Admirador(a) secreto(a)
É difícil pensar que uma jovem de 16 anos possa chegar ao fundo do poço. A maioria consideraria isso um drama bem orquestrado, levando em consideração o fato de que os jovens realmente são propensos a exagerar um pouco seus sentimentos. Mas eu cheguei, e não estou tentando fingir nada... Quem me dera fosse esse o caso.
Meu nome é Sara, sou filha única de um casal divorciado que após anos de infelicidade, decidiu tomar a decisão óbvia. Moro atualmente com minha mãe, Patrícia, 44 anos, advogada. Uma mulher contida e simples, tão simples que essas duas características são o suficiente para descrever até mesmo sua aparência física. Mas pelo menos ela é uma presença constante e sólida em minha curta e patética existência, ao contrário do meu pai. Roger, 46 anos, contador e ausente *exceto nos natais e aniversários*.
Me pergunto até hoje se o divórcio deles e a falta do meu pai foi um golpe tão duro que me fez cair e permanecer assim, inerte, durante todos esses anos... Talvez sim. Ou talvez esse seja só um dos motivos. A falta de amigos também corroborou para a minha tristeza profunda, suponho. Pessoas solitárias tendem a se deteriorar mais rápido. Conheço muitos adolescentes que lidaram bem com a separação dos pais e eles têm tantos amigos, e festas, e redes sociais, e "contatinhos"... Puxa vida! Eles são normais. Coisa que eu nunca fui. Sempre achei que tinha algo de errado comigo... As crianças da minha idade me ignoravam porque eu nunca gostei das brincadeiras que elas gostavam. Eu preferia mesmo era ficar sozinha, pensar, comer biscoitos e fazer desenhos de coisas aleatórias. Depois de alguns anos as coisas só pioraram... Não suportava a ideia de interagir com gente da minha idade. Até senhorinhas seriam mais interessantes, pelo menos elas não se gabavam do novo iPhone que o pai havia comprado de aniversário e da viagem pra Disney que toda a família iria fazer nas férias.
Esse é um daqueles dias... Acordei tarde, vesti o uniforme, peguei a mochila, fiz um coque frouxo no cabelo- que por sinal precisava ser lavado- e peguei uma maçã pra comer no caminho. Cheguei na escola e fui direto pra minha cadeira de sempre, que mais parecia ter uma plaquinha escrito "fracassada" na frente, já que ninguém ousava sentar nela. A aula durou mais do que uma eternidade, a professora parecia não estar falando a minha língua, e eu só abri o caderno pra rabiscar uma página qualquer. Quando o sinal tocou, comecei a guardar as coisas de volta na mochila e peguei o caderno, mas antes que eu conseguisse fechá-lo por completo, algo caiu de uma das páginas. Era um pedaço de papel cor de rosa... Achei estranho, pois eu nunca usei essa cor, nem mesmo numa folha de papel. Então peguei a tirinha dobrada e nela continham as seguintes palavras:
- " Você está linda hoje."
Mas que droga é essa?! Alguém está tirando sarro de mim... Era só o que faltava pra minha incrível vida ser completa!
***
Esse episódio se repetiu durante toda a semana. Todas as manhãs eu encontrava bilhetinhos no meu caderno com frases do tipo, "Seu cabelo é muito bonito!", "Você é incrível!", e até mesmo um "Amo seu sorriso!"... Eu nem mesmo sorrio neste lugar, como assim essa pessoa ama meu sorriso? A frequência era tanta, que até me acostumei. Dia após dia os bilhetes cheios de elogios chegavam e eu passei até a esperar por eles, como uma espécie de entretenimento, pra me fazer suportar aquele ambiente. Eles eram uma fagulha de calor no buraco gélido e sem vida que eu chamava de coração, afinal, quem não gosta de ser notado?!
