Capítulo 1


Jungkook estava no seu turno do cemitério. Muitos odiavam isso, mas ele gostava, sentia que salvava mais pessoas dessa maneira. Ele estava estacionado em uma área de tráfico de drogas e prostituição conhecida de seu distrito. Ser um policial nos últimos dez anos deu a Jungkook algo que a maioria dos policiais desse turno da noite não tinham: experiência e conhecimento. Ele era bom no que fazia, e certamente não lhe doía ser um ex-fuzileiro naval. Tendo se alistado aos dezoito anos e honrosamente dispensado após seis anos, Jungkook achou que seria melhor se tornar um policial, onde ele poderia ser necessário.

Seus sentidos e habilidades de alfa eram perfeitamente aguçados, e ele se destacava. Dispensou muitas promoções porque sentia que fazia mais nas ruas, e não sendo um empunhador de lápis preso atrás de uma mesa. Ele acabaria adquirindo uma pança e isso não era algo que ele queria aos trinta e cinco anos de idade. Para sua sorte, seu capitão e a cidade de Seul lhe renderam aumento salarial, mesmo sem os títulos de promoções.

Assim que alcançou a sétima avenida, um sedã marrom parou de repente do outro lado da rua. Observou dois homens descerem, ambos vestidos com roupas que os protegiam do frio da noite. Jungkook viu-os puxar um corpo menor do banco de trás, despachar a vítima antes de voltarem para o carro e seguirem embora.

Jungkook correu para a rua e pegou a placa. Ele clicou no rádio em seu ombro, ligando-o, enquanto se adiantava para ir até o corpo imóvel.

K2L V6P, leu na placa.

— Despacho; 10-31, 10-78, 10-38; Kilo, dois, limão, vento, seis, Papa. — Jungkook proferiu. Seu rádio ganhando vida.

10-4. Nós temos um 10-31. O alfa ignorou o A.P.B desligando o despacho e alcançando ligeiramente o corpo, agora em movimento, no chão frio.

— Hey, eu sou o Oficial Jeon. — Jungkook começou.

Ele olhou para a pessoa e o cheiro forte de ômega, sangue e sexo atingiram seu nariz. A vítima estava usando botas de salto alto pretas que chegavam até acima dos joelhos, com uma saia jeans azul curta, deixando parte de suas coxas brancas que estavam sujas e machucadas visíveis, e um casaco de pele marrom, barato e falso. Também havia várias centenas de notas em dinheiro ao redor do ômega.

— Despacho; Vou precisar de uma ambulância. — Jungkook disse, clicando no rádio, e de repente o ômega sentou-se rapidamente, e olhos avelãs assustados olharam para ele.

— Hospital não! Eu tenho que ir para casa. — O alfa respirou fundo, porque aqueles olhos, cor de mel envoltos por cílios negros como a noite, eram a visão mais encantadora que Jungkook já havia testemunhado, e ele já tinha visto muita coisa encantadora.

— Veja, você está claramente machucado e...

— Eu tenho um filhote sozinho em casa... Por favor, tenho que ir para casa. — Aqueles olhos olharam para ele suplicantemente, seus lábios rosados estavam machucados, com sangue escorrendo no canto esquerdo e tremiam de frio. Jungkook também podia ver contusões em seu rosto bonito e em volta do pescoço do ômega.

Porra. Jungkook soltou um suspiro nasalado e clicou no rádio em seu ombro. — Despacho; 10-22 que.

10-4 Jeon.

— Vamos, eu o levarei para casa. — Disse Jungkook, ajudando cuidadosamente o ômega a ficar de pé depois que ele juntou todo o dinheiro. O ômega quase caiu de volta ao chão, e o oficial alcançou-o rapidamente para estabilizá-lo no lugar.

— Eu irei pegar o carro, fique aqui. — O alfa foi até o outro lado da rua para pegar seu carro de patrulha, ele o escondia na área mais afastada do quarteirão.

