto a de Yesod, e sua alma. Também é o primeiro encontro que define a existência de Basile como um paradoxo, como disse quando o introduzi – mas disso você, leitor, se dará conta quando o momento certo chegar. Não apenas isso, mas o destino desses e outros já estava, através das sincronicidades universais, se entrelaçando pouco a pouco.
E que destino turbulento seria esse.
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