Por incrível que pareça, essa pessoa estava me fazendo bem. Eu que costumava ir à escola por mera obrigação e amaldiçoava todos os seres que nela pisavam, agora estava acordando cedo, me arrumando melhor, comendo direito e até prestando atenção nas aulas! Os bilhetes a esta altura já eram uma alegria muito bem-vinda, como biscoitinhos da sorte, amoletos, previsões favoráveis do horóscopo, trevos de quatro folhas e estrelas cadentes. Só restava saber quem e o porquê... Quem seria o meu admirador ou a minha admiradora secreta? Por que ele ou ela não se revela? Seria timidez, medo de rejeição, ou era só uma piada? Essa última possibilidade fazia o meu corpo se arrepiar com o mais profundo sentimento de insegurança. O gosto amargo dessa tristeza que me persegue há mais tempo do que me lembro é tão familiar que parece ter estado sempre aqui.
Enquanto seguro firme o bilhete do dia, com os dizeres: "Adorei o laço que você usou ontem!", um garoto me olha concentrado. Percebo aquele par de olhos castanho-amêndoados em mim, pinicando como blusa de gola alta no verão, e encaro de volta. Será ele? Benjamin. Nome do último dos filhos de Jacó, "a alegria de seu pai", assim me disse vovó, em um dos seus sermões sobre a bíblia. Ironia? Talvez... Mas eu nunca saberia se não perguntasse. Então assim que a aula termina, vou atrás de Benjamin, que já está saindo pela porta. No jardim intermediário, alcanço o garoto de pernas longas e cabelos encaracolados. Chamo seu nome e ele para imediatamente, então se vira para me olhar nos olhos.
- Oi, você é o Benjamin, certo?
- Sim. - responde ele, sem exitação.
Meu coração está acelerado! O que eu esperava dizer pra ele depois disso? "Eu sei o que você está fazendo!", "Confesse enquanto estou de bom humor." ... Mesmo que seja ele, a chance de eu ter uma confissão agora é extremamente remota.
- Você gosta de escrever? - pergunto, soando totalmente patética. Por que eu perguntei isso?!!
- Humm... Acho que sim. - Benjamin sorri, timidamente. Suas bochechas ganham uma coloração avermelhada e fofa. - Por que a pergunta?
- Por nada! Só gostaria de saber mesmo...
Um silêncio constrangedor se segue após a minha resposta. Nenhum dos dois sabe como continuar. Após o que me pareceram uns dez segundos, Benjamin volta a falar.
- Você parece uma pessoa que escreve muito bem... Não te vejo conversando com ninguém. Sara, não é?
- Isso, Sara! - digo, olhando para um ponto acima dos ombros de Benjamin. - Eu escrevo sim, não sei se tão bem, mas pelo menos me saio melhor assim do que falando com pessoas reais.
- Bom, você deveria me mostrar algo que escreveu depois. Daí eu te mostro alguns dos meus também... Que tal?
- Tudo bem.
Benjamin sorri genuinamente, se aproxima e estende a mão direita. Demoro um segundo para assimilar o movimento e então replico, apertando sua palma macia.
- Foi um prazer finalmente conhecer você, Sara! Até amanhã e não esqueça do combinado.
- Igualmente, Benjamin! Não vou esquecer.
***
No caminho de volta pra casa, repasso todos os detalhes da conversa com Benjamin na minha cabeça. Aquilo teria indicado que era realmente ele meu admirador, ou ele só tivera sido muito amigável comigo? Pensando bem, Benjamin estudava comigo desde o ensino fundamental, mas nós nunca trocamos nenhuma palavra um com o outro. Era possível que fosse ele, mas por quê agora? E como ele teria colocado os bilhetes em meu caderno se a mochila ficava sempre na minha mesa, enquanto a dele ficava do outro lado da sala? Eu saía para ir ao banheiro sim, mas não durava muito tempo... Estranho.
No dia seguinte o bilhete vem com uma carinha feliz, acompanhada de uma flor amassada. Aquela flor era extremamente familiar, podia jurar tê-la visto em algum lugar. Então faço uma nota mental para procurar no jardim da escola depois. No intervalo, Benjamin surge com seu sorriso encantador. Ele pedira para ver alguns dos meus escritos... Isso é algo muito pessoal para mim, mas decido confiar no garoto de aparência angelical.
- Uau, Sara! Você é muito boa. - Minhas bochechas ardem com o calor do constrangimento.
- Ah, não é pra tanto... Eu só escrevo o que sinto.