Ele esperava que  o ômega fosse embora no momento em que ele voltasse, mas seus faróis iluminaram o ômega assustado e machucado quando ele virou na rua para buscá-lo. Jungkook desceu do carro e o ajudou a sentar no banco de trás de seu carro de patrulha.

Endereço.

Demorou um minuto para o ômega dar de bom grado, mas Jungkook podia cheirar o desespero dele para ver seu filhote, e então os olhos, aqueles olhos lhe disseram para onde ir.

— Qual é o seu nome?

Taehyung.

— Eu sou Jungkook!

Taehyung recostou-se no banco surpreendentemente limpo do carro de patrulha e todo o seu corpo doía. Aqueles alfas e o beta o enganaram e... E tinham feito muito mais do que haviam dito e concordado. Ele podia sentir o sangue e o sêmen escorrendo de sua entrada. Ele tinha sido rasgado, e suas pernas haviam sido abertas de maneiras que não poderiam. Sua mandíbula latejava das muitas bofetadas, e seu corpo sentia-se hipersensível de todos os hematomas cobrindo cada centímetro dele.

Ele deixou sua cabeça cair para trás no banco de couro e fechou os olhos quando se deitou, tentando não se mover. O cheiro forte e amadeirado de pinheiros dançava ao seu redor. Pelo menos, o aroma desse alfa era agradável aos seus sentidos.

Jungkook odiou a pequena casa assim que a viu. O ômega vivia em um bairro nada seguro, e em uma rua de tráfico de drogas conhecida. O alfa parou na frente da casa, e saiu do carro para ajudar o ômega meio adormecido no banco traseiro.

— Aqui vamos nós. — o Alfa o ajudou a ficar de pé, e Taehyung olhou para a casa dele, tudo o que ele podia pensar era chegar até seu filhote, isso o fez encontrar uma onda de energia e ele correu com as pernas trêmulas para entrar em sua casa, com o policial o seguindo.

Ele entrou em casa, não conseguindo achar motivos para se importar se o policial quisesse pagamento pela carona. Taehyung ficaria de joelhos para ele, depois que se certificasse de que seu filhote estava bem, ele havia ficado fora muito mais tempo do que planejava.

Jungkook entrou na casa velha e olhou em volta. Ela era muito pouco mobiliada e sem aparelhos eletrônicos. A sala de estar consistia apenas em um sofá velho marrom, que já havia visto dias melhores, com uma pequena mesa de café e nada mais. Os pisos estavam limpos, e não havia um grão de pó em qualquer lugar.

A cozinha era pequena e estreita, mas impecavelmente limpa, com uma pequena mesa de madeira redonda com uma cadeira alta para filhotes.

Ele seguiu o ômega em direção ao corredor até uma porta fechada, que ele apressou-se em abrir.

O quarto era pequeno, mas bem organizado, era um quarto de filhote, e era o único cômodo da casa que estava totalmente mobiliado. Paredes verde sálvia, com uma poltrona marrom, e um filhote pequeno no berço, que sorriu quando viu sua mama.

— Oi, baby! — Taehyung queria ir até seu filho, mas ele estava coberto de sujeira e aromas estranhos, e não seria uma boa ideia tocar seu filhote assim.

Jungkook observou o ômega ter um conflito interno, e ele adivinhou qual era o problema quando o ômega começou a ir em direção ao filhote, mas parou no meio do percurso.

— Uhm, eu posso olhar ele enquanto cuida de si mesmo, se você estiver bem com isso...

O filhotinho era completamente adorável para o alfa, um grande sorriso, semelhante a um quadrado,  com olhos bem escuros que por algum motivo lembravam os seus,  e uma fina camada de cabelos escuros cobriam sua minúscula cabeça. Na verdade, cada pedacinho seu se parecia com sua mama, menos a cor dos seus olhos.

