3 • dear john
16 de setembro, 1942
A noite não tinha sido nada fácil para mim, passar a madrugada acordado e sozinho estava no topo da minha lista de coisas que odeio fazer. A solidão da noite fria não era para mim, assim como eu sabia que ela também deveria ter alguma aversão a mim, não éramos próximos.
Nick dormia profundamente em sua cama, apagado como se não houvesse um amanhã para ver.
Com o fim do verão o sol estava demorando cada vez mais para nascer, no relógio eu via que já eram quinze para as seis e o céu continuava mergulhado no breu. O frio do lado de fora com o calor do aquecedor do apartamento deixavam a janela embaçada, eu não conseguia ver nada que estava lá fora.
Meus outros dois colegas de apartamento tinham chegado em algum momento durante a madrugada, quando eu estava no sofá lendo matérias aleatórias de jornais antigos. Por um tempo Jamie tentou ficar acordado comigo, mas não aguentou manter seus olhos abertos por mais de vinte minutos antes que eu mesmo tivesse de acordá-lo e o fazer ir arrastando os pés até sua cama. Michael já estava dormindo há muito tempo, ele por pouco não se lembrou de tirar as roupas usadas.
O tempo foi passando enquanto eu estava sentado no tapete da sala, vestindo nada além de um suéter, minha samba-canção e um par de meias grossas de lã que ganhei de presente no último natal. Eu não tinha nada para fazer além de olhar para o mundo fora da enorme janela da sala e esperar que o sol surgisse sobre o prédio em frente ao meu.
Quando coloquei Nick na cama, lembrei de desligar meu despertador para que ele não acordasse com o susto, mas tinha esquecido de puxar as cortinas e assim que o primeiro raio de sol iluminou os olhos de Nick, ele estava sentado na cama, sem ter ideia de como tinha ido parar ali e talvez sequer tivesse ideia de onde estava.
"Harry?" Ele fala, alto o suficiente para que eu possa ouvi-lo. Levanto-me do tapete e vou até a porta do quarto, acendendo a luz e o vendo esfregar os olhos.
"Você tá bem?" Me encosto no batente da porta. "Precisa de alguma coisa?" Ele assente, ficando nervoso. "Nick?"
"Balde!" Ele fala o mais rápido e alto possível.
Me assusto com seu grito antes de correr para o banheiro, pegando o primeiro balde da pilha ao lado da pia. Volto correndo ao quarto e o entrego a meu amigo, que precisa de segundos até que seu corpo coloque tudo para fora de uma só vez. Não há muito que eu possa fazer naquele momento além de lhe confortar em sua miséria.
Nick vomitava como se não fosse mais precisar de seu estômago depois daquilo e eu apenas acariciava suas costas.
"O que aconteceu, Nick?" Perguntei suavemente. Ele não conseguia respirar direito e estava com o rosto sujo. Fui mais uma vez até o banheiro e peguei uma toalha de rosto umedecida. "Nick, você nunca fez isso."
"Tem uma primeira vez pra tudo, hum?" Ele fala fatigado do grande esforço.
"Não estou brincando, Nicholas." Falo em um tom um pouco mais sério. "Eu nunca, em todo esse tempo, te vi entornando uma garrafa de uísque quente como se fosse nada. O que você está fazendo com o seu corpo?"
"Harry..." Ele coloca o balde no chão e joga o lençol para fora de seu corpo. "Eu já sou bastante grandinho, ok? O que eu faço da minha vida é dá minha conta." Ele caminha lentamente até o banheiro.
Vou atrás dele, eu nunca soube como educar ou repreender alguém e muito menos esse era o meu papel, mas aquele não era o tipo de bebedeira na qual Nick costuma engajar. Ele bebe para ficar feliz, para beijar pessoas, fazer amigos e no máximo pregar peças em seus colegas e não para ter de ser arrastado de volta para casa e passar mal na manhã seguinte.
"Nick, por favor." Me encosto na porta do banheiro, o observando enquanto escova os dentes. "Você está me deixando preocupado de verdade.
"Qual é a data, Harry..." Ele murmura para mim. Olhando fixamente para seu reflexo no espelho, ele respira pesadamente.
