Capítulo 03 - Como você quer ser lembrado?
"How do you want to be remembered?
As a sinner or a saint, as a hero or a villain?" - Magic
Meus passos eram curtos e sem pressa, eu sentia o sol tocar meu rosto e esquenta-lo, a brisa matinal fazia com que meus pelos se eriçassem, os pássaros voavam no céu enquanto eu olhava para o All Star desbotado que estava em meu pé. A mochila estava presa em um dos meus ombros e os fones em meus ouvidos.
Não era normal eu estar indo a pé a faculdade, havia um carro na garagem e até mesmo minha velha bike estava lá para caso houvesse uma oportunidade de usa-la, mas eu não queria chegar rápido a faculdade. Eu estava indo devagar para pensar.
Algumas pessoas, ou a maioria delas, não pensa muito em o que fazer com sua vida, sempre deixam a vida leva-la a algum lugar e a maioria sempre se dá bem, sem ter muito esforço, mas eu não sou esse tipo de pessoa. Estou mais para aquele garoto desastrado que não consegue ter sucesso nem planejando e muito menos quando deixa as ondas do "mar" o arrastarem para algum lugar.
Toda minha vida – até agora e penso que pelo resto da minha vida – eu estive procurando as respostas. Como é que eu perdi tanto das coisas que realmente importam? É frustrante ter tudo o que se deseja e ela se esgueirar por entre seus dedos. Será que não há paraíso? Porque eu não sinto nenhuma alegria ou risos. Parece que tudo que eu toco apenas se transforma em desastre.
E em meio a tantos pensamentos me vejo em frente ao imponente prédio da Elite University, o campus não mudara muito, o último semestre que estive aqui fora marcado em minha pele de uma maneira que eu não gostaria. As vezes desejaria estar em um mundo onde eu consigo me desprender de sentimentos que eu sei que não devo ter, que não devo manter, mas mesmo assim ali estão eles.
Penso nas pessoas que costumam chamar os outros de trouxas, que veem que conseguem se safar de uma situação dessas tão facilmente que acham ridículas como alguém como eu e muitas outras pessoas se encontram, mas elas se esquecem que apenas são enganadas de maneiras diferentes. O ser humano é tão egoísta que não vê nada além de seu próprio nariz e suas necessidades. É complacente com tudo o que é obvio, mas não consegue lidar com os próprios erros.
No final a vida é uma questão bem infantil, um jogo simples, mas complexo de tentativa-erro-tentativa-erro em um ciclo tão grande que chega a ser cansativo. Muitas pessoas acabam se blindando, e acabam afastando muitas vezes o que elas precisam. Caminho pelos corredores da E.U olhando para a fachada dos prédios que o entornam quando esbarro em alguém. Quando dou por mim estou no chão enquanto folhas voam no ar e vejo alguém caído a poucos centímetros de mim.
Uma imensidão de lembranças vem à tona, meu coração acelera de maneira desesperada, meu corpo se "congela" e meu estomago se revira. Meus ouvidos aguardam algum som, mas não há nada de imediato, até que ele diz:
- Ai... – diz um garoto com a mão na testa que apresenta um galo.
Ele é magro, usa óculos redondos e tem barba preta e espessa. Sua camisa era maior que seu corpo, assim como a calça. Usava um tênis surrado, sua mochila estava na grama. Seu rosto estava cheio de espinhas.
- Me desculpe. – digo pegando os papeis que estavam no chão. – Eu estava em outro mundo.
Ele dá um breve sorriso.
- Acho que nós dois estávamos.
- Não. Eu sempre fui desastrado. Derrubei um professor de cálculo nesse mesmo lugar a uns dois semestres a trás.
Ele riu.
- Bem, acho melhor você evitar esse corredor. Pode se tornar um habito, você me derrubar.
- Verdade, mas concordo com a ideia de variar minhas rotas até a minha sala. – recolho tudo e entrego a ele. – Eu sou Guilherme. – estendo a mão.
- Martins Filho. – diz ele apertando a minha mão.
- Agora preciso ir, já estou atrasado. – digo me afastando.
Continuo pelos corredores até a minha sala, que já estava apinhada com alunos. Sigo pelos degraus e vou para a última fileira da sala. Me sento próximo a janela de vidro e jogo a mochila embaixo da mesa. Muitas coisas haviam mudado nesse meio tempo e eu era uma delas.Há quanto tempo eu não me sentava ali, era como se eu estivesse voltando ao primeiro dia de aula.
O sinal soa e por alguma razão meu coração bate de maneira descompassada, e sinto como se houvesse borboletas voando dentro do meu estomago. Mas não era por medo dos meus sentimentos, mas por medo das lembranças que poderiam alavancar uma reação inesperada. O primeiro horário seria de calculo, e enquanto todos se amontoavam em seus lugares, entrou na sala um homem de cabelos grisalhos, magro que aparentava ter mais de quarenta anos. No mesmo instante meu corpo parece se livrar de um enorme peso que carregava inconscientemente, seria uma burrice ele anda estar ali ou...
A voz do professor ecoou em minha mente me tirando do meu mundinho particular. Ele se chamava Oliveira, pelo menos foi o nome que ele escreveu aos garranchos no quadro onde tive que decifrar que a diferença "sutil" em sua escrita entre um "i" e um "l" já que ele não faz diferenciação de maiúscula ou minúscula. Em meio a sua aula monótona olho pela janela, alguns alunos estavam sentados ma grama, conversando, rindo. Dei um suspiro. O lápis rabiscava o folha do meu caderno de maneira aleatória quando sinto a mão de alguém me tocar o ombro.
- Acorda. – disse Paloma ao me olhar curiosa – O que se passa nessa cabecinha maldosa?
Dou um breve sorriso.
- Você esta atrasada. Como conseguiu entrar sem ser notada?
- Eu sou uma ninja. – disse ela colocando o livro sobre a mesa.
- Srta. – disse o professor olhando para Paloma – Ao termino da aula espero que tenha um bom motivo para justificar seu atraso, já que esta de acordo com meu relógio de pulso atrasada. A aula começa as sete e quinze exatamente.
Dou uma risada baixa.
- Ninja! – digo em meio as risadas.
Paloma se encolhe e da um sorriso tímido ao professor enquanto ele se virava de volta ao quadro continuando com suas anotações monótona sobre o assunto.
- Então ninja o que houve dessa vez para chegar a essa hora? – sussurrei.
- O de sempre, estava com o meu bombeiro. – sussurrou de volta.
- Ele não vai apagar esse teu fogo nunca não é?
- Pelo contrario ele só aumenta o meu fogo a cada dia que passa.
Rimos.
No instante seguinte o professor olhou em nossa direção e o nosso sorriso se desfez em questão de segundos, enquanto o do professor se iluminava em seu rosto, com toda certeza estávamos fudidos, a não ser que outro fizesse uma merda pior que a nossa. A porta se abre abruptamente, o professor se vira para a mesma assim como toda a sala que via cada veia salientando da testa visivelmente irritada do professor Oliveira.
- Me desculpe. Sou novo aqui – disse ele cocando a cabeça.
Olhei incrédulo para quem estava na porta, com uma mochila desbotada, calça jeans, uma camiseta preta, e um tênis. Seus olhos percorreram a sala inteira ate que encontrou os meus. Ele deu um sorriso largo e olhou novamente para o professor.
- Como o senhor se chama?
- Bem...
Por alguma razão meu coração deu um salto. Ele estava ali parado e enquanto a sua boca se movia seus olhos estavam presos em mim.
- Eu sou o Math – finalizou ele, sorrindo em minha direção.
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