Taehyung observou seu filhote começar rir e aplaudir para o policial alfa que estava fazendo caras engraçadas. Ele odiava deixar Yeonjun com um estranho, mas ele precisava se limpar.

— Obrigado... Eu não demorarei — ele não esperou por uma resposta quando correu para seu quarto, e para seu banheiro.

Jungkook tirou a jaqueta da polícia e pegou o filhotinho. Ele tinha cerca de um ano de idade, adivinhou, mas muito pequeno e adorável, com um nariz minúsculo e arrebitadinho. Jungkook amava filhotes e tinha sorte que eles também gostavam dele. Sentou-se na poltrona de balanço e começou a brincar com ele.

Taehyung tirou as roupas, e colocou todo o dinheiro que ganhou em uma única noite dentro do seu colchão que ficava diretamente no chão. Ele meio que esperava que o alfa entrasse e ficasse com ele. Ele entrou no banheiro e se olhou no seu espelho, o banheiro de azulejos esverdeados fazendo sua pele assumir um aspecto insalubre e pegajoso. Seu corpo estava coberto de hematomas, e haviam manchas de sangue em seu rosto, e entre suas coxas.

Lampejos do estupro brutal que acabou de sofrer o atingiram e ele se encolheu com as imagens. Ele se sacudiu e enterrou os pensamentos assustadores dentro de si, essa não foi a primeira vez que ele tinha sido usado de tal maneira, e ele estava dolorosamente certo de que não seria a última.

Ele entrou no chuveiro, deixando a água morna, que mal tinha pressão atingi-lo, lavando seus membros rígidos e pesados. Ele observou enquanto o sangue e o sêmen se misturavam com a água formando um líquido cor de rosa que fluía pelo ralo. Ele cuidadosamente lavou seu corpo, choramingando com a dor penetrante.

Uma vez que ele estava satisfeito com sua limpeza, tanto quanto ele podia ser, e não querendo deixar seu filhote com um estranho por muito mais tempo, vestiu calças de moletom largas e confortáveis, um suéter que era dois tamanhos maior que ele, meias quentes, e dirigiu-se ao quarto de Yeonjun.

Ele encontrou o grande alfa sentado na poltrona de balanço, com seu filhote de pé em suas coxas, que ria enquanto o alfa impulsionava suas pernas para cima e para baixo, fazendo delas um pula-pula para o filhote.

— Obrigado... por olhá-lo. — Taehyung não tinha certeza do que dizer.

Ele pegou seu filhote, e Yeonjun entrou alegremente em seus braços, o acariciando imediatamente. O ômega sabia que ele tinha sorte de ter um filhote tão bom, que raramente se agitava e raramente chorava, ele era mais forte do que sua mama.

— Qual o nome dele? — Jungkook ficou parado, e não podia desviar o olhar do ômega.

Ele estava engolido por roupas largas, mas Jungkook agora tinha uma visão clara de seu pescoço... eram marcas de dedos, machucados na pele macia e delicada. Ele resistiu ao desejo de rosnar e, em seguida, um aroma exótico e incrível atingiu seu nariz, eucalipto e manjericão. O aroma tinha sido encoberto mais cedo pela roupa do ômega, e misturado com os aromas de seus atacantes.

— Yeonjun.

Seu rádio de repente despertou a vida, fazendo o filhotinho girar a cabeça para olhar para ele com seus grandes olhos, e Jungkook não conseguiu evitar o sorriso bobo que se formou em seu rosto, o filhote era realmente muito fofo.

— É o Jeon! — disse Jungkook, assistindo enquanto o ômega saia para a cozinha. O alfa o seguiu, e agarrou sua jaqueta.

— 10-95 — a central informou.

— 10-04. — Jungkook respondeu enquanto observava Taehyung tirar uma mamadeira da geladeira e aquecê-la à moda antiga no fogão, enquanto o filhote brincava com a bainha do grande suéter do ômega.