Convenientemente o calendário do apartamento fica na parede ao lado da porta do banheiro. A data marcada no calendário não poderia ter sido outra coisa que não um belo tapa na minha cara. 16 de setembro. Meu deus, eu nem mesmo tinha percebido.
"Nick..." Eu o olho apreensivo, lágrimas surgindo em meus olhos. "Eu sinto muito, eu nem mesmo me dei conta..."
Meu melhor amigo tinha passado o dia de ontem inteiro sofrendo por dentro sem que nenhum de nós percebêssemos, ninguém tinha se dado ao trabalho de olhar o calendário.
Dia 7 de setembro marca o aniversário do ataque à Pearl Harbor, a tragédia que levou o exército Americano a entrar com todas as suas forças na guerra que estava acontecendo neste exato momento do outro lado do oceano. Mas não era só isso, Pearl Harbor não tinha sido uma grande tragédia para a nação, também tinha sido o pior dia da vida da família dos combatentes que estavam lá quando aconteceu.
A família de Nick era uma delas.
Ontem, 15 de setembro, tinha sido o aniversário de morte de John Grimshaw. Irmão mais novo de Nick, filho caçula dos Grimshaw.
John sempre sonhou em juntar-se às forças navais Americanas e estava em treinamento na base de Pearl Harbor há um ano quando o ataque aconteceu. Ele conseguiu sobreviver ao ataque, mas não aos ferimentos causados pelos entulhos que o soterraram. Quando foi resgatado e levado ao hospital, não resistiu mais de uma semana, tendo uma parada respiratória que o levou com a mesma velocidade em que aqueles aviões cruzaram os céus sobre a ilha.
Pouco antes de tudo acontecer nós tínhamos acabado de voltar ao campus, John tinha conseguido permissão de seus superiores para passar uma semana em casa depois de dez meses servindo. Ele e Nick não se viam há tanto tempo, os dois passaram todo o tempo que podiam juntos com sua família, aproveitando o pouco tempo que tinham juntos. E então o tempo acabou, Nick voltou para Harvard e John para o Havaí.
A notícia chegou através de Mr. Conant que nos chamou em seu escritório. Ele pediu para que eu, Mike e Jamie estivéssemos presentes, pois ele sabia que a queda seria grande para Nick e que ele precisaria de todo nosso apoio desde o primeiro momento.
John nem mesmo entrou na lista oficial de fatalidades do ataque, a final ele não tinha morrido no ataque.
"Eu não ligo que você tenha esquecido, Harry." Ele respira fundo, suas mãos apertando com força a porcelana da pia. Os nós de seus dedos cada vez mais esbranquiçados. "Eu só não preciso de uma lição de moral agora."
"Tudo bem." Eu não sabia muito o que falar, na verdade eu não fazia ideia.
Agora um ano tinha se passado desde que John tinha falecido, o velório aconteceu dois dias depois. Nós pegamos um trem e fomos até a cidade natal de Nick no interior de Massachusetts. Um digno velório de um oficial das forças navais.
Eu não sabia o que fazer, não sabia se o abraçava ou se apenas o dava espaço para respirar. O problema é que eu estava pensando demais e foi perdido em meus pensamentos que quando Nick se jogou contra meu peito que eu soube que a única coisa que eu precisava fazer era simplesmente estar ali para ele.
Toda a família de John e membros do alto-escalão da marinha estiveram presente durante o velório e missa, todos ali prestando apoio uns aos outros naquele momento terrível que assolava a família e Nick estava lá para sua mãe, que chorava como uma criança agarrada ao urso de pelúcia guardado desde a infância de seu caçula. Nick não derramou uma lágrima sequer durante toda nossa estadia na casa de sua família, muito menos chorou quando voltamos às aulas.
Mas cá está ele, chorando em meu ombro, me apertando contra si como se não tivesse mais nada na vida em que se apoiar. Nicholas Grimshaw está chorando como uma maldita criança que caiu e ralou o joelho, a diferença é que essa cicatriz marca muito mais fundo e precisa de muito mais que um beijo para sarar.