- Se todo mundo conseguisse traduzir em palavras o que sente, da mesma forma que você faz, acho que os diálogos seriam bem mais interessantes.
- Obrigada!
A expressão impressionada no rosto dele me fazem acreditar que seu elogio é verdadeiro. Isso me deixa extremamente feliz, como há muito tempo não me sentia. Então sorrio para meu novo amigo, saboreando essa sensação de acolhimento.
- Benjamin, posso te fazer uma pergunta?
- Claro!
- Promete que vai ser honesto? - Neste momento, sua postura muda e ele é só atenção.
- Sim, prometo.
- Você tem feito bilhetes para mim...? Tipo, você escreve bilhetes e coloca eles no meu caderno?
- Bilhetes? - Benjamin está surpreso, posso dizer isso facilmente. - Não, acho que não. Por quê?
- Bom... É que nos últimos dias tenho recebido estas mensagens de alguém, como se fosse um admirador secreto, sabe? Eu imagino que ele ou ela seja daqui do colégio. Como te peguei me encarando ontem, supus que poderia ser você.
Minha sinceridade repentina me deixa aliviada, não com medo. Preciso saber, não posso mais segurar!
- Olha, eu estava sim observando você ontem, mas não por isso, e sim pelo fato de ter percebido uma mudança na sua postura. Eu não sou um stalker, nem nada, mas a gente estuda na mesma sala há vários anos e eu nunca vi você sorrindo, nem parecendo a vontade no meio de outros colegas, ou conversando até... Parecia que algo de bom havia acontecido com você recentemente e eu estava curioso.
Ouvir essa leitura de Benjamin sobre meu comportamento me deixa angustiada e ao mesmo tempo esperançosa. Angustiada por que tenho consciência de que tudo o que ele falou, é verdade. Eu não era uma pessoa vibrante, alegre, alguém que faria outras pessoas se sentirem a vontade em compartilhar momentos triviais, pois eu não gostava de estar no meio delas simplesmente. Entretanto, havia a esperança de que um novo caminho se abria pra mim... E mesmo que eu não achasse a pessoa que me fez encontrá-lo, ainda assim, posso seguir aproveitando essa pequena oportunidade que me foi dada.
- Tudo bem. Não tem tanta importância assim... Eu só queria agradecer a essa pessoa.
- Pelo quê?
- Por me fazer sentir viva outra vez.
***
Em casa, pego novamente a flor que fora depositada com o bilhete e encaro por alguns minutos. As pétalas estavam murchas, mas aguentavam firme. Não pude deixar de fazer uma comparação comigo mesma, ou melhor, com o meu eu de alguns dias atrás. Enquanto caminho em frente a uma janela que dá pro jardim da entrada, reparo que ali existem outras flores semelhantes a que seguro. Corro depressa para o lado de fora, minha mãe me observa sem entender, enquanto a sua atenção ainda não se voltou para o notebook outra vez. Aqui, enterradas e crescendo a luz do sol, estão as irmãs da minha valente florzinha. Lágrimas escorrem pelo meu rosto... Não pode ser! Esse tempo todo, será que eu fui a pessoa por trás de todos os bilhetes e elogios cuidadosamente preparados e colocados em meu caderno? É possível que eu estivesse involuntariamente tentando resgatar o amor próprio que havia se perdido há muito tempo? Num esforço desesperado para não me perder, não desistir, eu atendi ao meu próprio pedido de socorro? Agora faz todo sentido... Nenhuma outra pessoa seria capaz de ter feito tudo isso, do momento de escrever até o de esconder em minhas coisas. Ninguém me conhecia tão bem, nem poderia ter tocado nos lugares certos dentro de mim. Até mesmo o papel cor de rosa, que eu não usaria, foi um jeito de me despistar.
O choro desenfreado assusta minha mãe, que vem me segurar e tentar descobrir o motivo da minha repentina crise. Meu corpo parece tão frágil quanto essas flores, e os soluços ameaçam desfazer qualquer que seja o meu alicerce. Mas fico alí, quietinha, desfrutando daquele abraço tão esperado. Agora tudo vai ficar bem. Tá tudo bem...
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