— Hey, uhm, eles pegaram os caras que te machucaram... Eu posso levá-lo até a estação e você pode prestar quei...

— Não! — o ômega disse sem olhar para o alfa.

— Mas ta-...

— Não, oficial Jeom. Eu não vou prestar queixa... Isso não me faria nenhum bem, e eu não quero nenhum problema... Eu realmente aprecio a carona até em casa, e você ficar olhando Yeonjun enquanto eu... Enquanto eu me limpei, mas se não se importar, eu gostaria de alimentar o meu filhote e ir para a cama. — aqueles olhos avelãs brilhantes olharam para ele e Jungkook estava enraizado no lugar.

Taehyung, era a coisa mais bonita que o alfa já havia visto, e aqueles olhos dourados como a terra após a chuva estavam repletos de tanta dor e medo e claramente também viviam com tanta dor, que fez Jungkook querer bater em algo.

Ômegas tinham direitos limitados e maneiras substancialmente mínimas de ganhar a vida, Jungkook sabia disso, mas isso não tornava as vidas difíceis que tantos ômegas levavam, mais fáceis ou certas, especialmente para um policial alfa aceitar isso.

Ômegas cresciam para serem seguidores, se você tivesse sorte e fosse de uma família rica, ou se fosse companheiro de um bom alfa, ou beta. Tinham poucas opções para uma profissão. Suas únicas escolhas eram, enfermeira, babá, dona de casa, empregada doméstica, professora de jardim de infância, e sem mais nenhuma outra classificação permitida. Esses ômegas eram reconhecidos principalmente pelos colares que eles usavam, tudo por um sistema de cores.

Enfermeiras = colares azuis.
Babá = colares roxos.
Empregadas domésticas = colares brancos.
Enfermeiras = colares pretos.
Professoras de jardim de infância = colares amarelos.

Ou, se qualquer um desses ômegas estivessem acasalados, a mordida de reivindicação do alfa no pescoço era suficiente. Mas então, haviam os ômegas não tão sortudo que se tornavam entretenimento... Como strippers e prostitutas. Esses ômegas não usavam colares... apenas contusões.

Tanto quanto Jungkook odiava admitir, o ômega estava certo. Mesmo que ele prestasse queixa, seus abusadores seriam liberados no prazo de vinte e quatro horas, e eles poderiam vir procurar Taehyung e machucá-lo de novo, se não até matá-lo e seu filhote.

Jungkook esfregou a parte de trás de seu pescoço, odiando a sensação de completa incapacidade que sentiu enquanto observava, o jovem e belo ômega alimentando seu filhotinho precioso.

— Tudo bem, bom... — Jungkook alcançou o bolso em seu peito e tirou um cartão. — Se você precisar de alguma coisa, me ligue. — ele disse, colocando o cartão no balcão da cozinha antes de colocar sua jaqueta. — Tenha cuidado. — disse o alfa, e num instante estava fora da porta.

Taehyung trancou a porta atrás dele e apoiou a mão contra a madeira. O oficial não pediu, nem exigiu nada dele e, pela primeira vez, Taehyung ficou feliz por não ter se sentido ameaçado por um alfa.

Yeonjun já estava meio adormecido contra seu ombro depois de terminar a mamadeira. Ele o ajeitou em seus braços, o levou para seu quarto, e colocou o filhotinho no berço. Ele ligou o único aquecedor da casa, que ficava no quarto do filhote, aquela noite era uma noite de outono fria.

Taehyung foi ao quarto dele e pegou o edredom de sua cama, e voltou para o quarto de Yeonjun para dormir no sofá-cama. Ele estremeceu quando sentiu o cheiro do alfa que ainda estava no local. Pinho silvestre e algo picante que ele não podia identificar. Taehyung definitivamente gostou muito desse cheiro. Ele se enrolou na cadeira com o cobertor e se acomodou, caindo em um sono profundo e sem sonhos.


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