A porta do quarto ao lado do meu é aberta, Jamie está lá, parado. Ele claramente acabou de acordar e não faz a menor ideia do que está se passando na porta do banheiro. Eu o olho, sem falar nada, e aponto para o calendário na parede ao lado de onde estou. Jamie segue confuso até que se aproxima do caderno pregado a parede, seu semblante muda completamente quando a realização do que estava se passando lhe atinge.
Nick treme em meus braços, fraco. Eu não tenho mais forças para sustentá-lo de pé e nós dois vamos ao chão. Jamie me olha preocupado enquanto afago os cabelos de meu melhor amigo, ele quer falar algo, mas as palavras não parecer querer serem ditas.
Aceno para Jamie com minha cabeça, o chamando para juntar-se ao braço e ele vem sem pestanejar. Escorregando lentamente pela parede, ele senta-se no chão e se apoia sobre Nick, o abraçando suavemente.
Não faço a menor ideia de quanto tempo ficamos os três naquela posição, eu só sei que não senti o tempo passar até o momento em que estávamos nós quatro sentados em roda no chão da sala, um café da manhã improvisado com as coisas que Mike e Jamie compraram na mercearia perto do Campus.
Ajudei Nick a tomar um banho que tirasse todo peso de suas costas, que lavasse o que restou do vômito e que ajudasse seu corpo a relaxar. Aquele não era o tipo de intimidade que eu e ele tínhamos, a imagem de seu corpo nu naquele momento era quase banal, como se já tivéssemos feito aquilo milhares de vezes. Ele não se importou de ficar assim daquele jeito na minha frente, pois sua dor vinha acompanhada de seu corpo, e se eu já tinha visto um o outro era detalhe.
Mike tinha dado um jeito de puxar um assunto qualquer para fazer com que Nick se distraísse daquilo que o fazia chorar. Devo dizer que Michael é extremamente expert na arte de desviar de assuntos que machucam a alma.
"Você, senhor Grimshaw..." Joguei uma uva em minha boca. "não vai ver uma gota de álcool pelos próximos trinta dias e ai de você se me aparecer fedendo a bebida." Meus amigos riem, Nick revira os olhos e me dá um empurrão com seu ombro.
"Você sabe que isso não vai acontecer."
"Mas você sabe que vai." Retruco e ele suspira, dando leves gargalhadas sob a respiração.
Agora o relógio marcava duas da tarde e com isso tinha se passado mais um dia de aula onde nenhum de nós tinha marcado presença. Faltar aulas para passar o dia com alguém estava se tornando um hábito e eu não sei o que tirar disso, porém eu nunca me arrependeria de ter trocado algumas aulas que posso recuperar depois pela manhã que tive com meus melhores amigos. Nick precisava de nós e nós estávamos lá para ele, assim como sabíamos que ao menor sinal de que precisássemos dele, ele estaria lá sem pestanejar.
Meia hora tinha se passado desde que nós estávamos deitados no chão, assistindo o tempo passar no teto do apartamento. Ninguém ousou se mexer, apenas as respirações tomando conta da trilha sonora.
"Eu quero falar uma coisa emotiva..." O anúncio veio de Nick. Viro meu rosto para o olhar, ele continua focado no teto.
"Pode falar." Jamie sussurra. "Prometo que não vou chorar."
"Babaca." Mike ri e empurra o amigo, que ri ainda mais.
Nick coça a garganta, respirando fundo. Sei que ele estava chorando, podia sentir daqui suas lágrimas escorrendo pelas laterais de seu rosto, mas eu não queria o deixar envergonhado de suas emoções ou invadir seu espaço.
"Eu perdi meu irmão e isso foi a pior coisa do mundo..." Ele engole em seco, respirando fundo na tentativa de segurar as lágrimas. "Ele era meu maior porto seguro, lembro até hoje do dia em que mamãe falou que estava grávida." Ele ri fraco. "Ela queria uma menina, pelo menos uma menina para poder enfeitar com seus laços e vestidos. Ela sempre sonhou em ter uma menina, mas quando John nasceu ela não se abalou, pois é claro que ela não perderia a chance de mimá-lo de qualquer jeito."
Quando penso na mãe de Nick nada além de sua grande mania de enfeitar a casa e mimar os filhos com tudo que puder me vem em mente.
