Capítulo 8 - Eu sou Math Casagrande
Alguma vez na vida nos perguntamos que realmente somos, mas não era exatamente esse pensamento que ocupava a minha mente naquele momento. Era algo estranho ter tantos caras em uma recepção de tamanho mediano e todos nós estivemos na vida de Gui em algum momento de sua vida.
Cada um esta aqui pelo mesmo motivo, apesar de todos os erros, de toda a dor que podemos ter causado a ele, Gui desejou que fossemos felizes, é claro que alguns sofreram bem mais que outros. Um sorriso nasce em minha face ao ver Kall encostado em uma das colunas próximo ao bebedouro.
Ficar esperando por tanto tempo em uma sala, sem conhecer um aos outros acaba que nos faz conhecer a história um do outro. Isso provavelmente nunca aconteceu com ninguém antes, nunca houve tantas pessoas preocupadas com ele como há hoje. E ver a dor nos olhos de Math me faz pensar o que é realmente amar alguém.
Eu sou Matheus Casagrande, meus amigos me chamam de Math e eu fui um dos primeiros namorados de Guilherme e nossa história juntos começou em um dia chuvoso como este. O céu estava turvo e faixas de luz atravessavam sua extensão. Eu estava encharcado, tinha acabado de sair da casa de Julio quando a chuva me pegou. Eu não queria ficar ensopado e me pus a correr o mais rápido que eu pude.
Algumas coisas haviam mudado drasticamente e eu estava tentando ser uma pessoa melhor, apesar de continuar com o mesmo círculo de amigos eu não era mais um babaca como antes. A verdade é que demora algum tempo para que você se aceite, e possa ser quem você deve ser. A escola é um ambiente altamente destrutivo as diferenças e era mais fácil ser o que todos queriam do que sofrer o mesmo que outros e até mesmo o que um dia eu causei a uma pequena minoria.
As gotas da chuva começavam a se acumular em meus cabelos descendo pelos mesmos, até que avistei uma arvore a duas esquinas de distância, ela tinha uma copa alta e galhos grandes e grossos e serviria como abrigo para mim, mas ao me aproximar dela vi que alguém estava sentado em baixo dela, tão molhado quanto eu. Mas quando finalmente consegui identificar de quem se tratava meus olhos se arregalaram.
Guilherme estava sentado e olhava em minha direção. Nos conhecíamos, mesmo que vagamente. Ele era um dos motivos para a minha mudança, eu não sabia o que realmente sentia naquela época até entender que eu só tinha ódio dele, por ele ser quem ele era. Por ele ser corajoso de desafiar quem não o aceitava. Eu odiava esse fato, e porque eu não poderia fazer o mesmo e mais ainda porque eu gostava dele e ver ele com qualquer outra pessoa me deixava furioso. E como toda mente infantil, se ele não estivesse comigo então eu faria de tudo o que eu pudesse para que ninguém mais se aproximasse dele.
Puro egoísmo e burrice de minha parte e só depois de algum tempo eu pude entender isso, o que realmente se passava em minha cabeça desorganizada. A arvore agora estava a metros quando parei de correr e me pus em baixo de sua copa. Meu olhar foi de encontro ao dele, mas eu não poderia dizer nada. Eu queria dizer alguma coisa, pedir desculpas, pedir que ele me batesse ou que fizesse algo pior comigo do que eu fiz com ele.
Eu precisava ter coragem, eu não poderia ser um covarde eu necessitava dizer o que estava preso em minha garganta então me viro e tento abrir a boca, mas não há nenhum som, então percebo que ele parece estar distante. Pensando em alguma coisa que o deixava triste, pelas feições em seu rosto ele tinha medo de alguma coisa. Então juntei todas as minhas forças e decidi que iria falar com ele naquele momento. Então me aproximo e sento ao seu lado. Minhas mãos seguram seu ombro, respiro fundo e solto as primeiras palavras, tão baixas como um sussurro.
— Eu sinto muito. Perdoe-me.
— Pelo quê? – ele me olhou nos olhos.
Meu corpo começa a reagir ao medo, minha barriga começa a reagir de maneira estranha, percebo que ele não está confortável já que começa a brincar com os dedos das mãos, então mais uma vez junto o máximo de coragem e tento mais uma vez.
— Eu...
Um clarão iluminou onde estávamos de repente. Um raio. Meu corpo estava no chão a uma distância da arvore que fumegava, o fogo queimava lentamente e era apagado na mesma intensidade. Ela estava partida e caída no chão. Meus olhos percorreram rapidamente sob ele para saber se ele estava bem. Meu corpo o protegia, eu havia empurrado ele e colocado em uma posição o mais segura possível, se algo acontecesse ele não se machucaria. Meus olhos carregavam uma urgência e o medo transparecia meus olhos arregalados. Então depois de verificar que estava tudo bem um largo sorriso envergonhado nasce em minha face.
— Por quê? — perguntou ele confuso. —Por que não me deixou morrer. Não sou o mais viadinho? – esta saiu quase como um sussurro.
— Não, mas eu não me perdoaria se fizesse outra burrada.
— Não entendo.
— Talvez assim as coisas fiquem mais claras...
Me aproximo de Gui, minha respiração estava acelerada, fecho os meus olhos e me aproximo da sua boca, eu estou preparado para ser rejeitado, empurrado, socado ou qualquer que fosse o preço daquele ato, mas eu estaria orgulhoso de ser apenas eu mesmo pelo menos uma vez em minha vida. Sua boca tocou a minha, minha língua pediu passagem e não houve resistência.
Era doce e macio, minha mão segurava seu rosto enquanto eu me perdia naquele beijo, eu já havia beijado algumas garotas e até mesmo feito elas gozarem loucamente, mas nada daquilo era tão bom quanto apenas sentir meus lábios nos dele. Era como se eu nunca tivesse beijado alguém de verdade.
Meus olhos se abriram e pude ver seus olhos me olharem com curiosidade, mas ao mesmo tempo eles estavam encharcados. A chuva começava a parar e não havíamos saído daquela posição. Meus olhos se encheram de lagrimas que caíram logo em seguida, me fazendo desabar sobre ele.
— Me perdoa... – eu choramingava. — Eu... Eu...
E tudo o que ele fez foi me abraçar. Acalentando a mim, e foi por causa de um raio que pude conhecer Gui de verdade, e pude cuidar dele e por um tempo fomos felizes, mas nem mesmo eu poderia ter previsto a reviravolta que tivemos em nossa vida. Mas isso é uma outra história, e olhando para todos que estão aqui. O que buscamos no final é uma segunda chance, mesmo que lá no fundo nós já saibamos a quem ele com toda certeza escolheria. Dos dois Math não seria eu o escolhido, mas eu ficarei feliz se ele fizer tudo o que eu não pude fazer por ele. No momento só espero que ele acorde e que abra um largo sorriso, mesmo que ele não queira me ver, ter essa vaga lembrança em minha mente já me deixaria muito feliz.
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