"Quando eu soube que era um menino eu fiquei tão feliz, Mark e Dan já eram muito mais velhos que eu naquela época, não tinham tempo de brincar com crianças, mas agora eu tinha meu irmãozinho para brincar." Ele ri, claramente com as memórias passando em sua mente. "Nós crescemos juntos, os quatro anos entre nós não diziam nada. Quando ele fez quinze anos e queria beber... Oh deus, aquele dia..."
"Eu lembro aquele verão que passamos na casa da sua família." Jamie comenta.
"Meu deus, sim!" Comento animado. "John queria de qualquer jeito brincar de pique." Lembrar daquele verão era uma das minhas coisas preferidas.
"Mark não aguentou ver os próprios filhos correndo conosco como se nós fossemos todos da mesma idade." Nick lembra. "Muito menos quando Sarah tropeçou e quebrou o punho. Acho que John ficou ainda mais desesperado que a própria criança."
"Tenho certeza de que sua mãe cogitou a ideia de te colocar de castigo, trancado no quarto, mesmo depois de crescido."
"Oh, você não faz ideia de o quanto essa ideia passou pela mente de mamãe." Ele ria.
Sarah, a sobrinha mais velha de Nick, entrou na nossa brincadeira à contragosto de Mark, o mais velho dos Grimshaw que tinha levado sua esposa e filhos para passarmos o verão todos juntos na casa de veraneio da família. John decidiu que era uma boa ideia colocar a garota em seus ombros enquanto corria, não demorou muito para que a ideia desse errado e a menina caísse de cima do tio e fosse ao chão, caindo sobre seu braço. A garota de sete anos teve seu punho quebrado e teve de ser socorrida às pressas, nada além da fratura tinha acontecido com ela, mas aquilo já tinha sido o suficiente para que John entrasse no mais puro desespero achando que tinha destroçado o braço da criança e que agora ela teria de perder a mão.
No fim de tudo Sarah saiu com um braço engessado por dois meses e nenhuma sequela, mas Mark nunca mais deixou que ela entrasse em nenhuma de nossas brincadeiras. Bem... nada mais justo.
"Mas o ponto em que eu quero chegar é: John se foi." Nick pontua, voltando a falar assim que se recupera das gargalhadas. "Eu perdi meu irmão caçula para uma fatalidade, mas ganhei três novos pirralhos para cuidar." Ele funga, respirando rápido e com força.
Procuro sua mão às cegas no tapete e quando a acho a aperto o mais firme que posso. Através daquele aperto eu queria lhe passar tudo aquilo em que as palavras me falhavam no momento.
"Eu amo você de um jeito que nem sei como expressar." Ele aperta minha mão de volta e com isso sei que ele entendeu o que não precisei falar.
~
26 de setembro, 1942
Os finais de semana sempre passam em branco em minha memória, nada de relevante acontece aos sábados em minha vida. Domingos serão sempre domingos, não há evento histórico que faça um domingo soar atraente.
Ficar em meu apartamento estava me causando um incomodo físico, como se as paredes estivessem me enforcando e eu não consegui ficar mais um minuto sequer olhando para elas, que me olhavam de volta com desdém. Talvez o tédio estivesse tão grande que eu estava alucinando paredes debochadas.
Agoniado para sair de lá, tomei um banho quente para prevenir o frio e fui andar. Sem saber o que fazer ou para onde ir, eu apenas deixava que meus pés assumissem o controle e me levassem para onde bem entenderem.
Ir ao La Parole em finais de semana não me trazem a mesma emoção, Maggie não está aqui e muito menos Lucas, seu colega, para me fazerem a mínima companhia que seus turnos agitados lhes permitiam.
Lucas Stuart era o colega de Maggie que trabalhava na cozinha e vez ou outra cobria o turno de algum amigo como garçom. Filho de pai português e mãe inglesa, ele era a mistura perfeita do que um europeu deveria ser ou como deveria agir. Ele usava sua segunda língua, o português, principalmente quando estava irritado e queria xingar seus colegas de forma que ninguém intendesse e, por mais que ele estivesse irritado quando o fazia, era hilário.
Minha pseudoamizade com Lucas começou em um dia que Maggie teve de viajar de volta para casa por conta de assuntos de família. Foi Lucas quem me atendeu em seu lugar, também foi ele quem me informou do motivo da ausência de minha atendente habitual.
Claramente o dia de hoje é um dia perdido, sem alguém para conversar, sem bons assuntos para refletir sobre, sem Maggie, sem Lucas, sem graça.
27 de setembro, 1942
São nove da manhã quando acordo assustado com Nick agoniado, me balançando de um lado ao outro pelos ombros. Eu durmo na cama de cima do beliche, então se ele teve de subir até aqui para me acordar já motivo suficiente para eu acordar ainda mais alarmado.
A casa poderia estar pegando fogo, o prédio poderia estar desabando ou até mesmo um ataque de algum exército inimigo poderia estar em curso quando eu acordo e minha primeira reação é gritar e me sentar na cama, quase batendo minha cabeça no rosto de Nick que se espanta com minha reação.
"Harry, calma." Ele vê meu peitoral e ombro subindo e descendo apressados enquanto eu respiro nervoso, tentando absorver que não, o quarto não está em chamas.
"Calma, Harry, respire..." Nick coloca suas mãos sobre meus ombros e olha em meus olhos. "Desculpa, você tem um sono pesado e tem dez minutos que eu te chamo."
"Hum... Certo." Respiro fundo. Esfrego meus olhos e coço minha cabeça. Ainda perdido e com o coração acelerado, olho para Nick. "O que aconteceu?"
"Nada, só que o rapaz da recepção veio aqui avisar que tem uma ligação para você." Ele puxa um pedacinho de papel que estava ao meu lado. "Ai como você não estava acordando por nada, ele anotou o número e deixou comigo pra eu te entregar assim que você desse sinal." Ele mostra o papel e o coloca sobre meu colo. "Se recomponha e retorne a ligação."
Engulo seco. "Certo. Obrigado."
Ele desce de minha cama e eu respiro fundo, caindo para trás no mesmo momento em que a tensão inicial sai de meu corpo.
~
O corredor do meu dormitório está estranhamente vazio demais quando comparado aos demais domingos onde os alunos resolvem o transformar em um campo ou em um salão de festas.
Desço as escadas pulando os degraus em duplas até chegar ao salão comunal que, ao contrário de meu corredor, estava cheio de alunos vagando de um lado ao outro.
As cabines telefônicas ficam ao lado da pequena recepção, quase escondidas. Entro em uma delas, a única vazia, e me sento no banco antes de fechar a porta. O papel está em meu bolso da frente, junto com as moedas que uso para pagar o valor da ligação.
Disco o número, ouvindo os sons da chamada que tocam apenas duas vezes antes de ser atendido e a voz de Maggie do outro lado toma meus ouvidos.
"Harry?" Ela soa esperançosa.
"Eu mesmo!" Respondo animado, sua voz era como música para meus ouvidos.
"Oh meu deus Harry, venha me resgatar desta selva de pedras!" Ela fala dramaticamente.
"Onde está?" Soo preocupado, onde diabos ela estava enfiada?
"Na cafeteria, mas não sei andar por esta cidade e preciso comprar um vestido."
"Você está no La Parole?"
"Isso. Por favor, venha me socorrer."
Era quase cômica a forma como ela me implorava, como se estivesse me pedindo algo que beirasse o impossível, quando na verdade eu estava rezando para que algo do tipo viesse me resgatar do tédio infinito no qual eu estava mergulhado há dias.
"Certo, certo. Deixe apenas eu ir buscar minha carteira em meu apartamento e em meia hora estarei aí."
"Harry, você não sabe o quanto eu te amo agora."
"Ok, não vamos por esse caminho." Ela ri do outro lado da linha.
"Tudo bem. Estou te esperando." E desliga.
Coloco o telefone de volta no gancho e por algum motivo divino começo a gargalhar sozinho, gargalho tanto ao ponto de ficar sem ar e das pessoas me olharem estranho como se eu estivesse no meio do processo de um surto psicótico.
Talvez eu estivesse vivendo perto demais da beira de um precipício mental de onde eu cairia a qualquer segundo e aquilo, por algum motivo, é hilário.
Há vinte minutos acordei acreditando que estava sob ataque de tropas inimigas e agora estou em meu caminho para o que seria um adorável passeio com minha melhor amiga, mas minha mente age como se eu estivesse reagindo à um ataque de cocegas.
Me arrasto para fora da cabine e sigo meu caminho, o mesmo que faço todas as manhãs sem exceções, até a cafeteria onde estava sendo aguardado pela mais bela moça de Cambridge, Massachusetts.
~
Maggie está sentada em um banco da praça, paralelo à entrada da cafeteria. Ela observa os pássaros no chão que voam assustados dos pedestres e ri quando vê que um dos pássaros é corajoso o suficiente para voar para cima de duas amigas que passeavam tranquilamente até serem atacadas e terem que correr desesperadamente das aves.
"Você não estaria rindo tanto assim se fosse você." Falo assim que paro atrás do banco, ela pula assustada, mas ri anda mais ao ver que sou eu.
"Oh Harry, você não sabe como é hilário passar duas horas observando pessoas guerrilharem com pássaros." Ela ria alto, gargalhando tanto que chegou a soluçar. "E perderem miseravelmente para eles." Ela pega meu braço e me puxa para a frente do banco e então me faz sentar a seu lado.
Maggie está vestida como uma digna estrela, a roupa rosa claro com a saia longa cobrindo todas suas pernas, a blusa de gola alta bem ajustada ao seu corpo, por um longo sobretudo bege e a cereja no bolo eram seus óculos escuros que lhe cobriam os olhos e o batom vermelho que ajudava a moldar seus lábios emoldurados pelo lindo rosto que tinha.
Ela demora para se recuperar de seus risos e leva ainda mais tempo para superar os soluços.
"Você está muito bonita, Maggie." Ela me olha seriamente assim que as palavras deixam minha boca, suas bochechas corando de imediato.
"Você é gentil, Harry." Aperta minhas mãos.
"E principalmente honesto." Ela sorri para mim.
Quando Maggie sorri é como se uma estrela estivesse nascendo no céu, como o surgimento de um segundo sol, mas um sol que não machuca os olhos quando se olha diretamente para ele, um sol que traz um calor aconchegante como aconchego de mãe.
Eu não sei com quanta frequência ela costumava ouvir elogios que não quisessem mais do que lhe deixar feliz e eu amava como toda aquela fachada de estrela dos palcos sumia de seu semblante e dava lugar a uma garota delicada que simplesmente amava ser vista – digo, realmente vista, não apenas olhada.
"Hum." Ela coça a garganta. "Bem, não lhe chamei aqui para ficar observando minha beleza, sim?" Levanta, desamassando sua saia, e se recompõe. "Preciso que me guie por esta cidade que mais parece um maldito labirinto."
"Não é tão complicado assim."
"Fale por você, esta cidade é o maldito labirinto do Minotauro."
"Certo." Suspiro, sem quaisquer argumentos. "Do que precisa, madame?"
"De um vestido, talvez dois, e algumas bijuterias. Tenho mais uma audição na próxima semana e quero estar arrumada."
"Mais arrumada? Maggie, não tem um dia em que você não esteja parecendo que acabou de sair de um livro da Agatha Christie."
"Até mesmo quando estou trabalhando?"
"Principalmente quando está trabalhando. Você parece a serviçal francesa de passado obscuro que envenenou a família toda sem que ninguém percebesse." Maggie ri e empurra meu ombro.
"Harry, você imagina coisas demais, querido." Ela toma meu braço no seu. Suspirando ela diz "Mal posso esperar para acharem que somos um casal montando nossa casa onde criaremos nossos cento e trinta filhos."
"Oh, querida... como eu queria que isso fosse verdade, mas você sabe que meu nome já é de outra."
[e aí beberes? esse foi mais um capítulo de ethereal, eu sei que as atts demoram, mas saibam que vai valer a pena. eu jurooooooooo. enfim, amo vocês, não me abandonem e POR FAVOOOOR me ajudem a divulgar esse meu nenem que eu amo tanto]
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